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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/artigos.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>AMAZ&Ocirc;NIA: FRONTEIRAS, IDENTIDADES E HIST&Oacute;RIA</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Patr&iacute;cia Melo Sampaio</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>U</b></font><font size="3">m homem alto, forte, usando as    armas dos ex&eacute;rcitos da Espanha, caminhava compassadamente pelas ruas    estreitas da vila de Ega (Tef&eacute;), naquela manh&atilde; de 1782, na Capitania    de S&atilde;o Jos&eacute; do Rio Negro, estado do Gr&atilde;o&#45;Par&aacute;. Aquele    n&atilde;o era um dia comum. Dif&iacute;cil saber o que pensava enquanto se    dirigia &agrave; sede da Comiss&atilde;o Portuguesa Demarcadora de Limites para    prestar o depoimento decisivo a respeito de sua condi&ccedil;&atilde;o naqueles    sert&otilde;es da Amaz&ocirc;nia. Eram verdadeiros os murm&uacute;rios que corriam    &agrave; solta entre as comitivas portuguesas e espanholas? Afinal, ele, Juan    de Silva, Capit&aacute;n de la Conquista, era mesmo um escravo fugitivo de Bel&eacute;m    do Par&aacute;? </font></P>     <p><font size="3">Afinal, o que se revelou foi uma hist&oacute;ria extraordin&aacute;ria…    Africano, nascido em Angola, Jo&atilde;o foi levado como escravo ainda menino    para a casa do comerciante Manoel Rodrigues Ponte, em Lisboa. Sobreviveu ao    grande terremoto de 1755 que, praticamente, destruiu a cidade. Em 1760, quando    tinha cerca de 17 anos, foi vendido e enviado a Bel&eacute;m do Par&aacute;    a servi&ccedil;o dos funcion&aacute;rios da Companhia Geral de Com&eacute;rcio    do Gr&atilde;o&#45;Par&aacute; e Maranh&atilde;o, empresa monopolista criada no    reinado de D. Jos&eacute; I, que mantinha o controle das rotas mercantis do    Par&aacute;, Maranh&atilde;o, &Aacute;frica Ocidental e Portugal, entre 1757    e 1777. Em Bel&eacute;m, trabalhou algum tempo nos armaz&eacute;ns da Companhia    onde se armazenavam o cacau e a salsaparrilha que seriam embarcados para Lisboa.    Ali aprendeu o <I>nheengatu </I>(l&iacute;ngua geral) e muitas outras coisas    sobre as formas de sobreviv&ecirc;ncia na Amaz&ocirc;nia que se revelariam extremamente    &uacute;teis nos anos que se seguiriam. </font></P>     <p><font size="3">Em 1762, cansados dos maus&#45;tratos, Jo&atilde;o da Silva, Fernando,    Jos&eacute; e outros dois escravos fugiram de Bel&eacute;m e, rio Amazonas acima,    alcan&ccedil;aram o rio Putumayo. Da&iacute;, chegaram aos Andes, atravessaram    para as cabeceiras do rio Aguarico e se abrigaram nas miss&otilde;es franciscanas    que l&aacute; existiam. Essa jornada durou algo em torno de cinco anos e viveram    a maior parte desse tempo entre os &iacute;ndios do rio Putumayo.</font></P>     <p><font size="3">Apresentando&#45;se como libertos, trabalharam para os religiosos    por mais de dez anos, ajudando&#45;os na implanta&ccedil;&atilde;o dos aldeamentos    mission&aacute;rios e isso incluia a constru&ccedil;&atilde;o de casas e pali&ccedil;adas    de defesa, montagem das ro&ccedil;as, manuten&ccedil;&atilde;o da disciplina    nos aldeamentos, entre outras atividades que s&oacute; aumentavam a j&aacute;    larga experi&ecirc;ncia de Jo&atilde;o e Fernando. N&atilde;o foi dif&iacute;cil    para eles entrarem para o servi&ccedil;o da Coroa de Espanha sendo comissionados,    por recomenda&ccedil;&atilde;o do governador da Prov&iacute;ncia de Mainas,    em 1778, como Capit&aacute;n de la Conquista y Reducci&oacute;n de los Indios    Infieles, depois de uma participa&ccedil;&atilde;o bem sucedida na derrota de    uma rebeli&atilde;o ind&iacute;gena.