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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>O ESCRITOR FREUD E A PSICAN&Aacute;LISE</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Andr&eacute; Carone</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>A</b></font><font size="3"> descri&ccedil;&atilde;o de um    estilo parece ficar &agrave; margem do essencial. Seu alvo &eacute; o modo de    express&atilde;o de certa ideia e n&atilde;o o conte&uacute;do. Ela estaria    destinada a tocar em quest&otilde;es sem jamais entrar nelas, acompanhando &agrave;    dist&acirc;ncia, por uma via secund&aacute;ria, o cerne das coisas. Esse desvio    passa a ser mais grave se o autor de quem falamos apresenta&#45;se como "um    investigador da natureza, e n&atilde;o um poeta" (1). O risco consistiria,    nesse caso, em sobrevalorizar tra&ccedil;os aparentes da escrita, que n&atilde;o    podem ser assimilados a um modelo coerente de explica&ccedil;&atilde;o. Se cedemos    espa&ccedil;o aos elementos singulares da escrita como ritmo, varia&ccedil;&otilde;es    de perspectiva ou vocabul&aacute;rio, eliminamos a possibilidade de compreender    uma investiga&ccedil;&atilde;o de modo rigoroso. E s&atilde;o justamente os    elementos singulares que emergem do contato com a vida &iacute;ntima do texto.    Aproximar&#45;se do estilo implicaria o risco de uma trai&ccedil;&atilde;o ao conte&uacute;do    das ideias no momento em que elas est&atilde;o mais pr&oacute;ximas, pois tentamos    buscar nos detalhes que excedem ao esquema geral da teoria uma explica&ccedil;&atilde;o    para a pr&oacute;pria teoria. </font></P>     <p><font size="3">As premissas desse impasse aparente fazem crer que um estudo    a respeito de Freud como escritor exige a suspens&atilde;o do ju&iacute;zo sobre    a verdade da psican&aacute;lise em troca do contato com um material singular    e irredut&iacute;vel a uma ordem de raz&otilde;es, conduzindo&#45;nos a uma confus&atilde;o    entre arte e ci&ecirc;ncia em que teses e argumentos s&atilde;o estetizadas    como se devessem agradar e n&atilde;o serem compreendidos. Mas toda a s&eacute;rie    de oposi&ccedil;&otilde;es que faz parecer natural a divis&atilde;o entre a    coisa verdadeira e seu modo de express&atilde;o &#150; tra&ccedil;os aparentes contra    tra&ccedil;os determinantes, excedente contra ess&ecirc;ncia, subjetivo contra    objetivo &#150; prende&#45;se mais ao que deve ser a prosa de criadores te&oacute;ricos    do que a prosa que eles de fato realizam. Com essa separa&ccedil;&atilde;o,    tomada como algo evidente em si mesmo, deixa&#45;se de ver que o ponto de chegada,    em um estudo sobre o estilo, n&atilde;o &eacute; menos suspeito do que o ponto    de partida que o condena ao pressupor, em sil&ecirc;ncio, que podemos atingir    conte&uacute;dos sem antes nos remetermos &agrave; linguagem que os transmitem,    como se eles estivessem dados num campo de pura transpar&ecirc;ncia e n&atilde;o    se constru&iacute;ssem dentro da linguagem. Tudo transcorre como se a atividade    que fabrica os arranjos e distin&ccedil;&otilde;es conceituais fosse efeito    indesejado e obst&aacute;culo &agrave; transpar&ecirc;ncia do conceito. O gesto    de desconfian&ccedil;a contra as imprecis&otilde;es da linguagem, com o qual    se quer reduzir a an&aacute;lise do estilo &agrave; "mera literatura",    presume essa transpar&ecirc;ncia quando deveria antes procurar demonstr&aacute;&#45;la;    e a aus&ecirc;ncia dessa pergunta cria a s&eacute;rie de oposi&ccedil;&otilde;es    que esvazia a quest&atilde;o do estilo &#150; como se a linguagem n&atilde;o fosse    tamb&eacute;m ela um conte&uacute;do &#150; antes mesmo que se tenha encontrado os    termos que tornam vi&aacute;vel a resposta.