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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n1/artensai.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="4"><b>MODA: UMA APAIXONANTE HIST&Oacute;RIA DAS FORMAS</b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Patricia Sant'Anna</b></i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i>"A moda &eacute; um todo harmonioso e mais ou menos    indissol&uacute;vel. Serve &agrave; estrutura social, acentuando a divis&atilde;o    em classe; reconcilia o conflito entre o impulso individualizador de cada um    de n&oacute;s e o socializador; exprime id&eacute;ias e sentimentos, pois &eacute;    uma linguagem que se traduz em termos art&iacute;sticos."</i></font></P>     <p align="right"><font size="3">Gilda de Mello e Souza</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Definir a moda, do ponto de vista da ci&ecirc;ncia e da cultura,    implica em contextualizar um fen&ocirc;meno social que possui uma faceta ligada    &agrave; est&eacute;tica do cotidiano, que d&aacute; acesso, nas palavras de    Alexandre Eul&aacute;lio, a "uma apaixonante hist&oacute;ria das formas"    (1). De modo geral, Gilda de Mello e Souza aponta a moda como algo que "abrange    as transforma&ccedil;&otilde;es peri&oacute;dicas efetuadas nos diversos setores    da vida social, pol&iacute;tica, na religi&atilde;o, na ci&ecirc;ncia, na est&eacute;tica"    (1) e que tem seu caso exemplar nas mudan&ccedil;as regradas dos estilos de    vestu&aacute;rio e ornamenta&ccedil;&atilde;o.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A vestimenta &eacute; definida comumente como prote&ccedil;&atilde;o    que o homem criou contra as intemp&eacute;ries. Esse pode ser o motivo pelo    qual a humanidade veio a cobrir&#45;se pela primeira vez, por&eacute;m, o ato de    cobrir o corpo &#151; seja com pele animal ou tecidos r&uacute;sticos &#151; tornou&#45;se    um fator de diferencia&ccedil;&atilde;o sociocultural.&nbsp;O ato de vestir&#45;se    vai al&eacute;m do ato simples e mec&acirc;nico de prote&ccedil;&atilde;o do    corpo, o ser humano veste e adorna sua corporalidade com s&iacute;mbolos que    ele sabe que os outros de sua sociedade saber&atilde;o ler. Ele <I>escolhe</I>    o que vestir. &Eacute; uma sele&ccedil;&atilde;o da imagem da pessoa como ser    social, conformando uma constru&ccedil;&atilde;o visual frente &agrave; sociedade,    pois fala aos iguais, aos que pertencem ao mesmo grupo e suas diferen&ccedil;as    frente aos outros.&nbsp;O vestu&aacute;rio pode comunicar a respeito de diferentes    assuntos culturais, desde a religiosidade at&eacute; padr&otilde;es de beleza,    passando por preceitos morais, tradi&ccedil;&otilde;es, distin&ccedil;&otilde;es    de g&ecirc;nero, o que possibilita uma gama infinita de leituras.</font></P>     <p><font size="3">Nas sociedades complexas essa "segunda pele" &eacute;    escolhida e trocada constantemente. Isso porque a escolha no vocabul&aacute;rio    vestimentar ocidental &eacute; ampla, abrangente e male&aacute;vel, constru&iacute;da    a partir da id&eacute;ia de novidade. Esta &uacute;ltima impulsiona a produ&ccedil;&atilde;o    de um imenso espectro de op&ccedil;&otilde;es de pe&ccedil;as, que possam construir    composi&ccedil;&otilde;es, as quais suscitam interpreta&ccedil;&otilde;es das    mais diversas. O vestu&aacute;rio ocidental possui uma l&oacute;gica pr&oacute;pria    que &eacute; nomeada como <b>moda</b>. Para n&oacute;s, as roupas e seus ornamentos,    s&atilde;o importantes comunicadores de nossas cren&ccedil;as e ideais a respeito    do mundo. Pois, a partir da maneira que um indiv&iacute;duo manipula essa cultura    material, ele expressa o que deseja que a sociedade reconhe&ccedil;a nele, os    lugares que frequenta; a m&uacute;sica que ouve, enfim, seu comportamento. &Eacute;    uma linguagem que &#151; como em qualquer outra sociedade &#151; aloca&#45;o em uma