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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>ARTE E PSICAN&Aacute;LISE NA CONTRU&Ccedil;&Atilde;O DO HUMANO</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Cl&aacute;udio Rossi</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>A</b></font><font size="3"> ci&ecirc;ncia, a arte e a religi&atilde;o    est&atilde;o entre os constituintes fundamentais da pessoa humana e da cultura    em geral. Todos os homens t&ecirc;m essas tr&ecirc;s dimens&otilde;es que frequentemente    s&atilde;o contradit&oacute;rias e somente com consider&aacute;vel esfor&ccedil;o,    conseguem coadun&aacute;&#45;las para que haja um m&iacute;nimo de coer&ecirc;ncia.    N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil perceber como esses tr&ecirc;s fatores se    alternam e promovem altera&ccedil;&otilde;es em nosso estado de esp&iacute;rito    e em nossas atitudes. Estamos sempre imersos em contradi&ccedil;&otilde;es e    conflitos e somente suportamos a situa&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o prestamos    muita aten&ccedil;&atilde;o nisso e permitimos que ilus&otilde;es funcionem    como argamassa para compatibilizar esses materiais heterog&ecirc;neos que nos    comp&otilde;e. As ilus&otilde;es, filhas da imagina&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m,    causam problemas.</font></P>     <p><font size="3">A ci&ecirc;ncia, que busca o conhecimento para melhor controlar    o universo, teme a ilus&atilde;o e a combate, mas, quanto mais tenta exorciz&aacute;&#45;la,    mais enredada nela se percebe. A religi&atilde;o a atribui ao mal e a encontra    no credo alheio. Ao persegui&#45;la nos outros, por&eacute;m, ao inv&eacute;s da    paz e do amor que deseja, acaba encontrando a guerra. A arte, pelo contr&aacute;rio,    a cultiva, brinca com ela e a usa como mat&eacute;ria prima. Nesse "brincar",    todavia, muitas vezes revela verdades e obt&eacute;m transcend&ecirc;ncias insuspeitadas.</font></P>     <p><font size="3">Muitas teorias cient&iacute;ficas que se impuseram como verdades    por muitos anos se revelaram, posteriormente, pe&ccedil;as de fic&ccedil;&atilde;o    bem constru&iacute;das. Obras de arte, por outro lado, por revelarem fatos incontest&aacute;veis    sobre o mundo e sobre as pessoas acabam tornando&#45;se refer&ecirc;ncia para o    prosseguimento da constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento. Quantas vezes a    ci&ecirc;ncia, involuntariamente, promove milagres e os sacerdotes, pastores,    rabinos ou gurus invocam o santo nome da ci&ecirc;ncia para fazer valer suas    pr&eacute;dicas, recomenda&ccedil;&otilde;es e rituais.</font></P>     <p><font size="3">Como se sabe, boa parte das teorias psicanal&iacute;ticas, posta    em termos cient&iacute;ficos, baseou&#45;se em obras de arte. Freud n&atilde;o escondia    sua admira&ccedil;&atilde;o por Shakespeare e por Goethe (1). Seu estudo sobre    a obra e a vida de Leonardo da Vinci (2) foi fundamental para expor suas teorias    sobre a sexualidade e em Wilhelm Jensen encontrou um bom apoio para sua teoria    sobre a psicose (3). Isso para n&atilde;o dizer que a pedra angular de sua constru&ccedil;&atilde;o    encontrou no <I>&Eacute;dipo rei</I>, de S&oacute;focles, sua possibilidade    de vir &agrave; luz. Como classificar sua obra magistral, <I>Totem e tabu </I>(4),    na qual inventa um mito sobre a cria&ccedil;&atilde;o da cultura, t&atilde;o    bem urdido que parece verdade hist&oacute;rica at&eacute; hoje? Fic&ccedil;&atilde;o    pura, dir&atilde;o os que, mais chegados a um positivismo cient&iacute;fico,    amam as evid&ecirc;ncias. Genial modelo, extremamente &uacute;til para trabalhar    na cl&iacute;nica dos pacientes e na an&aacute;lise dos fen&ocirc;menos socioculturais,    