</font></P>     <p><font size="3">Por obrigar&#45;nos a reconhecer uma s&eacute;rie de choques e grada&ccedil;&otilde;es    entre os pares de opostos em vez de apontar caminhos diretos para anular a contradi&ccedil;&atilde;o,    a obra de Freud representa uma boa oportunidade para se investigar essa teia    de rela&ccedil;&otilde;es. Para compreender ou recusar sua psicologia n&atilde;o    &eacute; necess&aacute;rio recorrer &agrave; est&eacute;tica, e nunca faltaram    leitores simp&aacute;ticos ou relutantes &agrave; psican&aacute;lise que admirassem    nele o estilo refinado e preciso. Ele maneja conceitos e no&ccedil;&otilde;es    gerais herdados da psicologia e da filosofia (como "repress&atilde;o",    "associa&ccedil;&atilde;o", "inconsciente", ou "representa&ccedil;&atilde;o")    ao mesmo tempo em que dilata o significado dessas palavras quando as insere    em novos quadros de compreens&atilde;o, apropriando&#45;as em um &uacute;nico golpe    como refer&ecirc;ncias da novidade do seu pensamento e da continuidade de uma    tradi&ccedil;&atilde;o. Ele n&atilde;o precisa transgredir regras formais para    forjar um estilo no qual pode determinar suas pr&oacute;prias regras. Sua linguagem    se torna precisa &agrave; medida que cria seus pr&oacute;prios instrumentos    de precis&atilde;o, e sua atitude cient&iacute;fica se traduz muito mais no    poder para a cria&ccedil;&atilde;o e transforma&ccedil;&atilde;o de modelos    do que na estrita obedi&ecirc;ncia a princ&iacute;pios gerais que determinam,    a partir do exterior, o objeto a ser investigado. Perspectivas opostas se combinam    nesse pensador t&atilde;o afeito a dualismos: suas ideias reiteram o antigo    enquanto comp&otilde;em uma nova realidade, aliam&#45;se &agrave; literatura ao    passo que constituem uma ci&ecirc;ncia, veiculadas por um estilo discreto que    chama a aten&ccedil;&atilde;o por parecer ausente.</font></P>     <p><font size="3">Nasce com a psican&aacute;lise uma linguagem especial para a    apreens&atilde;o de seus objetos. Estilo, linguagem e sintaxe servem &agrave;    apresenta&ccedil;&atilde;o de um conte&uacute;do e de um modo de reflex&atilde;o    novos. Nesse sentido, Freud alinha&#45;se a outros autores da primeira metade do    s&eacute;culo XX &#150; como Henri Bergson e Ludwig Wittgenstein, Edmund Husserl,    Martin Heidegger ou mesmo o psicanalista Jacques Lacan &#150; para quem a constru&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rica deve abrigar o reflexo da pr&oacute;pria mat&eacute;ria a ser    apreendida, ou pela nitidez ou pelo estranhamento da linguagem. Mas a escrita    de Freud n&atilde;o se fixa no terreno da abstra&ccedil;&atilde;o. Sua inten&ccedil;&atilde;o    te&oacute;rica est&aacute; cortada pela linguagem quase inaud&iacute;vel dos    eventos aos quais se quer atribuir um sentido: sonhos, esquecimentos, trocas    de palavras, associa&ccedil;&otilde;es sem nexo aparente assumem a forma tang&iacute;vel    de um relato ao qual outros fragmentos de mem&oacute;rias, imagens e palavras    s&atilde;o somados para construir narrativas que revelam, por aproxima&ccedil;&otilde;es    inusitadas, aquilo que cada pessoa ignorava a respeito de si mesmo. Ele cria    formas precisas para sonhos e hist&oacute;rias cl&iacute;nicas que apresenta,    de modo aparentemente despreocupado, como se quisesse apenas registr&aacute;&#45;los,    enquanto fabrica suas distin&ccedil;&otilde;es em meio &agrave;s indetermina&ccedil;&otilde;es    da linguagem comum. A posi&ccedil;&atilde;o indeterminada de seu vocabul&aacute;rio    t&eacute;cnico j&aacute; nos diz algo sobre sua concep&ccedil;&atilde;o de ci&ecirc;ncia.    