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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/brasil.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a04img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>PRECONCEITO</b></FONT></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v61n2/line_blk.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Norma social torna a discrimina&ccedil;&atilde;o mais velada    &agrave; medida que as crian&ccedil;as crescem </b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Certo dia, quando estava no maternal, Luana, ent&atilde;o com    tr&ecirc;s anos de idade, chegou em casa chorosa porque um coleguinha n&atilde;o    a deixava brincar chamando&#45;a de negrinha. A m&atilde;e lhe disse: "mas    teu pai tamb&eacute;m te chama de minha negrinha". A menina respondeu:    "mas &eacute; de um jeito diferente". Embora o preconceito racial    seja um tema amplamente discutido na sociedade atual, a ponto do governo federal    ter criado uma secretaria especialmente dedicada ao tema: a Secretaria Especial    de Pol&iacute;ticas de Promo&ccedil;&atilde;o da Igualdade Racial (Seppir),    o preconceito &eacute;tnico entre crian&ccedil;as &eacute; tema de poucas pesquisas.    Uma das mais recentes foi realizada pela pesquisadora Sheyla Fernandes, da Universidade    Federal da Bahia (UFBA) e da Faculdade Pio D&eacute;cimo, de Sergipe. Ela fez    um estudo com crian&ccedil;as de cinco a oito anos de idade onde o problema    fica evidenciado.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Participaram do estudo 19 crian&ccedil;as de uma cidade do interior    sergipano, 11 meninos e 8 meninas, com idade de cinco a oito anos. Todas brancas.    Foi solicitado que desenhassem duas crian&ccedil;as, uma branca e outra negra.    Atrav&eacute;s dos desenhos os pequenos responderam a quest&otilde;es sobre    escolhas e prefer&ecirc;ncias em rela&ccedil;&atilde;o a cinco categorias: riqueza,    beleza, intelig&ecirc;ncia, proximidade e contato. Os resultados revelaram alto    n&iacute;vel de preconceito. A crian&ccedil;a negra foi fortemente rejeitada    e na faixa et&aacute;ria de 7 e 8 anos &eacute; onde estava os maiores &iacute;ndices    de preconceito. A discuss&atilde;o sugere que o efeito da norma social de igualdade    apenas aparece ap&oacute;s os oito anos de idade, por isso &eacute; natural    para elas expressar preconceito racial.</font></P>     <P><font size="3">Para a pesquisadora, o que vem ocorrendo s&atilde;o modifica&ccedil;&otilde;es    na forma pelas quais as pessoas expressam o preconceito. Face ao reconhecimento    p&uacute;blico crescente dos princ&iacute;pios democr&aacute;ticos de igualdade    e liberdade, as pessoas come&ccedil;aram a expressar o preconceito de maneira    mais contida e sutil, inclusive as crian&ccedil;as. "Mostrar&#45;se como preconceituoso    se tornou antiquado e reprov&aacute;vel", diz. Ela explica que antes t&iacute;nhamos    a express&atilde;o do preconceito aberta e direta; hoje, isso &eacute; mais    velado. As crian&ccedil;as viam na TV, no dia&#45;a&#45;dia, em suas casas e escolas    cenas e evid&ecirc;ncias de preconceito abertas e, portanto, as repetiam como    sendo a norma comum e aceit&aacute;vel do grupo. Hoje os pequenos n&atilde;o    v&ecirc;em mais isso, logo, agem de acordo com o que aprendem. "N&atilde;o    se espera atualmente que uma crian&ccedil;a ou qualquer pessoa discrimine abertamente    o outro por ele ser negro, por exemplo. Podemos chamar isso de avan&ccedil;o,    por&eacute;m n&atilde;o temos subs&iacute;dios para prever se isso implicar&aacute;    necessariamente na total erradica&ccedil;&atilde;o do preconceito, por&eacute;m    h&aacute;, de fato, uma tend&ecirc;ncia &agrave; diminui&ccedil;&atilde;o",    afirma Sheyla.