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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>MARGENS DA PALAVRA</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Camila Pedral Sampaio</b></font></P>     <P>&nbsp;</P> <table width="100%" border="0" align="center" cellpadding="0" cellspacing="0">   <tr>      <td width="33%">&nbsp;</td>     <td width="33%">&nbsp;</td>     <td width="34%" valign="top"><font size="3"><i>Assaz o senhor sabe: a gente        quer passar um rio a nado e    <br>       passa; mas vai dar na outra banda &eacute; num ponto muito    <br>       mais em baixo, bem diverso do que primeiro se pensou.    <br>       Viver nem n&atilde;o &eacute; muito perigoso?</i></font></td>   </tr> </table>     <P align="right"><font size="3">Guimar&atilde;es Rosa (1)</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size=5><b>O</b></font><font size="3"> presente ensaio remonta &agrave;    &eacute;poca em que iniciei meu trabalho de doutoramento (2). Foi, por assim    dizer, sua inspira&ccedil;&atilde;o original. O in&iacute;cio de um trabalho    desse tipo, que envolve a perspectiva de um longo tempo solit&aacute;rio de    escrita e pesquisa, costuma exigir de seu autor uma disposi&ccedil;&atilde;o    firme para uma aventura cujo destino &eacute;, naquele momento, indeterminado    e desconhecido. &Eacute; o caso de se ajeitarem bagagens e recursos que permitam    o enfrentamento da longa jornada que se prev&ecirc;, que forne&ccedil;am acolhida    e abrigo para os encontros, desencontros e contratempos que por certo ocorrer&atilde;o.    "Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo. (…) Era a s&eacute;rio.    Encomendou a canoa especial, de pau de vinh&aacute;tico, pequena, mal com a    tabuinha de popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada,    escolhida forte e arqueada em rijo, pr&oacute;pria para durar na &aacute;gua    vinte ou trinta anos" (3). </font></P>     <p><font size="3">Tal como "nosso pai", personagem que nos h&aacute;    de acompanhar ao longo deste texto, tratei de forjar minha canoa, de madeira    consistente e firme, para durar n&atilde;o vinte ou trinta, mas por certo alguns    anos. Foi assim que inclu&iacute;, como parte da bagagem que come&ccedil;ava    a arrumar, a companhia, "forte e rija", da est&oacute;ria de Guimar&atilde;es    Rosa, autor desde h&aacute; muito tempo preferido e respeitado. Procurava uma    esp&eacute;cie de comunidade de ideias inspiradoras que pudesse fornecer o mote    inicial daquilo que eu previa ser um longo percurso. Almejava encontrar, nessa    inspira&ccedil;&atilde;o, as palavras geradoras, a express&atilde;o poss&iacute;vel    para inquieta&ccedil;&otilde;es mal concebidas, as met&aacute;foras fortes a    partir das quais se tornaria poss&iacute;vel a constru&ccedil;&atilde;o de um    pensamento. </font></P>     <p><font size="3">Foi assim que, do contato com o conto de Guimar&atilde;es Rosa,    do tecimento produzido entre a obra e a interroga&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica,    estabeleceram&#45;se os primeiros rumos que pretendi dar ao trabalho, o <I>ato origin&aacute;rio</I> assim constituindo o pr&oacute;prio esp&iacute;rito    de sua posterioridade. Nesse di&aacute;logo forjou&#45;se, ent&atilde;o, uma ideia    com pretens&otilde;es a conceito: a ideia de que a escuta anal&iacute;tica ocorre    num lugar que poderia ser chamado, &agrave; semelhan&ccedil;a do lugar inventado    pelo ficcionista, de <I>terceira margem</I>: nem c&aacute; nem l&aacute;, nem    fic&ccedil;&atilde;o, nem realidade, nem encarna&ccedil;&atilde;o, nem fantasmagoria    e um pouco de tudo isso, simultaneamente. Lugar em dire&ccedil;&atilde;o ao    qual &eacute; poss&iacute;vel contar&#45;se, revelar&#45;se, biografar&#45;se. </font></P>     <p><font size="3">O presente texto assim, com as reformula&ccedil;&otilde;es que    o tempo e o trajeto lhe exigiram, traz a marca desse momento origin&aacute;rio.    Decorridos v&aacute;rios anos, j&aacute; tendo a ideia produzido alguns frutos,    ainda que deixada a adormecer, s&oacute; agora o re&#45;evoco, trazendo a p&uacute;blico    o presente texto, reformulado, obviamente, mas, ao mesmo tempo, conservado em    suas inspira&ccedil;&otilde;es originais. Convido o leitor a percorrer comigo    este trajeto que, porquanto tenha representado o primeiro passo de um processo    que teve sua continuidade, manteve seus atrativos e deixou suas marcas. Trajeto    feito nessas &aacute;reas fronteiri&ccedil;as, um tanto costurado de psican&aacute;lise,    um tanto impregnado de literatura, trajeto constru&iacute;do em margens, justamente    o assunto de que trata.