</font></P>     <p><font size="3">Diante disso, &eacute; f&aacute;cil entender porque D. Francisco    de Requena, comandante da Comissi&oacute;n del Mara&ntilde;&oacute;n, requisitou    os dois <I>capit&aacute;ns morenos </I>para integrar a comitiva espanhola do    Tratado de Santo Ildefonso (1777). Foi assim que Jo&atilde;o e Fernando chegaram    a Tef&eacute; em 1782, causando espanto &agrave; povoa&ccedil;&atilde;o portuguesa.    Al&eacute;m de portarem armas (prerrogativa pouco comum para homens negros na    col&ocirc;nia portuguesa), revelavam uma familiaridade invej&aacute;vel com    a floresta e com os &iacute;ndios: al&eacute;m do <I>nheengatu</I>, conheciam    a maior parte das l&iacute;nguas faladas no baixo Putumayo (I&ccedil;&aacute;)    e Caquet&aacute; (Japur&aacute;); sabiam tratar com os &iacute;ndios aldeados    e n&atilde;o aldeados; comandavam a abertura de ro&ccedil;as, dominavam as t&eacute;cnicas    da produ&ccedil;&atilde;o de farinha, da montagem das feitorias de manteiga    e pescado, da fabrica&ccedil;&atilde;o de canoas e da constru&ccedil;&atilde;o    de casas; conduziam canoas e faziam reconhecimentos de rios.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Jo&atilde;o e Fernando desempenhavam pap&eacute;is fundamentais    nos trabalhos da comiss&atilde;o espanhola e provocavam inc&ocirc;modo entre    os portugueses. Foi quando surgiu a den&uacute;ncia de que Jo&atilde;o era escravo    fugitivo do Par&aacute; e Jo&atilde;o Wilckens de Matos, respons&aacute;vel    pela Comiss&atilde;o Portuguesa, requisitou dos espanh&oacute;is sua imediata    recondu&ccedil;&atilde;o ao cativeiro, dando origem a uma s&eacute;rie de documentos,    depositados no Arquivo Hist&oacute;rico Ultramarino (AHU), Arquivo P&uacute;blico    do Par&aacute; (APP) e no Archivo General de las Indias (Sevilha), entre eles,    o depoimento de Jo&atilde;o (1).</font></P>     <p><font size="3">A hist&oacute;ria de Jo&atilde;o da Silva e seu companheiro    de armas, Fernando de Rojas, &eacute; surpreendente sob muitos aspectos mas,    em especial, por ser capaz de reunir a diversidade de atores que podem compor    as trajet&oacute;rias hist&oacute;ricas das regi&otilde;es de fronteira e, por    meio dela, ser poss&iacute;vel recuperar muitos outros personagens que tornaram&#45;na    ainda mais rica e complexa.</font></P>     <p><font size="3"><b>DESENHANDO FRONTEIRAS COLONIAIS</b> Uma forma de contextualizar    essas hist&oacute;rias da fronteira &eacute; falar das tentativas, mais ou menos    bem sucedidas, para sua demarca&ccedil;&atilde;o por meio de acordos diplom&aacute;ticos:    os tratados de demarca&ccedil;&atilde;o de limites. Era para isso que Jo&atilde;o,    Fernando e cerca de 800 pessoas haviam se estabelecido na pequena vila de Ega,    entre os anos de 1781 e 1791, envolvidos na execu&ccedil;&atilde;o do Tratado    de Santo Idelfonso. </FONT></P>     <p><font size="3">N&atilde;o era a primeira vez que se tentava dirimir as disputas    territoriais entre as coroas espanhola e portuguesa na Am&eacute;rica; s&oacute;    no s&eacute;culo XVIII, foram tr&ecirc;s tentativas: o Tratado de Madri (1750),    que inaugurou o uso do princ&iacute;pio demarcat&oacute;rio do <I>uti possidetis</I>    (a terra pertence a quem ocupa), foi respons&aacute;vel pela permuta da col&ocirc;nia    de Sacramento pelas miss&otilde;es guaranis (Sete Povos das Miss&otilde;es)    e sequer chegou a ser implementado na parte relativa aos territ&oacute;rios    amaz&ocirc;nicos; o Tratado de El Pardo (1761), que anulou o Tratado de Madri,    e, finalmente, o de Santo Ildefonso, assinado em 1º de outubro de    1777 (2;3).