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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>PUBLICIDADE</b></font></P>     <p><font size="3"><b>C<small>I&Ecirc;NCIA E SA&Uacute;DE: DA CHARLATANICE AO PROFISSIONALISMO</small></b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp; </P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/selo.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><I>"Sonhei com Nossa Senhora Aparecida e ela me mostrou    um vidro de rem&eacute;dio para a maleita. Gra&ccedil;as a Deus minha filha    melhorou".</i> O depoimento, em tom emocional e testemunhal, &eacute; de    uma dona&#45;de&#45;casa do interior maranhense e faz parte do texto publicit&aacute;rio    para o T&ocirc;nico Capivarol divulgado no Almanack Capivarol de 1933. Ali,    outras op&ccedil;&otilde;es para a cura de v&aacute;rias enfermidades, contida    em um pote de unguento, disputava espa&ccedil;o com receitas de "bolinho    de chuva" e ora&ccedil;&otilde;es, al&eacute;m do calend&aacute;rio lunar    (essencial para uma boa pesca e para o plantio). Os almanaques, peri&oacute;dicos    t&atilde;o populares em boa parte do s&eacute;culo passado e conhecidos, em    geral, pelo nome do fabricante que os patrocinava &#151; como o almanaque do Biot&ocirc;nico    Fontoura &#151; eram livretos ilustrados com uma infinidade de dicas do saber popular    que viajavam todo o pa&iacute;s, nas rotas de distribui&ccedil;&atilde;o dos    caixeiros&#45;viajantes especializados em vender lotes de rem&eacute;dios para boticas    e farm&aacute;cias, se constituindo em uma das poucas publica&ccedil;&otilde;es    dispon&iacute;veis em v&aacute;rias cidades do interior do Brasil. Em grande    parte das localidades, antecederam a chegada de jornais e revistas de grande    circula&ccedil;&atilde;o, uma vez que bancas de jornal eram praticamente inexistentes    na &eacute;poca. As edi&ccedil;&otilde;es anuais ou semestrais desses almanaques    eram aguardadas com ansiedade pelos clientes das boticas e, em algumas regi&otilde;es    carentes, substitu&iacute;am as cartilhas escolares, contribuindo at&eacute;    mesmo para a inicia&ccedil;&atilde;o do h&aacute;bito de leitura, devido a seus    textos de f&aacute;cil assimila&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">"O <I>Almanaque de Bristol</I> era outro que era uma sensa&ccedil;&atilde;o.    Come&ccedil;ou a circular no Rio de Janeiro por volta de 1873, era distribu&iacute;do    nas capitais do pa&iacute;s, em v&aacute;rias cidades do Sudeste e Nordeste    e chegava a dez cidades do interior do Maranh&atilde;o. Acho que nem o tel&eacute;grafo    chegava nessas cidades", brinca M&aacute;rio Luiz Gomes, dono de uma das    maiores cole&ccedil;&otilde;es particulares de almanaques ilustrados do pa&iacute;s,    cerca de 350 exemplares de diversos almanaques, que restaram dos milh&otilde;es    distribu&iacute;dos entre o final do s&eacute;culo XIX e a d&eacute;cada de    40 do s&eacute;culo XX, per&iacute;odo em que as grandes revistas come&ccedil;am    a circular em peso e os almanaques v&atilde;o perdendo popularidade. "Esses    almanaques s&atilde;o um prato cheio para observar a hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia    no Brasil: come&ccedil;am com um discurso quase inventado sobre ci&ecirc;ncia,    mostram o in&iacute;cio da ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica &#151; das grandes    ind&uacute;strias &agrave;s 'fabriquetas' de fundo de quintal &#151; com an&uacute;ncios    de rem&eacute;dios, alguns com f&oacute;rmulas ris&iacute;veis. Depois, aos    poucos, evoluem seu discurso cient&iacute;fico se apropriando de termos mais    t&eacute;cnicos. As mat&eacute;rias com t&ocirc;nicas puramente m&eacute;dicas    ficavam em segundo plano", afirma Gomes. A grande maioria dos assuntos,    dizia respeito &agrave; fam&iacute;lia e, a partir disso, falava&#45;se de sa&uacute;de.    