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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>ARTE DOS VIAJANTES</b></font></P>     <P><font size="3"><b>E<small>XPOSI&Ccedil;&Otilde;ES SOBRE</small> V<small>ANDELLI    MOSTRAM A NATUREZA EM GABINETE</small></b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">O ano de 2008 foi marcado por duas exposi&ccedil;&otilde;es,    bastante distintas, em torno do naturalista italiano Vandelli, que viveu em    Portugal no final do s&eacute;culo XVIII: <I>O gabinete de curiosidades de Domenico    Vandelli</I>, no Museu do Meio Ambiente no Jardim Bot&acirc;nico do Rio de Janeiro,    de julho a outubro de 2008; e o <I>Gabinete transnatural de Domingos Vandelli</I>,    no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que abriu    &agrave; visita&ccedil;&atilde;o em outubro de 2008 e permanece at&eacute; janeiro    deste ano. Mas quem imaginou encontrar apenas animais empalhados, objetos pessoais    do naturalista e documentos hist&oacute;ricos das expedi&ccedil;&otilde;es &#150;    que tradicionalmente comp&otilde;em as exposi&ccedil;&otilde;es desse tipo &#150;    teve uma grata surpresa. A invas&atilde;o da arte, dos artistas e de suas obras    na concep&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o museogr&aacute;fica conferiu    tons e texturas diferenciados &agrave;s propostas. </font></P>     <p><font size="3"><B>GABINETE PARA CURIOSOS </b>Vandelli &eacute; considerado    um ilustre personagem da hist&oacute;ria natural. Respons&aacute;vel pela cria&ccedil;&atilde;o    do Jardim Bot&acirc;nico e do Museu de Hist&oacute;ria Natural de Coimbra, o    naturalista influenciou o rei D. Jo&atilde;o VI a criar um jardim bot&acirc;nico    no Brasil. Anna Paula Martins, curadora da exposi&ccedil;&atilde;o no Jardim    Bot&acirc;nico, patrocinada pela Finep, conta que sua inten&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o foi de reproduzir um gabinete de curiosidades, mas de criar "um    gabinete para curiosos", gerando sensa&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave;    pr&oacute;pria hist&oacute;ria natural e &agrave;s escolhas que orientam a produ&ccedil;&atilde;o    de conhecimento cient&iacute;fico. <I>Gabinete de curiosidades</I> &eacute;    fruto de oito anos de pesquisa de Anna Martins sobre o naturalista. Do exaustivo    levantamento de documentos, hist&oacute;rias, imagens, id&eacute;ias, conceitos    emerge uma particularidade de Vandelli: foi o principal articulador do projeto    das viagens filos&oacute;ficas e, como seu mestre Carlos Lineu, respons&aacute;vel    por escrever as orienta&ccedil;&otilde;es &#150; regras, condutas que deviam ser    seguidas pelos viajantes &#150; para observa&ccedil;&atilde;o e registro tanto de    plantas e animais, como dos modos de vida dos povos colonizados. </font></P>     <p><font size="3">O qu&ecirc;, como e quando observar e registrar? O que acontece    &agrave; natureza e &agrave;s culturas quando passam &agrave;s cartas, ilustra&ccedil;&otilde;es,    relatos e mem&oacute;rias dos viajantes? As a&ccedil;&otilde;es de observar,    registrar, definir, catalogar, colecionar, conservar e refletir, foram intensamente    exploradas por Anna Martins e multiplicadas pelas propostas dos artistas que    participaram da cria&ccedil;&atilde;o de instala&ccedil;&otilde;es, v&iacute;deos,    ilumina&ccedil;&atilde;o, designer e trilha sonora. "O livro foi a espinha    dorsal da proposta, inspirado no pr&oacute;prio Vandelli que dizia que 'um museu    &eacute; um livro sempre aberto no qual o observador se instrui com prazer'",    conta a curadora. O p&uacute;blico passeia por entre pain&eacute;is gigantes,    camadas, folhas, imagens, palavras, numa potente aposta de que o "livro    n&atilde;o &eacute; apenas para ser lido, mas sentido". </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n1/a23img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><B>EXPERI&Ecirc;NCIAS ENTRE VIDA E MORTE </b>Luiz Zerbini &#150;    artista carioca convidado por Anna Martins &#150; criou a "sala da morte".    Morte que ronda o trabalho dos viajantes, os objetos, registros e os museus    de hist&oacute;ria natural. Morte que tamb&eacute;m est&aacute; presente na    inquieta&ccedil;&atilde;o do artista, para quem a pintura morreu: "Acho    lindo que ela morra e n&atilde;o tenho inten&ccedil;&atilde;o de faz&ecirc;&#45;la    renascer... e n&atilde;o deixei de pensar nela em nenhum &uacute;nico instante".    