</font></P>     <p><font size="3"><b>CONCEITOS DE EST&Oacute;RIA</b> "A terceira margem do    rio" &eacute; o t&iacute;tulo de um conto de Guimar&atilde;es Rosa, pertencente    ao volume editado sob o nome <I>Primeiras</I> e<I>st&oacute;rias</I>. Como nos    explica o editor, "'Est&oacute;ria' &eacute; o neologismo que distingue    a hist&oacute;ria como conto &#150; isto &eacute;, relato de acontecimentos fict&iacute;cios    &#150; da hist&oacute;ria como registro de acontecimentos reais (…). E 'primeiras'    n&atilde;o est&aacute; aqui no sentido de juventude (…), mas sim por ser esta    a primeira vez que o autor pratica o g&ecirc;nero 'est&oacute;rias', ou seja,    o conto curto" (4). Estamos, portanto, em face desse t&iacute;tulo desde    logo convidativo, em pleno dom&iacute;nio do mundo ficcional criado t&atilde;o    singularmente por Guimar&atilde;es Rosa.</font></P>     <p><font size="3">Em um artigo intitulado "Heresia roseana", Leda Ten&oacute;rio    da Motta discute sobre o uso do conceito de "est&oacute;ria", introduzido    por Guimar&atilde;es Rosa, como um g&ecirc;nero tardio no percurso de sua obra.    Nesse artigo, a autora aproxima as "est&oacute;rias", com seu estilo    aned&oacute;tico, silencioso e inexplicado, aos efeitos de humor provocados    pelos chistes, tal como Freud os discutiu. A semelhan&ccedil;a entre ambos residiria    n&atilde;o s&oacute; na forma compacta e breve de narrativa do improv&aacute;vel,    mas tamb&eacute;m no car&aacute;ter formal aned&oacute;tico ao qual, &agrave;    preval&ecirc;ncia do desejo sobre o acontecimento, re&uacute;ne&#45;se o prazer    est&eacute;tico de sua cria&ccedil;&atilde;o e recep&ccedil;&atilde;o. De fato,    foi assim que Freud nos permitiu compreender o prazer em contar, mas tamb&eacute;m    em ouvir, piadas: prazer associado &agrave; emerg&ecirc;ncia do inconsciente,    ludibriada a censura, em seus movimentos pr&oacute;prios de condensa&ccedil;&otilde;es    e deslocamentos; mas tamb&eacute;m prazer est&eacute;tico, associado &agrave;    possibilidade de compactar, no formato certo, em tempo certo, a palavra certa.    Um prazer do estilo o sabe bem quem n&atilde;o tem jeito para contar piadas…</font></P>     <p><font size="3">Da mesma forma, as "est&oacute;rias", &agrave; diferen&ccedil;a    dos longos romances, "nada contam, ou muito pouco. Elas exploram o sil&ecirc;ncio,    afora o absurdo, como modalidade produtiva, n&atilde;o sem risos e sorrisos.    (…) Espreitam assim uma esp&eacute;cie de fulgur&acirc;ncia m&aacute;xima do    m&iacute;nimo, ou uma sublimidade t&ecirc;nue, resvalante por isso para o humor,    dada a in&acirc;nia ou a bagatela. (…) Outra maneira de dizer o mesmo &eacute;    dizer que 'est&oacute;ria' &eacute; desimagina&ccedil;&atilde;o, desacontecimento"    (5). </font></P>     <p><font size="3">Assim, o g&ecirc;nero das est&oacute;rias, por sua capacidade    de figurar o absurdo, de representar o invis&iacute;vel, valendo pelo que nelas    n&atilde;o &eacute; dito, difere radicalmente da hist&oacute;ria e, mais do    que isso, vai contra ela; fareja desacontecimentos, num sutil trabalho do olhar    e da palavra que, na fulgur&acirc;ncia de um &aacute;timo, torna vis&iacute;vel    o que n&atilde;o se pode ver. As est&oacute;rias representariam, nesse sentido,    aqueles momentos em que se figura o infigur&aacute;vel, em que se pronuncia    algo do inconsciente. &Eacute; ao absurdo e ao inacredit&aacute;vel que mira    a est&oacute;ria, ao significado secreto e inapreens&iacute;vel do vivido, s&oacute;    vislumbr&aacute;vel em "certa margem terceira das &aacute;guas da exist&ecirc;ncia"    (6), essa ideia t&atilde;o sugestiva do t&iacute;tulo do conto de que ora nos    ocuparemos. </font></P>     <p><font size="3">Trata&#45;se de uma est&oacute;ria bastante surpreendente, que provoca    no leitor certa inquieta&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica que ir&aacute;    acompanh&aacute;&#45;lo por toda a leitura e depois dela, como a insistir interrogando    por aquilo que n&atilde;o teve e n&atilde;o ter&aacute; resposta. O narrador    toma o leitor como confidente e, como que a tentar, atrav&eacute;s desse di&aacute;logo,    fazer&#45;se compreender naquilo que ele pr&oacute;prio n&atilde;o soube entender    de sua vida, ele conta a estranha hist&oacute;ria de sua fam&iacute;lia.</font></P>     <p><font size="3">Suas recorda&ccedil;&otilde;es come&ccedil;am do ponto em que    o pai, chegado a certa idade, manda fazer para si aquela canoa especial, de    madeira resistente, feita para durar anos. Mansamente, sem mais palavra ou motivo,    calado como sempre foi, ele se despede da fam&iacute;lia e salta dentro da canoa,    para ali viver para sempre; bem ali, no meio&#45;rio, t&atilde;o perto como inalcan&ccedil;&aacute;vel.    