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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>NOTAS SOBRE LEONILSON E ARTHUR BISPO DO ROS&Aacute;RIO</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Leopold Nosek</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>Q</b></font><font size="3">uando analistas se re&uacute;nem    para discutir arte, um projeto com mais possibilidades de fertilidade se abre.    Estamos, de um lado, distantes da press&atilde;o do fazer cl&iacute;nico e,    de outro, afastados do compromisso de fidelidade &agrave; ortodoxia das escolas    te&oacute;ricas a que nos filiamos. Al&eacute;m disso, afastados das querelas    e rivalidades que permeiam o pertencimento a um grupo, podemos nos beneficiar    da exogamia para debater com outras disciplinas ou campos do saber. Temos a    oportunidade n&atilde;o apenas de reafirmar nossas convic&ccedil;&otilde;es,    mas tamb&eacute;m de testar a fertilidade de um modo de pensar. O principal    ponto de uma reflex&atilde;o como esta, entretanto, &eacute; a possibilidade    de ela trazer algum desenvolvimento ao nosso pensamento psicanal&iacute;tico.</font></P>     <p><font size="3">A psican&aacute;lise, no sinal dos tempos, encontra&#45;se mais    uma vez sob ass&eacute;dio de influ&ecirc;ncias positivistas e em meio a um    apelo pragm&aacute;tico que nitidamente a distancia de sua rota original e espec&iacute;fica,    empurrando&#45;a para o risco de se perder numa psicologia dita de car&aacute;ter    psicanal&iacute;tico. Constatamos isso no abandono da metapsicologia em favor    de procedimentos pr&aacute;ticos e de uma pol&iacute;tica de resultados. Imposs&iacute;vel    n&atilde;o ver, numa primeira camada, um movimento geral de pol&iacute;ticas    de forma&ccedil;&atilde;o de profissionais de sa&uacute;de nas quais se privilegia    o estudo de sinais que permitem uma uniformidade de condutas e uma facilita&ccedil;&atilde;o    de diagn&oacute;sticos. </font></P>     <p><font size="3">Chegamos, assim, aos anos de euforia da globaliza&ccedil;&atilde;o,    em que a tradu&ccedil;&atilde;o das categorias &eacute; feita atrav&eacute;s    de conjuntos de sinais; simplificam&#45;se os diagn&oacute;sticos, unificam&#45;se condutas,    permitem&#45;se interven&ccedil;&otilde;es de quem quer que tenha uma autoriza&ccedil;&atilde;o.    As companhias farmac&ecirc;uticas, alavancadas pela enorme concentra&ccedil;&atilde;o    de capitais, caracter&iacute;stica dessa fase de desenvolvimento, auferem resultados    econ&ocirc;micos sempre crescentes e estendem sua influ&ecirc;ncia, definindo    estados de alma e prometendo o controle sobre eles. Agora, passada a euforia,    j&aacute; podemos dizer que vivemos uma &eacute;poca de desilus&atilde;o desse    anseio, e de sua cr&iacute;tica. Os analistas &#150; marcados que somos, como todos,    pelo nosso tempo &#150; muitas vezes se deixaram seduzir, e, em vez de sustentar    sua especificidade e sua potencialidade cr&iacute;tica, embarcaram em tentativas    emp&iacute;ricas de provar que tamb&eacute;m tinham um lugar nesse projeto de    cria&ccedil;&atilde;o de felicidades.</font></P>     <p><font size="3">Meu interesse principal, aqui, &eacute; o apelo onipresente    &agrave; apropria&ccedil;&atilde;o do conhecimento, ao saber positivo e sua    sedu&ccedil;&atilde;o pelo dom&iacute;nio da realidade. A vit&oacute;ria do    homem sobre as for&ccedil;as naturais atrav&eacute;s do saber. &Eacute; o apelo    que ecoa em nossos ouvidos desde o Renascimento, desde o Iluminismo, o saber    que, vindo das luzes, incendeia e ilumina a pot&ecirc;ncia humana. A luz e a    claridade tornam&#45;se sin&ocirc;nimos do bem, do que &eacute; desej&aacute;vel,    do que traz a paz, do que devemos buscar. J&aacute; a escurid&atilde;o &eacute;    o l&oacute;cus da obscuridade, do confuso, &eacute; habita&ccedil;&atilde;o    dos monstros e dem&ocirc;nios, sede do mal, de onde devemos fugir. <I>Saber</I>,    ent&atilde;o, equivale a pot&ecirc;ncia e dom&iacute;nio sobre o objeto. Quem    n&atilde;o o deseja?