dir&atilde;o outros. Express&atilde;o metaf&oacute;rica de uma indiscut&iacute;vel    realidade emocional humana, outros, ainda, julgar&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">Freud, grande admirador e colecionador de arte, por v&aacute;rias    vezes se manifestou de forma bastante cr&iacute;tica e severa a respeito dos    artistas e colocou a arte como uma certa solu&ccedil;&atilde;o de compromisso,    uma certa fuga da realidade. Eis o que disse de Dostoievski: "Tampouco    o resultado final das batalhas morais de Dostoievski foi muito glorioso. Depois    das mais violentas lutas para reconciliar as exig&ecirc;ncias instintuais do    indiv&iacute;duo com as reivindica&ccedil;&otilde;es da comunidade, veio a cair    na posi&ccedil;&atilde;o retr&oacute;grada de submiss&atilde;o &agrave; autoridade    temporal e &agrave; espiritual, de venera&ccedil;&atilde;o pelo czar e pelo    Deus dos crist&atilde;os, e de um estreito nacionalismo russo &#150; posi&ccedil;&atilde;o    a que mentes inferiores chegaram com menor esfor&ccedil;o. Esse &eacute; o ponto    fraco dessa grande personalidade. Dostoievski jogou fora a oportunidade de se    tornar mestre e libertador da humanidade e se uniu a seus carcereiros. O futuro    da civiliza&ccedil;&atilde;o humana pouco ter&aacute; por que lhe agradecer.    Parece prov&aacute;vel que sua neurose o tenha condenado a esse fracasso. A    grandeza de sua intelig&ecirc;ncia e a intensidade de seu amor pela humanidade    poderiam ter&#45;lhe aberto outro caminho de vida, um caminho apost&oacute;lico"    (5).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Esse coment&aacute;rio Freud faz logo ap&oacute;s ter comparado    Dostoievski a Shakespeare e ter colocado a sua obra entre as mais importantes    de todos os tempos. Poucos sabem da vida religiosa e pol&iacute;tica de Dostoievski,    mas os <I>Irm&atilde;os Karamazov</I> s&atilde;o imortais e com certeza um dos    tijolos do grande edif&iacute;cio da cultura. Sim porque a cultura &eacute;    assim constitu&iacute;da, de tijolos variados, sendo boa parte deles produ&ccedil;&otilde;es    art&iacute;sticas que transformaram a imagina&ccedil;&atilde;o e a fantasia    em objetos concretos, palp&aacute;veis, aud&iacute;veis e vis&iacute;veis. Coisas    et&eacute;reas, intang&iacute;veis ganham exist&ecirc;ncia sensorial e passam,    a partir da&iacute;, a ser compartilhadas e a fazer parte de uma rede de significa&ccedil;&otilde;es    que interliga toda a humanidade. Freud lamenta o ap&oacute;stolo que Dostoievski    n&atilde;o teria sido por ter se submetido &agrave; religi&atilde;o ortodoxa    russa. Esquece, por&eacute;m, que a obra liter&aacute;ria do autor genial &eacute;,    em si, um presente precioso para a humanidade e mais do que isso, um componente    de sua estrutura&ccedil;&atilde;o espiritual. A que apostolado e a que religi&atilde;o    deveria ter pertencido esse ap&oacute;stolo? Freud menciona uma "concilia&ccedil;&atilde;o    entre as exig&ecirc;ncias instintuais do indiv&iacute;duo com as reivindica&ccedil;&otilde;es    da comunidade". Sugere que obtendo essa concilia&ccedil;&atilde;o o sujeito    n&atilde;o precisaria se submeter nem a autoridades temporais, nem a espirituais,    realizando&#45;se na realidade. O cientista Freud procurou metodicamente a verdade    da constitui&ccedil;&atilde;o humana buscando essa concilia&ccedil;&atilde;o    que, por sua vez, em princ&iacute;pio, permitiria a realiza&ccedil;&atilde;o    plena da liberdade individual.</font></P>     <p><font size="3">A "religi&atilde;o" de Freud, por&eacute;m, n&atilde;o    &eacute; muito confort&aacute;vel e n&atilde;o aponta para o para&iacute;so.    