Os an&uacute;ncios e mat&eacute;rias versavam sobre a sa&uacute;de do beb&ecirc;,    por exemplo, ou sobre solu&ccedil;&otilde;es para os "humores do casal",    observa o pesquisador.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/a22img01.gif"></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Os almanaques acabam por ilustrar o crescimento e posterior    <I>boom</I> da ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica no Brasil nas d&eacute;cadas    de 1920 e 1930, devido ao aumento substancial das publicidades encartadas em    suas p&aacute;ginas, evidenciando, ainda, o total descontrole das autoridades    na &eacute;poca sobre o que era produzido. "O discurso de venda desses    produtos artesanais e sem comprova&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica de seus    benef&iacute;cios &#151; tais como: 't&atilde;o bom que foi autorizado pelo Junta    de Higiene do Rio de Janeiro em apenas 10 dias' &#151; n&atilde;o tinha base legal,    geralmente nem sequer tinham a tal autoriza&ccedil;&atilde;o, nem princ&iacute;pio    ativo algum, apenas discursos de convencimento", exemplifica Gomes. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/a22img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A an&aacute;lise desses an&uacute;ncios mostra, ainda, a introdu&ccedil;&atilde;o    dos h&aacute;bitos de higiene no Brasil, utilizando um discurso com tom sensual,    e as preocupa&ccedil;&otilde;es que rondavam a popula&ccedil;&atilde;o na &eacute;poca    (como casais de "enamorados" preocupados com a s&iacute;filis ou com    a tuberculose). Aos poucos, a quest&atilde;o t&eacute;cnica tamb&eacute;m evolui.    Os an&uacute;ncios ganham grande profissionalismo com os artistas gr&aacute;ficos,    pois a impress&atilde;o de fotografias ainda era um processo complexo para as    rotativas rudimentares de ent&atilde;o. Nomes como Belmonte, J. Carlos, Franz    Kohout, entre outros, alguns vindos principalmente das companhias de publicidade    de bondes, um dos maiores ve&iacute;culos de publicidade <I>outdoor</I> na &eacute;poca,    ilustravam tais an&uacute;ncios . "Eram grandes ilustradores e deram uma    contribui&ccedil;&atilde;o enorme para a hist&oacute;ria da publicidade no Brasil.    Como era dif&iacute;cil produzir ou reproduzir uma fotografia, esses artistas    criavam lindos an&uacute;ncios, romantizados, coloridos, bem tropicalizados    eu diria" afirma Juvenal Azevedo, publicit&aacute;rio e jornalista que    come&ccedil;ou sua carreira na Standart, uma das primeiras ag&ecirc;ncias profissionais    do Brasil, no final da d&eacute;cada de 1950. Azevedo explica que, na &eacute;poca,    tamb&eacute;m era dif&iacute;cil um an&uacute;ncio (as campanhas publicit&aacute;rias    ainda nem existiam) ter um <I>briefing</I>, ou seja, uma reuni&atilde;o entre    os profissionais envolvidos e o cliente para definir caminhos, posicionamentos,    escrever um texto com informa&ccedil;&otilde;es respons&aacute;veis, etc. "Era    uma coisa mais do tipo 'fa&ccedil;a um desenho bonito para estampar na revista'    ou 'crie uma musiquinha para veicular na r&aacute;dio'", diz Azevedo. "Era    emocional e totalmente irrespons&aacute;vel, n&atilde;o havia controle",    completa. Data dessa &eacute;poca, tamb&eacute;m, textos cl&aacute;ssicos, como    o de Monteiro Lobato para o <I>Akilostomina Fontoura</I>, do mesmo laborat&oacute;rio    do Biot&ocirc;nico, onde a figura do Jeca Tatu recebe diagn&oacute;stico de    "amarel&atilde;o" em um an&uacute;ncio patrocinado pelo laborat&oacute;rio.    Menotti del Picchia, em 1936, tamb&eacute;m se aventurou a escrever para o <I>Almanach    da Rhodia,</I> em uma &eacute;poca onde os limites entre publicidade, jornalismo,    informa&ccedil;&atilde;o e fantasia ainda n&atilde;o eram n&iacute;tidos. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/a22img03.