O pai nunca mais proferir&aacute; palavra e para sempre se manter&aacute; como    silhueta m&oacute;vel no sobe&#45;e&#45;desce das &aacute;guas, deixando ao filho a    dif&iacute;cil tarefa de situar sua vida &agrave; sombra desse fundo de sil&ecirc;ncio    que se move cima&#45;abaixo no rio; a vida do filho, alternando&#45;se entre a acomoda&ccedil;&atilde;o    ao acontecimento e a necessidade de entend&ecirc;&#45;lo, transcorre a partir da    liga&ccedil;&atilde;o com esse pai, nem morto nem definitivamente vivo, pai    insond&aacute;vel, de cujo sil&ecirc;ncio ele procura evocar seu pr&oacute;prio    destino.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Estranha culpa o mant&eacute;m preso &agrave; sombra paterna,    guardando sua vida, &agrave; beira do rio, &agrave; espera, mesmo quando toda    a fam&iacute;lia j&aacute; tomou o rumo da cidade. Dessa liga&ccedil;&atilde;o    se irradia o efeito de estranheza e assombramento que a leitura produz. Um dia,    j&aacute; velho e barbado como o pai, o filho, impelido pela sua doideira de    homem, uma culpa incompreens&iacute;vel, prop&otilde;e ao pai uma troca: ir    tomar o seu lugar, no meio do rio, cumprir ali o seu destino. Pela primeira    vez, o pai o escuta e o sa&uacute;da. Tomado de pavor, desatinado, desentendido,    nosso narrador foge. E aqui, s&oacute; ent&atilde;o, surge seu texto: &eacute;    um pedido de perd&atilde;o &#150; ao pai, a si, a todos &#150; por sua humanidade n&atilde;o    cumprida. Nesse descumprimento come&ccedil;a sua palavra. "Mas ent&atilde;o,    ao menos que, no artigo da morte, peguem em mim e me depositem tamb&eacute;m    numa canoinha de nada, nessa &aacute;gua que n&atilde;o para, de longas beiras:    e eu, rio abaixo, rio afora, rio adentro &#150; o rio" (7). </font></P>     <p><font size="3">Desde o primeiro contato com esse conto, nunca mais pude deixar    de pensar nesta singular composi&ccedil;&atilde;o que re&uacute;ne ao rio e    &agrave;s margens um terceiro elemento, inc&oacute;gnito, que tem por efeito    imediato atirar&#45;nos de cabe&ccedil;a ao plano ficcional. Ora, um rio, todos    sabem, tem duas e n&atilde;o mais que duas margens. Margem leste, margem oeste,    esquerda e direita; norte e sul ou, simplesmente, a margem de c&aacute; e a    margem de l&aacute;; e &eacute; por oposi&ccedil;&atilde;o que elas se definem.    Muitas vezes as duas margens s&atilde;o dois mundos. De c&aacute;, assiste&#45;se    &agrave; beleza do poente, l&aacute;; de c&aacute;, imaginam&#45;se as maravilhas    ex&oacute;ticas do reino de l&aacute;; de c&aacute;, fala&#45;se mal do povo e da    terra de l&aacute;.</font></P>     <p><font size="3">Seja como for, c&aacute; e l&aacute; s&atilde;o refer&ecirc;ncias    fundamentais quando se tem um rio a dividir a terra. Cruzar uma ponte em dire&ccedil;&atilde;o    &agrave; outra margem traz um sentido inequ&iacute;voco de mudan&ccedil;a, de    passagem para outro lugar. O rio corre, ao mesmo tempo unindo e separando duas    na&ccedil;&otilde;es, dois povos, dois estados ou mesmo dois momentos na hist&oacute;ria    de uma cidade. Cruza o rio entre terras e nos obriga a conceber uma no&ccedil;&atilde;o    de fronteira. C&aacute; e l&aacute;, um e outro, conhecido e estrangeiro, de    qualquer forma a realidade que o rio nos oferece pede como refer&ecirc;ncia    uma oposi&ccedil;&atilde;o dual. Onde colocar a&iacute; um terceiro? N&atilde;o    h&aacute;, na concretude pac&iacute;fica de um rio que passa, nada que sugira    a exist&ecirc;ncia de uma terceira margem. Por onde, ent&atilde;o, poder&#45;se&#45;&aacute;    situar a terceira margem do rio?</font></P>     <p><font size="3">Foi essa indaga&ccedil;&atilde;o que me capturou j&aacute; a    partir do t&iacute;tulo do texto de Guimar&atilde;es. Encantava&#45;me a ideia de    uma terceira margem, mas apenas porque ela me lan&ccedil;ava, de supet&atilde;o,    a um mist&eacute;rio do mundo; arrancava&#45;me do rio e me atirava a um outro dom&iacute;nio.    Insond&aacute;vel, at&eacute; certo ponto. Foi assim que, antes de conhecer    o texto, eu soube de algo importante. A terceira margem do rio, por certo, n&atilde;o    a encontraremos no espet&aacute;culo do rio que se insinua como divisor de vidas;    n&oacute;s a encontraremos, quem sabe, um pouco para fora ou talvez um pouco    mais no interior do pr&oacute;prio rio. E onde? Na palavra que o pensa e percorre,    na palavra que ao mesmo tempo o enuncia e constitui, nos dizeres do rio em sua    fic&ccedil;&atilde;o. Esse &eacute; o efeito de vertigem que nos aben&ccedil;oa    desde o come&ccedil;o desse conto singular. S&oacute; &agrave; l&iacute;ngua    &eacute; dada a molecagem de encostar &agrave;s duas margens uma terceira e    criar um efeito de abertura. &Eacute; Manoel de Barros, poeta pantaneiro, conhecedor    de rios e de sapos, quem nos diz: "Molecar com a l&iacute;ngua, isto &eacute;    a poesia" (8). Das margens do rio, estamos, afinal, nas margens da palavra.