Ao lan&ccedil;ar seus conceitos em um registro intermedi&aacute;rio (nunca se    sabe ao certo se uma palavra deve ser tomada no sentido t&eacute;cnico, derivado    ou metaf&oacute;rico), ele conquista a liberdade para transitar por entre os    fen&ocirc;menos e, mais ainda, para deslocar&#45;se com a psican&aacute;lise por    dom&iacute;nios como literatura, antropologia, medicina ou psicologia. Mesmo    quando alcan&ccedil;am o limite da obscuridade, suas especula&ccedil;&otilde;es    tentam delimitar o que n&atilde;o se v&ecirc; com clareza. A linguagem da teoria    preserva a opacidade da vida psicol&oacute;gica e permanece solid&aacute;ria    aos fen&ocirc;menos que ordena, articula e traduz. Ela pode, por isso, remeter&#45;se    &agrave; vida psicol&oacute;gica simultaneamente como fonte e alvo de explica&ccedil;&atilde;o.    O conceito comp&otilde;e a forma dos fen&ocirc;menos sob a condi&ccedil;&atilde;o    de ser composto por eles, numa intera&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua com aquilo    que n&atilde;o &eacute; conceito. A contrapartida dessa opacidade, que afeta    a determina&ccedil;&atilde;o do conceito, &eacute; a cria&ccedil;&atilde;o de    um nexo entre descri&ccedil;&atilde;o e reflex&atilde;o que antecede &agrave;s    defini&ccedil;&otilde;es.</font></P>     <p><font size="3">Os elementos da quest&atilde;o nunca passaram despercebidos.    Apresenta&ccedil;&otilde;es gerais das ideias de Freud registram, desde sempre,    a riqueza de sua prosa na mesma propor&ccedil;&atilde;o em que se recusam a    analis&aacute;&#45;la, como se os tra&ccedil;os da escrita estivessem remetidos    a uma realidade exterior ao texto. Ainda que notado com frequ&ecirc;ncia, o    estilo freudiano raramente recebeu tratamento. Teme&#45;se aqui o risco da arbitrariedade,    e a linguagem se converte ent&atilde;o em amea&ccedil;a &agrave; psican&aacute;lise.    Em nenhum outro terreno esse paradoxo emergiu mais claramente do que no debate    a respeito da tradu&ccedil;&atilde;o de sua obra para l&iacute;nguas estrangeiras,    sob o argumento de que se deve sacrificar a eleg&acirc;ncia do estilo em nome    do rigor conceitual, ainda que seja necess&aacute;rio buscar nomes ou express&otilde;es    incomuns em que a nitidez dos conceitos ficaria a salvo das varia&ccedil;&otilde;es    e dos equ&iacute;vocos da linguagem comum. A sobreposi&ccedil;&atilde;o das    no&ccedil;&otilde;es de estilo e eleg&acirc;ncia denuncia a falsidade no antagonismo    que op&otilde;e o sentido da constru&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica ao n&atilde;o&#45;sentido    de uma linguagem comum deslegitimada por antecipa&ccedil;&atilde;o. Apresenta&#45;se    o rigor como se ele existisse para al&eacute;m das palavras e desconsidera&#45;se    que aos contornos incertos de uma argumenta&ccedil;&atilde;o caberia, ao menos,    a fun&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria de demarcar, pela via negativa, o territ&oacute;rio    do conceito. Busca&#45;se, sob o pretexto da cientificidade, a exatid&atilde;o aparente.    