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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>A ESCUTA DA LINGUAGEM COMO "ATO POI&Eacute;TICO"</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Homero Vettorazzo Filho</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>R</b></font><font size="3">ainer Maria Rilke em <I>Cartas    a um jovem poeta</I> recomenda aos jovens que desejam ser poetas que se perguntem    "se lhes &eacute; poss&iacute;vel viver sem escrever" (1). Penso que,    em similaridade com o poeta, o psicanalista deve estar permanentemente comprometido    a tratar a linguagem para al&eacute;m de sua banaliza&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica    e comunicacional, resgatando&#45;a em sua fonte e em sua fun&ccedil;&atilde;o <I>poi&eacute;ticas    </I>(2), para dar forma e palavras ao informe do analisando que n&atilde;o pode    ainda ser dito. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel se viver sem a materialidade    metaf&oacute;rica da linguagem para se ser analista.</font></P>     <p><font size="3">Pierre F&eacute;dida, ao tratar das semelhan&ccedil;as entre    o analista em seu of&iacute;cio e o poeta diz que o &uacute;ltimo "deixa    os desenhos das coisas se recolherem na escritura das palavras ao sair do sono    em que a fala cotidiana da l&iacute;ngua as mant&eacute;m" (3). </font></P>     <p><font size="3"><b>A FUN&Ccedil;&Atilde;O <i>POI&Eacute;TICA</i> DA LINGUAGEM:    DESDOBRAMENTOS T&Eacute;CNICOS E METAPSICOL&Oacute;GICOS</b> F&eacute;dida trata    a condi&ccedil;&atilde;o de <I>poiese </I>em associa&ccedil;&atilde;o &agrave;    concep&ccedil;&atilde;o sobre "a t&eacute;cnica" de Heidegger que,    recorrendo &agrave; origem grega dessa palavra, concebe&#45;a como "modo de    desvelamento" que d&aacute; lugar "a uma produ&ccedil;&atilde;o &agrave;    medida que algo de oculto se presentifica no n&atilde;o oculto". Por seu    car&aacute;ter de "produzir", a t&eacute;cnica &eacute; concebida    por Martin Heidegger como algo <I>poi&eacute;tico</I>, vinculando&#45;se por meio    de seu radical grego a palavras que designam "o conhecimento no sentido    mais amplo… o fato de poder se reencontrar em alguma coisa e de a&iacute; se    reconhecer" (4).</font></P>     <p><font size="3">Em tal contexto, a t&eacute;cnica &eacute; retirada de seu aprisionamento    em regras do <I>setting</I> para ser considerada no que diz respeito &agrave;    escuta viva da linguagem que permeia a dupla no encontro anal&iacute;tico. </font></P>     <p><font size="3">A palavra falada, a palavra calada, a mudez pela aus&ecirc;ncia    de palavras, a palavra encenada, o sil&ecirc;ncio como palavra, a palavra agida,    o corpo&#45;sintoma e o gestual no lugar da palavra, a palavra surda&#45;muda, a imagem    que cega a palavra, enfim <B>a escuta da linguagem em sua dimens&atilde;o <I>poi&eacute;tica</I>    e informe,</B> deve ser o compromisso do analista com a t&eacute;cnica (5).    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Ao postular a linguagem, em seus desenhos internos, como lugar    <I>poi&eacute;tico</I> no qual nos constru&iacute;mos subjetivamente &agrave;    medida que nos reconhecemos nesse reencontro, mas tamb&eacute;m como lugar em    que nos dissipamos em uma difra&ccedil;&atilde;o de resson&acirc;ncias sem fim,    nas quais tentamos infinitamente nos reencontrar (ou nos evadir!), F&eacute;dida    est&aacute; propondo algo al&eacute;m da t&eacute;cnica, uma metapsicologia    da t&eacute;cnica por meio da qual vai conceber sua maneira de postular a <I>psiqu&ecirc;</I>.    