</font></P>     <p><font size="3"><b>RIO DE PAPEL</b> Ao buscar o rio de verdade, seremos sempre    atravessados pela palavra que o enuncia e estaremos inevitavelmente encostados    &agrave; fic&ccedil;&atilde;o ou &agrave; po&eacute;tica. Qualquer rio que eu    possa enunciar ou escrever ser&aacute; sempre mais um "rio de papel"    do que um movimento vivo das &aacute;guas. Ser&aacute; sempre poss&iacute;vel    a esse rio uma terceira margem, de sil&ecirc;ncio e palavras; sempre ser&aacute;    poss&iacute;vel que, do meio da turbul&ecirc;ncia de suas curvas lhe salte um    canto, voz risonha diante do esfor&ccedil;o de nosso empreendimento: buscar    o rio de verdade, do qual estamos perenemente separados a partir de nossa estrutura    simb&oacute;lica. Nas margens do rio que corre, encontraremos, sob os ecos do    seu riso, uma terceira margem, margem da palavra, no seio da qual insiste o    oco do sil&ecirc;ncio.</font></P>     <p><font size="3">Essa &eacute; a dimens&atilde;o para a qual a pontaria po&eacute;tica    certeira de Caetano Veloso indica ao nos contar em canto a est&oacute;ria primeira    de Guimar&atilde;es, na can&ccedil;&atilde;o de mesmo t&iacute;tulo, feita em    parceria com Milton Nascimento. "Caetaneemos"! Ou&ccedil;amos m&uacute;sica    e letra em sua vers&atilde;o "<I>Circulad&ocirc;</I>" (9). No in&iacute;cio,    os sons ocos e tribais de um vaso de cer&acirc;mica nos introduzem ao clima    das matas, entre os barulhos e o sil&ecirc;ncio de um beira&#45;rio. O batuque seco    e ritmado se prolonga na voz do cantor, reproduzindo em alturas e repeti&ccedil;&otilde;es    como que ecos da conversa entre os seres da mata. Estamos de chofre entre paus    ocos e &aacute;guas claras e a batida marcada nos faz ouvir suas vozes. O riso    &eacute; um canto do rio. "<I>Meio a meio o rio ri/ silencioso, s&eacute;rio</I>".    Dura madeira, risca a canoa um desenho de sil&ecirc;ncio nas &aacute;guas. Canto    das &aacute;guas, a palavra lhe faz margem. Por entre as &aacute;rvores da vida,    rio e canoa, palavra e sil&ecirc;ncio, em contraponto r&iacute;tmico, comp&otilde;em,    nessa passagem de &aacute;guas que nos riem, um jorro de palavra; das margens    do rio &agrave;s margens da palavra e &agrave; clareira do sil&ecirc;ncio, de    onde nos observa a figura calada de um certo pai. "<I>Margens da palavra/    entre as escuras duas/ margens da palavra/ clareira, luz madura/ rosa da palavra/    puro sil&ecirc;ncio nosso pai</I>".</font></P>     <p><font size="3">Dessa forma &eacute; que o poeta nos conta a est&oacute;ria    daquele homem silencioso, sempre calado e s&eacute;rio que, chegado o tempo,    de uma maneira t&atilde;o singular, inventa seu destino, plantando a incerteza    e o estranhamento no meio do mundo simples e familiar dos seus. Do conhecido,    irrompe o mais assombroso desconhecimento. Da terra conhecida, das madeiras    conhecidas, ele constr&oacute;i a canoa que desde ent&atilde;o vagar&aacute;    pelo fio da incompreens&atilde;o, risca de &aacute;gua no leito do rio, de onde    emana o puro desconhecido. Do sil&ecirc;ncio de homem simples, brota o ato de    inven&ccedil;&atilde;o, silencioso ainda, mas gritante em seu absurdo: ir&#45;se    embora sem sair, ir&#45;se mansamente, sumir&#45;se rio adentro, cima&#45;abaixo, movente    perp&eacute;tuo, sombra estrangeira a atormentar a familiaridade.</font></P>     <p><font size="3">"Nosso pai n&atilde;o voltou. Ele n&atilde;o tinha ido    a nenhuma parte. S&oacute; executava a inven&ccedil;&atilde;o de se permanecer    naqueles espa&ccedil;os do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para    dela n&atilde;o saltar, nunca mais" (10). &Eacute; do efeito ins&oacute;lito    produzido por essa figura, meio sombra, meio vida, que nos fala ou silencia    de um lugar apontado como terceira margem, que brotaram as considera&ccedil;&otilde;es    que a seguir eu pretendo discutir. Minha inten&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o    somente a de por em circula&ccedil;&atilde;o essas evoca&ccedil;&otilde;es que    o encontro com o texto permitiu. Evoca&ccedil;&otilde;es singelas, dadas a algu&eacute;m    que, do interior de um dom&iacute;nio do saber outro que a literatura, no caso,    a psican&aacute;lise, buscou nessa est&oacute;ria mat&eacute;ria de pensar.    Com certeza resultar&aacute; desse encontro uma leitura. De certa forma, uma    tradu&ccedil;&atilde;o, uma quem sabe transgress&atilde;o… Veremos a que nos    leva.