</FONT></P>     <p><font size="3">As comiss&otilde;es demarcadoras se estabeleceram na &aacute;rea    em momentos diferentes. A comiss&atilde;o portuguesa, composta por mais de 500    pessoas, chegou a Barcelos (sede da capitania de S&atilde;o Jos&eacute; do Rio    Negro) em outubro de 1780, sob o comando de Jo&atilde;o Pereira Caldas, governador    e capit&atilde;o&#45;general do estado do Gr&atilde;o&#45;Par&aacute; e Rio Negro. Em    1781, os portugueses partiram em comitiva para receber os espanh&oacute;is na    fortaleza de S&atilde;o Francisco Xavier de Tabatinga, quando D. Francisco de    Requena, governador da prov&iacute;ncia de Mainas, &agrave; frente de cerca    de 300 pessoas que compunham a comiss&atilde;o espanhola, chegou ao territ&oacute;rio    portugu&ecirc;s para iniciar a demarca&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/a11img01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Os trabalhos iniciais incluiam a coloca&ccedil;&atilde;o de    marcos e padr&otilde;es na foz do rio Javari e na boca do canal do Auati&#45;Paran&aacute;,    mas as tarefas demarcat&oacute;rias n&atilde;o eram f&aacute;ceis e, obviamente,    estavam permeadas pela desconfian&ccedil;a permanente. Era esperado que o clima    de tens&atilde;o favorecesse as disputas entre os demarcadores que foram se    tornando cada vez mais crescentes. Ainda em 1781, o primeiro dos impasses foi    a quest&atilde;o da permuta de fortalezas: o major Eus&eacute;bio Ant&ocirc;nio    Ribeiro recusou&#45;se a entregar a fortaleza de Tabatinga aos espanh&oacute;is    e, por seu turno, Requena tinha fortes retic&ecirc;ncias em entregar as fortalezas    de S. Carlos e S. Felipe, no rio Negro, aos portugueses. </font></P>     <p><font size="3">Todas as quest&otilde;es s&oacute; come&ccedil;ariam a ser solucionadas    quando se determinasse a verdadeira foz do rio Japur&aacute;, ponto zero da    demarca&ccedil;&atilde;o, que, naquele momento, ainda n&atilde;o era conhecida.    Nesse ponto, as comiss&otilde;es discordavam fortemente; para os espanh&oacute;is,    a foz ficava no rio Apaporis e, para os portugueses, era o rio dos Enganos.    Al&eacute;m dessa, havia a quest&atilde;o nebulosa da comunica&ccedil;&atilde;o    entre o rio Japur&aacute; e o rio Negro. Ambas ficaram sem solu&ccedil;&atilde;o,    a despeito das dezenas de viagens de explora&ccedil;&atilde;o, nas quais homens    como Jo&atilde;o e Fernando eram indispens&aacute;veis, e das in&uacute;meras    consultas &agrave;s respectivas metr&oacute;poles (4).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Al&eacute;m das disputas internas, o estabelecimento de tantas    pessoas provocava fortes altera&ccedil;&otilde;es no cotidiano das vilas e lugares    da capitania por conta do crescimento da demanda por alimentos, acomoda&ccedil;&otilde;es    e, principalmente, por trabalhadores &iacute;ndios. Especialistas asseguram    que a fr&aacute;gil estrutura demogr&aacute;fica dos n&uacute;cleos urbanos    coloniais foi severamente comprometida durante o per&iacute;odo das demarca&ccedil;&otilde;es    em fun&ccedil;&atilde;o do recrudescimento das demandas da Coroa portuguesa    por m&atilde;o&#45;de&#45;obra adicional(5).