</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a11img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Se o pensamento acompanha os tempos, esse modo de pensar, enquanto    desenvolve a pot&ecirc;ncia humana a limites inimagin&aacute;veis em outras    &eacute;pocas, tamb&eacute;m traz em si o corol&aacute;rio de mazelas tais como    as odiosas tentativas de dom&iacute;nio e transforma&ccedil;&atilde;o social    pretendidas pelos iluminados do nazismo e do stalinismo. Na nossa esfera particular,    esse movimento gera tentativas de identidade de conceito e objeto, a identifica&ccedil;&atilde;o    do ser em an&aacute;lise com as concep&ccedil;&otilde;es do analista &#150; pessoas    em an&aacute;lise, ao se tornarem analistas, como que por milagre aderem &agrave;    escola te&oacute;rica do analista. Esse movimento da identidade entre o objeto    e seu conceito como prova de conhecimento est&aacute; presente em nosso pensamento    desde Arist&oacute;teles. Cada vez mais claramente essa busca de identidade    se configura como uma viol&ecirc;ncia contra o objeto, pois dessa forma se destr&oacute;i    a exist&ecirc;ncia tanto de um apropriador como de um apropriado.</font></P>     <p><font size="3">A arte, tradicionalmente posta em quest&atilde;o como conhecimento    poss&iacute;vel da realidade, nesse momento, se apresenta como alternativa de    interesse. Ela nasce de se p&ocirc;r em espa&ccedil;o negativo a realidade da    utilidade dos materiais e de uma fun&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica. Nesse    sentido, prop&otilde;e uma escurid&atilde;o sobre o espa&ccedil;o mais imediato    do cotidiano, uma suspens&atilde;o do senso comum e de finalidade. Busca a expressividade    e a representa&ccedil;&atilde;o do objeto. Para tal, sua quest&atilde;o n&atilde;o    ser&aacute; da ordem das identidades, mas, sim, de uma revela&ccedil;&atilde;o    em que a exist&ecirc;ncia do ser e a de seu objeto n&atilde;o se confundem.    A obra permanece em sua exist&ecirc;ncia, o que ela revela n&atilde;o se paralisa    e a identidade entre autor e espectador se mant&eacute;m. </font></P>     <p><font size="3">Uma lei prescinde da nomea&ccedil;&atilde;o de seu autor; a    men&ccedil;&atilde;o dele &eacute; mera homenagem. J&aacute; a constru&ccedil;&atilde;o    est&eacute;tica nomeia necessariamente sua origem. Al&eacute;m disso, sua aprecia&ccedil;&atilde;o    tamb&eacute;m &eacute; dependente de uma individualidade. A realidade, portanto,    ter&aacute; uma revela&ccedil;&atilde;o ef&ecirc;mera, necessitar&aacute; sempre    do olhar do espectador que a ponha sob a luz &#150; e esse encontro n&atilde;o ser&aacute;    repet&iacute;vel. Se a moralidade est&aacute; necessariamente ausente, uma &eacute;tica    se imp&otilde;e: a permiss&atilde;o da exist&ecirc;ncia do objeto &#150; mais claramente,    uma submiss&atilde;o a ele &#150;, a impossibilidade de uma repeti&ccedil;&atilde;o    e a presen&ccedil;a de uma verdade que, como tal, ser&aacute; ef&ecirc;mera,    n&atilde;o pass&iacute;vel de uma apropria&ccedil;&atilde;o que a desnaturaria.    N&atilde;o estar&iacute;amos, aqui, diante de uma epistemologia psicanal&iacute;tica?    </font></P>     <p><font size="3">O fazer e o conceber psicanal&iacute;ticos se debru&ccedil;am    sobre a alteridade da alteridade. Nascem da permiss&atilde;o de exist&ecirc;ncia    de uma subjetividade outra e, nessa presen&ccedil;a, da revela&ccedil;&atilde;o    da alteridade do inconsciente, que, como objeto, se desnatura na perman&ecirc;ncia    e na luminosidade. Sua forma de revela&ccedil;&atilde;o &#150; e, portanto, de conhecimento    &#150; ser&aacute; a forma on&iacute;rica, a forma dos sonhos. Cria&#45;se uma epistemologia    noturna, um modo de conhecer que nasce de escurid&otilde;es e aus&ecirc;ncia    de vig&iacute;lia. Os sonhos abandonam a &aacute;rea da feiti&ccedil;aria e    da supersti&ccedil;&atilde;o e, com pleno direito, reivindicam espa&ccedil;o    nos modos do saber. Os sonhos, por outro lado, n&atilde;o toleram repeti&ccedil;&atilde;o    ou mentira. Envergonham&#45;se de uma simplifica&ccedil;&atilde;o e, inevitavelmente,    v&atilde;o conter contradi&ccedil;&atilde;o e conflito. V&atilde;o requerer    presen&ccedil;a para sua constru&ccedil;&atilde;o e revela&ccedil;&atilde;o,    requerer vida social e vida de rela&ccedil;&atilde;o. Requerer parcerias f&eacute;rteis,    amor. Do mesmo modo que os artistas requerem modelos e espectadores. A arte,    por sua vez, al&eacute;m de uma origem individual, como um sonho ter&aacute;    por objeto toda uma &eacute;poca, e sua verdade ser&aacute; uma revela&ccedil;&atilde;o    que potencialmente servir&aacute; a um grupo social. </font></P>     <p><font size="3">A psican&aacute;lise propor&aacute; um modo de pesquisa <I>fl&acirc;neur</I>,    no qual modelo e autoria se movem em associa&ccedil;&atilde;o livre e aten&ccedil;&atilde;o    flutuante. A utilidade, a inten&ccedil;&atilde;o, a moralidade e qualquer outro    prop&oacute;sito afora a permiss&atilde;o da revela&ccedil;&atilde;o estar&atilde;o    ausentes. Freud cria um modo de conhecer que ser&aacute; contracorrente em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; sua heran&ccedil;a iluminista e suscitar&aacute; novas quest&otilde;es    para a filosofia &#150; ci&ecirc;ncia e vis&atilde;o do homem que ser&atilde;o subsidi&aacute;rias    das trevas, onde luminosidade e obscuridade se entrela&ccedil;am, onde a identidade    de sujeito e objeto mata seu prop&oacute;sito. </font></P>     <p><font size="3">Freud, judeu centro&#45;europeu libertado pela centelha ef&ecirc;mera    do Iluminismo alem&atilde;o, mostra&#45;se grato a este e mant&eacute;m uma lealdade    a seu esp&iacute;rito, nunca abandonando o apelo por uma ci&ecirc;ncia positiva.    A obra, entretanto, ultrapassa as inten&ccedil;&otilde;es do criador. Os escritos    de Freud jamais capturam e imobilizam seu objeto. Sua obra ultrapassa a individualidade    do autor. Vai requerer que a deixemos se mover em n&oacute;s e que a interpretemos,    a cada momento do nosso trajeto, sem a cren&ccedil;a de que a possu&iacute;mos.    Permanece viva a sua pergunta: como o esp&iacute;rito mergulhado em est&iacute;mulos    f&iacute;sicos os transforma em qualidades ps&iacute;quicas? &Eacute; uma pergunta    inesgot&aacute;vel, e &eacute; tamb&eacute;m o mist&eacute;rio que perpassa    a arte.</font></P>     <p><font size="3">Dito isto, gostaria de lhes falar de dois artistas que podem    nos ajudar em nossa peregrina&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica. Vou lhes falar    sobre Arthur Bispo do Ros&aacute;rio e Jos&eacute; Leonilson. Proponho&#45;lhes    um passeio, com a esperan&ccedil;a de que algumas paisagens se revelem ao longo    do trajeto. Arte e psican&aacute;lise, afinal, compartilham de algo: t&ecirc;m    o humano em seu centro. Ambos os artistas, em certa &eacute;poca da vida e em    pontos essenciais de sua obra, utilizaram o recurso t&eacute;cnico do bordado.    Este tem um trajeto que corre frente e verso, apresenta&#45;se e desaparece, se    manifesta e se oculta. Constitui uma forma peculiar de desenho em que gesto    e figura se mostram em descontinuidade, mas numa rela&ccedil;&atilde;o essencial.    