posi&ccedil;&atilde;o    sociocultural. Trata&#45;se de uma mensagem para todo mundo, ao mesmo tempo em que    &eacute; uma mensagem particular do indiv&iacute;duo para a sociedade, sem esquecer    que &eacute; esta &uacute;ltima quem produz o instrumental pelo qual o primeiro    ir&aacute; falar. Por isso, a moda vai al&eacute;m do vestir, ela adentra no    universo de tecnologias da beleza, design de superf&iacute;cie, design de j&oacute;ias    e bijuterias, decora&ccedil;&atilde;o, gostos de consumo cultural etc. Para    defini&#45;la &eacute; necess&aacute;rio adentrar tanto em um mundo de cultura material    quanto de todos os aspectos imateriais que a envolvem, pois a moda n&atilde;o    &eacute; mero espelhamento da sociedade e da cultura; antes, faz parte desta,    construindo e constituindo&#45;a (2).</font></P>     <p><font size="3"><B>BREVE HIST&Oacute;RICO</b> No final da Idade M&eacute;dia    o cora&ccedil;&atilde;o da moda j&aacute; est&aacute; consolidado em meio &agrave;s    elites. A mudan&ccedil;a peri&oacute;dica na forma do vestir n&atilde;o &eacute;    regra em toda sociedade, mas se manifesta nos grupos sociais dominantes. Um    dado importante a se destacar &eacute; de que, no per&iacute;odo, tanto os homens    quanto as mulheres s&atilde;o igualmente ornamentados e competem visualmente    entre si.&nbsp;Havia diferencia&ccedil;&otilde;es na constru&ccedil;&atilde;o    da apar&ecirc;ncia de cada g&ecirc;nero, mas ambos eram ostensivamente elaborados    (3). A moda n&atilde;o possu&iacute;a um car&aacute;ter feminino, tal id&eacute;ia    come&ccedil;a a emergir somente com a consolida&ccedil;&atilde;o da burguesia    industrial. "O advento da burguesia e o prest&iacute;gio crescente da carreira    desviam o interesse masculino da moda, que passa a ser caracter&iacute;stica    do grupo feminino" (1). A partir do final do s&eacute;culo XVIII, a moda    se consolida como uma cadeia produtiva que impulsiona o consumo e que tem uma    alma capitalista. Por um lado, o vestu&aacute;rio feminino possu&iacute;a uma    incr&iacute;vel liberdade l&uacute;dica; por outro, os homens se compunham em    uma silhueta alongada e cil&iacute;ndrica, conclu&iacute;da no uso de cartola,    as cores eram econ&ocirc;micas, e a palheta masculina tem tons s&oacute;brios    e discretos. "Roupa funcional e liberdade de movimentos eram atributos    do vestu&aacute;rio masculino, enquanto a rigidez e a suntuosidade da roupa    feminina serviam antes de tudo para exprimir a riqueza do marido" (3).    </font></P>     <p><font size="3">Se hoje a moda &eacute; vinculada como fen&ocirc;meno cultural    intr&iacute;nseco ao feminino, essa caracteriza&ccedil;&atilde;o se inicia no    s&eacute;culo XIX. Como bem notou Charles Baudelaire, naquele per&iacute;odo,    a pr&oacute;pria id&eacute;ia de mulher mistura&#45;se ao de seu traje: "que    poeta ousaria, na pintura do prazer causado pela apari&ccedil;&atilde;o de uma    mulher, separar a mulher de sua indument&aacute;ria?" (4). Nessa &eacute;poca,    a liberdade individual torna&#45;se "modo de vida", ou seja, existe uma    ideologia e uma pr&aacute;tica social que caminham em dire&ccedil;&atilde;o    &agrave; queda das leis discriminat&oacute;rias com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s    classes, tornando todos potencialmente consumidores.&nbsp;Nesse cen&aacute;rio,    homens burgueses s&atilde;o demasiadamente ocupados em ganhar dinheiro, enquanto    suas mulheres preocupam&#45;se com o vestir. Esses dois posicionamentos, que nos    parecem antag&ocirc;nicos, s&atilde;o, no entanto, dois lados da mesma moeda:    o vestu&aacute;rio feminino significa <I>status</I> para ambos. Al&eacute;m    desta primeira, h&aacute; ainda a correla&ccedil;&atilde;o que efetuamos no    &acirc;mbito profissional, pois o fabrico dos produtos de moda tamb&eacute;m    &eacute; compreendido como um l&oacute;cus feminino. Consequentemente, a moda    &eacute; vinculada ao universo feminino seja por lembrarmos "da dama da    sociedade, da funcion&aacute;ria do escrit&oacute;rio, da dona de casa, da tecel&atilde;    e da costureira. Das que chegam pela entrada principal ou pela porta de servi&ccedil;o,    com fortunas a gastar ou economias a fazer" (5). </font></P>     <p><font size="3"><B>IND&Uacute;STRIA</b> A moda &eacute; conectada, historicamente,    ao universo industrial. A pr&oacute;pria Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial    &eacute; profundamente ligada &agrave; moda, pois foi a partir das m&aacute;quinas    de tecelagem e das conquistas t&eacute;cnicas ligadas ao desenvolvimento de    todo o processo produtivo que ela se estabeleceu e desenhou a vida urbana moderna,    com sua intensa concentra&ccedil;&atilde;o de pessoas (multid&atilde;o) e, mesmo    novas t&eacute;cnicas de vendas (os <I>grands magazins</I>). A moda &eacute;    um fen&ocirc;meno cultural que, como a fotografia e o cinema, pertence ao ambiente    urbano da modernidade (2).</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n1/a20img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Ao longo do s&eacute;culo XX, a moda se consolida como n&oacute;s    a conhecemos: uma cadeia industrial com alma capitalista. Seus produtos exigem    dos indiv&iacute;duos sentirem e demonstrarem visualmente suas identifica&ccedil;&otilde;es    com grupos. Estes possuem seus pr&oacute;prios signos de <I>status</I>, beleza,    atitudes e posturas frente &agrave; sociedade. A moda explora e investe na forma&ccedil;&atilde;o    de grupos consumidores. Ela produz e vende identidades pr&eacute;&#45;fabricadas.    A moda aponta <I>status</I>, por&eacute;m, este, nas sociedades complexas, n&atilde;o    &eacute; t&atilde;o facilmente detect&aacute;vel afinal, cada um pode manipular    a sua coordenada de consumo, participando do jogo de escolhas e ostenta&ccedil;&atilde;o    ao seu modo (e possibilidade) de demonstrar valores aos seus pares. Como demonstra    Sahlins, a moda alimenta tanto o sistema capitalista quanto a sua estrutura    simb&oacute;lica: "em sua dimens&atilde;o econ&ocirc;mica, esse projeto    (...) consiste na reprodu&ccedil;&atilde;o da sociedade num sistema de objetos    n&atilde;o simplesmente &uacute;teis, mas significativos, cuja utilidade realmente    consiste em uma significa&ccedil;&atilde;o (...) <b>mera apar&ecirc;ncia</b>    deve ser uma das mais importantes formas de manifesta&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica    na civiliza&ccedil;&atilde;o ocidental. Porque &eacute; atrav&eacute;s de apar&ecirc;ncias    que a civiliza&ccedil;&atilde;o transforma a contradi&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica    de sua constru&ccedil;&atilde;o num milagre de exist&ecirc;ncia: uma coesa sociedade    de estranhos" (6). Trata&#45;se de uma experi&ecirc;ncia social em que &eacute;    necess&aacute;rio compreender tanto a rela&ccedil;&atilde;o entre moda e vestu&aacute;rio    quanto o processo hist&oacute;rico no qual ela se formou no mundo capitalista.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n1/a20img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><B>MODA E APAR&Ecirc;NCIA </b>O foco ocidental na individualidade    exige liberdade de express&atilde;o, e revela a tens&atilde;o do ato de vestir&#45;se:    ser individual X ser social.&nbsp; &Eacute; uma associa&ccedil;&atilde;o intencional    de elementos que, segundo Simmel (7) conjuga, portanto, a id&eacute;ia de uniformidade    e pertencimento. Trata&#45;se de uma linguagem que est&aacute; intrinsecamente ligada    &agrave; id&eacute;ia de uma sociedade organizada em grupos. As pessoas manipulam    "idiomas" diversos e espec&iacute;ficos do c&oacute;digo do vestu&aacute;rio    e, ao elaborar sua pr&oacute;pria apar&ecirc;ncia, esta &eacute; reconhecida    pelos v&aacute;rios grupos em que transita. A "rotula&ccedil;&atilde;o"    faz&#45;se necess&aacute;ria para se ler os passantes, por&eacute;m, esta &eacute;    fal&iacute;vel. Deste modo, as pessoas podem ser, em um primeiro momento, classificadas    e definidas de uma maneira e serem para al&eacute;m delas, j&aacute; que a identidade    "&eacute; produto de um processo que envolve respostas de outras pessoas    ao comportamento" (8). A apar&ecirc;ncia que a moda constr&oacute;i &eacute;    feita para residir nos olhos dos outros.