</font></P>     <p><font size="3">Finalmente, em 1791, D. Francisco de Requena e sua comitiva    se retiraram de Tef&eacute; retornando a Mainas. Nesse momento, Manoel da Gama    Lobo d'Almada j&aacute; havia assumido o comando das demarca&ccedil;&otilde;es    em substitui&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o Pereira Caldas e tamb&eacute;m o    governo da Capitania de S&atilde;o Jos&eacute; do Rio Negro. A Comissi&oacute;n    del Mara&ntilde;&oacute;n continuou em Mainas at&eacute; 1804 quando, finalmente,    foi dissolvida pela Coroa espanhola (6).</font></P>     <p><font size="3"><b>MUNDOS DO TRABALHO NA AMZ&Ocirc;NIA COLONIAL</b> A diversidade    dos trabalhos realizados por Jo&atilde;o e Fernando permite&#45;nos acessar o mundo    do trabalho na fronteira amaz&ocirc;nica. Desde a segunda metade do s&eacute;culo    XVIII, a regi&atilde;o passava por importantes transforma&ccedil;&otilde;es,    em especial, provocadas pela pol&iacute;tica reformista do ministro Sebasti&atilde;o    Jos&eacute; de Carvalho e Melo, Marqu&ecirc;s de Pombal, no curso do reinado    de D. Jos&eacute; I (1750&#45;1777). Na Amaz&ocirc;nia Portuguesa, o programa contemplou    especificidades como a penetra&ccedil;&atilde;o mercantilista do Estado nas    atividades econ&ocirc;micas (cria&ccedil;&atilde;o da Companhia de Com&eacute;rcio    do Gr&atilde;o&#45;Par&aacute; e Maranh&atilde;o), o est&iacute;mulo &agrave; miscigena&ccedil;&atilde;o    visando o aumento demogr&aacute;fico e, por fim, a quest&atilde;o indigenista,    expressa atrav&eacute;s da Lei das Liberdades (1755) e, posteriormente, do Diret&oacute;rio    dos &Iacute;ndios (1757&#45;1798) (7).</font></P>     <p><font size="3">Em princ&iacute;pio, os novos vassalos, rec&eacute;m liberados    da escravid&atilde;o, seriam os respons&aacute;veis pela garantia da posse dos    territ&oacute;rios disputados com a Espanha, os habitantes das povoa&ccedil;&otilde;es    e, por fim, os trabalhadores preferenciais (e, no mais das vezes, exclusivos)    para atender &agrave;s demandas da produ&ccedil;&atilde;o agropecu&aacute;ria    e das empresas de coleta de produtos da floresta &#151; "drogas do sert&atilde;o"    &#151; que davam vida &agrave; economia regional no correr do s&eacute;culo XVIII.    Fazer com que um n&uacute;mero cada vez maior de &iacute;ndios reconhecesse    a autoridade real, na condi&ccedil;&atilde;o de s&uacute;dito, era objetivo    a ser perseguido com todo o empenho poss&iacute;vel pelos administradores coloniais    na regi&atilde;o (8).</font></P>     <p><font size="3">A economia colonial do Gr&atilde;o&#45;Par&aacute; se desdobrava    em setores diversificados, mas articulados entre si. De um lado, a extra&ccedil;&atilde;o    de produtos florestais destinados &agrave; exporta&ccedil;&atilde;o que respondia    por vincula&ccedil;&otilde;es mercantis de maior rentabilidade no mercado internacional.    A despeito da pol&iacute;tica pombalina de incentivo &agrave; agricultura, foi    o com&eacute;rcio de "drogas do sert&atilde;o" que dominou as pautas    paraenses e garantiu as a&ccedil;&otilde;es da Companhia de Com&eacute;rcio    para a qual Jo&atilde;o foi vendido. A extra&ccedil;&atilde;o de produtos da    floresta movimentou as vilas, deslocou trabalhadores para atender as in&uacute;meras    canoas em dire&ccedil;&atilde;o ao sert&atilde;o, abalou frequentemente a produ&ccedil;&atilde;o    de alimentos e enriqueceu (em diferentes grada&ccedil;&otilde;es) diretores,    cabos, tesoureiros e muitos negociantes de maior calibre. Por outro lado, o    setor ligado &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de alimentos (o "sustento    ordin&aacute;rio") foi, muitas vezes, apontado como modesto e deficit&aacute;rio.    