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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>A PINTURA EM TEMPOS DE URG&Ecirc;NCIA: ALGUNS TRA&Ccedil;OS    DA CENA ART&Iacute;STICA</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Sergio Fingermann</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Onde est&aacute; o artista?    <br>   Onde est&aacute; a arte?    <br>   Que ventos respiramos no presente?</font></P>     <p><font size="3">Desde o Renascimento, at&eacute; fins da modernidade, n&atilde;o    houve altera&ccedil;&otilde;es muito significativas na maneira como o p&uacute;blico    via a arte.    <br>   Podemos mesmo afirmar que durante s&eacute;culos, viu&#45;se a pintura de forma    bastante parecida.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Quando a imagem era apresentada como obra de arte, o modo como as pessoas olhavam    para ela era condicionado por uma s&eacute;rie de pressupostos adquiridos sobre    e com a pr&oacute;pria arte:    <br>   Beleza,    <br>   Gosto,    <br>   Forma,    <br>   Civiliza&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">A t&eacute;cnica da perspectiva tinha organizado o campo visual.    <br>   O espectador era o centro do mundo.    <br>   O olhar do observador era uma esp&eacute;cie de farol, um feixe luminoso.    <br>   O mundo vis&iacute;vel era organizado pela t&eacute;cnica da perspectiva.    <br>   Eram variados os g&ecirc;neros de pintura: temas religiosos, retratos, naturezas&#45;mortas,    paisagens, temas hist&oacute;ricos.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Isso durou s&eacute;culos.    <br>   Altera&ccedil;&otilde;es profundas come&ccedil;aram a ser observadas a partir    da inven&ccedil;&atilde;o da fotografia e do cinema.    <br>   Modificou&#45;se, a partir da&iacute;, como os homens podiam ver todas as coisas.    <br>   O cinema mostrou que n&atilde;o existe s&oacute; um lugar, um centro, de onde    se v&ecirc; todas as coisas.    <br>   A pintura foi atingida nesse momento.    <br>   Modificou&#45;se.    <br>   O vis&iacute;vel passou a significar algo muito diferente.    <br>   Isso trouxe novos entendimentos para a pintura.</font></P>     <p><font size="3">No Impressionismo, aquilo que era vis&iacute;vel j&aacute; n&atilde;o    surgia pela forma.    <br>   O vis&iacute;vel tornou&#45;se emba&ccedil;ado, fugidio.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   No Cubismo, o vis&iacute;vel tornou&#45;se a totalidade das vis&otilde;es poss&iacute;veis.    <br>   Diversos pontos de vista superpostos.</font></P>     <p><font size="3">A m&aacute;quina possibilitou o surgimento de apar&ecirc;ncias    moment&acirc;neas. Fixou instantes.    <br>   Fomos esclarecidos de que a no&ccedil;&atilde;o de tempo &eacute; insepar&aacute;vel    da experi&ecirc;ncia do vis&iacute;vel.    <br>   A pintura, que at&eacute; ent&atilde;o tinha a singularidade de pertencer a    um determinado lugar ou espa&ccedil;o e que nunca podia ser vista em dois locais    ao mesmo tempo, multiplica&#45;se e fragmenta&#45;se em muitos significados, atrav&eacute;s    de todas as possibilidades de reprodu&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">As pinturas entram, por meio de diversos tipos de impress&atilde;o    e reprodu&ccedil;&atilde;o, em todos os lugares.    <br>   A unicidade da obra se partiu.    <br>   N&atilde;o est&atilde;o mais somente nas igrejas, castelos, museus.    <br>   Chegam &agrave;s nossas casas tamb&eacute;m.    <br>   As pinturas s&atilde;o vistas em contextos diferentes.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   O significado das pinturas diversifica&#45;se,    <br>   Fragmenta&#45;se.</font></P>     <p><font size="3">Para melhor compreendermos, poder&iacute;amos exemplificar assim:    <br>   Temos uma reprodu&ccedil;&atilde;o da Monalisa, de autoria de Leonardo da Vinci.    <br>   O quadro veio at&eacute; n&oacute;s gra&ccedil;as &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o    mec&acirc;nica.    <br>   Est&aacute; em nossa casa.    <br>   Se pud&eacute;ssemos nos deslocar at&eacute; Paris, no Museu do Louvre, para    ver aquele original e assim descobrir o que falta &agrave; nossa reprodu&ccedil;&atilde;o,    certamente nos colocar&iacute;amos algumas quest&otilde;es:    <br>   Falta qualidade (quais?) na reprodu&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o    ao original?    <br>   O que nos impressiona frente ao original?    <br>   Onde est&aacute; seu significado?    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Ser&aacute; que o significado se deslocou?    <br>   Ser&aacute; que aquilo que a pintura da Monalisa diz deslocou&#45;se para o que    ela &eacute;?    <br>   Onde est&aacute; a coisa da pintura?</font></P>     <p><font size="3">Desde o Renascimento, por um longo processo, vimos surgir profissionais    perif&eacute;ricos aos artistas e seus trabalhos.    <br>   Numa lenta evolu&ccedil;&atilde;o, elaboraram&#45;se figuras como historiadores    de arte, cr&iacute;ticos, <I>marchands, </I>colecionadores, jornalistas, especuladores,    curadores, etc; formam&#45;se tamb&eacute;m conselhos e sociedades amigas das institui&ccedil;&otilde;es    que guardam e escrevem a mem&oacute;ria da arte.    <br>   Reivindicam para si participa&ccedil;&atilde;o importante e poder na cena art&iacute;stica.</font></P>     <p><font size="3">A arte contempor&acirc;nea &eacute; mal apreendida pelo p&uacute;blico    porque ele est&aacute; perdido em meio aos diferentes tipos de atividades art&iacute;sticas.    <br>   Com os instrumentos de que disp&otilde;e, formados na modernidade, aqueles pressupostos    que tinha adquirido sobre a arte (tais como: beleza, gosto, forma, etc) j&aacute;    n&atilde;o d&atilde;o conta da frui&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia que    a arte contempor&acirc;nea prop&otilde;e.    <br>   Aquele p&uacute;blico que foi educado, que foi instru&iacute;do (j&aacute; h&aacute;    tanto tempo) nos valores culturais da modernidade, encontra&#45;se desamparado.    <br>   Faltam&#45;lhe crit&eacute;rios para exercer o ju&iacute;zo cr&iacute;tico em rela&ccedil;&atilde;o    ao que se lhe apresenta como arte.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Observa&#45;se que, mesmo exclu&iacute;do da compreens&atilde;o dos fen&ocirc;menos    art&iacute;sticos, esse p&uacute;blico mostra fidelidade aos eventos.    <br>   A ind&uacute;stria cultural tem funcionado bem. </font></P>     <p><font size="3">Na nossa sociedade h&aacute; um culto da arte.    <br>   Ela &eacute; a religi&atilde;o do homem de hoje.    <br>   Em nossa sociedade, a proximidade com a arte define a posi&ccedil;&atilde;o    cultural e associa&#45;se a um princ&iacute;pio de desenvolvimento.    <br>   O p&uacute;blico &eacute; incitado a considerar a arte como elemento indispens&aacute;vel    na vida contempor&acirc;nea.    <br>   Nossa sociedade tornou&#45;se uma "sociedade cultural".    <br>   O imperativo agora &eacute; ser "criativo" e "produzir arte".</font></P>     <p><font size="3">Visitando as grandes mostras de arte contempor&acirc;nea, museus,    galerias, exposi&ccedil;&otilde;es tempor&aacute;rias, observa&#45;se uma homogeneiza&ccedil;&atilde;o    de tend&ecirc;ncias, reduplicando modelos, repetindo artistas.    <br>   Os centros de arte perderam o respeito ao pluralismo das tend&ecirc;ncias, &agrave;s    diversidades de express&atilde;o.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   O car&aacute;ter das mostras n&atilde;o aponta para individualismos, mas, o    seu oposto, um conformismo geral e amalgamado.</font></P>     <p><font size="3">Nosso receio &eacute; de termos perdido toda medida, todo julgamento    e todos os valores.    <br>   Ser&aacute; uma decad&ecirc;ncia?    <br>   Ser&aacute; que precisamos utilizar um modelo diferente do que usamos na modernidade,    (per&iacute;odo que vai do Impressionismo &agrave;s Vanguardas) para captar    a realidade contempor&acirc;nea?</font></P>     <p><font size="3">Que ventos respiramos no presente?    <br>   Ser&aacute; que a experi&ecirc;ncia art&iacute;stica se constr&oacute;i somente    em sua pr&oacute;pria autoridade?    <br>   Se for isso, ela est&aacute; muito pr&oacute;xima da f&eacute; religiosa e pronta    a servir &agrave;s ditaduras pol&iacute;ticas.</font></P>     <p><font size="3">H&aacute; um vazio de conte&uacute;dos.</font></P>     <p><font size="3">Confunde&#45;se experi&ecirc;ncia com realiza&ccedil;&atilde;o..    <br>   Uma arte que, algumas vezes, parece desprezar a mem&oacute;ria.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Uma arte que, algumas vezes, parece desprezar a cultura.    <br>   Uma arte que, algumas vezes, transforma o anti&#45;humanismo em programa de a&ccedil;&atilde;o.    <br>   Uma arte que, algumas vezes, responde ao vazio com o vazio.</font></P>     <p><font size="3">Quais s&atilde;o as responsabilidades dos artistas?</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Sergio Fingermann</b> &eacute; artista pl&aacute;stico.    Realizou recentemente exposi&ccedil;&otilde;es na Pinacoteca do Estado de S&atilde;o    Paulo e no Museu Nacional de Artes Pl&aacute;sticas. &Eacute; autor dos livros:</i>    Fragmentos de um dia extenso <I>(2001) e </I>Elogio ao sil&ecirc;ncio <i>(2007),    S&atilde;o Paulo: Editora BEI.</i></font></P>      ]]></body>
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