</font></P>     <p><font size="3"><b>EST&Oacute;RIA DE HOMEM</b> De sa&iacute;da, creio que j&aacute;    podemos concordar em dizer que <I>A terceira margem do rio</I> n&atilde;o &eacute;    est&oacute;ria de rio, mas est&oacute;ria de homem. De homem que, &agrave; for&ccedil;a    de sua possibilidade de figurar&#45;se outro, se deseja o pr&oacute;prio rio em    suas mov&ecirc;ncias e mergulha no calado vau adentro. Daquele meio&#45;rio o homem    silencioso nos olha sem ver; nunca em parte alguma, sempre em toda parte. Ele    se move na risca dessa terceira margem. Seu sil&ecirc;ncio, um paradoxo insol&uacute;vel    para o filho que em terra ficou. De seu ser calado e indecifr&aacute;vel, de    sua presen&ccedil;a perene incaptur&aacute;vel, irradiam&#45;se as palavras perplexas    do filho narrador. E engendra&#45;se propriamente sua vida errante, como efeito    desse duplo canto entre o beira&#45;rio, terra firme e triste de palavras, e o desenho    manso da canoa sobre as &aacute;guas, dor aberta em peito de homem rude. "Sou    homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa?"    (11). Da culpa inimput&aacute;vel, a f&oacute;rmula da err&acirc;ncia para o    filho em terra: condenado a espreitar eternamente rio adentro, &agrave; busca    do que n&atilde;o pode ser entendido, mas t&atilde;o somente nomeado, como refer&ecirc;ncia    fundamental: o pai, seu nome, terceira margem sem a qual n&atilde;o h&aacute;    filia&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel, margem da palavra, oco no interno da    palavra, terceira margem, o rio.</font></P>     <p><font size="3">No colo mesmo desse pai calado, acercou&#45;se o vazio. Aninhou&#45;se    ali algo que n&atilde;o comporta sentido f&aacute;cil, abismo de raz&atilde;o,    fonte da intoler&aacute;vel estranheza de que a vida se impregna, mansa loucura    de tudo que &eacute; humano: contemplar o horizonte &agrave; busca de outro    a quem se dirigir, outro sempre m&oacute;vel, fantasm&aacute;tico, o rio. N&atilde;o    ser&aacute; essa, tamb&eacute;m, nossa "loucura" de analistas, &agrave;    procura, na transfer&ecirc;ncia, daquilo/daquele a quem o paciente se dirige,    condenados a ouvir o que n&atilde;o se poderia entender? Condenados a buscar,    no erro e na ambiguidade da palavra, a fic&ccedil;&atilde;o pela qual o sujeito    permite a aproxima&ccedil;&atilde;o, a irrup&ccedil;&atilde;o de uma verdade    poss&iacute;vel? N&atilde;o ser&aacute; essa a nossa posi&ccedil;&atilde;o,    meio assombra&ccedil;&atilde;o, meio encarna&ccedil;&atilde;o capaz de mover&#45;se    diante de um apelo do parceiro em terra, que de seu desentendimento nos dirige    sua fala? N&atilde;o ser&aacute; esse, ainda, o lugar por excel&ecirc;ncia,    o campo poss&iacute;vel de uma an&aacute;lise, essa <I>terceira margem</I>,    nem&#45;l&aacute;&#45;nem&#45;c&aacute;, meio&#45;rio voltado &agrave;s duas margens, por onde    circulam as est&oacute;rias, narrativas de uma vida que se deseja, que se requer    entender? </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"Sou doido? N&atilde;o. Na nossa casa, a palavra doido    n&atilde;o se falava, nunca mais se falou, os anos todos, n&atilde;o se condenava    ningu&eacute;m de doido. Ningu&eacute;m &eacute; doido. Ou ent&atilde;o, todos"    (12). Doidos todos: vida humana &eacute; doideira incans&aacute;vel, tens&atilde;o    sem tr&eacute;gua entre a busca de dizeres e um fundo de indiz&iacute;vel, terceira    margem flutuante, sem a qual nada alcan&ccedil;a sentido, mas com a qual nenhum    sentido se completa, permanecendo ferida aberta no seio da palavra. Do fundo    dessa doideira de homem, formula&#45;se um projeto de descanso poss&iacute;vel:    quem sabe, na fic&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria morte &#150; morte, aus&ecirc;ncia    absoluta de palavra, aquilo de que nada se pode dizer &#150; tornar&#45;se o homem o    pr&oacute;prio rio, sem destino ou paradeiro, err&acirc;ncia absoluta, reencontro    com o pai, resgate de uma d&iacute;vida sem t&iacute;tulo. Dessa doideira de    homem, imposs&iacute;vel de descansar, resta, &uacute;nica esperan&ccedil;a    deixada, encostarmo&#45;nos &agrave;s margens da palavra, beirar um sentido nesse    furo de ser que nos constitui dizentes. Resta&#45;nos, doidos homens, inventar&#45;nos,    dessa terceira margem, uma vida; algum transit&oacute;rio sentido pelo qual    torne&#45;se poss&iacute;vel a paga de uma d&iacute;vida sem come&ccedil;o. Margens    da palavra, por ela circulamos nosso destino, sob efeito da fic&ccedil;&atilde;o    com que nos inventamos homens. Homens de tristes palavras…</font></P>     <p><font size="3">Assim, sob a inspira&ccedil;&atilde;o inaugural do velho que    nos assombra no rio, mais do que atravess&aacute;&#45;lo, fomos atravessados por    tal movimento de &aacute;guas e palavras. Do seio desse jorro caudaloso de impress&otilde;es    que nos falam, chegamos a uma primeira ideia: a de que o conhecimento do que    em n&oacute;s &eacute; insond&aacute;vel, nos &eacute; dado, de certa forma,    como um efeito de fic&ccedil;&atilde;o. Criamos nossas est&oacute;rias de homem    como forma de figurar o infigur&aacute;vel. Dirigimo&#45;las a uma terceira margem    da exist&ecirc;ncia, margem ins&oacute;lita, assombrada, imagin&aacute;ria e,    ao mesmo tempo, simb&oacute;lica e referente. Talvez nisso encontre&#45;se a possibilidade    da experi&ecirc;ncia anal&iacute;tica. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a15img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>SUJEITO EM FREUD</b> De fato, &eacute; dif&iacute;cil n&atilde;o    reconhecer, nas evoca&ccedil;&otilde;es que o texto nos sugeriu, as pe&ccedil;as    do jogo que Freud inventou para compreender a alma humana. Com efeito, esse    &eacute; o sujeito que Freud nos legou: errante na linguagem, permanentemente    dividido entre o ser em terra firme que se julga e a margem de desconhecimento    que o constitui, o inconsciente. Lugar do qual nada se pode saber e que, no    entanto reaparece como sombra permanente e m&oacute;vel na margem da palavra    &#150; ou de dentro dela &#150; na curva da palavra, leito de seu sustento.</font></P>     <p><font size="3">De fato, partindo da peculiar&iacute;ssima aten&ccedil;&atilde;o    com que ouvia seus pacientes na cl&iacute;nica, foi atrav&eacute;s de met&aacute;foras    as mais diferentes e &iacute;ntimas, buscadas nas suas recorda&ccedil;&otilde;es    de inf&acirc;ncia, mas tamb&eacute;m na sua paix&atilde;o pelas obras culturais    humanas, que Freud procurou figurar o inconsciente, em conson&acirc;ncia com    aquilo que lhe &eacute; pr&oacute;prio, a rebeldia a qualquer representa&ccedil;&atilde;o    fechada. &Eacute; sob essa perspectiva, que Lydia Flem apresenta o homem Freud,    em obra conhecida e bastante divulgada. Cito&#45;a: "O seu m&eacute;todo intelectual    procede atrav&eacute;s de um duplo movimento: abrir para o universal a singularidade    individual gra&ccedil;as &agrave;s refer&ecirc;ncias culturais e evidenciar    as figuras da cultura: as personagens dos mitos, lendas, contos, pe&ccedil;as    teatrais ou romances singularizam&#45;se, reatam com suas origens carnais, tornam&#45;se    os porta&#45;vozes do desejo humano" (13). </font></P>     <p><font size="3">&Eacute; nesse sentido que se poderia dizer que Freud &eacute;    um 'ficcionista' da alma humana em seus disfarces, tornando&#45;se alternadamente    escritor, detetive, explorador, arque&oacute;logo ou simples viajante, enquanto    procura ser um int&eacute;rprete poss&iacute;vel, um poeta do inconsciente.</font></P>     <p><font size="3">Foi a partir dessa perspectiva de abordagem da obra freudiana    que me pareceu interessante fazer do di&aacute;logo com o conto uma inspira&ccedil;&atilde;o    para essas outras, talvez avessas, inven&ccedil;&otilde;es psicanal&iacute;ticas.    Inven&ccedil;&otilde;es nas quais encontro uma figura&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel    para os caminhos do inconsciente e do desejo nessa invoca&ccedil;&atilde;o ao    homem que se cala dentro do rio e, em apari&ccedil;&otilde;es movedi&ccedil;as,    permanece a perguntar ao sujeito sobre o significado de sua vida. Nesse pai,    n&atilde;o propriamente morto, mas silenciado num lugar terceiro que, como sombra    perene fantasm&aacute;tica, reapresenta&#45;se continuadamente a cobrar do filho    a inven&ccedil;&atilde;o de seu destino. Dessa figura emana para o filho, de    um lado, toda identifica&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel: "… sempre que    &agrave;s vezes me louvavam, por causa de algum bom meu procedimento, eu falava:    'foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…' o que n&atilde;o era o certo,    exato; mas que era mentira por verdade" (14). Que era verdade do ideal    &#150; identificat&oacute;rio &#150; poder&iacute;amos acrescentar: verdade de uma vida    compreens&iacute;vel; de fato, mentira por verdade.</font></P>     <p><font size="3">De outro lado, &eacute; tamb&eacute;m dessa figura, do lugar    mesmo em que ela se instala, terreno do sombrio e do incompreens&iacute;vel,    que se inaugura o estranhamento que passa a impregnar toda a vida. Dali emana    a culpa irreconhec&iacute;vel, mas permanentemente ativa, que vincula o sujeito    a um projeto que ele n&atilde;o pode entender; dali se irradiam as perguntas    todas do sujeito sobre seu destino, perguntas sem destino, afinal, sem respostas.    