Pensar a linguagem em sua escritura, que precede a palavra falada, amplia de    forma singular e sob novos v&eacute;rtices, a concep&ccedil;&atilde;o freudiana    do aparelho ps&iacute;quico se constituindo como um sistema de tra&ccedil;os    mn&ecirc;micos que se inscrevem e se retranscrevem. Penso que a materialidade    da linguagem em seu desenho interno d&aacute; corpo &agrave; materialidade dos    tra&ccedil;os mn&ecirc;micos, residindo a&iacute; um lugar <I>poi&eacute;tico</I>    privilegiado para a escuta anal&iacute;tica.</font></P>     <p><font size="3"><b>DIFERENTES FORMAS DE SE CONCEBER A ESCUTA E A CRIA&Ccedil;&Atilde;O    DE LINGUAGEM EM PSICAN&Aacute;LISE</b> Joel Birman sugere a exist&ecirc;ncia    de tr&ecirc;s grandes movimentos de descentramento na obra freudiana que, em    fun&ccedil;&atilde;o das novas propostas metapsicol&oacute;gicas, t&ecirc;m    implica&ccedil;&atilde;o nas formas de se conceber a escuta da linguagem no    encontro anal&iacute;tico (6). </font></P>     <p><font size="3">O primeiro desses descentramentos est&aacute; na concep&ccedil;&atilde;o    do inconsciente como um sistema que retira a consci&ecirc;ncia (<I>cogito</I>)    de seu lugar de destaque no psiquismo, relativizando&#45;a em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; import&acirc;ncia do inconsciente. F&eacute;dida tamb&eacute;m descentraliza    a linguagem do seu lugar de comunica&ccedil;&atilde;o (<I>cogito</I> da p&oacute;s&#45;modernidade?),    no qual se mant&eacute;m adormecida na fala habitual e no senso comum, ou ent&atilde;o    ensurdecida, emudecida e automatizada no pragmatismo e imediatismo da fala comunicativa.    O lugar central passa a ser o da escuta da linguagem em seu potencial <I>poi&eacute;tico</I>    que tem no sonho um valor essencial de paradigma. Diz F&eacute;dida: "quando    o sonho deixa de estar no princ&iacute;pio da teoria e de constituir seu poder    de pensamento, &eacute; a concep&ccedil;&atilde;o de fala que sofre modifica&ccedil;&otilde;es,    at&eacute; mesmo em suas rela&ccedil;&otilde;es com a l&iacute;ngua e linguagem"    (7). Ao que acrescenta: "&Eacute; verdade que o poema n&atilde;o &eacute;    um sonho, mas a sensoriedade das imagens visuais das quais este &eacute; feito    constitui o tom e o estilo da fala do poema antes de se fundar em ato po&eacute;tico.    A visibilidade das coisas &eacute; menos da ordem da imagem do que da impress&atilde;o    e da escritura, e at&eacute; mesmo da pura colora&ccedil;&atilde;o. Ela &eacute;    produzida por transfer&ecirc;ncia das qualidades sens&iacute;veis que a fala    torna poss&iacute;vel atrav&eacute;s daquilo que escuta de si pr&oacute;pria"    (8).</font></P>     <p><font size="3">A linguagem e a palavra exploradas nesse contexto, em uma an&aacute;lise,    trazem grande amplitude &agrave; escuta e &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o    do campo anal&iacute;tico. Discrimina&ccedil;&otilde;es refinadas e de grande    import&acirc;ncia ganham corpo com as postula&ccedil;&otilde;es de F&eacute;dida.    Assim, discurso e linguagem, n&atilde;o s&atilde;o mais concep&ccedil;&otilde;es    coincidentes, o mesmo acontecendo com o conceito de linguagem, que vai muito    al&eacute;m da palavra falada. &Eacute; nesse sentido que, ap&oacute;s citar    Georges Braque que nos lembra que "escrever n&atilde;o &eacute; descrever.    