Permite, assim, uma analogia imediata com o trajeto de constru&ccedil;&atilde;o    dos sonhos, que n&atilde;o pretende uma figura&ccedil;&atilde;o nem esconder    uma autoria. Sua constru&ccedil;&atilde;o deixa &agrave; vista os caminhos de    um trabalho que &eacute; t&atilde;o eloquente quanto o produto que dele resulta.</font></P>     <p><font size="3">Se a alma, para construir seus trajetos, precisa de intimidade    compartilhada, esta requer tempo de conv&iacute;vio, alguma seguran&ccedil;a,    tradi&ccedil;&otilde;es que d&ecirc;em algum ch&atilde;o para o viver. Onde    faltarem esses trajetos, a busca se dar&aacute; pelo fundamentalismo, com suas    certezas e propostas de a&ccedil;&atilde;o. Onde n&atilde;o houver sonho, tampouco    haver&aacute; pensamento. A arte pode se tornar possess&atilde;o de todos. A    generosidade e a urg&ecirc;ncia de um artista pensam por n&oacute;s, "os    pecadores, os que ainda n&atilde;o sabem".</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>LEONILSON</b> Jos&eacute; Leonilson nasceu em Fortaleza,    em 1957, e faleceu prematuramente de aids em 1993, em S&atilde;o Paulo, onde    realizou importante obra, sendo considerado um dos maiores representantes da    gera&ccedil;&atilde;o de 1980 nas artes pl&aacute;sticas. Em 1995 foi objeto    de exposi&ccedil;&atilde;o no MoMA, em Nova York. Deixou&#45;nos dez anos de trabalho    f&eacute;rtil &#150; aproximadamente mil obras &#150;, embora irregular. Morreu no in&iacute;cio    da maturidade. </font></P>     <p><font size="3">Lisette Lagnado, autora do livro <I>Leonilson: s&atilde;o tantas    as verdades</I> (1) e curadora de sua exposi&ccedil;&atilde;o retrospectiva    de 1995, nos diz: "Leonilson &#150; disc&iacute;pulo de um ideal rom&acirc;ntico    malogrado &#150; foi movido pela compuls&atilde;o de registrar sua interioridade    a fim de dedic&aacute;&#45;la aos objetos de desejo. Esse legado, enunciado por    um 'eu' cuja expia&ccedil;&atilde;o &eacute; incessante, reavalia a subjetividade    ap&oacute;s as experi&ecirc;ncias conceituais. Isto &eacute;, desgastada a reflex&atilde;o    sobre o destino da arte que teve a metalinguagem como &aacute;pice, a obra volta&#45;se    neste momento para o questionamento do sujeito". </font></P>     <p><font size="3">&Eacute; aproveitando essa subjetividade que farei estas reflex&otilde;es.    A primeira obra que quero comentar foi chamada <I>O ilha</I> (1990). </font></P>     <p><font size="3">Confesso que foi minha primeira aproxima&ccedil;&atilde;o com    o trabalho de Leonilson, e me afastei como se estivesse diante de uma obra tosca.    Levei certo tempo at&eacute; que dela pudesse usufruir, e isso j&aacute; num    enquadramento mais amplo de sua obra. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a11img02.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Sabemos que n&atilde;o h&aacute; frui&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea:    ela depende de conceito e educa&ccedil;&atilde;o. Assim, Lisette Lagnado centra    sua vis&atilde;o de <I>O ilha</I> na quest&atilde;o do g&ecirc;nero, na fus&atilde;o    do masculino e do feminino num &uacute;nico objeto. J&aacute; a curadora Star    Figura, no cat&aacute;logo do MoMA para o <I>Project 53</I>, que exp&ocirc;s    a obra, fala de uma vis&atilde;o rom&acirc;ntica do indiv&iacute;duo, rebelde    e isolado, semelhante a um farol que o guia num oceano de escurid&atilde;o &#150;    imagem de esperan&ccedil;a e salva&ccedil;&atilde;o. Quero propor um outro modo    de olhar que talvez nos ajude em nossa conceitua&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica.    </font></P>     <p><font size="3">Em<I> O ilha, </I>pequeno bordado sobre tela, vemos uma figura    que se sugere humana. H&aacute; inclusive uma adjetiva&ccedil;&atilde;o surpreendente    &#150; <I>handsome</I>, <I>selfish</I> &#150; e o artigo definido &eacute; invertido,    de masculino a feminino. Faltam os orif&iacute;cios da face &#150; boca, ouvidos,    nariz &#150; entidades de comunica&ccedil;&atilde;o organizada entre o exterior e    o interior. Tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; bra&ccedil;os. Em contradi&ccedil;&atilde;o    com a aus&ecirc;ncia desses "comunicadores" ou organismos de interc&acirc;mbio,    h&aacute; ampla abertura na posi&ccedil;&atilde;o inferior, que "vaza"    o interno e o externo. Uma s&eacute;rie de riquezas douradas, inclusive um cora&ccedil;&atilde;o,    traz uma possibilidade permanente de queda. </font></P>     <p><font size="3">Se pensarmos no trabalho de Arthur Bispo do Ros&aacute;rio,    vemos uma tentativa constante de reconstru&ccedil;&atilde;o do mundo. Um projeto    schreberiano de constru&ccedil;&atilde;o do mundo p&oacute;s&#45;cat&aacute;strofe.    J&aacute; nessa obra aparece o "n&atilde;o&#45;constru&iacute;do". O trabalho    de Leonilson &eacute; um universo habitado por um projeto art&iacute;stico do    "n&atilde;o constru&iacute;do" e sua busca pela realiza&ccedil;&atilde;o.    S&atilde;o as entranhas e sua vontade cega em busca do "ser puro",    sem vis&atilde;o moral que as represente. O sem&#45;forma em busca de gesta&ccedil;&atilde;o    e nascimento. A busca perene da representa&ccedil;&atilde;o, seja pela figura,    seja pela palavra. O apelo ao sonho, que, pela justaposi&ccedil;&atilde;o de    seus elementos, n&atilde;o s&oacute; constituir&aacute; a figura&ccedil;&atilde;o    das entranhas na alma, mas engendrar&aacute; a arquitetura da alma. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Os elementos on&iacute;ricos organizar&atilde;o uma barreira    de contato, criando um continente consciente e um continente inconsciente. Cria&#45;se    simultaneamente a barreira entre interior e exterior e a delimita&ccedil;&atilde;o    de g&ecirc;nero, masculino e feminino. A barreira on&iacute;rica oferece a permeabilidade    para um interc&acirc;mbio infinito entra as &aacute;reas parcialmente separadas    e entre a individualidade e o mundo com identidade. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a11img03.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A cria&ccedil;&atilde;o desses elementos &eacute; tarefa tanto    do artista como do psicanalista. A diferen&ccedil;a &eacute; que o artista oferecer&aacute;    suas v&iacute;sceras e constru&ccedil;&otilde;es para a apropria&ccedil;&atilde;o    da humanidade. </font></P>     <p><font size="3">A explicita&ccedil;&atilde;o dessa quest&atilde;o surge n&atilde;o    s&oacute; no representado, mas atrav&eacute;s do pr&oacute;prio meio escolhido.    O bordado, por suas caracter&iacute;sticas t&eacute;cnicas e materiais, passeia    pelas duas faces da tela. Tamb&eacute;m entranha o gesto de bordar e o ato de    construir: passa&#45;se pelo aparente e pelo oculto. <I>O ilha</I> &eacute; obra    de 1990, com Leonilson j&aacute; doente e, nessa hora, o bordado se torna possibilidade    tamb&eacute;m em decorr&ecirc;ncia dos momentos de intoler&acirc;ncia &agrave;s    tintas. Leonilson radicaliza sua necessidade de construir sonhos. Ver alguns    de seus trabalhos mais antigos nos ajuda a acompanhar esse trajeto.</font></P>     <p><font size="3">Seis anos anterior a <I>O ilha</I>, <I>Sem t&iacute;tulo</I>    &eacute; obra sobre lona com tinta acr&iacute;lica. &Eacute; uma produ&ccedil;&atilde;o    surpreendente. N&atilde;o h&aacute; chassi, a tela est&aacute; solta no ar,    seus limites n&atilde;o est&atilde;o estabelecidos, &eacute; feita para flutuar    como uma bandeira. H&aacute; buracos por toda parte, criando uma aus&ecirc;ncia    de ocultamento, aus&ecirc;ncia de delimita&ccedil;&atilde;o dentro/fora, frente/verso.    