Em <I>O mal estar na civiliza&ccedil;&atilde;o </I>(6) ele declara que essa    concilia&ccedil;&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel. N&atilde;o que n&atilde;o    deva ser procurada, mas, &eacute;, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, inating&iacute;vel.    Por essa raz&atilde;o, infelicidade e sofrimento acompanham inexoravelmente    o homem em sua caminhada pela exist&ecirc;ncia. Quanto mais algu&eacute;m pudesse    suportar essa verdade, mais livre seria e menos solu&ccedil;&otilde;es de compromisso    (neurose) precisariam ser utilizadas. Dostoievski, afinal, teria feito o poss&iacute;vel!</font></P>     <p><font size="3">Freud, por outro lado, tamb&eacute;m, enxerga a arte e os artistas    como apoios para o pesado destino do homem civilizado: "Um tipo diferente    de satisfa&ccedil;&atilde;o &eacute; concedido aos participantes de uma unidade    cultural pela arte, embora, via de regra, ela permane&ccedil;a inacess&iacute;vel    &agrave;s massas, que se acham empenhadas num trabalho exaustivo, al&eacute;m    de n&atilde;o terem desfrutado de qualquer educa&ccedil;&atilde;o pessoal. Como    j&aacute; descobrimos h&aacute; muito tempo, a arte oferece satisfa&ccedil;&otilde;es    substitutivas para as mais antigas e mais profundamente sentidas ren&uacute;ncias    culturais, e, por esse motivo, ela serve, como nenhuma outra coisa, para reconciliar    o homem com os sacrif&iacute;cios que tem de fazer em benef&iacute;cio da civiliza&ccedil;&atilde;o.    Por outro lado, as cria&ccedil;&otilde;es da arte elevam seus sentimentos de    identifica&ccedil;&atilde;o, de que toda unidade cultural carece tanto, proporcionando    uma ocasi&atilde;o para a partilha de experi&ecirc;ncias emocionais altamente    valorizadas. E quando essas cria&ccedil;&otilde;es retratam as realiza&ccedil;&otilde;es    de sua cultura espec&iacute;fica e lhe trazem &agrave; mente os ideais dela    de maneira impressiva, contribuem tamb&eacute;m para sua satisfa&ccedil;&atilde;o    narc&iacute;sica".</font></P>     <p><font size="3">O que Freud, aqui, chama de arte, evidentemente, n&atilde;o    deve ser arte popular, folclore, arte primitiva, artes perform&aacute;ticas,    etc. Pois, seria inveross&iacute;mil que as massas estivessem privadas delas.    Al&eacute;m disso, &eacute; inimagin&aacute;vel qualquer atividade cultural    religiosa, cient&iacute;fica, militar, pac&iacute;fica ou revolucion&aacute;ria,    sem a presen&ccedil;a extensa e intensa das artes. Presen&ccedil;a como consolo    e conforto, como forma de express&atilde;o e de estrutura&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica,    mas, tamb&eacute;m, como instrumento de domina&ccedil;&atilde;o, de convencimento,    de arrastamento. Se por um lado a arte liberta, por outro seduz, podendo ser    usada como instrumento de submiss&atilde;o e como ferramenta para a manipula&ccedil;&atilde;o    das massas.</font></P>     <p><font size="3">De qualquer maneira o fundador da psican&aacute;lise considera    que o linimento art&iacute;stico tem poder curativo limitado. A press&atilde;o    dos instintos, para ele, seria t&atilde;o grande que jamais o prazer obtido    pela descarga em natura das puls&otilde;es poderia ser superado por qualquer    atividade art&iacute;stica ou cultural: "Uma satisfa&ccedil;&atilde;o desse    tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo &agrave;s    suas fantasias, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades,    possui uma qualidade especial que, sem d&uacute;vida, um dia poderemos caracterizar    em termos metapsicol&oacute;gicos. Atualmente, apenas de forma figurada podemos    dizer que tais satisfa&ccedil;&otilde;es parecem 'mais refinadas e mais altas'.    