Pintar n&atilde;o &eacute; representar" (9), F&eacute;dida conclui que:    "descrever ou representar aquilo que v&ecirc; provoca uma dissocia&ccedil;&atilde;o    entre olhar e fala e, assim, a perda do <B>olhar que a l&iacute;ngua porta em    si. </B>Essa rela&ccedil;&atilde;o do olhar com a fala &eacute; condi&ccedil;&atilde;o    do ato <I>poi&eacute;tico</I> de uma funda&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua"    (10). Tais considera&ccedil;&otilde;es colocam a escuta anal&iacute;tica muito    mais pr&oacute;xima dos desenhos internos da l&iacute;ngua e tamb&eacute;m do    corpo do analista que pode assumir um lugar de engendramentos de espa&ccedil;os    c&ecirc;nicos, condi&ccedil;&atilde;o que F&eacute;dida nomeia, no sentido de    investiga&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica, como corpo&#45;teatro&#45;linguagem. Nesse    mesmo contexto, outra quest&atilde;o que ganha import&acirc;ncia &eacute; a    linguagem pensada no contraponto entre o visual e o vis&iacute;vel. "Tornar vis&iacute;vel &eacute; atribuir sensa&ccedil;&atilde;o, sensorialidade,    ao visual desfascinado da vista" (11) diz F&eacute;dida, em uma densa reflex&atilde;o    com tantos desdobramentos no trabalho anal&iacute;tico. A linguagem em sua dimens&atilde;o    <I>poi&eacute;tica</I> &eacute; assim uma forma de desencantamento aprisionador    no visual. Temos aqui que refletir sobre o poss&iacute;vel fasc&iacute;nio do    visual exercido nas trocas intersubjetivas pela dupla analista&#45;analisando levando    a um encarceramento da linguagem, n&atilde;o esquecendo que tamb&eacute;m a    fala comunicacional pode ter um efeito de visual fascinado.</font></P>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m &eacute; no campo da linguagem que a capacidade    de contin&ecirc;ncia ou de <I>holding</I> do analista vai ser concebida. F&eacute;dida    a denomina de "capacidade de mobilidade ps&iacute;quica do analista"    vinculando&#45;a &agrave; possibilidade do analista de <B>produzir e construir</B>    linguagem por meio de suas renova&ccedil;&otilde;es <I>poi&eacute;ticas</I>,    cada vez que &eacute; posto &agrave; prova por analisandos que, apesar de falarem    muito, mant&ecirc;m&#45;se surdos&#45;mudos em sua linguagem. Tal capacidade de mobilidade    ps&iacute;quica prov&eacute;m da "mem&oacute;ria anamn&eacute;sica"    (12) que o analista adquire da "fala do paciente, pela escuta de suas palavras,    em resson&acirc;ncia com aquilo que esta fala<B> se relembra"</B> (13).    </font></P>     <p><font size="3">O segundo grande descentramento derivou de novas proposi&ccedil;&otilde;es    metapsicol&oacute;gicas que Freud, desenvolve em "A guisa de introdu&ccedil;&atilde;o    ao narcisismo", nas quais o Eu, enquanto inst&acirc;ncia totalizante do    psiquismo e do corpo, n&atilde;o seria origin&aacute;rio, mas sim derivado do    investimento do Outro (14). </font></P>     <p><font size="3">A condi&ccedil;&atilde;o da presen&ccedil;a do Outro que descentraliza    o Eu trouxe novos aportes de produ&ccedil;&atilde;o metapsicol&oacute;gica com    importantes efeitos na t&eacute;cnica. Para pensar a linguagem em sua escuta    psicanal&iacute;tica, a partir desse novo movimento, tomo como interlocutoras    Piera Aulagnier e Silvia Bleichmar. </font></P>     <p><font size="3">Destaco em Aulagnier sua concep&ccedil;&atilde;o de "sombra    falada" na qual enfatiza que, antes mesmo de nascermos enquanto sujeito,    estamos marcados, em nossa origem, pela antecipa&ccedil;&atilde;o de um Eu constru&iacute;do    a partir do discurso que a m&atilde;e produz sobre o corpo do infante, encarnando&#45;o    enquanto "sombra falada", e inscrevendo&#45;o em uma ordem