</font></P>     <P><font size="3"><b>PRECONCEITO CONTRA PRECONCEITO</b> Um determinante muito    forte para o preconceito s&atilde;o as normas sociais. Dependendo da cultura,    da &eacute;poca e do que as normas dos grupos pregam como correto, os n&iacute;veis    de preconceito s&atilde;o maiores ou menores. A pesquisadora ressalta que, a    partir de alguns acontecimentos importantes como as guerras mundiais, a Revolu&ccedil;&atilde;o    Francesa, a Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos entre outros,    se come&ccedil;ou a repensar as diferen&ccedil;as sociais. Surgiram novas representa&ccedil;&otilde;es    e significados de civilidade, de igualdade e de liberdade. "Assim, embora    possamos observar que o preconceito ainda existe, sua express&atilde;o tomou,    com esses avan&ccedil;os, outros contornos. Ningu&eacute;m quer se mostrar contr&aacute;rio    &agrave;s normas sociais, pois seria discriminado tamb&eacute;m. Temos leis    que co&iacute;bem a demonstra&ccedil;&atilde;o do preconceito. Com isso, express&otilde;es    discriminat&oacute;rias, seja contra negros, homossexuais, mulheres ou qualquer    minoria social, se tornou velada. O alto n&iacute;vel de preconceito encontrado    em crian&ccedil;as pode ser justificado, de um modo geral, pela falta de discernimento    em virtude de n&atilde;o terem internalizado tais normas sociais", considera    Sheyla. </font></P>     <P><font size="3">Por volta dos tr&ecirc;s anos de idade as crian&ccedil;as n&atilde;o    percebem ou n&atilde;o representam as diferen&ccedil;as entre as pessoas. Elas    brincam com outras mais pobres, negras, deficientes, diferentes delas mesmas,    como brincariam com as crian&ccedil;as de seu pr&oacute;prio grupo. Por volta    dos cinco anos come&ccedil;a um processo de amadurecimento que faz com que elas    vejam que existem grupos diferentes. "&Eacute; nesse momento que elas costumam    discriminar de forma aberta o que consideram fora dos padr&otilde;es de seu    grupo, ou dos padr&otilde;es sociais em geral. Percebe&#45;se, nas escolas, esse    fen&ocirc;meno de forma clara, com os apelidos ou o <i>bullying</i>, nomenclatura    utilizada para referir agress&atilde;o e discrimina&ccedil;&atilde;o entre escolares",    exemplifica. Segundo Sheyla, as crian&ccedil;as podem apresentar comportamentos    bastante cru&eacute;is e rudimentares, n&atilde;o escondendo o que sentem. "Mais    tarde, por volta dos oito anos de idade, pode&#45;se dizer que as normas sociais    j&aacute; fazem parte de seu repert&oacute;rio representacional. As crian&ccedil;as    est&atilde;o agora 'civilizadas', ou seja, introjetaram os sentidos e significados    de uma vida em sociedade, de modo prim&aacute;rio ainda, mas esse fen&ocirc;meno    faz com que uma mudan&ccedil;a brusca ocorra em termos das maneiras de perceber    as outras pessoas e as coisas", complementa. Ent&atilde;o, aparentemente    h&aacute; maior aceita&ccedil;&atilde;o do diferente, por&eacute;m os estudos    mais recentes mostram que as crian&ccedil;as passam a camuflar os sentimentos    que julgam n&atilde;o serem os politicamente corretos em sua cultura e, mais    especificamente, em seu grupo de conviv&ecirc;ncia.</font></P>     <P><font size="3"><b>SENTIMENTO DE INFERIORIDADE</b> Em 1947, uma pesquisa semelhante    &agrave; da professora Sheyla Fernandes foi realizada nos Estados Unidos pelos    psic&oacute;logos Kenneth e Mamie Clark. Eles mostravam bonecos de pl&aacute;stico    id&ecirc;nticos, exceto pela cor, para crian&ccedil;as negras com idades entre    tr&ecirc;s e sete anos e pediam que fizessem uma identifica&ccedil;&atilde;o    racial e indicassem sua prefer&ecirc;ncia. Quase todas as crian&ccedil;as identificaram    racialmente as bonecas com facilidade e, a maioria, atribuiu &agrave;s bonecas    brancas atributos positivos. Al&eacute;m disso, as crian&ccedil;as tamb&eacute;m    foram solicitadas a pintar desenhos de crian&ccedil;as de acordo com a cor da    sua pele. As negras pintavam os desenhos com giz branco ou amarelo. Os pesquisadores    conclu&iacute;ram que o preconceito, a discrimina&ccedil;&atilde;o e a segrega&ccedil;&atilde;o    faziam com que as crian&ccedil;as negras desenvolvessem um senso de inferioridade    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s demais.</font></P>     <P><font size="3">Pesquisas na &aacute;rea da psicologia infantil demonstram a    import&acirc;ncia, positiva ou negativa, das marcas emocionais advindas da inf&acirc;ncia.    De acordo com a pedagoga Marilene Leal Pare, as experi&ecirc;ncias com preconceito    nas rela&ccedil;&otilde;es fora da fam&iacute;lia, em parques, festinhas ou    na pr&eacute;&#45;escola, far&atilde;o com que ela desenvolva mecanismos de defesa    conforme a intensidade do racismo sofrido. "Um dos mecanismos mais fortes    que observamos &eacute; o de nega&ccedil;&atilde;o: para a crian&ccedil;a d&oacute;i    muito sentir que o coleguinha ou a professora a rejeita por causa da cor da    sua pele", diz ela. Por isso ela passa a n&atilde;o querer admitir a rejei&ccedil;&atilde;o,    como se ela n&atilde;o existisse. "Estes ser&atilde;o aqueles adultos negros    que dir&atilde;o nunca terem sofrido preconceito em suas vidas", completa.    