A leitura est&eacute;tica da obra de Freud j&aacute; foi suficientemente repreendida    como ingenuidade subjetiva, mas pouco se fala sobre a ingenuidade epistemol&oacute;gica    que n&atilde;o quer reconhecer a ci&ecirc;ncia quando ela n&atilde;o comparece    em trajes cient&iacute;ficos. A autonomia dos princ&iacute;pios se afirma &agrave;s    custas da mat&eacute;ria a ser investigada, e o estilo de Freud &eacute; reduzido    &agrave; adere&ccedil;o te&oacute;rico no momento mais decisivo. Refor&ccedil;a&#45;se    a distin&ccedil;&atilde;o entre objetivo e subjetivo, em vez de se recusar a    identidade entre ci&ecirc;ncia e conhecimento organizado (2) que quer tornar    o estilo irrelevante. Em nome do rigor objetivo, transforma&#45;se a vida ps&iacute;quica    em mat&eacute;ria&#45;prima sem congru&ecirc;ncia &#150; pois o material s&oacute; &eacute;    admitido sob a condi&ccedil;&atilde;o de cindir&#45;se da ordem te&oacute;rica.    Mas a mescla entre objetivo e subjetivo &eacute; tamb&eacute;m uma parte da    estrat&eacute;gia de Freud para descobrir determina&ccedil;&otilde;es na narrativa    e nas circunst&acirc;ncias de vida que aparentemente n&atilde;o possuem sentido    algum: h&aacute; nelas um rigor n&atilde;o declarado, solid&aacute;rio &agrave;    ideia de que os atos ps&iacute;quicos s&atilde;o determinados e pass&iacute;veis    de interpreta&ccedil;&atilde;o.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Essa relut&acirc;ncia nos faz perguntar se um autor n&atilde;o    est&aacute; mais pr&oacute;ximo da verdade quando escreve mal &#150; ou ainda, se    ao eliminar o prazer da leitura n&atilde;o conhecemos a objetividade em estado    pleno. Partindo dessa premissa, dever&iacute;amos concluir que ao tornar um    texto mais interessante n&oacute;s o tornamos, necessariamente, mais falso.    Uma trilha oposta era aberta em 1930 por Walter Muschg, o primeiro cr&iacute;tico    a estudar a prosa freudiana, na abertura do ensaio "Freud como escritor":    "N&atilde;o fiquei encantado porque ele escreve bem, mas porque coloca    sua pena a servi&ccedil;o de uma meta elevada, alcan&ccedil;ada de forma grandiosa    &#150; porque seu padr&atilde;o liter&aacute;rio est&aacute; evidentemente condicionado    por seu objeto. Ele exprime a rara unidade entre conte&uacute;do e forma que    sentimos como algo espont&acirc;neo, o car&aacute;ter de necessidade da produ&ccedil;&atilde;o    liter&aacute;ria cuja aus&ecirc;ncia se faz sentir em outros dom&iacute;nios.    Se, para suas teorias, admito a censura pela impropriedade, a situa&ccedil;&atilde;o    &eacute; outra no tocante &agrave; express&atilde;o que as veicula. E aqui arrisco    um ju&iacute;zo que n&atilde;o se refere ao poder, mas &agrave; autenticidade:    &eacute; poss&iacute;vel, ou mesmo indispens&aacute;vel, que um objeto seja    reconhecido tamb&eacute;m por sua forma, e que nossa sensibilidade legitime    ou coloque sob suspeita a forma de sua express&atilde;o. Um estilo que prova    ser "bom" ap&oacute;s esse exame apenas pertence &agrave; verdade.    Sempre ri ao ver "raposas da academia", maus escritores, tentando    provar a irrelev&acirc;ncia de um (Johann Jacob) Bachofen, sem revelar empatia    pelo poder de sua linguagem, quando a conex&atilde;o verdadeira &#150; a verdade    nem sempre coincide com a corre&ccedil;&atilde;o &#150; j&aacute; &eacute; evidente    no estilo" (3).