<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252009000200026</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Prosa]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Botelho]]></surname>
<given-names><![CDATA[Mariana]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<volume>61</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>66</fpage>
<lpage>67</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252009000200026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252009000200026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252009000200026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n2/prosa.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size="3">M<SMALL>ARIANA</small> B<SMALL>OTELHO</small></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size="3"><b>INS&Ocirc;NIA</b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">&Eacute; noite. Tarde da noite. Deito&#45;me. Antes de deitar, amarro    meus cabelos. D&aacute;&#45;me uma sensa&ccedil;&atilde;o estranha, como se algo    passeasse por minhas costas. Percebo que &eacute; um grito. Me incomoda. Sorrateiramente,    pego o grito com uma das m&atilde;os. Dou gra&ccedil;as &agrave; flexibilidade,    afinal, ele estava nas costas. Fecho os olhos e aperto o bicho com as m&atilde;os,    tentando sufoc&aacute;&#45;lo. Enquanto isso, tento dormir. Mulheres s&atilde;o    boas pra fazer duas coisas ao mesmo tempo, dizem. De olhos fechados me lembro    que quero ver o mar. Lembro disso porque sinto areia nos olhos. Queria senti&#45;la    sob os p&eacute;s. Tento calar a sensa&ccedil;&atilde;o. Abro as m&atilde;os    pra ver se o grito j&aacute; morreu e ele quase me escapa. Tinhoso. Mais ainda    do que minha vontade, que j&aacute; morreu. O grito come&ccedil;a a me dar choque.    Acorda todas as cinco que sou: tato, olfato, audi&ccedil;&atilde;o, vis&atilde;o,    paladar. Agu&ccedil;a a sexta, que n&atilde;o consigo ser. A mais bonita. Todas    brigam entre si. Luzes se acendem e se apagam em todos os poros do meu corpo.    Meus vaga&#45;lumes internos fazem festa. Aperto o grito com mais for&ccedil;a,    mas &eacute; quase involunt&aacute;rio. Culpa dos espasmos. Me sinto um farol,    pelo ritmo. Mais duas polegadas de mim e eu me afogo. Desisto. Acendo a luz    externa. Amarro la&ccedil;os de fita nos meus olhos mais atrozes. E tento fazer    do grito uma voz que fala comigo.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size="3"><b>SOBRE UMA BONECA PUNK</b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">descobri que a solid&atilde;o n&atilde;o tem cor. todas as paredes    ro&ccedil;am sua frieza na minha agonia. fico aqui sentada, parada, olhando.    o vermelho desses tijolos crepitando e estalando sob o meu olhar fixo e dolorido.    a varanda por terminar, a vida por terminar. me lembro das toalhas de croch&ecirc;    que eu nunca terminei. eu ainda n&atilde;o terminei minha vida. sei que nunca    mais vou terminar aquelas toalhas. penso se ainda terminarei a vida. enquanto    isso n&atilde;o sei. lembro&#45;me ainda de quando eu queria parecer quem eu era.    era bom. uma bonequinha punk, doce, leve, suave, menina, sorridente, triste,    sozinha. o preto, o marrom, o cinza e o roxo. o caf&eacute; nas unhas, os furos    at&eacute; o alto da orelha, aquele monte de metais. a barriga sempre &agrave;    mostra. aquela boneca magrinha. aquela boneca s&oacute;. era bonito. todo mundo    me gostava, e eu t&atilde;o pouco. a pele branca... naquele tempo eu gostava    de contrastar. eu contrastava com as cores, com o sol quando estava sombria,    com o nublado quando estava ensolarada, com as amigas, sempre t&atilde;o dispostas,    sempre t&atilde;o felizes, sempre t&atilde;o namoradeiras e sempre t&atilde;o    tipicamente adolescentes. hoje n&atilde;o. hoje fa&ccedil;o mimetismo. com o    tom claro das roupas, com o comprimento das saias... tenho uma alma longa. vasta,    coitada. parece um pasto. e eu pare&ccedil;o um boi, pastando sobre ela. vivo    de ruminar palavras que n&atilde;o bastam. agora eu tenho parte na solid&atilde;o    que criei pra mim. ela &eacute; uma sala grande, com uma ac&uacute;stica boa.    eu posso gritar. eu j&aacute; n&atilde;o queimo versos. j&aacute; n&atilde;o    amo tanto as pessoas. j&aacute; n&atilde;o sou boneca. punk tampouco. suave,    muito pouco. j&aacute; n&atilde;o tenho metais, embora carregue algumas de suas    marcas. agora tenho l&aacute;bios, falo mais, choro menos e sou igual. agora    me pare&ccedil;o com essa senhorinha de &oacute;culos que olha a chuva na varanda.    com essa senhorinha de meias que olha a chuva na varanda. com essa senhorinha    que molha o pasto de sua alma olhando a chuva na varanda. agora me pare&ccedil;o    com essa senhorinha s&oacute;. &agrave;s vezes olho pra aquela estrada e penso    em caminh&aacute;&#45;la. mas da&iacute; me lembro que ao chegar l&aacute;, no meio    do caminho eu cortaria meus p&eacute;s. e seria tarde demais. ent&atilde;o penso    em cortar meus p&eacute;s antes de ir. pra n&atilde;o ir. e n&atilde;o vou.    fico aqui com essa solid&atilde;o incolor. com todas essas paredes frias se    esfregando, feito lesmas, na minha agonia. olhando o vermelho desses tijolos    crepitar e estalar sob o meu olhar fixo. esperando que um dia eu termine essa    varanda. esperando a vida terminar.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Mariana Botelho</b>, 25 anos, formada em educa&ccedil;&atilde;o    f&iacute;sica, vive em Padre Para&iacute;so, Vale do Jequitinhonha (MG). Poeta    in&eacute;dita em livro, escreve no blog <a href="http://quelevequenada.blogspot.com" target="_blank">http://quelevequenada.blogspot.com</a></i></font></P>      ]]></body>
</article>