temporal e    simb&oacute;lica (15). Tal discurso se d&aacute; em uma dimens&atilde;o muito    al&eacute;m de um simples c&oacute;digo lingu&iacute;stico j&aacute; que n&atilde;o    se trata somente de palavras; &eacute; um ato de dirigir&#45;se a um Outro que alude    tanto &agrave; m&atilde;e &#150; implicada em seu desejo &#150;, quanto &agrave; crian&ccedil;a    &#150; inclu&iacute;da como destinat&aacute;ria desse enunciado e, portanto, da proje&ccedil;&atilde;o    desse desejo. Tal condi&ccedil;&atilde;o base da implanta&ccedil;&atilde;o do    narcisismo como processo de estrutura&ccedil;&atilde;o do Eu, coloca a linguagem    "dentro" da puls&atilde;o sexual e de suas vicissitudes. </font></P>     <p><font size="3">Bleichmar, na mesma dire&ccedil;&atilde;o, introduz novos interrogantes    ao deslocar a &eacute;tica para antes da resolu&ccedil;&atilde;o ed&iacute;pica,    relacionando&#45;a &agrave;s formas de apropria&ccedil;&atilde;o &#150; <B>inclusive    pela linguagem </B>&#150; do corpo e dos sentimentos da crian&ccedil;a pelo    adulto (16). </font></P>     <p><font size="3">Considerando a linguagem nesse contexto, Bleichmar ressalta    que pelo fato de ser secund&aacute;ria &agrave;s primeiras inscri&ccedil;&otilde;es,    a palavra, como significante, alude a aspectos da sexualidade inconsciente,    que correspondem aos excessos exercidos na maneira como as fun&ccedil;&otilde;es    dos cuidados prim&aacute;rios com a crian&ccedil;a s&atilde;o realizadas, situando&#45;se    para al&eacute;m da significa&ccedil;&atilde;o que o discurso do adulto possa    represent&aacute;&#45;la. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nesse contexto, a express&atilde;o material das formas de vincula&ccedil;&atilde;o    do Eu com esse Outro, desvela&#45;se na linguagem destinada ao analista. Na mesma    dire&ccedil;&atilde;o se torna importante escutar a rela&ccedil;&atilde;o do    analisando com sua pr&oacute;pria linguagem. O tipo de demanda; o comprometimento    ou, ao contr&aacute;rio, a aliena&ccedil;&atilde;o na pr&oacute;pria fala; o    reconhecimento da alteridade ou, inversamente a aliena&ccedil;&atilde;o no Outro;    constituem o cen&aacute;rio e o potencial <I>poi&eacute;tico </I>para a escuta    da linguagem, marcada nesse contexto pelo sexual que, n&atilde;o podendo mais    se realizar como sendo o pr&oacute;prio ideal, aliena&#45;se no Outro na procura    desse gozo. O ensurdecimento causado pelo fasc&iacute;nio com a pr&oacute;pria    fala ou com a figura do analista pode ser pensado sob esse v&eacute;rtice. Est&aacute;    na escuta anal&iacute;tica a possibilidade de tentar desfazer esses curtos&#45;circuitos.    Para tal, penso que as concep&ccedil;&otilde;es metapsicol&oacute;gicas, acima    apresentadas, s&atilde;o de grande valia por abrirem recursos t&eacute;cnicos    que criam linguagem para tal escuta.</font></P>     <p><font size="3">O terceiro descentramento &eacute; decorrente da postula&ccedil;&atilde;o    da puls&atilde;o de morte que desloca a representa&ccedil;&atilde;o de sua posi&ccedil;&atilde;o    central de atributo intr&iacute;nseco &agrave; ordem da vida. Ao ocupar o centro,    a puls&atilde;o de morte, que visa sempre a desconstruir as representa&ccedil;&otilde;es    estabelecidas, condena Eros a continuamente ter que representar.