Contudo, sua intensidade se revela muito t&ecirc;nue quando comparada com a    que se origina da satisfa&ccedil;&atilde;o de impulsos instintivos grosseiros    e prim&aacute;rios; ela n&atilde;o convulsiona o nosso ser f&iacute;sico. E    o ponto fraco desse m&eacute;todo reside em n&atilde;o ser geralmente aplic&aacute;vel,    de uma vez que s&oacute; &eacute; acess&iacute;vel a poucas pessoas. Pressup&otilde;e    a posse de dotes e disposi&ccedil;&otilde;es especiais que, para qualquer fim    pr&aacute;tico, est&atilde;o longe de serem comuns" (7).</font></P>     <p><font size="3">Nessa cita&ccedil;&atilde;o podemos notar que Freud se refere    &agrave; arte, e &agrave; ci&ecirc;ncia, do ponto de vista da cria&ccedil;&atilde;o.    Cria&ccedil;&atilde;o &eacute; um dos temas que o interessam. Para ele a capacidade    privilegiada de criar, que alguns t&ecirc;m e outros n&atilde;o, &eacute; o    grande mist&eacute;rio. Numa homenagem a Goethe, comentando o sentido e o valor    das biografias ele escreve: "Mas o que podem essas biografias proporcionar&#45;nos?    Mesmo a melhor e mais integral delas n&atilde;o pode responder &agrave;s duas    perguntas que, somente elas, parecem merecer ser conhecidas. Ela n&atilde;o    lan&ccedil;aria luz alguma sobre o enigma do dom miraculoso que faz um artista,    e n&atilde;o poderia ajudar&#45;nos a compreender melhor o valor e o efeito de suas    obras" (8). Define, em outro lugar, algumas qualidades, capacidades e limita&ccedil;&otilde;es    que seriam caracter&iacute;sticas dos artistas: "Isto porque existe um    caminho que conduz da fantasia de volta &agrave; realidade &#150; isto &eacute;,    o caminho da arte. Um artista &eacute;, certamente, em princ&iacute;pio um introvertido,    uma pessoa n&atilde;o muito distante da neurose. &Eacute; uma pessoa oprimida    por necessidades instintuais demasiado intensas. Deseja conquistar honras, poder,    riqueza, fama e o amor das mulheres; mas faltam&#45;lhe os meios de conquistar essas    satisfa&ccedil;&otilde;es. Consequentemente, assim como qualquer outro homem    insatisfeito, afasta&#45;se da realidade e transfere todo o seu interesse, e tamb&eacute;m    toda a sua libido, para as constru&ccedil;&otilde;es, plenas de desejos, de    sua vida de fantasia, de onde o caminho pode levar &agrave; neurose. Sem d&uacute;vida,    deve haver uma converg&ecirc;ncia de todos os tipos de coisas, para que tal    n&atilde;o se torne o resultado completo de sua evolu&ccedil;&atilde;o; na verdade,    sabe&#45;se muito bem com quanta frequ&ecirc;ncia os artistas, em especial, sofrem    de uma inibi&ccedil;&atilde;o parcial de sua efici&ecirc;ncia devido &agrave;    neurose. Sua constitui&ccedil;&atilde;o provavelmente conta com uma intensa    capacidade de sublima&ccedil;&atilde;o e com determinado grau de frouxid&atilde;o    nas repress&otilde;es, o que &eacute; decisivo para um conflito. Um artista    encontra, por&eacute;m, o caminho de retorno &agrave; realidade da maneira expressa    a seguir. A dizer a verdade, ele n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico que leva    uma vida de fantasia. O acesso &agrave; regi&atilde;o equidistante da fantasia    e da realidade &eacute; permitido pelo consentimento universal da humanidade,    e todo aquele que sofre priva&ccedil;&atilde;o espera obter dela al&iacute;vio    e consolo. Entretanto, para aqueles que n&atilde;o s&atilde;o artistas, &eacute;    muito limitada a produ&ccedil;&atilde;o de prazer que se deriva das fontes da    fantasia. A crueldade de suas repress&otilde;es for&ccedil;a&#45;os a se contentarem    com esses est&eacute;reis devaneios aos quais &eacute; permitido o acesso &agrave;    consci&ecirc;ncia. Um homem que &eacute; um verdadeiro artista tem mais coisa    &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o. Em primeiro lugar, sabe como dar forma    a seus devaneios de modo tal que estes perdem aquilo que neles &eacute; excessivamente    