H&aacute; um esbo&ccedil;o de organiza&ccedil;&atilde;o por meio de n&uacute;meros.    Seria uma f&eacute; na ci&ecirc;ncia? Uma numerologia m&iacute;stica? H&aacute;    sa&iacute;da a&iacute;?</font></P>     <p><font size="3">Em <I>O pescador de palavras</I>, de 1986, encontramos o modelo    cl&aacute;ssico de enquadre. Os limites da tela s&atilde;o demarcados e ela    se apresenta fixada sobre um chassi. Vemos a&iacute; uma figura uniforme, de    g&ecirc;nero por definir. Teria p&eacute;s? Seria o rabo de uma sereia? Se n&atilde;o    possui olhos, narinas nem ouvidos, possuiria boca e bra&ccedil;os?</font></P>     <p><font size="3">Esse ser est&aacute; no mundo e realiza uma a&ccedil;&atilde;o.    Busca palavras que se associam a imagens prim&aacute;rias e soltas na tela,    a uma palavra incorreta, n&atilde;o dicionarizada ou inexistente: "rababa".    Outras est&atilde;o em l&iacute;ngua "estrangeira": <I>Brucke</I>    ("ponte"), <I>Haus</I> ("casa"). H&aacute; necessidade de    apoio, necessidade da civiliza&ccedil;&atilde;o que o retire do isolamento,    que possibilite a vontade, o desejo, o prazer, a vida, enfim. A pesca &eacute;    feita na &aacute;gua ou no ar? Pode ser feita em solid&atilde;o? Sem as palavras,    n&atilde;o haver&aacute; nem forma nem conte&uacute;do para a alma, nem ao menos    algum limite, alguma organiza&ccedil;&atilde;o de seu espa&ccedil;o.</font></P>     <p><font size="3"><i>S&atilde;o tantas as verdades</i> &eacute; da mesma &eacute;poca    de <I>O pescador de palavras.</I> Presen&ccedil;a constante em ser primitivo    e duas figuras ainda mais remotas, como entidades filogen&eacute;ticas. Uma    escada poder&aacute; ajudar? As palavras s&atilde;o insuficientes, n&atilde;o    t&ecirc;m sentido, e ao lado delas h&aacute; pedras presas sobre a lona. S&atilde;o    elementos s&oacute;lidos, indigestos, mas portadores de riqueza. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">No ano seguinte, Leonilson constr&oacute;i <I>Leo n&atilde;o    pode mudar o mundo</I>. As palavras passam a ter sentido, e lemos "luzes",    "abismo", "inconformado", "solit&aacute;rio".    O cora&ccedil;&atilde;o tem forma, est&aacute; iluminado. Mas est&aacute; solto,    n&atilde;o tem apoio e n&atilde;o est&aacute; contido numa interioridade. Est&aacute;    preso apenas por luz. Paradoxo de desesperan&ccedil;a, resultado insuficiente    ou vis&iacute;vel &ecirc;xito? As palavras, de todo modo, adquirem pot&ecirc;ncia.    Seu sentido &eacute; m&uacute;ltiplo, t&ecirc;m rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima    com as imagens. </font></P>     <p><font size="3"><i>Jogos perigosos</i> mostra n&iacute;tida humanidade, interc&acirc;mbio    humano e sentido de palavras. O sonho se constr&oacute;i em parceria. Sublinho    que n&atilde;o tenho aqui preocupa&ccedil;&otilde;es biogr&aacute;ficas, n&atilde;o    me importam os acontecimentos reais de sua vida. Tamb&eacute;m n&atilde;o se    trata de uma hist&oacute;ria cl&iacute;nica evolutiva; apenas fa&ccedil;o algumas    associa&ccedil;&otilde;es. As palavras adquirem uma po&eacute;tica singular,    junto com uma figura&ccedil;&atilde;o mais definida. Lemos: "Esses jogos    perigosos n&atilde;o s&atilde;o guerra nem est&atilde;o no mar ou no espa&ccedil;o    mas por tr&aacute;s de &oacute;culos e um par de jeans".