Em crise com a pintura, tenta escapar &agrave; pol&iacute;tica da representa&ccedil;&atilde;o    da natureza que orienta fortemente as produ&ccedil;&otilde;es nas ci&ecirc;ncias    e nas artes, e faz o que chama de <I>Minha &uacute;ltima pintura</I>. Imaginou    montar mesas com vidrarias de laborat&oacute;rio e plantas. Em suas primeiras    tentativas colheu do Jardim Bot&acirc;nico &#150; que conhece desde crian&ccedil;a    e frequenta sempre, pois mora ao lado &#150; v&aacute;rias esp&eacute;cimes e tentou,    sem sucesso, preservar cores, brilhos e texturas nos tubos de ensaio. Foi a    um camel&ocirc; e comprou v&aacute;rias plantas de pl&aacute;stico. Levou&#45;as    at&eacute; o Jardim Bot&acirc;nico e, observando os esp&eacute;cimes no jardim,    pintou as plantas de pl&aacute;stico. Nos tubos de ensaio expostos em duas estantes,    as plantas de Zerbini inquietam por gerarem uma sensa&ccedil;&atilde;o de morte    e vida, ao mesmo tempo. N&atilde;o se percebe facilmente que s&atilde;o de pl&aacute;stico,    tamb&eacute;m n&atilde;o se identifica marcas de deteriora&ccedil;&atilde;o,    de passagem do tempo, comuns em plantas conservadas. Na instala&ccedil;&atilde;o    est&atilde;o, tamb&eacute;m, ossos que o artista j&aacute; utiliza em suas obras,    vest&iacute;gios de sua produ&ccedil;&atilde;o, pinc&eacute;is e tintas, uma    tela met&aacute;lica gigantesca &#150; que se chama <I>Observa&ccedil;&atilde;o e    reflex&atilde;o</I> &#150; feita do mesmo material usado para fazer gravuras das    plantas e uma exsicata gigante de uma vit&oacute;ria&#45;r&eacute;gia.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><B>AMBIENTE VIVO </b>No outro extremo da exposi&ccedil;&atilde;o    est&aacute; a "Sala da vida": um jardim vertical, <I>Greenwall, </I>desenvolvido    pelo bot&acirc;nico Bruno Rezende a partir das tecnologias do bi&oacute;logo    australiano Mark Paul. Luminosidade ofuscante, de grande beleza e varia&ccedil;&otilde;es    de verde, que brotam da parede branca e d&atilde;o uma vida t&atilde;o intensa    &agrave; sala, que geram sensa&ccedil;&atilde;o de morte. "Foi isso que    os viajantes fizeram com os jardins. Eles queriam colocar a biodiversidade dentro    dos gabinetes", diz a curadora, lembrando que fauna e flora brasileiras    foram descritas de diversas maneiras pelos naturalistas que tamb&eacute;m levaram    exemplares de sementes, plantas e animais para a Real Academia de Lisboa. </font></P>     <p><font size="3">A impossibilidade de reproduzir e preservar &#150; que envolvem as    a&ccedil;&otilde;es dos naturalistas &#150; tamb&eacute;m foram exploradas nos v&iacute;deos    projetados nas reentr&acirc;ncias do fabuloso pr&eacute;dio do Museu do Meio    Ambiente: sons do Jardim Bot&acirc;nico, misturados a outros sons; imagens descont&iacute;nuas,    sobrepostas e fragmentadas; palavras imposs&iacute;veis de leitura; vozes que    dizem das mem&oacute;rias como narra&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas; dando    for&ccedil;a &agrave; id&eacute;ia das mem&oacute;rias como ilha de edi&ccedil;&atilde;o    e &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o como reinven&ccedil;&atilde;o, das pr&oacute;prias    no&ccedil;&otilde;es de mem&oacute;ria, tempo e conhecimento. "Quando trabalho    com um documento n&atilde;o consigo esquecer que estamos no s&eacute;culo XXI.    Por isso, a id&eacute;ia n&atilde;o &eacute; reproduzir o passado, mas reinvent&aacute;&#45;lo",    conclui Martins.</font></P>     <p><font size="3"><B>GABINETE TRANSNATURAL </b>Logo que a exposi&ccedil;&atilde;o    <I>Gabinete de curiosidades</I> foi encerrada, a exposi&ccedil;&atilde;o <I>Gabinete    transnatural</I> foi aberta, sob curadoria do portugu&ecirc;s Paulo Bernaschina.    Trata&#45;se da &uacute;ltima a&ccedil;&atilde;o de um circuito &#150; o <I>Transnatural</I>    &#150; iniciado em 2006 e pensado em torno de Vandelli, um importante personagem    na elabora&ccedil;&atilde;o de um imagin&aacute;rio dos museus de hist&oacute;ria    natural. O projeto, como descreve o texto da curadoria, "obedece a uma    l&oacute;gica naturalista que vai do mapeamento do mundo, de todos os seres    vivos e inanimados que o habitam, at&eacute; ao mapeamento do genoma humano".