</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/a17img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A vis&atilde;o original de Walter Muschg se faz notar pela aproxima&ccedil;&atilde;o    entre objeto e padr&atilde;o liter&aacute;rio, com a qual ele j&aacute; procurava    reunir os fios que toda uma tradi&ccedil;&atilde;o de leitura tentaria dispersar    mais adiante. Ele toma a sensibilidade como crit&eacute;rio positivo para discernir    a verdade inscrita na forma, realizando o oposto de uma estetiza&ccedil;&atilde;o    do discurso: a descoberta te&oacute;rica, sedimentada no estilo, atravessa os    elementos liter&aacute;rios da obra. Por tornar evidentes as conex&otilde;es    verdadeiras, eles antes realizam as ideias do que as obscurecem. O reconhecimento    do estilo desmancha assim a identidade entre verdade e corre&ccedil;&atilde;o:    a suspens&atilde;o da regra pode denunciar as limita&ccedil;&otilde;es de um    estilo que &eacute; apenas correto e, por isso, n&atilde;o questiona a pr&oacute;pria    ideia de corre&ccedil;&atilde;o. A descoberta do verdadeiro exige tor&ccedil;&otilde;es    da linguagem que, mesmo parecendo incorretas, revelam o inusitado. A senten&ccedil;a    de Muschg &#150; "a verdade nem sempre coincide com a corre&ccedil;&atilde;o"    &#150; parece ecoar a passagem em que Freud quase se desculpa diante dos leitores    dos <I>Estudos sobre a histeria </I>por ter redigido hist&oacute;rias cl&iacute;nicas    "que podem ser lidas como novelas" e parecem "esquivar&#45;se da    marca austera da ci&ecirc;ncia". Mas nesse instante em que rompe com os    padr&otilde;es de uma apresenta&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, ele atribui    o desvio "mais &agrave; natureza do objeto do que &agrave; minha inclina&ccedil;&atilde;o"    (4), com o qual busca paradoxalmente a identidade profunda de sua ci&ecirc;ncia.    Servindo&#45;nos dos termos de Muschg, dir&iacute;amos que, nesse caso, a passagem    pela literatura contorna a corre&ccedil;&atilde;o para alcan&ccedil;ar a verdade.    Essa mesma oposi&ccedil;&atilde;o parece estar em jogo tamb&eacute;m na censura    feita por Freud &agrave; pretensa objetividade dos relatos cl&iacute;nicos tradicionais:    "… deve&#45;se ter em mente que protocolos exatos, num caso cl&iacute;nico,    ajudam menos do que se poderia esperar. A rigor, ostentam a pseudo&#45;exatid&atilde;o    de que a 'moderna' psiquiatria nos oferece exemplos not&oacute;rios. Geralmente    s&atilde;o cansativas para o leitor, e n&atilde;o conseguem substituir para    ele a presen&ccedil;a na an&aacute;lise… Este n&atilde;o parece ser o caminho    para remediar a falta de evid&ecirc;ncia que se enxerga nos relatos psicanal&iacute;ticos"    (5).</font></P>     <p><font size="3">Se destacamos a continuidade entre a vis&atilde;o do cr&iacute;tico    e a atitude do autor, n&atilde;o deixaremos tamb&eacute;m de apontar uma contradi&ccedil;&atilde;o    na proposta de Muschg. Se o "bom" estilo pertence &agrave; verdade,    como censurar impropriedades nas teorias de Freud? Se a forma nos revela o objeto,    ela n&atilde;o poderia ser apreciada sem a considera&ccedil;&atilde;o do seu    conte&uacute;do. &Eacute; bem verdade que Muschg ensaia em v&aacute;rias ocasi&otilde;es    uma aproxima&ccedil;&atilde;o entre esse estilo e a terapia psicanal&iacute;tica,    como, por exemplo, ao relacionar as constantes refer&ecirc;ncias &agrave; figura    do leitor com a situa&ccedil;&atilde;o da an&aacute;lise. Mas aqui &eacute;    necess&aacute;rio reconhecer que a contradi&ccedil;&atilde;o reside mais na    natureza do autor do que na inclina&ccedil;&atilde;o dos int&eacute;rpretes:    &eacute; o pr&oacute;prio texto de Freud que parece resistir a uma abordagem    da forma que tentasse restituir a separa&ccedil;&atilde;o entre coisas e palavras.    