pessoal e que afasta as demais pessoas, possibilitando que os outros compartilhem    do prazer obtido nesses devaneios. Tamb&eacute;m sabe como abrand&aacute;&#45;los    de modo que n&atilde;o traiam sua origem em fontes proscritas. Ademais, possui    o misterioso poder de moldar determinado material at&eacute; que se torne imagem    fiel de sua fantasia; e sabe, principalmente, por em conex&atilde;o uma t&atilde;o    vasta produ&ccedil;&atilde;o de prazer com essa representa&ccedil;&atilde;o    de sua fantasia inconsciente, que, pelo menos no momento considerado, as repress&otilde;es    s&atilde;o sobrepujadas e suspensas. Se o artista &eacute; capaz de realizar    tudo isso, ele possibilita a outras pessoas, novamente, obter consolo e al&iacute;vio    a partir de suas pr&oacute;prias fontes de prazer em seu inconsciente, que para    elas se tornaram inacess&iacute;veis; granjeia a gratid&atilde;o e a admira&ccedil;&atilde;o    delas, e, dessa forma, <I>atrav&eacute;s</I> de sua fantasia conseguiu o que    originalmente alcan&ccedil;ara apenas em sua fantasia &#150; honras, poder e o amor    das mulheres" (9).</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a10img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">&Eacute; evidente nessa cita&ccedil;&atilde;o a separa&ccedil;&atilde;o    bem definida que Freud faz entre fantasia e realidade e o artista, para ele,    teria a capacidade de, atrav&eacute;s de sua obra apoiada na fantasia, obter    na realidade o que de fato desejava: honras, poder e o amor das mulheres.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A arte, para ele, funcionaria como uma esp&eacute;cie de artif&iacute;cio    que substitui "os meios" que os artistas n&atilde;o teriam para realizar    suas grandes ambi&ccedil;&otilde;es. Descreve, por&eacute;m, de maneira cuidadosa    e detalhada como o artista constr&oacute;i sua obra, assim como explica o porque    de ela fazer tanto sucesso. Quando afirma que o artista n&atilde;o &eacute;    o &uacute;nico que leva uma vida de fantasia e que existe uma regi&atilde;o    equidistante da fantasia e da realidade cujo acesso &eacute; consensual e que    promove al&iacute;vio e consolo para os que sofrem priva&ccedil;&otilde;es,    d&aacute; um novo estatuto e uma nova fun&ccedil;&atilde;o para a fantasia.    A arte daria condi&ccedil;&otilde;es, para os menos dotados, para frequentarem    essa regi&atilde;o. Os artistas, ent&atilde;o, n&atilde;o teriam meios para    obter as honras, etc, mas, forneceriam, para a grande maioria da humanidade,    que n&atilde;o teria seus dons, os meios para entrar nessa &aacute;rea intermedi&aacute;ria    e, assim, poder usufruir suas benesses.</font></P>     <p><font size="3">Nessas falas est&aacute; o germe de algo que ser&aacute; muito    desenvolvido pelo "grupo independente" brit&acirc;nico, encabe&ccedil;ado    por D.W. Winnicott: o conceito de objeto e espa&ccedil;o transicionais que v&atilde;o    aproximar a psican&aacute;lise da fenomenologia e da epistemologia do s&eacute;culo    XX, e que v&atilde;o dar nova perspectiva para sua rela&ccedil;&atilde;o com    a arte.</font></P>     <p><font size="3">Ainda nessa cita&ccedil;&atilde;o, podemos entender que para    Freud a criatividade depende de uma certa frouxid&atilde;o da repress&atilde;o    e de uma certa toler&acirc;ncia do superego, pois a criatividade, em &uacute;ltima    inst&acirc;ncia, decorreria do acesso &agrave;s fantasias inconscientes, mesmo    que indiretamente, pois nelas est&aacute; o manancial, a fonte para a cria&ccedil;&atilde;o.    