O cultivo de g&ecirc;neros export&aacute;veis como caf&eacute;, algod&atilde;o,    cana&#45;de&#45;a&ccedil;&uacute;car pode n&atilde;o ter superado os n&uacute;meros    da extra&ccedil;&atilde;o florestal, mas est&aacute; presente de maneira significativa    at&eacute; o s&eacute;culo XIX.</font></P>     <p><font size="3">A atividade mercantil era bastante significativa no Gr&atilde;o&#45;Par&aacute;.    A rota de com&eacute;rcio interno que o ligava ao Mato Grosso, por meio do rio    Madeira, era bastante importante durante o s&eacute;culo XVIII por movimentar    um volume significativo de mercadorias de alta rentabilidade; os comerciantes    paraenses embarcavam escravos africanos, adquiridos com financiamento da Companhia    de Com&eacute;rcio, e retornavam com ouro e diamantes das minas matogrossenses    vencendo dezenas de cachoeiras. A rigor, a a&ccedil;&atilde;o da Companhia de    Com&eacute;rcio foi decisiva para alavancar determinados setores da economia    local. A empresa atuou em setores estrat&eacute;gicos para solucionar dois problemas    cruciais: o do transporte, atrav&eacute;s do estabelecimento de frotas regulares    atrav&eacute;s do Atl&acirc;ntico, e o da m&atilde;o&#45;de&#45;obra, introduzindo escravos    africanos a pre&ccedil;os acess&iacute;veis. Foi mais longe que isso, assegurando    financiamento da produ&ccedil;&atilde;o e de melhorias t&eacute;cnicas, introduziu    novos cultivares, al&eacute;m de antecipar o pagamento dos soldos e construir    fortalezas como a de S&atilde;o Francisco Xavier de Tabatinga. Foi nos armaz&eacute;ns    da Companhia que Jo&atilde;o viveu e nem mesmo o poder da empresa foi capaz    de segur&aacute;&#45;lo no cativeiro. De certo modo, talvez tenha sido essa conviv&ecirc;ncia    com pr&aacute;ticos do sert&atilde;o e dezenas de &iacute;ndios que garantiram    a Jo&atilde;o e seus companheiros as informa&ccedil;&otilde;es sem as quais    a audaciosa fuga seria imposs&iacute;vel. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/a11img02.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Essas atividades econ&ocirc;micas responder&atilde;o pela presen&ccedil;a    de uma elite mercantil de prest&iacute;gio que, aos poucos, estenderia suas    a&ccedil;&otilde;es pelos vastos sert&otilde;es da Capitania aviando, acumulando    e adquirindo cabedais suficientes para possuir escravos e vastas propriedades.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>REINVENTANDO IDENTIDADES: OS HOMENS NA FRONTEIRA</b> Jos&eacute;    de Souza Martins assegura que o que faz da fronteira uma realidade singular    &eacute; o fato de que ela &eacute;, essencialmente, o lugar da alteridade.    Lugar de encontros entre diferentes, ao mesmo tempo, &eacute; tamb&eacute;m    de desencontros por for&ccedil;a da situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica    do conflito social que a define. Mais que desencontro de alteridades, o desafio    da fronteira &eacute; que ela coloca em perspectiva um desencontro de temporalidades    hist&oacute;ricas (9).</font></P>     <p><font size="3">Nossos personagens revelam parte dessa diversidade e recolocam    na cena hist&oacute;rica da Amaz&ocirc;nia a presen&ccedil;a das popula&ccedil;&otilde;es    africanas na regi&atilde;o, tema considerado de pouca relev&acirc;ncia por uma    determinada historiografia que insistia em minimizar o papel dos escravos africanos    na Amaz&ocirc;nia (10).