Se ele nos lan&ccedil;a ao terreno da literatura e a converte em objeto de investiga&ccedil;&atilde;o    &eacute; porque, mesmo sendo solid&aacute;rio ao artista, n&atilde;o quer ocupar    sua posi&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Uma perspectiva diferente da adotada por Muschg iria formar&#45;se    depois em <I>A prosa de Sigmund Freud</I> (1968), de Walter Sch&ouml;nau. Partindo    de uma demarca&ccedil;&atilde;o r&iacute;gida entre prosa cient&iacute;fica    e prosa art&iacute;stica (6), Sch&ouml;nau guarda uma certa dist&acirc;ncia    em face da avalia&ccedil;&atilde;o de Muschg e ressalta que a obra escrita n&atilde;o    representava um fim em si mesmo para Freud. Ela era apenas um dos canais para    a transmiss&atilde;o da psican&aacute;lise, ao lado de discuss&otilde;es orais,    comunica&ccedil;&otilde;es privadas ou cartas (7). A tarefa de Sch&ouml;nau    consiste em localizar e discutir elementos liter&aacute;rios do texto, como    ep&iacute;grafes, cita&ccedil;&otilde;es, analogias ou met&aacute;foras sem    atribuir&#45;lhes uma fun&ccedil;&atilde;o determinada. As implica&ccedil;&otilde;es    da presen&ccedil;a desses elementos na obra, bem como sua recorrente infiltra&ccedil;&atilde;o    na teoria, s&atilde;o assinaladas pelo cr&iacute;tico: "O antagonismo severo    entre arte e ci&ecirc;ncia se aplica &agrave; realidade, mas n&atilde;o &agrave;    obra de Freud" (8). Mas a admiss&atilde;o n&atilde;o o impede de atribuir    um valor apenas secund&aacute;rio aos aspectos que ele pretende destacar: "Estou    ciente de que a concentra&ccedil;&atilde;o sobre o aspecto est&eacute;tico&#45;liter&aacute;rio    carrega consigo o risco da distor&ccedil;&atilde;o. Por isso, ressalto que o    elemento liter&aacute;rio comp&otilde;e um aspecto parcial no conjunto do estilo    individual de Freud. Trata&#45;se aqui &#150; e isso vale para a prosa intelectual em    geral &#150; de um fen&ocirc;meno secund&aacute;rio e marginal que focalizamos para    fins de an&aacute;lise, sem negar que o aspecto liter&aacute;rio desempenha    um papel subordinado na estrutura geral" (9).</font></P>     <p><font size="3">Os termos do dilema s&atilde;o expostos com clareza, ainda que    Sch&ouml;nau n&atilde;o queira reuni&#45;los &#150; pois seria o caso de perguntar&#45;se,    aqui, se Freud e a psican&aacute;lise n&atilde;o teriam subvertido a partilha    que ele toma como certa. Sch&ouml;nau abandona a pista que havia lan&ccedil;ado    ao referir&#45;se &agrave; oposi&ccedil;&atilde;o entre arte e ci&ecirc;ncia para    acatar uma defini&ccedil;&atilde;o de prosa cient&iacute;fica recusada pelo    objeto que analisa. Sch&ouml;nau acredita que define o territ&oacute;rio do    estilo ao separar o aspecto liter&aacute;rio do aspecto te&oacute;rico, quando    na verdade est&aacute; negando &agrave; escrita de Freud a possibilidade de    remeter&#45;se a um conte&uacute;do real. N&atilde;o surpreende que ele deixe essa    escolha discretamente de lado nos momentos mais inspirados de seu estudo. Podemos    retomar aqui a avalia&ccedil;&atilde;o de Paulo C&eacute;sar de Souza, o primeiro    autor brasileiro a tratar desses dois leitores de l&iacute;ngua alem&atilde;:    "Se a perspectiva mais ampla de Sch&ouml;nau &eacute; question&aacute;vel,    podemos dizer que seus m&eacute;ritos se concentram na an&aacute;lise minuciosa    de alguns aspectos da linguagem de Freud, pela primeira vez realizada por um    germanista… o seu ponto forte reside na decifra&ccedil;&atilde;o de ep&iacute;grafes    e cita&ccedil;&otilde;es, na discuss&atilde;o de