Pode&#45;se dizer que as pessoas teriam uma produ&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea    e intermin&aacute;vel de fantasias e, portanto, mat&eacute;ria prima suficiente    para criar &agrave; vontade. A repress&atilde;o, a severidade do superego impediriam,    por&eacute;m, o acesso a esse manancial. Existiria, ainda, uma dist&acirc;ncia    grande entre ser criativo e ser artista. O artista gra&ccedil;as aos seus dons    seria capaz de, com engenho e t&eacute;cnica, dar materialidade &agrave;s fantasias    e apresent&aacute;&#45;las de uma forma universalizada e disfar&ccedil;ada, de tal    maneira que pudessem ser aproveitadas e usufru&iacute;das por todas as pessoas.    O prazer decorreria de que atrav&eacute;s da obra de arte as pessoas conseguiriam,    indiretamente, ter contato com seu pr&oacute;prio mundo interno e, assim, dele    usufruir. </font></P>     <p><font size="3">A arte est&aacute; presente de forma importante no desenvolvimento    da psican&aacute;lise desde Freud at&eacute; hoje, na maioria dos autores. </font></P>     <p><font size="3">Em Winnicott e em seus seguidores, por&eacute;m, ela ganha novas    possibilidades de articula&ccedil;&atilde;o. Com as no&ccedil;&otilde;es de    objeto e espa&ccedil;o transicionais, com uma nova abordagem a respeito da constru&ccedil;&atilde;o    da realidade e de sua interrela&ccedil;&atilde;o com a fantasia, Winnicott abriu    um novo espa&ccedil;o para a imagina&ccedil;&atilde;o, a fantasia e a ilus&atilde;o.    O brincar passou a ser "coisa muito s&eacute;ria" (10) e poder fantasiar    e compartilhar fantasias fusionais em grande sintonia com uma m&atilde;e receptiva,    passou a ser considerado essencial para que algu&eacute;m desenvolva a capacidade    de sentir que a "vida vale a pena" (11). Podemos reconhecer aqui o    desenvolvimento do germe do qual falamos acima. &Eacute; necess&aacute;rio,    todavia, assinalar que agora o "espa&ccedil;o equidistante entre a fantasia    e a realidade, universalmente aceito", n&atilde;o &eacute; mais um mero    consolo ou um recurso a promover a toler&acirc;ncia necess&aacute;ria para que    o ser humano aguente a penosa realidade. &Eacute; nesse espa&ccedil;o que o    homem passa, de fato, a viver. Um espa&ccedil;o que &eacute; um lugar virtual,    misto de sensa&ccedil;&atilde;o e imagina&ccedil;&atilde;o, atravessado pelas    necessidades do corpo em intera&ccedil;&atilde;o com a cultura. Os fatos "objetivos",    os acontecimentos da vida, ao existir nesse espa&ccedil;o virtual, tornam&#45;se    a realidade do sujeito. Essa realidade subjetiva, a &uacute;nica poss&iacute;vel    para a consci&ecirc;ncia, tender&aacute; a ser benevolente ou perturbadora dependendo    de como o indiv&iacute;duo tenha se desenvolvido.</font></P>     <p><font size="3">&Eacute; interessante notar como isso se aproxima do que Freud    descrevia como a a&ccedil;&atilde;o do artista. O artista seria capaz de fazer    pelos adultos uma coisa parecida com o que uma <I>m&atilde;e suficientemente    boa</I> winnicottiana (12), faria pela crian&ccedil;a pequena. A diferen&ccedil;a    consiste que, em Freud, isso seria um pr&ecirc;mio de consola&ccedil;&atilde;o,    uma esp&eacute;cie de escape provis&oacute;rio da dura realidade, enquanto que    para Winnicott isso seria a condi&ccedil;&atilde;o para o desenvolvimento da    compet&ecirc;ncia de se ter da vida uma vis&atilde;o benigna e prazerosa e,    at&eacute; certo ponto, para a constru&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria realidade.    </font></P>     <p><font size="3">Perde, ent&atilde;o, import&acirc;ncia, tentar&#45;se saber qual    &eacute; a realidade factual, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia incognosc&iacute;vel,    e ganha import&acirc;ncia a capacidade de se construir uma vis&atilde;o criativa,    tolerante, harm&ocirc;nica e benevolente do mundo e das rela&ccedil;&otilde;es    afetivas. Isso, porque, &eacute; nessa realidade subjetiva que as pessoas vivem.    