</font></P>     <p><font size="3">Nota&#45;se que &eacute; fundamental atentarmos para a moda como    espa&ccedil;o expressivo poderoso, j&aacute; que h&aacute; uma potencialidade    sociocultural e po&eacute;tica nos vestu&aacute;rios que as pessoas ostentam    (9). Ao nos vestirmos revelamos um mapa dos significados contempor&acirc;neos,    tanto de nossos processos de constru&ccedil;&atilde;o de identidade quanto de    compreens&atilde;o de como os indiv&iacute;duos interagem conosco socialmente    atrav&eacute;s das apar&ecirc;ncias.&nbsp;A escolha de vestes indica <b>o que,    onde</b> (no sentido temporal e local da palavra), <b>quem</b> e, at&eacute;    mesmo <b>como</b> a pessoa vestida coloca&#45;se frente &agrave; sociedade, aos    grupos com os quais interage e a si mesma. Como bem demonstra Sahlins, o sistema    de vestu&aacute;rio &eacute; um "esquema muito complexo de categorias culturais    e de rela&ccedil;&otilde;es entre elas, um verdadeiro mapa &#151; n&atilde;o &eacute;    exagero dizer &#151; do universo cultural" (6).</font></P>     <p><font size="3">A moda &eacute; uma linguagem baseada em um c&oacute;digo simb&oacute;lico    aberto, onde o significado &eacute; dado, em princ&iacute;pio, pelos produtores    (estilistas, ind&uacute;stria de moda, jornalismo especializado), mas onde os    consumidores possuem uma enorme possibilidade de remanejamento e rearticula&ccedil;&atilde;o    do s&iacute;mbolo, ressemantizando&#45;o constantemente. &Eacute; ing&ecirc;nuo    pensar que a demanda &eacute; estabelecida a partir da oferta, e que o simples    movimento de invers&atilde;o dessa equa&ccedil;&atilde;o dar&#45;nos&#45;ia a resposta    "certa". A moda n&atilde;o &eacute; simplesmente imposta, o que ocorre    &eacute; uma din&acirc;mica entre produtor&#45;produto&#45;consumidor. </font></P>     <p><font size="3">A cria&ccedil;&atilde;o cotidiana que cada um faz ao escolher    quais pe&ccedil;as de roupa ir&aacute; usar &eacute;, tamb&eacute;m, parte da    id&eacute;ia de "criar" em moda. J&aacute; que se trata de dar uma    nova composi&ccedil;&atilde;o (cor, textura, caimento e forma) aos elementos    j&aacute; pr&eacute;&#45;existentes em nosso guarda&#45;roupa. Por&eacute;m, se deve    faz&ecirc;&#45;lo de maneira que seja compreens&iacute;vel &agrave;queles com os    quais desejamos nos comunicar. Enfim, nos vestimos para os nossos pares. Da&iacute;,    uma das maiores aventuras e enfrentamento cr&iacute;tico que podemos sofrer    s&atilde;o nossos di&aacute;rios confrontos com o espelho. Pois o que vemos    na superf&iacute;cie v&iacute;trea n&atilde;o &eacute; nosso mero reflexo, mas    um estranho, o qual se examina com escrut&iacute;nio. Nesse ponto, percebemos    que a id&eacute;ia de que a moda &eacute; antag&ocirc;nica &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o    &eacute; um equ&iacute;voco, pois ela lida, o tempo todo, com o repert&oacute;rio    precedente de seu receptor, isto &eacute;, com sua mem&oacute;ria. A moda, enquanto    territ&oacute;rio da id&eacute;ia de novidade, n&atilde;o se contrap&otilde;e    aos costumes e &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o, o que cria uma din&acirc;mica    comum a qualquer outra manifesta&ccedil;&atilde;o cultural, j&aacute; que ela    manipula aspectos sincr&ocirc;nicos e diacr&ocirc;nicos de sua exist&ecirc;ncia.    