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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v61n3/prosa.gif"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">P<small>AULO DE</small> A<small>NDRADE</small></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3"><b>A ARTE DA DESIST&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Como separar a arte de acompanhar     <BR>   e de compor da arte de desaparecer?</i>    <br>   M. G. Llansol</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Que tentemos sem conseguir, que cheguemos mesmo a tentar repetidas    e in&uacute;meras vezes sem jamais obter &ecirc;xito &#150; ainda isso nos permite    a lei do sucesso. Entretanto, se abandonamos tudo em meio ao caminho, ou em    seu in&iacute;cio, ou, pior, na imin&ecirc;ncia de seu fim, somos acusados do    crime mais hediondo que aqui se pode cometer: a desist&ecirc;ncia. Ap&oacute;s    as colinas que delimitam a cidade, ao p&eacute; de uma enorme pedra nua, ergue&#45;se    a monstruosa constru&ccedil;&atilde;o que confina, atr&aacute;s de suas muralhas,    milhares e milhares de abnegados e desistentes. Somos, mais que criminosos e    exilados, o exemplo justo daquilo que em nossa comunidade deve ser banido, extirpado,    como uma doen&ccedil;a fatal.</font></p>     <p><font size="3">Em toda a hist&oacute;ria de nosso povo jamais constou fato    algum que, mesmo por qualquer rela&ccedil;&atilde;o indireta, pudesse aludir    &agrave; desist&ecirc;ncia. Alguns fracassos, &eacute; certo; mas nunca uma    desist&ecirc;ncia. S&atilde;o uma linhagem de vencedores &#150; sim, s&atilde;o um    povo duro e vitorioso: &eacute; esse o seu legado. Mesmo n&oacute;s, que vivemos    aqui do lado de fora, n&atilde;o nos livramos do destino de vencer &#150; n&atilde;o    estamos, de fato, presos e, contudo, n&atilde;o fugimos, cumprimos obstinadamente    o papel de degradados, de foras&#45;da&#45;lei. Nem sempre sabemos o que &eacute; que    nos encerra, o que &eacute; que nos cerca, o que &eacute; que parece nos enterrar,    e no entanto sentimos n&atilde;o sei que barras, que grades, que muros. E &eacute;    esta a nossa pena: n&oacute;s, que desistimos um dia, fomos condenados a vencer.</font></p>     <p><font size="3">Entre todos os que aqui se encontram, h&aacute; sobretudo artistas.    N&atilde;o &eacute; sem raz&atilde;o que, dentro da cidade, refiram&#45;se tamb&eacute;m    a n&oacute;s como "os artistas"; assim como n&atilde;o &eacute; sem    raz&atilde;o que toda e qualquer forma de arte foi, conosco, banida para fora.    E mesmo fora, estamos &#150; n&oacute;s, os artistas, os personagens improv&aacute;veis    e suspeitos, que n&atilde;o merecemos confian&ccedil;a &#150;, estamos impossibilitados    de exercer a arte. Nada temos &agrave; m&atilde;o que possamos transformar;    se for necess&aacute;rio, vendam nossos olhos, amarram nossos bra&ccedil;os    e pernas, obstruem nossos ouvidos e bocas. E ainda assim, como fomos feitos    para vencer, n&atilde;o desistimos, queremos a qualquer custo escrever, cantar,    dan&ccedil;ar. E tentamos, e tentamos, e mais tentamos, mais a arte torna&#45;se    para n&oacute;s irrealiz&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="3">Mas o tempo de comuta&ccedil;&atilde;o est&aacute; chegando.    