</font></P>     <p><font size="3">Na avalia&ccedil;&atilde;o de Thereza Baumann, chefe de museologia    e assessora de dire&ccedil;&atilde;o do Museu Nacional, a exposi&ccedil;&atilde;o    "&eacute; muito diferente do que o museu costuma expor e aposta numa conex&atilde;o    entre arte e ci&ecirc;ncia pouco comum, dando destaque &agrave;s interven&ccedil;&otilde;es    de artistas contempor&acirc;neos na hist&oacute;ria natural". A exposi&ccedil;&atilde;o    re&uacute;ne objetos, materiais, concep&ccedil;&otilde;es, questionamentos bastante    d&iacute;spares, como acontecia nos gabinete de curiosidades: animais taxidermizados,    documentos hist&oacute;ricos e a cole&ccedil;&atilde;o de exsicatas de Alexandre    Rodrigues Ferreira, que vieram de Coimbra, filmes, pinturas do jardim do &eacute;den,    quadros de monstros etc. Embora a concep&ccedil;&atilde;o da exposi&ccedil;&atilde;o    tenha sido feita em Portugal, parte do acervo do Museu Nacional &#150; como o enorme    elefante empalhado que abre a sala que se dedica &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es    entre Portugal e Angola &#150; integra a mostra. Entre os artistas que participam    da exposi&ccedil;&atilde;o est&atilde;o o portugu&ecirc;s Jo&atilde;o Tabarra,    com a obra <I>Confiss&atilde;o</I>, o brasileiro Nelson Leirner, que fez uma    interven&ccedil;&atilde;o sobre um enorme esqueleto de baleia, e a brasileira    Gabriela Albergaria, com a escultura <I>&Aacute;rvore</I>. Gabriela tem se dedicado    a potencializar em suas obras a natureza do ponto de vista da perda de refer&ecirc;ncia,    da prolifera&ccedil;&atilde;o de simulacros, da humaniza&ccedil;&atilde;o e    transforma&ccedil;&atilde;o. Uma natureza "feita sob medida".</font></P>     <p><font size="3">Thereza, que &eacute; muse&oacute;loga e fez doutorado em hist&oacute;ria    na Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que a exposi&ccedil;&atilde;o    <I>Gabinete transnatural</I> explora as mudan&ccedil;as da ci&ecirc;ncia do    s&eacute;culo XVI para o s&eacute;culo XVIII, trazendo na figura de Vandelli,    que era iluminista, um olhar diferenciado para a ci&ecirc;ncia. Na exposi&ccedil;&atilde;o    h&aacute; um grande painel com perguntas direcionadas ao pr&oacute;prio Vandelli,    em que se pede que ele responda oficialmente, inclusive. Entre elas: "Qual    o valor geol&oacute;gico da parede de um museu? Qual o valor cient&iacute;fico    de um passeio no jardim? Que interesses militares se fecham num herb&aacute;rio?    N&atilde;o sabe? N&atilde;o ouviu? Como ouvir os segredos acad&ecirc;micos?".    Provoca&ccedil;&otilde;es tanto para as ci&ecirc;ncias como para suas propostas    de divulga&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3"><B>SERVI&Ccedil;O </b>A pesquisa feita para a exposi&ccedil;&atilde;o    no Jardim Bot&acirc;nico do Rio de Janeiro resultou na produ&ccedil;&atilde;o    de uma caixa com 8 livros, 1 jogo de mem&oacute;ria e 16 cartazes, batizada    de "O gabinete de curiosidades de Domenico Vandelli", pela Editora    Dantes. O material in&eacute;dito inclui: <I>Dicion&aacute;rio dos termos t&eacute;cnicos    de hist&oacute;ria natural e mem&oacute;ria sobre a utilidade dos jardins bot&acirc;nicos</I>    de Domenico Vandelli (1788); <I>Disserta&ccedil;&atilde;o sobre as plantas do    Brasil que podem dar linhos</I> de Manuel Arruda C&acirc;mara (1810); <I>Experi&ecirc;ncias    aerost&aacute;ticas &#45; Gazeta de Lisboa Mem&oacute;ria sobre a m&aacute;quina    aerost&aacute;tica</I> de F&eacute;lix Ant&oacute;nio Castrioto (1784); <I>Mem&oacute;ria    sobre a reforma dos alambiques </I>de Jo&atilde;o Manso Pereira (1798); <I>Lembran&ccedil;a    de um tripulante a bordo da nau de guerra N. S. de Bel&eacute;m aos amigos curiosos</I>    de Frei Manuel da Madre de Deus (1777); <I>O feliz clima do Brasil</I> de Domingos    Alves Branco Muniz Barreto (1793); <I>Eu observo e descrevo</I> de Francisco    Antonio de Sampaio (1782&#45;1789); e o <I>ABC do gabinete</I>, um dicion&aacute;rio    de verbetes. A previs&atilde;o &eacute; que a exposi&ccedil;&atilde;o siga,    neste primeiro semestre, para o Norte e Nordeste do pa&iacute;s.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><i>Susana Dias</i></font></P>      ]]></body>

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