met&aacute;foras e s&iacute;miles    em geral, e no que isso revela sobre o autor Freud" (10). </font></P>     <p><font size="3">Em sua diversidade, os dois leitores se valem de estilos que    pouco tem em comum. As p&aacute;ginas de Muschg sobre Freud tendem a ser sugestivas    e sinuosas e n&atilde;o escondem o arrebatamento diante da for&ccedil;a que    habita em seu objeto de an&aacute;lise. Ele cita longas passagens dos textos    de Freud, &agrave;s quais acrescenta sua pr&oacute;pria voz, para depois devolver&#45;nos    a novas cita&ccedil;&otilde;es, como se quisesse dividir o espanto com seus    leitores. Perspectivas diferentes s&atilde;o adotadas para descrever a rela&ccedil;&atilde;o    entre Freud e a palavra escrita, e Muschg tamb&eacute;m cria seus pr&oacute;prios    s&iacute;miles para retratar um estilo que, at&eacute; ent&atilde;o, nunca havia    sido caracterizado &#150; seguindo, quem sabe, o exemplo do pr&oacute;prio Freud    ("Ele n&atilde;o &eacute; um amante deslumbrado da linguagem, vive com    ela um casamento em que as sensa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o tudo";    "ele ainda n&atilde;o se decidiu a saltar com firmeza a cerca entre conceito    e imagem") (11). O palco para o estudo de Sch&ouml;nau &eacute; menos inst&aacute;vel.    Ele aborda o texto de Freud a uma dist&acirc;ncia segura, comanda com generosidade    cita&ccedil;&otilde;es sem permitir que elas determinem os rumos de sua cr&iacute;tica.    Os lugares de sujeito e objeto n&atilde;o se confundem numa montagem que visa,    precisamente, aplacar uma sensibilidade compreendida como risco. </font></P>     <p><font size="3">Essas duas correntes opostas de ausculta&ccedil;&atilde;o e    sobrevoo est&atilde;o integradas no trabalho do psicanalista e cr&iacute;tico    liter&aacute;rio Patrick Mahony, de quem se pode dizer que se entrega a um esfor&ccedil;o    repetido para demonstrar, a partir de materiais e contextos os mais diferentes,    que "a posi&ccedil;&atilde;o ret&oacute;rica de Freud e sua express&atilde;o    verbal est&atilde;o profundamente implicadas em sua pr&oacute;pria maneira de    compreender a psican&aacute;lise" (12). Mahony adota explicitamente o partido    de Muschg contra as censuras de Walter Sch&ouml;nau, com quem divide o interesse    pela recorr&ecirc;ncia de t&oacute;picos lingu&iacute;sticos, pelas influ&ecirc;ncias    de estilo e pelo aspecto exclusivamente liter&aacute;rio da prosa freudiana.    Deve&#45;se a ele o alargamento e a reapari&ccedil;&atilde;o do debate sobre o estilo    de Freud que teve in&iacute;cio com seu <I>Freud como escritor</I> (1982), passando    por uma s&eacute;rie de outros trabalhos em que o interesse pela linguagem de    Freud se soma a outras ambi&ccedil;&otilde;es em que o autor procura integrar    o estudo da prosa &agrave; cl&iacute;nica e &agrave; teoria psicanal&iacute;tica,    bem como ao cen&aacute;rio hist&oacute;rico em que viveram Freud e seus pacientes,    ampliando assim o contexto inicial da investiga&ccedil;&atilde;o. A partir de    uma nova posi&ccedil;&atilde;o, ele faz ressurgir na leitura de Freud o dilema    que j&aacute; se manifestava na contribui&ccedil;&atilde;o dos antecessores:    ou o leitor aceita a separa&ccedil;&atilde;o entre arte e ci&ecirc;ncia para    depois descobrir suas lacunas, ou ent&atilde;o afirma o valor liter&aacute;rio    da obra para descobrir, ao final, que n&atilde;o se tratava propriamente de    literatura. S&oacute; podemos abordar o escritor Freud <I>atrav&eacute;s </I>de    alguma outra