</font></P>     <p><font size="3">S&atilde;o vis&otilde;es que nos comovem. Era comum, na exposi&ccedil;&atilde;o    retrospectiva de 1995, que as pessoas tivessem vontade de sair abra&ccedil;adas    com seu acompanhante, envoltas numa aura amorosa, como se a obra de Leonilson    as contagiasse com a inevitabilidade do interlocutor. </font></P>     <p><font size="3">Uma ideia psicanal&iacute;tica me serve neste paralelismo entre    psican&aacute;lise e arte. Refiro&#45;me ao conceito de Meltzer sobre os pren&uacute;ncios    do sentimento de frui&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica. Meltzer acredita que    o sentimento de beleza surge na crian&ccedil;a a partir da percep&ccedil;&atilde;o    da m&atilde;e, capaz de entend&ecirc;&#45;la. Assim, a obra de arte nos "compreende",    ou seja, &eacute; uma forma de conhecimento. Mais precisamente, de autoconhecimento    humano (Luc&aacute;ks). Assim tamb&eacute;m ocorre na psican&aacute;lise. &Eacute;    do cotidiano de todos a experi&ecirc;ncia de que, quando queremos nos apresentar    a algu&eacute;m, mostramos nossas m&uacute;sicas preferidas, os romances que    lemos mais de uma vez, os poemas que nos impressionam, que sabemos de cor. A    obra de arte nos compreende. A&iacute; est&aacute; a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica,    o nosso prazer de beleza.</font></P>     <p><font size="3">Tentamos quase espontaneamente encontrar identidade entre o    fato e o conceito. Buscamos com isso apagar a "alteridade" e a estranheza    que entranha o fato, tornando&#45;o fugidio &agrave; apropria&ccedil;&atilde;o pela    consci&ecirc;ncia. Na sua forma mais sofisticada, isso se apresenta como uma    organiza&ccedil;&atilde;o positiva do saber. Do nosso &acirc;ngulo, do ponto    de vista da psican&aacute;lise, a identidade entre o saber e seu objeto configura    a doen&ccedil;a tanto quanto a tentativa de fus&atilde;o sujeito/objeto. A alternativa    seriam configura&ccedil;&otilde;es que se desenvolvessem ao redor do objeto,    a formula&ccedil;&atilde;o inicial do objeto j&aacute; sendo ela pr&oacute;pria    uma configura&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">Assim &eacute; a escrita de Freud: permanente cria&ccedil;&atilde;o    e reformula&ccedil;&atilde;o de modelos. Cria&ccedil;&atilde;o e destrui&ccedil;&atilde;o    que incluem o hiato entre conceito e objeto, ou seja, a mobilidade dial&eacute;tica    de conceito. Abandonamos a busca da conclus&atilde;o, permanecemos em suspenso,    o hiato est&aacute; assegurado. N&atilde;o buscamos a identidade do objeto com    seu conceito. &Eacute; um novo modelo do conhecer. (E essa aprecia&ccedil;&atilde;o    art&iacute;stica requer educa&ccedil;&atilde;o e disciplina.) Um ponto de ambiguidade    caracteriza a ess&ecirc;ncia da obra pl&aacute;stica: de um lado, vemos toda    a obra na imediaticidade do olhar, em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; forma    sequencial da apreens&atilde;o musical, mas a qualidade est&eacute;tica da pintura    permite que o olhar permane&ccedil;a numa infinitude de novas apreens&otilde;es.    &Eacute; como se "descasc&aacute;ssemos" infinitamente o que se oferece    aos nossos olhos. </font></P>     <p><font size="3"><b>ARTHUR BISPO DO ROS&Aacute;RIO</b> Fa&ccedil;o agora umas    poucas considera&ccedil;&otilde;es sobre Arthur Bispo do Ros&aacute;rio, lembrando,    antes de tudo, o mist&eacute;rio de sua vida e sua obra &#150; mist&eacute;rio que    assim deve permanecer. Tentativas de explica&ccedil;&atilde;o se mostrariam    imediatamente de um reducionismo afrontoso ao esp&iacute;rito psicanal&iacute;tico.    Seu percurso pessoal &eacute; &uacute;nico e original. No cat&aacute;logo da    exposi&ccedil;&atilde;o "Imagens do inconsciente", que integrou a    Mostra do Descobrimento, lemos que Bispo nasceu em Japaratuba (SE), em 1911.    