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a16img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Pensando a escuta psicanal&iacute;tica da linguagem no novo    contexto, a postula&ccedil;&atilde;o da puls&atilde;o de morte coloca, radicalmente,    a &ecirc;nfase na escuta da coisa indiz&iacute;vel e, portanto, na cria&ccedil;&atilde;o    de linguagem para a materialidade do informe que, se n&atilde;o ganhar signific&acirc;ncia,    amea&ccedil;a a invadir ou a se descarregar em um discurso evacuativo, ou ent&atilde;o    adormecer em uma fala vazia e designificada &#150; visto n&atilde;o encontrar linguagem    para se revelar. O vazio deve ser escutado em sua pr&oacute;pria materialidade    que, ao ganhar signific&acirc;ncia, lhe d&aacute; contorno.</font></P>     <p><font size="3">Jacques Lacan, em seu semin&aacute;rio sobre a &eacute;tica,    retoma a postula&ccedil;&atilde;o de Heidegger na qual o fil&oacute;sofo usa    a forma do vaso como modelo para configurar sua concep&ccedil;&atilde;o de cria&ccedil;&atilde;o    (17). O vaso &#150; em correspond&ecirc;ncia ao conceito lacaniano do "real"    &#150; p&otilde;e em evid&ecirc;ncia a condi&ccedil;&atilde;o em que "o vazio    nele criado introduz, ao mesmo tempo, a pr&oacute;pria perspectiva de preench&ecirc;&#45;lo"    (18).</font></P>     <p><font size="3">Penso que a linguagem, dentro do terceiro descentramento, teria    tanto a forma (materialidade) como a fun&ccedil;&atilde;o do vaso na figura&ccedil;&atilde;o    acima descrita: materialidade que, ao mesmo tempo, d&aacute; lugar ao vazio    e cria condi&ccedil;&otilde;es para preench&ecirc;&#45;lo. A concep&ccedil;&atilde;o    de F&eacute;dida sobre o "s&iacute;tio do estrangeiro" tamb&eacute;m    vai nessa dire&ccedil;&atilde;o. Assim, o sil&ecirc;ncio, na escuta, tem a fun&ccedil;&atilde;o    de propiciar tempo e espa&ccedil;o para o vazio e para a negatividade da palavra.    Dessa forma, podemos entrar em contato com a linguagem em sua materialidade    metaf&oacute;rica e criativa. </font></P>     <p><font size="3"><b>A TRANSFER&Ecirc;NCIA E A CONTRA&#45;TRANSFER&Ecirc;NCIA SIGNIFICADAS    FRENTE &Agrave; ESCUTA DA LINGUAGEM</b> Penso que n&atilde;o se pode falar de    transfer&ecirc;ncia e contra&#45;transfer&ecirc;ncia sem se pensar na linguagem    em seu sentido <I>poi&eacute;tico</I>, ou seja, linguagem mat&eacute;ria&#45;prima    do sonho. Transfer&ecirc;ncias, portanto, tal como Freud come&ccedil;a a teoriz&aacute;&#45;las    dentro do trabalho on&iacute;rico, como retranscri&ccedil;&otilde;es que abrem    possibilidades de "transforma&ccedil;&otilde;es", no sentido de propiciarem    novas formas de articula&ccedil;&otilde;es. </font></P>     <p><font size="3">O conceito de proje&ccedil;&atilde;o &#150; que deve ser pensado    dentro das transfer&ecirc;ncias &#150; ganhou &ecirc;nfase a partir do segundo descentramento,    no qual o Eu &eacute; deslocado de sua posi&ccedil;&atilde;o central origin&aacute;ria    para ser concebido, em sua estrutura&ccedil;&atilde;o, como sombra do Outro.    O imbricar do campo do Eu e do Outro, configurado nos tipos de vincula&ccedil;&otilde;es    do paciente, passa a ter na escuta da proje&ccedil;&atilde;o uma forma privilegiada    para cria&ccedil;&atilde;o de linguagem. Ao ser considerado sob o v&eacute;rtice    de sua depend&ecirc;ncia origin&aacute;ria do Outro, o Eu deparando&#45;se com a    alteridade deste se v&ecirc; amea&ccedil;ado de despossess&atilde;o e de transformar&#45;se    em estrangeiro. Tal condi&ccedil;&atilde;o suscita uma viol&ecirc;ncia ps&iacute;quica    que est&aacute; nas bases das rela&ccedil;&otilde;es intersubjetivas e tamb&eacute;m    do ataque &agrave; pr&oacute;pria linguagem. &Eacute; na viv&ecirc;ncia de experi&ecirc;ncias    transferenciais e contra&#45;transferenciais