H&aacute; um m&ecirc;s consegui desistir de minha higiene e tenho frequentemente    negligenciado meu asseio. A pen&uacute;ria e a mis&eacute;ria contribuem de    algum modo para isso, e depois, &agrave;s vezes, esse &eacute; um bom m&eacute;todo    para se garantir a solid&atilde;o indispens&aacute;vel a novas desist&ecirc;ncias.    Eis como vejo a coisa: continuar, continuar a desistir, isso &eacute; que &eacute;    necess&aacute;rio &#150; derrotar a pr&oacute;pria vit&oacute;ria. Os outros ao meu    redor ainda n&atilde;o entendem, cobram&#45;me o gesto her&oacute;ico da resist&ecirc;ncia.    Eles dizem: "desde tal ou qual &eacute;poca voc&ecirc; caiu, voc&ecirc;    se apagou, voc&ecirc; n&atilde;o fez mais nada". E eu, vivo, inflamado,    voraz, intuindo ali o pavio de uma guerra a meu favor, confesso que ensaiei    retrucar: "mas voc&ecirc;s chamam isso de cair, de n&atilde;o fazer nada?",    quando ent&atilde;o vi diante de mim a oportunidade preciosa para tamb&eacute;m    desistir e me calar.</font></p>     <p><font size="3">Desde o momento que passei a desistir, percebi que podia novamente    escrever. Mesmo sem l&aacute;pis, sem nenhum instrumento, sem papel, eu escrevia;    de m&atilde;os atadas, eu escrevia; durante o sono, eu escrevia. E era muito    simples: bastava que eu desistisse de escrever, e a&iacute; eu escrevia. Mas    aquilo que eu escrevia quando desistia n&atilde;o vinha no lugar de um escrito    que eu escreveria se pudesse faz&ecirc;&#45;lo, pois escrever j&aacute; havia ent&atilde;o    se convertido em desistir.</font></p>     <p><font size="3">Foi assim que descobri na desist&ecirc;ncia uma revela&ccedil;&atilde;o.    Existir exigia de mim o grande sacrif&iacute;cio de n&atilde;o ter for&ccedil;a:    desisto, e eis que na m&atilde;o fraca o mundo cabe; chego &agrave; altura de    poder cair, escolho, estreme&ccedil;o e desisto, e, finalmente, me votando &agrave;    minha queda, despessoal, sem voz pr&oacute;pria, finalmente sem mim &#150; eis que    tudo o que n&atilde;o tenho &eacute; que &eacute; meu, eis que tudo o que n&atilde;o    quero &eacute; que eu posso.</font></p>     <p><font size="3">Agora, porque desisti de fugir, n&atilde;o mais temo ser descoberto    &#150; que me julguem reincidente no crime de desist&ecirc;ncia. Sei que posso ser    condenado &agrave; morte, mas no caminho que sigo devo perseverar, e, talvez,    antes de ser executado, terei j&aacute; conseguido desistir tanto de viver como    de morrer e pertencerei n&atilde;o mais &agrave; vida, n&atilde;o mais &agrave;    morte, sen&atilde;o ao desaparecimento lento e gradativo que o gesto infinito    e vazio de escrever, de desistir me reserva: na desist&ecirc;ncia, serei a pura    exist&ecirc;ncia, um pouco menos que nada, a pura exist&ecirc;ncia que passa    despercebida no meio de qualquer companhia, porque, da mesma maneira que o amor    mais s&oacute;, em cada instante serei eu todo inteiro e &#150; poeira, ningu&eacute;m    &#150; deixarei de ser. Serei, enfim, como o tra&ccedil;o que na subtra&ccedil;&atilde;o    separa suas parcelas &#150; e quem h&aacute;, aqui, que se preocupe com um tra&ccedil;o?</font></p>       <p>&nbsp; </p>     <p><font size="3"><I><B>Paulo de Andrade</b> &eacute; poeta, ensa&iacute;sta e    tradutor. Publicou </i>Livra&#45;me<I> (Bichinho gritador, 2002) e poemas e textos    esparsos em revistas nacionais e internacionais. Atualmente &eacute; assessor    editorial do </I>Suplemento Liter&aacute;rio de Minas Gerais.</font></p>     ]]></body>
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