Desse ponto de vista, os artistas teriam a capacidade de compartilhar com os    outros seu mundo interno, sua maneira de perceber as coisas e a vida e assim    permitir o alargamento do mundo interno daqueles que entrassem em contato com    suas obras. Pode&#45;se dizer que, desse ponto de vista, no rec&ocirc;ndito de seu    consult&oacute;rio, em contato &iacute;ntimo com seu paciente, o analista tem    fun&ccedil;&otilde;es semelhantes &agrave;s da m&atilde;e suficientemente boa    e &agrave;s dos artistas. A arte da psican&aacute;lise consiste nessa capacidade    de compartilhar espa&ccedil;os mentais secretos e proibidos, de maneiras aceit&aacute;veis    pela civiliza&ccedil;&atilde;o, com a perspectiva de ampliar as potencialidades    dos participantes, produzindo novos sentidos e tornando suas vidas mais criativas    e significativas. &Eacute; assim que ela participa da constru&ccedil;&atilde;o    da mais importante e espec&iacute;fica das caracter&iacute;sticas do humano:    a subjetividade.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Cl&aacute;udio Rossi</b> &eacute; m&eacute;dico psiquiatra,    psicanalista, membro efetivo e secret&aacute;rio geral da Sociedade Brasileira    de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo, presidente da Federa&ccedil;&atilde;o    Brasileira de Psican&aacute;lise</i>. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  Freud, S. "O pr&ecirc;mio Goethe". (1930).    Vol XXI. <I>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas    completas de Sigmund Freud</I>. Rio de Janeiro: Editora Imago. 1969.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">2.  Freud, S. "Leonardo Da Vinci e uma lembran&ccedil;a    da sua inf&acirc;ncia". (1910). Vol. XI. <I>Edi&ccedil;&atilde;o standard    brasileira das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</I>. Rio    de Janeiro: Editora Imago. 1969.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  Freud, S. "Del&iacute;rios e sonhos na Gradiva de    Jensen". (1906). Vol. IX. <I>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das    obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud.</I> Rio de Janeiro: Editora    Imago. 1969.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">4.  Freud, S. <I>"</I>Totem e tabu". (1913). Vol.    XIII. <I>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas    completas de Sigmund Freud</I>. Rio de Janeiro: Editora Imago. 1969.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">5.  Freud, S. "Dostoievski e o parric&iacute;dio".    (1927). Vol. XXI. <I>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas    completas de Sigmund Freud.</I> Rio de Janeiro: Editora Imago. 1969.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6.  Freud, S. "O mal estar na civiliza&ccedil;&atilde;o".    (1929). Vol.XXI. <I>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas    completas de Sigmund Freud</I>. Rio de Janeiro: Editora Imago. 1969.    </font></P>     <p><font size="3">7.  Idem</font></P>     <p><font size="3">8.  Freud, S. (1930) <I>Op. Cit.</I> 1969.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">9.  Freud, S. "Confer&ecirc;ncias introdut&oacute;rias    sobre psican&aacute;lise". Confer&ecirc;ncia XXIII (1916&#45;1917). Vol. XVI.    <I>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas completas    de Sigmund Freud</I>. Rio de Janeiro: Editora Imago. 1969.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">10.  Winnicott, D.W. <I>Realidad y juego. </I>Buenos Aires:    Granica Editor. 1972.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">11.  Idem.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">12.  Winnicott, D.W. <I>A crian&ccedil;a e o seu mundo. </I>Rio    de Janeiro: Zahar Editores. 1971.</font> ]]></body><back>
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