</font></P>     <p><font size="3">As popula&ccedil;&otilde;es desembarcadas no Par&aacute; faziam    parte de etnias distintas, capturadas na rede comum dos mercadores de almas,    com predom&iacute;nio de escravos embarcados nos portos da &Aacute;frica Ocidental    no s&eacute;culo XVIII e da &Aacute;frica Central Atl&acirc;ntica no s&eacute;culo    XIX. Os n&uacute;meros s&atilde;o bastante imprecisos, mas, especialistas estimam    que, entre os s&eacute;culos XVII e XVIII, tenham sido introduzidos na Amaz&ocirc;nia    cerca de 80 mil escravos. </font></P>     <p><font size="3">Al&eacute;m disso, sinalizam que, a despeito da entrada "tardia"    de africanos, as caracter&iacute;sticas do com&eacute;rcio internacional e as    formas de inser&ccedil;&atilde;o no mundo do trabalho permitiram a emerg&ecirc;ncia    de uma sociedade na qual &iacute;ndios e africanos de diferentes proced&ecirc;ncias    constru&iacute;ram realidades particulares, entre encontros e desencontros,    compartilhando um cotidiano duro de trabalho e exclus&atilde;o e, a partir dessas    <I>experi&ecirc;ncias</I>, reinventaram suas vidas. Tamb&eacute;m &eacute; importante    destacar que "a ideia de que a rela&ccedil;&atilde;o <I>plantations</I>/escravid&atilde;o    africana e a experi&ecirc;ncia do nordeste a&ccedil;ucareiro representam um    modelo ideal, dificulta a compreens&atilde;o da experi&ecirc;ncia do estado    do Maranh&atilde;o no s&eacute;culo XVII. (…) O problema de considerar a Amaz&ocirc;nia    como regi&atilde;o perif&eacute;rica &eacute; pens&aacute;&#45;la como 'incompleta'    ou como 'fracassada' quando era apenas diferente" (11).</font></P>     <p><font size="3">Em termos demogr&aacute;ficos, os dados demonstram o car&aacute;ter    multi&eacute;tnico das principais cidades amaz&ocirc;nicas; a maioria de sua    popula&ccedil;&atilde;o era n&atilde;o&#45;branca. Em 1787, Bel&eacute;m possu&iacute;a    uma popula&ccedil;&atilde;o composta por 38% de brancos, 11% de "pretos,    &iacute;ndios e mesti&ccedil;os" e 51% de escravos. Na capitania do Rio    Negro, por seu turno, havia uma decisiva maioria ind&iacute;gena; em 1785, 9%    s&atilde;o livres, 3% s&atilde;o escravos e 88% s&atilde;o &iacute;ndios.</font></P>     <p><font size="3">Circular por entre as ruas de Bel&eacute;m, nos s&eacute;culos    XVIII e XIX, significava encontrar carregadores africanos, vendedoras de a&ccedil;a&iacute;,    mucamas e criados, forros negociando suas produ&ccedil;&otilde;es de tabaco,    artigos de lat&atilde;o e cobre, chap&eacute;us de palha, oferecendo seus servi&ccedil;os    de sapateiro, carpinteiro e ourives, folgando nas festas do Esp&iacute;rito    Santo, de Nossa Senhora de Nazar&eacute; ou, ainda, membros da Irmandade do    Ros&aacute;rio. Os escravos foram utilizados em outras tarefas como a constru&ccedil;&atilde;o    de fortalezas, condu&ccedil;&atilde;o de embarca&ccedil;&otilde;es para o Mato    Grosso, no cultivo da cana, arroz, tabaco, mandioca, milho, nas fazendas de    cria&ccedil;&atilde;o de gado e cavalos do Maraj&oacute;. Foram apanhadores    de a&ccedil;a&iacute;, pescadores, padeiros, trabalhadores do porto, serventes    de obras p&uacute;blicas, calafates, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, vendedores    de tabaco, garapa e frutas, lavadeiras, vendeiras, cozinheiras e tantas que    sabiam "coser, lavar, engomar, cozinhar e tamb&eacute;m ganhar na rua".