Costumes e tradi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o elabora&ccedil;&otilde;es culturais    que se modificam, e o fazem a partir da participa&ccedil;&atilde;o social. Dessa    maneira, a moda &eacute; um tipo de manifesta&ccedil;&atilde;o cultural que    tamb&eacute;m passa por eventos de atualiza&ccedil;&atilde;o e efetiva&ccedil;&atilde;o    e seus preceitos regem a forma sens&iacute;vel da vida cotidiana.</font></P>     <p><font size="3">As mudan&ccedil;as e caracter&iacute;sticas da moda nos apontam    para transforma&ccedil;&otilde;es mais vastas e complexas ligadas ao modo de    ser, sentir e pensar de uma sociedade, ela nos d&aacute; acesso a como, por    exemplo, influ&ecirc;ncias advindas do exterior s&atilde;o consumidas, apropriadas    e ressemantizadas no interior de nosso pa&iacute;s, n&atilde;o sendo assim uma    simples contamina&ccedil;&atilde;o, mas um leg&iacute;timo di&aacute;logo. Outro    importante ponto de caracteriza&ccedil;&atilde;o da moda &eacute; que &eacute;    um fen&ocirc;meno que est&aacute; imerso na id&eacute;ia de arte da era industrial,    j&aacute; que sua concep&ccedil;&atilde;o nasce de uma cria&ccedil;&atilde;o    que leva em conta a repeti&ccedil;&atilde;o, a publicidade e o consumo. Por&eacute;m,    como qualquer artista, o estilista &#151; ou designer de moda &#151; procura uma forma    visual. Da mesma maneira como Focillon (10) atenta sobre a pr&aacute;tica dos    pintores e escultores e sua busca pela forma, como medida no espa&ccedil;o,    que resolva o problema pl&aacute;stico enfrentado, o criador de moda busca harmonizar    fatores como caimento do tecido, textura, cor e design de superf&iacute;cie,    para descobrir qual &eacute; a "melhor forma", seguindo os valores    est&eacute;ticos vigentes no momento.</font></P>     <p><font size="3"><B>CEN&Aacute;RIO DE PESQUISAS </b>As pesquisas sobre moda podem    partir de diversos pontos, da hist&oacute;ria da arte e antropologia at&eacute;    o universo da engenharia t&ecirc;xtil e de produto. No entanto, h&aacute; algo    em comum a todas: a consci&ecirc;ncia de que se trata de um fen&ocirc;meno sociocultural.    Fen&ocirc;meno no qual todos est&atilde;o imersos, e que suscita reflex&otilde;es,    questionamentos e pesquisas desde o s&eacute;culo XIX. C&eacute;lebres autores    dedicaram&#45;se aos estudos de moda, dentre eles: Oscar Wilde, Charles Baudelaire,    Honor&eacute; de Balzac, Thornstein Veblen, John C. Fl&uuml;gel, Georg Simmel,    Gabriel de Tarde, Edward Sapir, Ruth Benedict, Roland Barthes, C. Willet Cunnington,    Richard Martin, James Laver, Pierre Bourdieu, Mike Featherstone, Germano Cellant,    entre outros.&nbsp; E, no Brasil, destacamos os escritos e pesquisas de Gilberto    Freyre, Alexandre Eul&aacute;lio e Gilda de Mello e Souza. Nos anos 1990, no    Brasil, iniciou&#45;se um verdadeiro <I>boom</I> de pesquisas dedicadas ao universo    da moda, com foco desde aspectos art&iacute;sticos e socioculturais (psicol&oacute;gicos,    antropol&oacute;gicos, sociol&oacute;gicos, hist&oacute;ricos, estudos de design,    art&iacute;sticos, est&eacute;ticos) at&eacute; as engenharias (qu&iacute;micas,    t&ecirc;xtil e de produ&ccedil;&atilde;o). A produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica    brasileira &eacute; t&atilde;o substancial que no I Congresso Internacional    de Moda, ocorrido em Madri, Espanha, de 22 a 24 de outubro de 2008, das 32 comunica&ccedil;&otilde;es    selecionadas e proferidas, 14 eram de brasileiros que possuem pesquisas em andamento    tratando de diferentes aspectos da moda, suplantando a representa&ccedil;&atilde;o    de outras nacionalidades em larga escala (11).</font></P>     <p><font size="3"><B>APONTAMENTOS FINAIS </b>Em um universo cultural onde comprar,    consumir e adquirir s&atilde;o a&ccedil;&otilde;es de relev&acirc;ncia, a moda    &eacute; um dos mais importantes fen&ocirc;menos socioculturais a ser tratado    tanto pela comunidade acad&ecirc;mica quanto por pol&iacute;ticas p&uacute;blicas.    