Dali: desse lugar, margem terceira constitu&iacute;da, vazio no seio da palavra,    terreno do estranho, do sil&ecirc;ncio estrangeiro que rouba do sujeito &#150; personagem    ou leitor &#150; toda e qualquer familiaridade, toda e qualquer identifica&ccedil;&atilde;o    no campo familiar. Deste lugar, estrangeiro entre a vida e a morte, a figura    fant&aacute;stica, estranha entre os homens, se apresenta como o pr&oacute;prio    ser da inquieta&ccedil;&atilde;o. Uma inquieta&ccedil;&atilde;o que, entretanto,    produz a palavra e a requer. De sua margem silenciosa e s&eacute;ria, constitui&#45;se    o efeito fundador do acesso ao imagin&aacute;rio. De sua estranheza absoluta,    de seu car&aacute;ter terr&iacute;vel, fantasm&aacute;tico, sobrev&eacute;m    para o sujeito a necessidade de criar para si este terreno terceiro, margem    em que a palavra pode ser jogada como fic&ccedil;&atilde;o, como tentativa de    produ&ccedil;&atilde;o de sentido e de cria&ccedil;&atilde;o de uma vida, vida    de verdade. O acesso a essa margem, terreno silencioso de auto&#45;cria&ccedil;&atilde;o,    aparece, assim, como condi&ccedil;&atilde;o para que o sujeito formule sobre    si a fic&ccedil;&atilde;o com que possa conceber sua singularidade de desejo,    a partir de suas tristes, mas fundamentais, palavras. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Do caminho at&eacute; aqui percorrido, resulta que estivemos    nos exercitando no of&iacute;cio de pensar psicanaliticamente com elementos    fornecidos pela fic&ccedil;&atilde;o. Seguimos, quem sabe, passos de Freud.    Ainda na opini&atilde;o de Lydia Flem: "A concep&ccedil;&atilde;o freudiana    do aparelho ps&iacute;quico n&atilde;o &eacute; um sistema fechado, recolhido    em si mesmo, dogm&aacute;tico. Muito pelo contr&aacute;rio, Freud tenta ampliar    sempre e cada vez mais suas investiga&ccedil;&otilde;es a outros dom&iacute;nios    do saber. Pela multiplicidade de suas compara&ccedil;&otilde;es, ressalta a    polifonia da alma…" (15). </font></P>     <p><font size="3">Dessa alma polif&ocirc;nica, cantou&#45;nos, como figura&ccedil;&atilde;o    inconsciente, um pai que, tornado fantasma e submerso num calado da alma, possibilita,    pela palavra que dele emana, a inser&ccedil;&atilde;o do sujeito no universo    de sua est&oacute;ria narrada. &Eacute; atrav&eacute;s desse ser estranho e    ao mesmo tempo conhecido que nosso personagem acede a sua est&oacute;ria de    desejo e inscreve&#45;se em sua filia&ccedil;&atilde;o. Meio sombra, meio vida,    a figura desse pai&#45;fantasma, que surge em apari&ccedil;&otilde;es fugazes, borra    qualquer familiaridade e exige o transporte para um campo terceiro, de sonho,    del&iacute;rio ou fic&ccedil;&atilde;o. Outro campo, outra cena, terreno da    transfer&ecirc;ncia.</font></P>     <p><font size="3"><b>TERCEIRA MARGEM ANAL&Iacute;TICA</b> Apropriando&#45;me, com    intr&eacute;pida intimidade, da bela imagem fornecida por Guimar&atilde;es,    apresentou&#45;se para mim, portanto, no exerc&iacute;cio de interlocu&ccedil;&atilde;o    com a literatura, uma sugest&atilde;o quase irresist&iacute;vel e j&aacute;    de pronto antecipada; a de que seria f&eacute;rtil e necess&aacute;rio conceber    a exist&ecirc;ncia de uma terceira margem atuante na pr&aacute;tica cl&iacute;nica    psicanal&iacute;tica. &Eacute; assim que me vejo instada a propor e discutir    a ideia de que, num processo anal&iacute;tico, configura&#45;se o acesso a esse    dom&iacute;nio "ficcional" e, como tal, imagin&aacute;rio, a que estou    denominando <I>terceira margem</I>. Lugar de inscri&ccedil;&atilde;o do analista,    onde se torna poss&iacute;vel sua escuta. Margem terceira, entre duas margens    falantes: entre eu e outro, conhecido e estrangeiro, analista e paciente, poderemos    aceder a esse terceiro lugar, de onde nos assombram e inspiram seres de pura    inquieta&ccedil;&atilde;o, representa&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis do    imposs&iacute;vel e intoler&aacute;vel do inconsciente. A escuta anal&iacute;tica    &eacute;, assim, dirigida a esse lugar de sil&ecirc;ncio, a interrogar&#45;lhe uma    forma poss&iacute;vel e provis&oacute;ria do desejo. </font></P>     <p><font size="3">A palavra &eacute; posta a servi&ccedil;o da busca de enunciar    o desejo, sempre movedi&ccedil;o e silenciado, que habita o sujeito como margem    de sua err&acirc;ncia. A palavra, ela pr&oacute;pria err&acirc;ncia, enuncia    o que n&atilde;o est&aacute; nunca l&aacute;, destino de desejo. Um paciente    em an&aacute;lise, nesse sentido, busca, com suas palavras, aquilo que continuadamente    se perde, tenta dar contorno ao incontorn&aacute;vel, dizer o que n&atilde;o    pode ser dito. Utilizando&#45;me da terminologia de Pierre F&eacute;dida, seria    necess&aacute;rio conceber esse lugar de "estrangeiro &iacute;ntimo"    a partir do qual o analista escuta a fala de seu paciente. "O <I>of&iacute;cio</I>    de psicanalista &#150; nesse aspecto pr&oacute;ximo ao de escritor ou de poeta &#150;    exige da fala cotidiana um cuidado da linguagem e, assim, uma esp&eacute;cie    de vigil&acirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o aos recobrimentos que a presen&ccedil;a    do familiar n&atilde;o pode deixar de produzir" (16). Em seu of&iacute;cio    linguageiro, o analista p&otilde;e&#45;se numa escuta vigilante e estranhada, lan&ccedil;ando    seu olhar ao horizonte de palavra, terceira margem onde se p&otilde;em em cena    os fantasmas figurados nas afli&ccedil;&otilde;es do analisando. </font></P>     <p><font size="3">E assim conclu&iacute;mos nossa travessia. Como foi poss&iacute;vel    perceber, ao atravessarmos o rio, t&atilde;o perigoso quanto a vida, viemos    dar neste ponto terceiro, dificilmente imagin&aacute;vel no princ&iacute;pio:    no seio mesmo da rela&ccedil;&atilde;o analista&#45;paciente, em que se insinua    a constitui&ccedil;&atilde;o de uma terceira margem. Terreno terceiro, simb&oacute;lico,    terreno da presen&ccedil;a e da escuta anal&iacute;ticas. Nas palavras de Octave    Mannoni: "&Eacute; preciso que se crie simbolicamente um terceiro lugar.    S&oacute; a linguagem, portadora da nega&ccedil;&atilde;o e trazida pela nega&ccedil;&atilde;o    pode proporcion&aacute;&#45;lo" (17). Na busca de inspira&ccedil;&atilde;o    para pensar esse lugar &eacute; que nos encontramos com Guimar&atilde;es Rosa.    Que esse terreno da escuta seja concebido como uma <I>terceira margem</I>, &eacute;    uma sugest&atilde;o, em princ&iacute;pio, interessante. Terceira margem, entre    duas margens falantes, lugar s&oacute; figur&aacute;vel na e pela linguagem,    habitado, entretanto, por seres de carne, osso e padecimentos. Ali, nem&#45;l&aacute;&#45;nem&#45;c&aacute;,    entre duas margens, a palavra e seus sil&ecirc;ncios. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Camila Pedral Sampaio</b> &eacute; analista em forma&ccedil;&atilde;o    pela Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo, doutora    em psicologia cl&iacute;nica pela PUCSP e professora assistente doutora na Faculdade    de Psicologia da PUCSP.</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">1.  Rosa, G. (1967). <I>Grande sert&atilde;o: veredas</I>,    Rio de Janeiro: Jos&eacute; Olympio, 1980.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">2.  Sampaio, C. P. "Fic&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria:    terceira margem da cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica". Tese de doutoramento.    Programa de doutoramento em psicologia cl&iacute;nica. PUCSP. S&atilde;o Paulo.    2000.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  Rosa, G. "A terceira margem do rio". In: <I>Primeiras    est&oacute;rias</I>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p.32. 1992</font><p><font size="3">4.  Rosa, G.<I> Op. Cit.</I>: contracapa.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">5.  Motta, L.T. "Heresia roseana". In: Sociedade    Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo (Org.), Junqueira Filho,    Lu&iacute;s Carlos Uch&ocirc;a (Coord.), <I>Perturbador mundo novo</I>: <I>hist&oacute;ria,    psican&aacute;lise e sociedade contempor&acirc;nea</I>. S&atilde;o Paulo: Escuta,    p. 91. 1994.    </font></P>     <p><font size="3">6.  Motta, L.T. <I>Op. Cit.</I>, p.90. 1994.</font></P>     <p><font size="3">7.  Rosa, G.<I> Op. Cit.,</I> p.37.1992.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">8.  Barros, M. <I>Gram&aacute;tica expositiva do ch&atilde;o</I>.    Rio de Janeiro: Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, p.312. 1990.    </font></P>     <p><font size="3">9.  A can&ccedil;&atilde;o "A terceira margem do rio"    de Caetano Veloso &amp; Milton Nascimento encontra&#45;se no disco <I>Circulad&ocirc;    ao vivo,</I> Polygram do Brasil, 1992.</font></P>     <p><font size="3">10.  Rosa, G. <I>Op. Cit</I>., p.33. 1992.</font></P>     <p><font size="3">11.  Ibidem p.36.</font></P>     <p><font size="3">12.  Idem.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">13.  Flem, L. <I>O homem Freud</I>: <I>o romance do inconsciente</I>.    Rio de Janeiro: Campus, p.2. 1993.    </font></P>     <p><font size="3">14.  Rosa, G. <I>Op. Cit.,</I> p.35. 1992.</font></P>     <p><font size="3">15.  Flem,L.<I> Op. Cit.,</I> p.2. 1993.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">16.  F&egrave;dida, P. <I>Nome, figura e mem&oacute;ria</I>:    <I>a linguagem na situa&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica</I>. S&atilde;o    Paulo: Escuta, p.66. 1992.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">17.  Mannoni, O. <I>Clefs pour l'imaginaire ou l'autre sc&egrave;ne</I>.    Paris: Editions du Seuil, p.98. 1969.</font> ]]></body><back>
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