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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/brasil.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">L<SMALL>&Icirc;NGUA</small> P<SMALL>ORTUGUESA</small></font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v61n2/line_blk.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Embates e acordos na hist&oacute;ria das reformas ortogr&aacute;ficas</b></font></P>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Os leitores de jornais de grande circula&ccedil;&atilde;o e    das principais revistas semanais come&ccedil;aram o ano sentindo um certo estranhamento    ao ler palavras como estreia, ideia ou para, do verbo parar, sem o reconfortante    acento agudo. Perceberam, assim, que entrou em vigor a nova forma de grafar    uma pequena parcela das palavras que comp&otilde;em o imenso vocabul&aacute;rio    da l&iacute;ngua portuguesa. A imprensa aderiu depressa &agrave;s reformas,    mas o mesmo n&atilde;o deve acontecer no mercado editorial de livros, particularmente    em Portugal, onde as mudan&ccedil;as s&atilde;o ligeiramente maiores e h&aacute;    controv&eacute;rsia entre os escritores. Por&eacute;m, reformas como essa s&atilde;o    processos lentos, e o prazo para adequa&ccedil;&atilde;o ao acordo ortogr&aacute;fico    entre oito pa&iacute;ses de l&iacute;ngua portuguesa &#150; incluindo S&atilde;o    Tom&eacute; e Pr&iacute;ncipe, Guin&eacute;&#45;Bissau, Cabo Verde, Angola e Mo&ccedil;ambique,    na &Aacute;frica, e Timor Leste, na &Aacute;sia &#150; se estende at&eacute; 2012.</font></P>     <p><font size="3">Ser&atilde;o mais de duas d&eacute;cadas de travessia desde    que Ant&ocirc;nio Houaiss publicou <I>A nova ortografia da l&iacute;ngua portuguesa    </I>(&Aacute;tica, 1991)<I>. </I>Ali estavam as mudan&ccedil;as atuais, que    deveriam ter entrado em vigor em 1994. No entanto, a ratifica&ccedil;&atilde;o    do acordo s&oacute; aconteceu em 1996 e, ainda assim, apenas Portugal, Brasil    e Cabo Verde o assinaram. As mudan&ccedil;as, resultantes de um debate sobre    unifica&ccedil;&atilde;o ortogr&aacute;fica ocorrido em Lisboa, em 1990, eram    bem mais modestas que as propostas em encontro semelhante ocorrido no Rio de    Janeiro, em 1986. Esse projeto anterior, rejeitado por Portugal, propunha, entre    outras coisas, acabar com os acentos gr&aacute;ficos em todas as palavras parox&iacute;tonas    e proparox&iacute;tonas.</font></P>     <p><font size="3">Luiz Carlos Cagliari, da Faculdade de Ci&ecirc;ncias e Letras    da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara (SP), defende que n&atilde;o    precisar&iacute;amos de sinal gr&aacute;fico algum al&eacute;m das letras. Ele    lembra que no ingl&ecirc;s n&atilde;o h&aacute; acentua&ccedil;&atilde;o e que    isso n&atilde;o gera problema para os usu&aacute;rios da l&iacute;ngua. Cagliari    acredita que o uso de acento gr&aacute;fico em portugu&ecirc;s gera confus&atilde;o,    mas explica a sua origem e por que as mudan&ccedil;as na escrita da l&iacute;ngua    j&aacute; realizadas ao longo da hist&oacute;ria nunca contemplaram uma queda    ampla e irrestrita da acentua&ccedil;&atilde;o. "O uso das marcas de acento    do portugu&ecirc;s vieram da id&eacute;ia das <I>matres lectionis</I> usadas    pela escrita sem&iacute;tica (do &aacute;rabe e do hebraico) para representar    a qualidade de certas vogais (distin&ccedil;&atilde;o entre &ecirc;/&eacute;,    &ocirc;/&oacute;), porque o alfabeto latino n&atilde;o tinha letras diferentes    para esses sons. As reformas ortogr&aacute;ficas nunca tiraram o acento gr&aacute;fico    da escrita porque os reformadores acham que alguns elementos tradicionais precisam    ser mantidos. Houaiss gostaria de tirar os acentos, mas preferiu seguir as tradi&ccedil;&otilde;es,    neste particular", acrescenta o pesquisador da Unesp.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>PRIMEIRA REFORMA EM 1911</b> A primeira mudan&ccedil;a oficial    na escrita da l&iacute;ngua portuguesa, implantada em setembro de 1911, um ano    ap&oacute;s Portugal se tornar uma rep&uacute;blica, come&ccedil;ou a ser gestada    bem antes. "Em 1904, Gon&ccedil;alves Viana, foneticista, fil&oacute;logo    e lexic&oacute;logo portugu&ecirc;s, apresentou, em um volume intitulado <I>Ortografia    nacional,</I> uma proposta de simplifica&ccedil;&atilde;o ortogr&aacute;fica",    conta Elis de Almeida Cardoso, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias    Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Essa obra sugeria, por exemplo,    a supress&atilde;o de s&iacute;mbolos de etimologia grega, como o <I>ph</I>,    de pharm&aacute;cia. "Em 1907, as influ&ecirc;ncias de Gon&ccedil;alves    Viana j&aacute; haviam chegado ao Brasil. Nesse ano, foi elaborado pela Academia    Brasileira de Letras (ABL), a partir de uma proposta de Medeiros de Albuquerque,    um projeto de reformula&ccedil;&atilde;o ortogr&aacute;fica", acrescenta    Elis.