Em especial, porque nos d&aacute; acesso &agrave; diversidade cultural brasileira,    e dialoga com valores culturais locais, nacionais e internacionais. &Eacute;    uma manifesta&ccedil;&atilde;o que transita do popular ao erudito, do artesanal    ao industrial, do material ao imaterial, &eacute;, assim, um meio de express&atilde;o    cultural, pois a moda joga cotidianamente com complexas formas e valores culturais,    que s&atilde;o constru&iacute;dos de am&aacute;lgamas que fundem, a um s&oacute;    tempo, elementos dos mais regionais e enraizados em quest&otilde;es identit&aacute;rias    locais, aos mais internacionais e mesmo pasteurizados (12). Trata&#45;se, portanto,    de uma manifesta&ccedil;&atilde;o cultural que tem potencialidades m&uacute;ltiplas    no que se refere a uma gera&ccedil;&atilde;o de uma integra&ccedil;&atilde;o    socioecon&ocirc;mica de todo o pa&iacute;s, levando em considera&ccedil;&atilde;o    a dial&eacute;tica da diversidade/identidade como motor de s&iacute;nteses simb&oacute;licas    e est&eacute;ticas que orientam, fomentam e criam as sensibilidades culturais    brasileiras.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><I><b>Patricia Sant'Anna</b> &eacute; antrop&oacute;loga e historiadora    da moda, doutoranda em hist&oacute;ria da arte no Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias    Humanas(IFCH) da Unicamp. &Eacute; docente na Universidade Anhembi Morumbi.    Email: <a href="mailto:patsant@gmail.com">patsant@gmail.com</a></i>&nbsp;</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Souza, G. de M. e. <I>O esp&iacute;rito das roupas. A moda    no s&eacute;culo XIX. </I>S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1987.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Sant'Anna, P. "O desfile de imagens: um estudo sobre    a linguagem visual das revistas de moda (1990&#45;2000)". Campinas: disserta&ccedil;&atilde;o    de mestrado em Antropologia Social, IFCH, Unicamp, 2002.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Lipovetsky, G. <I>O imp&eacute;rio do ef&ecirc;mero: a moda    e seu destino nas sociedades modernas</I>.&nbsp; S&atilde;o Paulo: Companhia    das Letras, 1989.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">4. Baudelaire, C. <I>Sobre a modernidade</I>. Rio de Janeiro:    Paz e Terra, 1996.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Duran, J. C. <I>Moda, luxo e economia.</I> S&atilde;o Paulo:    Babel Cultural, 1988.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6. Sahlins, M. "La pens&eacute;e bourgeoise &#150; a sociedade    ocidental enquanto cultura". <I>In</I>: <I>Cultura e raz&atilde;o pr&aacute;tica.    </I>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">7. Simmel, G. <I>Cultura femenina y otros ensayos</I>. Ciudad    del M&eacute;xico: Espasa Calpe, 1961.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">8. Becker, H. S. <I>Uma teoria da a&ccedil;&atilde;o coletiva.    </I>Rio de Janeiro: Zahar, 1971.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">9. Celant, G. "Cortar &eacute; pensar: arte &amp; moda".    <I>In</I>: <I>Kant, cr&iacute;tica e est&eacute;tica na modernidade.</I> S&atilde;o    Paulo: Editora Senac, 1999.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">10. Focillon, H. <I>A vida das formas.</I> Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es    70, s/d.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">11. Museu Del Traje/Centro de Investigaci&oacute;n Del Patrim&oacute;nio    Etnol&oacute;gico. <I>Actas CIM &#150; Congreso Internacional de Moda: La moda, un    espacio de innovacion y cultura.</I> Madrid: Museo Del Traje, 2008.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">12. Sant'Anna, P. <I>Diagn&oacute;stico do segmento cultural    de moda &#150; plano nacional de cultura. </I>Bras&iacute;lia: Minist&eacute;rio    da Cultura, 2006.</font> ]]></body><back>
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