</font></P>     <p><font size="3">A presen&ccedil;a da escravid&atilde;o africana no Par&aacute;    colonial possibilitou uma certa redistribui&ccedil;&atilde;o das hierarquias    e das pr&oacute;prias fronteiras para delimita&ccedil;&atilde;o das desigualdades    sociais. A propriedade escrava constitu&iacute;a&#45;se, sem d&uacute;vida, em um    indicador poderoso nessa dire&ccedil;&atilde;o. H&aacute; evid&ecirc;ncias de    que uma parcela da popula&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena que vivia nos n&uacute;cleos    coloniais, exercitando as prerrogativas de seus cargos e postos, p&ocirc;de    ter acesso &agrave; propriedade de homens e mulheres de origem africana. Tal    evid&ecirc;ncia nos permite dimensionar o caleidosc&oacute;pio que se criava    nas fronteiras: se os &iacute;ndios podiam ser engajados em formas de trabalho    compuls&oacute;rio, a rigor e no limite, eram legalmente livres (ao contr&aacute;rio    dos escravos africanos) e, portanto, do ponto de vista hier&aacute;rquico, possuiam    status diferenciado.</font></P>     <p><font size="3">Viver na fronteira parece supor um "neg&oacute;cio muito    perigoso". Jo&atilde;o e Fernando sabiam disso como poucos e, por esta    raz&atilde;o, foram capazes de se fazer absolutamente imprescind&iacute;veis    e mestres na fina arte da sobreviv&ecirc;ncia a despeito de um cotidiano complexo    e cheio de armadilhas. A constru&ccedil;&atilde;o de alian&ccedil;as era parte    importante dessa estrat&eacute;gia; Requena se recusava, peremptoriamente, a    entregar seu valioso oficial a despeito das insistentes reclama&ccedil;&otilde;es    do comiss&aacute;rio portugu&ecirc;s. Ofereceu&#45;se, inclusive, para pagar o pre&ccedil;o    de Jo&atilde;o, caso fosse confirmada sua condi&ccedil;&atilde;o de fugitivo;    o comiss&aacute;rio Matos n&atilde;o aceitava negocia&ccedil;&atilde;o a n&atilde;o    ser a devolu&ccedil;&atilde;o do escravo. </font></P>     <p><font size="3">Ent&atilde;o, valeram as alian&ccedil;as; alguns dias depois    do depoimento, Requena informou ao comiss&aacute;rio Matos que Jo&atilde;o havia    desertado do servi&ccedil;o e que, &agrave;quela altura, j&aacute; estava fora    das terras portuguesas. Semanas mais tarde, os portugueses receberam a informa&ccedil;&atilde;o    de que Jo&atilde;o havia sido visto, com um grupo de soldados, subindo o rio    em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Nova Granada para entregar correspond&ecirc;ncias.    Ele nunca mais voltaria ao servi&ccedil;o das demarca&ccedil;&otilde;es; continuava    em liberdade. Nada aconteceu a Fernando que permaneceu ao lado de Requena at&eacute;    sua partida de Tef&eacute;, em 1791. </font></P>     <p><font size="3">Em 1795, aparece a &uacute;ltima pista do paradeiro de Jo&atilde;o.    Com cerca de 50 anos, ele havia sido designado para mais uma de suas miss&otilde;es    de fronteira e compunha uma expedi&ccedil;&atilde;o ao rio Santiago, com a finalidade    de identificar um caminho mais curto que ligasse Mainas a Quito. A expedi&ccedil;&atilde;o    foi encontrada por um grupo de guerreiros j&iacute;varos e foi dizimada. Ainda    uma vez, o desencontro. Lembrando Guimar&atilde;es Rosa, "viver &eacute;    um descuido prosseguido".</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Patr&iacute;cia Melo Sampaio</b> &eacute; historiadora,    professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), coordenadora do Programa    de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociedade e Cultura na Amaz&ocirc;nia    (PPGSCA) e pesquisadora do CNPq.</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 1. Sweet, D. y Nash. G. (Comp.) <I>Lucha por la supervivencia    en la Am&eacute;rica colonial.</I> 2ª ed. M&eacute;xico: Fondo de Cultura Ec&oacute;nomica.    