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><B>DISCURSO DA QU&Iacute;MICA INDUSTRIAL </b>Aos poucos, come&ccedil;am    a aparecer outros discursos tamb&eacute;m, como o do progresso industrial e    da sa&uacute;de do trabalhador. "&Eacute; poss&iacute;vel notar a desqualifica&ccedil;&atilde;o    do que &eacute; natural em detrimento ao industrializado. Convoca o consumidor    a parar de tomar ch&aacute; para a digest&atilde;o &#151; mesmo os industrializados    &#151; e d&aacute; solu&ccedil;&otilde;es mais 'modernas', como os produtos sintetizados    pela ind&uacute;stria qu&iacute;mica", observa Gomes. Entre os assuntos    principais, dessa &eacute;poca, chama a aten&ccedil;&atilde;o os relativos &agrave;    sa&uacute;de das crian&ccedil;as. "Na &eacute;poca, a mortalidade infantil    era muito alta, ent&atilde;o as publicidades de medicamentos para o apetite,    vitaminas, rem&eacute;dios para vermes, etc, apareciam em grande quantidade"    afirma Olga Brites, professora do Departamento de Hist&oacute;ria da Pontif&iacute;cia    Universidade Cat&oacute;lica (PUC) de S&atilde;o Paulo. "Nesse per&iacute;odo,    que vai de 1930 a 1950, consolidam&#45;se as revistas de grande circula&ccedil;&atilde;o    como <I>O Cruzeiro,Revista da Vida Dom&eacute;stica</I> e <I>Sele&ccedil;&otilde;es    do Reader's Digest"</I>, afirma Olga, citando publica&ccedil;&otilde;es    que dedicavam espa&ccedil;o para os temas relativos &agrave; sa&uacute;de. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/a22img04.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A historiadora tamb&eacute;m assinala como os textos publicit&aacute;rios    dialogam com o momento hist&oacute;rico, que era a industrializa&ccedil;&atilde;o    do pa&iacute;s. Os an&uacute;ncios conclamam as m&atilde;es a cuidarem de seus    filhos atrav&eacute;s de alimenta&ccedil;&atilde;o saud&aacute;vel &#151; conservando    os alimentos em papel alum&iacute;nio e usando a geladeira para acondicion&aacute;&#45;los    &#151; e a cuidar dos machucados causados por acidentes dom&eacute;sticos &#151; usando    antiss&eacute;pticos mais eficientes que receitas caseiras ou um modern&iacute;ssimo    Band&#45;Aid, um curativo que vinha pronto e enfatizava o fato de ser feito em pl&aacute;stico    no seu discurso de persuas&atilde;o. Tamb&eacute;m indicam o in&iacute;cio da    independ&ecirc;ncia feminina e da inser&ccedil;&atilde;o da mulher no mercado    de trabalho, onde o leite em p&oacute; "com os mesmos nutrientes do leite    materno" e a papinha industrializada facilitam o dia&#45;a&#45;dia, al&eacute;m    do maquin&aacute;rio tecnol&oacute;gico ("fruto da ci&ecirc;ncia")    que facilita as tarefas dom&eacute;sticas. </font></P>     <p><font size="3">Da mesma forma, a propaganda conclama a mulher a ficar atenta    &agrave; sa&uacute;de do marido. "An&uacute;ncios relativos a novidades    na medicina eram direcionadas ou se articulavam atrav&eacute;s da figura feminina"    diz a pesquisadora. J&aacute; para a figura masculina, a sa&uacute;de e a ci&ecirc;ncia    se traduz atrav&eacute;s das curas para o cansa&ccedil;o do trabalho, de rem&eacute;dios    para azia e m&aacute; digest&atilde;o (a palavra <I>stress</I> ainda n&atilde;o    tinha entrado na moda), dos instrumentos de precis&atilde;o e dos novos m&aacute;quin&aacute;rios    tecnol&oacute;gicos, sin&ocirc;nimos de progresso. "&Eacute; uma &eacute;poca    onde o sujeito estava submetido &agrave; m&aacute;quina, onde h&aacute; uma    grande tens&atilde;o entre os trabalhadores e a sociedade industrializada, que    preza a hierarquia, o avan&ccedil;o, a racionaliza&ccedil;&atilde;o do tempo    e das coisas e onde o trabalhador n&atilde;o pode ficar doente e, se ficar,    precisa de uma cura r&aacute;pida. Essa rapidez &eacute; moderna e a ind&uacute;stria    vai providenciar essa cura tamb&eacute;m, na mesma rapidez", pontua Olga.    </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><i>Enio R. Barbosa Silva</i></font></P>      ]]></body>
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