Marilene trabalha na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde    faz pesquisas sobre autoimagem e autoestima da crian&ccedil;a negra no ambiente    escolar. Ela explica ainda que a crian&ccedil;a negra, ao se deparar com atitudes    preconceituosas na pr&eacute;&#45;escola e nas primeiras s&eacute;ries do ensino    fundamental, tende a isolar&#45;se, juntar&#45;se com outros da mesma etnia ou desenvolver    atitudes para agradar os colegas e, ent&atilde;o, ser aceito. "&Eacute;    comum crian&ccedil;as negras, em seus primeiros anos na escola, verbalizarem    que n&atilde;o gostariam de ser negras", lamenta. </font></P>     <P><font size="3">Nos anos 1960, a antrop&oacute;loga norte&#45;americana Jane Elliot    aplicou um exerc&iacute;cio de discrimina&ccedil;&atilde;o baseada na cor dos    olhos das crian&ccedil;as, em sua sala da terceira s&eacute;rie. As crian&ccedil;as    negras, previamente instru&iacute;das, discriminaram as brancas, que n&atilde;o    sabiam que tudo havia sido combinado. O exerc&iacute;cio deu origem a dois document&aacute;rios:    <i>The eye of the storm</i> (1968) e <i>Olhos azuis</i> (<i>Blue eyed</i>, 1996).    Nos dois filmes, fica evidente a mudan&ccedil;a de comportamento das crian&ccedil;as    v&iacute;timas de preconceito. "O que antes era um ser humano, normal e    feliz, transforma&#45;se, no dia seguinte, em uma crian&ccedil;a assustada, vulner&aacute;vel,    intimidada, amea&ccedil;ada quando colocamos uma cor e dizemos que ela &eacute;    inferior. Imagine o que &eacute; viver uma vida inteira assim", diz Elliot    em um trecho do document&aacute;rio <i>Olhos azuis</i>.</font></P>     <P><font size="3"><b>MAIS SEMELHAN&Ccedil;AS DO QUE DIFEREN&Ccedil;AS</b> Nesse    contexto, reflexos negativos no desempenho escolar n&atilde;o tardam a surgir.    Um exemplo disso est&aacute; nas pesquisas de Marilene Pare, da UFRGS, em escolas    p&uacute;blicas e privadas de Porto Alegre, onde ela observou n&iacute;veis    mais altos de evas&atilde;o e repet&ecirc;ncia entre os estudantes negros. "Em    entrevista com esses alunos eu pude detectar problemas ligados &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o    racial, baixa autoestima, e a escola mantendo sil&ecirc;ncio em torno dos fatos    sem saber lidar com o problema", diz. Na opini&atilde;o da pedagoga a escola    brasileira n&atilde;o tem sido competente no trato com a cultura dos seus educandos,    especialmente com o grande contingente de origem africana que comp&otilde;e    a maioria da popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. De acordo com uma proje&ccedil;&atilde;o    feita pelo Instituto de Pesquisa Econ&ocirc;mica Aplicada (Ipea), em 2010 o    Brasil ter&aacute; a maioria de sua popula&ccedil;&atilde;o negra. Para ela,    &eacute; necess&aacute;rio efetivar a inclus&atilde;o da quest&atilde;o racial    nos curr&iacute;culos escolares, reconhecendo a identidade &eacute;tnica dos    alunos negros e a valoriza&ccedil;&atilde;o de suas potencialidades, a partir    da ancestralidade africana. </font></P>     <P><font size="3">J&aacute; foi comprovado que o contato interpessoal entre grupos    diferentes promove a mudan&ccedil;a de estere&oacute;tipos. Para Sheyla Fernandes,    a discuss&atilde;o de temas que remetam &agrave; igualdade social ajuda a diminuir    o preconceito. Isso inclui o uso de livros paradid&aacute;ticos e, para as crian&ccedil;as    menores, a leitura de contos e f&aacute;bulas que trabalhem o preconceito e    a igualdade. "Sabemos que &eacute; um processo lento e de dif&iacute;cil    solu&ccedil;&atilde;o, mas estamos caminhando para o desenvolvimento de pessoas    mais voltadas para a norma da igualdade. H&aacute; uma tend&ecirc;ncia de que    as pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es apresentem valores e comportamentos    mais tolerantes frente o outro", acredita.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></P>      ]]></body>

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