investiga&ccedil;&atilde;o, e, no entanto, o poder indireto de    sua escrita, sua capacidade de conceder forma a uma ci&ecirc;ncia desde o seu    nascimento, &eacute; a raz&atilde;o mais forte para que nos ocupemos dela. Por    situar&#45;se aqu&eacute;m das indaga&ccedil;&otilde;es centrais, a escrita nos    d&aacute; acesso a todas; e mesmo sem atac&aacute;&#45;las diretamente, pode reformular    nossas perguntas a partir de termos s&oacute; descobertos quando se aceita que    a constru&ccedil;&atilde;o de um pensamento depende de uma luta com as palavras.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Andr&eacute; Carone</b> &eacute; tradutor e doutor em    filosofia pela Universidade Federal de S&atilde;o Carlos (UFSCar).</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  Freud, S. <I>Die traumdeutung </I>&#91;<I>A interpreta&ccedil;&atilde;o    dos sonhos</I>&#93;. Frankfurt am Main, Fischer Verlag, 1999.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048139&pid=S0009-6725200900020001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <p><font size="3">2.  Os termos da distin&ccedil;&atilde;o pertencem a Adorno.    Ver <I>Notas de literatura I, </I>S&atilde;o Paulo: Editora 34/Duas Cidades,    p. 22.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  Muschg, Walter. <I>Die zerst&ouml;rung der deutschen    literatur </I>&#91;<I>A destrui&ccedil;&atilde;o da literatura alem&atilde;</I>&#93;.    Berna, Francke Verlag, 1950.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048142&pid=S0009-6725200900020001700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">4.  Breuer, J., e Freud, S. <I>Studien &uuml;ber hysterie    </I>&#91;<I>Estudos sobre a histeria</I>&#93;, Frankfurt am Main, Fischer Verlag, 1992.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048144&pid=S0009-6725200900020001700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">5.  Freud, S.<I> "</I>Ratschl&auml;ge f&uuml;r den Arzt    bei der psychoanalytischen bahandlung". &#91;<I>Recomenda&ccedil;&otilde;es    ao m&eacute;dico que pratica a psican&aacute;lise</I>&#93;. In: <I>Gesammelte Werke    Band VIII: </I>Fischer Verlag, Franfkurt am Main, 1999.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048146&pid=S0009-6725200900020001700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6.  Sch&ouml;nau, Walter. <I>Sigmund Freuds prosa. Literarische    elemente seines stils. </I>Stuttgart: J. B. Metzlersche Verlagsbuchhandlung,    1968.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048148&pid=S0009-6725200900020001700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <p><font size="3">7.  Sch&ouml;nau, W., op.cit., p. 13.</font></P>     <p><font size="3">8.  <I>Ibidem</I> p. 11.</font></P>     <p><font size="3">9.  <I>Ibidem</I> p. 8.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">10.  Souza, Paulo C&eacute;sar de. <I>As palavras de Freud.    O vocabul&aacute;rio freudiano e suas tradu&ccedil;&otilde;es. </I>S&atilde;o    Paulo: Editora &Aacute;tica, 1999.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048153&pid=S0009-6725200900020001700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <p><font size="3">11.  Muschg, Walter. <I>Op. Cit</I>., p. 317&#45;327. 1950.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">12.  Mahony, Patrick. <I>Freud e o homem dos ratos. </I>S&atilde;o    Paulo: Escuta, 1991.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=048156&pid=S0009-6725200900020001700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body>
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