</font></P>     <p><font size="3">Embora essas propostas fossem semelhantes, apenas em 1915 a    ABL aprovou um projeto do fil&oacute;logo Silva Ramos, que ajustou a reforma    brasileira aos padr&otilde;es da portuguesa, de 1911. E, mesmo assim, ela ainda    teria suas idas e vindas. "Em 1919, o Brasil revoga, por indica&ccedil;&atilde;o    do acad&ecirc;mico Os&oacute;rio Duque Estrada, tudo que tinha sido estabelecido    em 1907", comenta Elis, referindo&#45;se ao poeta parnasiano autor da letra    do Hino Nacional Brasileiro. Em 1931, Brasil e Portugal enfim assinam um acordo.    "Depois de oficializado em 1933, o acordo de 1931 &eacute; derrubado pela    Constitui&ccedil;&atilde;o brasileira de 1934, que mandava voltar &agrave; ortografia    da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1891. S&oacute; em 1938, a paz ortogr&aacute;fica    &eacute; restabelecida, com a volta do acordo de 31", finaliza. Inicia&#45;se,    ali, um processo de uniformiza&ccedil;&atilde;o da ortografia brasileira e portuguesa,    que culminou em um novo acordo assinado em 1943.</font></P>     <p><font size="3"><b>CIZ&Acirc;NIAS EM OUTROS IDIOMAS</b> Segundo Cagliari, da    Unesp, esses embates tamb&eacute;m ocorreram em rela&ccedil;&atilde;o a l&iacute;nguas    como o franc&ecirc;s e o ingl&ecirc;s, mas nunca resultaram em mudan&ccedil;as    significativas. "A l&iacute;ngua francesa tem uma longa tradi&ccedil;&atilde;o    de brigas no sentido de procurar modificar sua ortografia. Na pr&aacute;tica,    muito pouca coisa foi mudada nos &uacute;ltimos s&eacute;culos. A difus&atilde;o    dos livros agiu como uma for&ccedil;a conservadora acima da vontade de muita    gente interessada em mudan&ccedil;as ortogr&aacute;ficas", afirma Cagliari,    dando como exemplo a influ&ecirc;ncia da obra <I>L'Orthographe</I>, publicada    por Claire Blanche&#45;Benveniste e Andr&eacute; Chervel em 1978. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a03img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">"Com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; l&iacute;ngua inglesa,    n&atilde;o &eacute; muito diferente. A Austr&aacute;lia resolveu adotar uma    ortografia pr&oacute;pria, porque os australianos achavam que pronunciavam diferentemente    as palavras. A reforma durou pouco e eles voltaram atr&aacute;s. Por outro lado,    basta abrir os corretores ortogr&aacute;ficos dessas l&iacute;nguas e vamos    encontrar muitas variantes locais, dialetais. As diferen&ccedil;as passaram    a fazer parte de uma tradi&ccedil;&atilde;o de uso dessas variedades da l&iacute;ngua,    sem a necessidade de unifica&ccedil;&atilde;o". Cagliari acrescenta que    pa&iacute;ses como a Fran&ccedil;a, os Estados Unidos e a Inglaterra n&atilde;o    possuem leis ortogr&aacute;ficas, e t&ecirc;m apenas uma tradi&ccedil;&atilde;o    escrita, que vai se modificando aos poucos.</font></P>     <p><font size="3">J&aacute; as col&ocirc;nias americanas da Espanha come&ccedil;aram    cedo a propor alternativas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s normas da Real    Academia Espa&ntilde;ola (RAE). Em 1823, o venezuelano Andr&eacute;s Bello publicou,    em Londres, a obra <I>Indicaciones sobre la conveniencia de simplificar la ortograf&iacute;a    en Am&eacute;rica</I>. Algumas das simplifica&ccedil;&otilde;es sugeridas por    Bello foram incorporadas, em 1844, &agrave; proposta feita pela Faculdade de    Filosofia da Universidade do Chile ao governo de seu pa&iacute;s, a qual tamb&eacute;m    foi adotada na Col&ocirc;mbia, na Venezuela, no Equador, na Argentina e na Nicar&aacute;gua.    At&eacute; mesmo a Academia Liter&aacute;ria e Cient&iacute;fica de Professores    de Instru&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria de Madrid, na Espanha, j&aacute;    havia adotado simplifica&ccedil;&otilde;es propostas por Bello. </font></P>     <p><font size="3">Naquele mesmo ano de 1844, no entanto, a rainha Isabel II, da    Espanha, decretou que apenas as normas da RAE deveriam ser seguidas. Na Am&eacute;rica    Latina, o Chile foi o &uacute;ltimo pa&iacute;s a manter a ortografia sugerida    por Bello at&eacute; 1927, quando aderiu &agrave;s normas da academia espanhola.    Apenas no final do s&eacute;culo passado, a RAE incorporou em suas edi&ccedil;&otilde;es    do <I>Diccionario de la lengua espa&ntilde;ola</I> e da <I>Ortograf&iacute;a    de la lengua espa&ntilde;ola</I> as varia&ccedil;&otilde;es dialetais da Espanha    e dos pa&iacute;ses americanos. Em 1997, o escritor colombiano Gabriel Garcia    M&aacute;rquez sugeriu o retorno &agrave;s propostas de Bello, durante o Primeiro    Congresso Internacional da L&iacute;ngua Espanhola, realizado no M&eacute;xico    com a presen&ccedil;a de linguistas, escritores e autoridades como o rei da    Espanha. No evento, a sugest&atilde;o causou muita pol&ecirc;mica e nenhum entendimento.    C&aacute; e l&aacute;, o embate entre tradi&ccedil;&atilde;o oral e escrita,    usos e costumes, literatos, fil&oacute;logos e linguistas permanece vivo e aquecido,    como a linguagem praticada por qualquer povo ou na&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Rodrigo Cunha</i></font></P>      ]]></body>
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