desse porte que podemos realizar a    materialidade que a linguagem assume ao dar corpo &agrave; materialidade ps&iacute;quica    (palavra&#45;coisa!). Assim, no trabalho anal&iacute;tico, entramos em contato com    a for&ccedil;a material da palavra&#45;encarnada, seja ela, falada, muda, surda,    fascinada e cega, atuada, gestual ou corporal. Em tal contexto posso entender    o poder e a efic&aacute;cia transformadora da linguagem (a partir do vazio criativo    contido em sua capacidade metaf&oacute;rica), como tamb&eacute;m a materialidade    desintegradora do v&aacute;cuo que acompanha sua aus&ecirc;ncia (buraco negro?).    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>A CONTRA&#45;TRANSFER&Ecirc;NCIA E O DESEJO DE AN&Aacute;LISE</b>    "N&atilde;o aguento mais viver assim… n&atilde;o quero mais viver assim…    n&atilde;o tenho vontade de nada… n&atilde;o consigo levantar da cama… fico    l&aacute;, com o travesseiro tapando meus ouvidos, encolhida, im&oacute;vel,    n&atilde;o quero ouvir barulho, movimento, nada. S&atilde;o tantos anos assim.    Tanta an&aacute;lise, tratamento, rem&eacute;dios… N&atilde;o muda nada… N&atilde;o    aguento mais viver assim…" Falas, como estas, eram a t&ocirc;nica dos encontros    com uma paciente na qual o vazio por ela encarnado me causava a impress&atilde;o    de poder ser arrastado por um turbilh&atilde;o &#150; tamb&eacute;m despertado em    mim &#150; que me tragaria para um buraco negro: um mundo de trevas aonde s&oacute;    existia lugar para culpa, auto&#45;recrimina&ccedil;&atilde;o, decep&ccedil;&atilde;o    e conformismo.</font></P>     <p><font size="3">Comecei a perceber durante seu atendimento que surgiam m&uacute;sicas    para mim, a princ&iacute;pio difusas, mas que aos poucos iam tomando a forma    de estribilhos de can&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o eram m&uacute;sicas que    faziam parte de minha mem&oacute;ria recente e, tampouco, tinham tido um significado    especial. Escut&aacute;&#45;las me tranquilizava.</font></P>     <p><font size="3">Relato duas dessas situa&ccedil;&otilde;es pelas diferen&ccedil;as    nas tonalidades que tais m&uacute;sicas assumiram acompanhando minha escuta    da paciente. Tratavam&#45;se ambas de can&ccedil;&otilde;es relacionadas ao candombl&eacute;    e que apelavam, respectivamente, &agrave; prote&ccedil;&atilde;o de Oxal&aacute;    e de M&atilde;e Menininha (19). Na primeira can&ccedil;&atilde;o, sua letra    se repetia em minha mente assumindo a sonoridade de uma cantiga de ninar. Na    segunda, a melodia ecoava como um triste lamento que se revelava, para mim,    como um pedido de ser ouvida. </font></P>     <p><font size="3">Nas duas situa&ccedil;&otilde;es, entretanto, o conte&uacute;do    da fala da paciente era o mesmo. Talvez fossem diferentes suas pausas, a tonalidade    de sua voz, seus sil&ecirc;ncios, sua respira&ccedil;&atilde;o. Penso que a&iacute;    residiram os elementos que, em parte, modularam as diferen&ccedil;as de minha    escuta mel&oacute;dica, nas quais me apoiei para minhas interven&ccedil;&otilde;es.    </font></P>     <p><font size="3">Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;quela com sonoridade de cantiga    de ninar, animei&#45;me a conversar com ela sobre seu cansa&ccedil;o e sua pouca    possibilidade de sonhar. Falamos como esse viver alucinado, esse sonambulismo    que n&atilde;o a deixava discriminar sonho e realidade era perturbador. Ao final    da sess&atilde;o estava mais calma, dizendo&#45;se mais vitalizada. Quanto &agrave;    segunda condi&ccedil;&atilde;o, no sentido de investigar o sentimento de v&ecirc;&#45;la    esquecida configurado em minha escuta mel&oacute;dica, optei por perguntar&#45;lhe:    "O que voc&ecirc; est&aacute; procurando?". Ela respondeu: "Estou    sem for&ccedil;as, triste, n&atilde;o estou procurando nada". Insisti,    contestando&#45;a: "Nada, talvez seja o que voc&ecirc; encontrou… Mas o qu&ecirc;?    