1987.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049099&pid=S0009-6725200900030001100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 2. Reis, A. <I>Limites e demarca&ccedil;&otilde;es na Amaz&ocirc;nia    brasileira &#151; a fronteira com as col&ocirc;nias espanholas</I>. Vol. II. Bel&eacute;m:    Secult. 1993.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049101&pid=S0009-6725200900030001100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 3. Lucena Giraldo. M (Ed). <I>Francisco Requena y otros:    ilustrados y barbaros: diario de la demarcac&iacute;on de limites al Amazonas    (1782).</I> Madri: Alianza Editorial. 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049103&pid=S0009-6725200900030001100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 4. Torres, S. M. "Definindo fronteiras lusas na Amaz&ocirc;nia    colonial: o tratado de Santo Ildefonso (1777&#45;1790)" <I>In:</I> Sampaio,    P. e Erthal, R.<I> Rastros da mem&oacute;ria: hist&oacute;rias e trajet&oacute;rias    das popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas na Amaz&ocirc;nia. </I>Manaus/EDUA/CNPq,    p.96&#45;132. 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049105&pid=S0009-6725200900030001100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 5. Farage, N. <I>As muralhas dos sert&otilde;es: os povos    ind&iacute;genas no Rio Branco e a coloniza&ccedil;&atilde;o.</I> Rio de Janeiro:    Paz e Terra/Anpocs. 1991.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049107&pid=S0009-6725200900030001100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 6. Reis, A. <I>Lobo d'Almada: um estadista colonial.</I>    3ª ed. Manaus: Valer. 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049109&pid=S0009-6725200900030001100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 7. Belloto, H. "Pombal &#45; Marqu&ecirc;s de." <I>In:</I>    Silva, M. B.<I> Dicion&aacute;rio da hist&oacute;ria da coloniza&ccedil;&atilde;o    portuguesa no Brasil</I>. Lisboa: Verbo, p.645&#45;648. 1994.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049111&pid=S0009-6725200900030001100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 8. Sampaio, P. "Remedios contra la pobreza: trabajo    indigena y producc&iacute;on de riqueza em la Amazon&iacute;a portuguesa, siglo    XVIII". <I>In: Fronteras de la historia.</I> Instituto Colombiano de Historia    y Antropologia, Vol.9, p.17&#45;59. 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049113&pid=S0009-6725200900030001100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 9. Martins, J. S. <I>Fronteira: a degrada&ccedil;&atilde;o    do outro nos limites do humano. </I>S&atilde;o Paulo: Hucitec. 1997.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049115&pid=S0009-6725200900030001100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 10. Bezerra Neto, J. M. <I>Escravid&atilde;o negra na Par&aacute;,    s&eacute;culos XVII&#45;XIX. </I>Bel&eacute;m: Pakatatu. 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049117&pid=S0009-6725200900030001100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3"> 11. Chambouleyron, R. "Suspiros por um escravo de Angola.    Discursos sobre a m&atilde;o&#45;de&#45;obra africana na Amaz&ocirc;nia seiscentista".    <I>In: Humanitas</I>, Vol.20, n&#45;º.1/2, p.99. 2004.</FONT>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=049119&pid=S0009-6725200900030001100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> ]]></body>
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