Sabe&#45;se que foi fuzileiro da Marinha e pugilista, chegando a campe&atilde;o    latino&#45;americano da categoria peso leve. V&aacute;rias vezes foi detido por    insubordina&ccedil;&atilde;o e, em 1933, acabou se desligando da Marinha da    Guerra. Em 1938, foi preso e internado no Hospital Psiqui&aacute;trico Pedro    II, no Rio de Janeiro, onde permaneceu at&eacute; morrer. </font></P>     <p><font size="3">Ele nunca se considerou um artista. A viagem est&eacute;tica    de Arthur Bispo do Ros&aacute;rio era uma "miss&atilde;o" ditada por    seres do al&eacute;m. Quando lhe perguntavam sobre sua origem, ele desviava    o assunto: era um enviado dos c&eacute;us, um Cristo, o Pr&oacute;prio. E arriscava:    "Um dia eu simplesmente apareci no mundo". </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a11img04.jpg"></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Febrilmente, desfazia vestimentas e tecidos para obter os fios    para seus bordados. Comentadores afirmam que sua obra exerceu forte influ&ecirc;ncia    sobre Leonilson. Utilizou objetos de seu cotidiano numa tentativa de construir    um mundo em que pudesse habitar, nunca teve inten&ccedil;&otilde;es estetizantes.    Embora o universo da arte n&atilde;o lhe fosse familiar, percorre espontaneamente    um trajeto muito pr&oacute;ximo de diversas correntes contempor&acirc;neas.    </font></P>     <p><font size="3">Para pensarmos nossos conceitos, &eacute; preciso lembrar mais    uma vez o universo schreberiano, onde, segundo Freud, o desastre ocorre por    uma retirada do "interesse" do mundo. Isso configura o abismo psic&oacute;tico.    Sem a proje&ccedil;&atilde;o do humano, o mundo se torna frio, sem sentido e    inabit&aacute;vel. Sua reconstru&ccedil;&atilde;o &eacute; incoerc&iacute;vel    e configurar&aacute; a fenomenologia psic&oacute;tica, com seus del&iacute;rios    e alucina&ccedil;&otilde;es. A arte pode participar dessa tentativa. Se o trabalho    de Leonilson pode ser visto como a constru&ccedil;&atilde;o do que ainda n&atilde;o    p&ocirc;de ser sonhado, o trabalho de Arthur Bispo do Ros&aacute;rio aponta    para a reconstru&ccedil;&atilde;o de um mundo que foi perdido: a cicatriza&ccedil;&atilde;o    que se segue a um desastre. Nada disso, entretanto, explica o talento e o &ecirc;xito    construtivo dos dois artistas. N&atilde;o explica tampouco o assombro de que    somos tomados diante de suas constru&ccedil;&otilde;es. </font></P>     <p><font size="3">Assim, convido a todos para que, cerimoniosamente, finalizemos    essa aproxima&ccedil;&atilde;o lembrando de algumas obras de Bispo do Ros&aacute;rio    &#150; em particular, do <I>Manto da apresenta&ccedil;&atilde;o</I> que ele bordou    para se apresentar diante de Deus no Ju&iacute;zo Final. Recuperemos a devo&ccedil;&atilde;o    necess&aacute;ria para nos debru&ccedil;armos diante do infinito, da presen&ccedil;a    de outra subjetividade, do sagrado fen&ocirc;meno do humano. Analistas que somos,    bordemos uns pontos mais para o manto com que insistimos na ousadia de tentar    realizar nossa tarefa.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Leopold Nosek</b> &eacute; psicanalista, membro efetivo    da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo. Atual editor    da </i>Revista Brasileira de Psican&aacute;lise,<i> publica&ccedil;&atilde;o    da Federa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Psican&aacute;lise. </i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIA BIBLIOGR&Aacute;FICA</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1.Lagnado, L. <I>Leonilson</I>: <I>S&atilde;o tantas    as verdades</I>. S&atilde;o Paulo: DBA/Companhia Melhoramentos, 1998.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=047667&pid=S0009-6725200900020001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body>
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<surname><![CDATA[Lagnado]]></surname>
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<year>1998</year>
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