Quem? Voc&ecirc; est&aacute; procurando e talvez tenha encontrado nada?".    Falou&#45;me de sua invisibilidade frente ao olhar da m&atilde;e. Optei por n&atilde;o    fazer nenhuma interpreta&ccedil;&atilde;o de sentido sobre o conte&uacute;do    de suas lembran&ccedil;as. Apenas assinalei que essa era uma situa&ccedil;&atilde;o    muitas vezes presente entre n&oacute;s. Tanto a percebia invis&iacute;vel para    si mesma como tamb&eacute;m me sentia invis&iacute;vel para ela. Tinha a impress&atilde;o    de v&ecirc;&#45;la encarcerada em sua fala e em suas conclus&otilde;es, como se    fosse uma solit&aacute;ria na ocasi&atilde;o me veio &agrave; mente a <I>Taenia    solium</I>, cest&oacute;deo hermafrodita que se auto&#45;reproduz. Relacionou seu    isolamento e sua sensa&ccedil;&atilde;o de invisibilidade com o fato de nunca    ter se sentido causa do prazer de algu&eacute;m. Pareceu&#45;me, ao final do encontro,    estar mais desfascinada do espelhamento que a aprisionava em seu pr&oacute;prio    discurso. Lembrei&#45;me de Freud (20) que, em uma divertida e profunda reflex&atilde;o,    comenta ter escutado uma crian&ccedil;a, no terror de sua solid&atilde;o representada    pelo escuro do quarto, pedir a sua tia que, do quarto vizinho, falasse com ela.    Frente ao coment&aacute;rio da tia que a contesta dizendo que n&atilde;o adiantaria    falar uma vez que n&atilde;o podia ser vista, a crian&ccedil;a responde: &eacute;    que <B>quando se fala fica mais claro</B>. </font></P>     <p><font size="3">A responsabilidade por uma escuta propiciadora de constru&ccedil;&atilde;o    de linguagem em seu potencial <I>poi&eacute;tico</I> &eacute;, no tratamento    psicanal&iacute;tico, a condi&ccedil;&atilde;o &eacute;tica do analista em seu    trabalho. A&iacute; deve residir o desejo do analista que &eacute;, assim, desejo    de an&aacute;lise. An&aacute;lise entendida, portanto, n&atilde;o como humanismo    que se centralize na escuta existencialista ou comportamental proposta pelo    comunicacional do discurso, mas que resgate a linguagem em sua materialidade    <I>poi&eacute;tica</I>, quest&atilde;o que se imp&otilde;e como fundamental    para a esperan&ccedil;a de que possamos, ao nos escutarmos, reconstruirmo&#45;nos    continuamente. Nas palavras de F&eacute;dida, citando James Joyce, "um    homem quando j&aacute; n&atilde;o tem mais nada a perder ainda lhe resta a linguagem"    (21).</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Homero Vettorazzo Filho</b> &eacute; psicanalista, membro    associado da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo,    professor e supervisor do Departamento de Psican&aacute;lise do Instituto Sedes    Sapientiae.</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <p><font size="3">1.  <I>Apud</I> Azambuja, C. S. "Carta a um jovem psicanalista".    Trabalho apresentado na aula do Instituto de Psican&aacute;lise inaugural do    Instituto de Psican&aacute;lise "Durval Marcondes" da Sociedade Brasileira    de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo (SBPSP). S&atilde;o Paulo, 12 fev.    2007. </font></P>     <p><font size="3">2.  Uso o termo <I>poi&eacute;tico</I> para enfatizar o radical    grego da palavra que significa cria&ccedil;&atilde;o, fabrica&ccedil;&atilde;o,    discriminando&#45;a de po&eacute;tico, palavra de origem latina cujo sentido refere&#45;se    &agrave; poesia, &agrave; obra po&eacute;tica.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  F&eacute;dida, P. <I>Nome, figura e mem&oacute;ria</I>.    S&atilde;o Paulo: Escuta. 1992. p.16.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048077&pid=S0009-6725200900020001600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <p><font size="3">4.  <I>Ibidem</I> p.39.</font></P>     <p><font size="3">5.  Os destaques em negritos s&atilde;o do autor. </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6.  Birman, J. <I>Freud e a filosofia</I>. Rio de Janeiro:    Jorge Zahar Editor. 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048081&pid=S0009-6725200900020001600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <p><font size="3">7.  F&eacute;dida, P. <I>Op. Cit.,</I> 1992. p. 46.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">8.  <I>Ibidem</I> p. 55&#45;56.</font></P>     <p><font size="3">9.  <I>Apud</I> F&eacute;dida, p.52.</font></P>     <p><font size="3">10.  F&eacute;dida, P. <I>Op. Cit.,</I> 1992. p.52.</font></P>     <p><font size="3">11.  <I>Ibidem</I> p. 16.</font></P>     <p><font size="3">12.  Tal no&ccedil;&atilde;o de F&eacute;dida &eacute; inspirada    no <I>Corpus hipocr&aacute;tico, </I>no qual a palavra pronunciada &eacute;<I>    anamnesis </I>que significa o relembrar, o lembrar remontando.</font></P>     <p><font size="3">13.  F&eacute;dida, P. <I>Op. Cit.,</I> 1992. p.15.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">14.  Freud, S. "A guisa de introdu&ccedil;&atilde;o    ao narcisismo". In: S. Freud <I>SE </I>Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.    1976.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048090&pid=S0009-6725200900020001600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">15.  Aulagnier, P. <I>Os destinos do prazer</I>. Rio de Janeiro:    Imago. 1985.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048092&pid=S0009-6725200900020001600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">16.  Bleichmar, S. "Sexualidade infantil". Apresentado    em semin&aacute;rios em S&atilde;o Paulo (texto n&atilde;o publicado), 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048094&pid=S0009-6725200900020001600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">17.  Lacan, J. "Da cria&ccedil;&atilde;o <I>ex nihilo"</I>.    In: Lacan, J. <I>Livro 7</I>. <I>A &eacute;tica em psican&aacute;lise</I>. Rio    de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048096&pid=S0009-6725200900020001600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <p><font size="3">18.  <I>Ibidem</I> p. 152.</font></P>     <p><font size="3">19.  Tratam&#45;se das can&ccedil;&otilde;es: <I>Meu pai Oxal&aacute;</I>    (letra e m&uacute;sica de Toquinho e Vin&iacute;cius de Moraes) e <I>Ora&ccedil;&atilde;o    da m&atilde;e menininha </I>(letra e m&uacute;sica de Dorival Caymmi).</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">20.  Freud, S. "A ansiedade". In: S. Freud <I>SE</I>.    Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago. 1976.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048100&pid=S0009-6725200900020001600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <p><font size="3">21.  <I>Apud</I> F&eacute;dida, p. 36.</font></P>      ]]></body>
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