<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252009000400003</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Vivendo esquecidos e morrendo como passarinhos]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Assad]]></surname>
<given-names><![CDATA[Leonor]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2009</year>
</pub-date>
<volume>61</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>6</fpage>
<lpage>8</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252009000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252009000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252009000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n4/brasil.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">D<small>OEN&Ccedil;AS</small> D<small>E</small> C<small>HAGAS</small></font></p>     <p><font size="3"><small><img src="/img/revistas/cic/v61n4/line_blk.gif">    </small></font></p>     <p><a name="top"></a><b><font size="4">Vivendo esquecidos e morrendo como passarinhos</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v61n4/03f01.jpg"></p>     <p><font size="3">"Quero morrer como um passarinho, sem fazer barulho". Maria    dizia isso sempre que o assunto era morte. &Agrave;s vezes acrescentava "minha    m&atilde;e morreu assim, quando eu tinha seis anos. A gente tava andando na    ro&ccedil;a. De repente ela caiu e morreu". A ro&ccedil;a era mineira, num canto    perdido de Buen&oacute;polis, distante uns 300 km de Belo Horizonte. Hoje faz    parte do munic&iacute;pio de Joaquim Fel&iacute;cio. Maria e dois de seus irm&atilde;os    eram portadores da doen&ccedil;a de Chagas e viveram muitos anos sem saber por    que sentiam palpita&ccedil;&otilde;es, insufici&ecirc;ncia card&iacute;aca,    engasgo, constipa&ccedil;&atilde;o e outros sintomas relacionados &agrave; doen&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o muito distante de l&aacute;, em 1908, no povoado    de S&atilde;o Gon&ccedil;alo das Tabocas, hoje munic&iacute;pio de Lassance,    o m&eacute;dico Carlos Chagas, trabalhava no combate a uma epidemia de mal&aacute;ria    que afetava as obras do prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil,    na regi&atilde;o do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora. Enquanto coordenava    a campanha, estudava insetos da regi&atilde;o e montou um laborat&oacute;rio    improvisado num vag&atilde;o de trem que lhe servia tamb&eacute;m de dormit&oacute;rio.    Sabendo da import&acirc;ncia dos insetos sugadores de sangue como transmissores    de doen&ccedil;as parasit&aacute;rias, examinou v&aacute;rios exemplares de    um percevejo hemat&oacute;fago comum na regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Popularmente chamado barbeiro (<i>Triatoma infestans</i>), pelo    h&aacute;bito de picar o rosto de suas v&iacute;timas enquanto dormem, esse    inseto era abundante nas choupanas de pau-a-pique da regi&atilde;o. De dia escondiam-se    nas frestas e buracos das paredes de barro, &agrave; noite picavam seus moradores.    No intestino desses percevejos, Chagas encontrou protozo&aacute;rios que foram    posteriormente identificados no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, como    sendo de uma nova esp&eacute;cie, a qual recebeu o nome de <i>Trypanossoma cruzi</i>,    em homenagem a Oswaldo Cruz. Ainda em Lassance, Chagas fez in&uacute;meros exames    de sangue nos moradores.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3">CENTEN&Aacute;RIO DA DESCOBERTA </font></b><font size="3">Todo    esse trabalho valeu a pena. Em 14 de abril de 1909, encontrou finalmente o parasito    no sangue de uma crian&ccedil;a, Berenice, uma menina de dois anos. Foi o primeiro    caso de uma nova doen&ccedil;a humana, batizada de doen&ccedil;a de Chagas.    De um laborat&oacute;rio improvisado no interior mineiro, e com o apoio de pesquisadores    do Instituto Oswaldo Cruz, Chagas realizou um feito not&aacute;vel e in&eacute;dito:    identificou o parasito, seu vetor (inseto que transmite a doen&ccedil;a) e a    doen&ccedil;a que o parasito causava.</font></p>     <p><font size="3">Cem anos depois, persiste um constrangedor sil&ecirc;ncio em    torno de quem vive com a doen&ccedil;a de Chagas. Tentando romper esse sil&ecirc;ncio,    a organiza&ccedil;&atilde;o internacional humanit&aacute;ria M&eacute;dicos    Sem Fronteiras (MSF) lan&ccedil;ou, em 9 de julho passado, a campanha "Chagas:    &eacute; hora de romper o sil&ecirc;ncio". A data n&atilde;o foi escolhida por    um acaso: 2009 &eacute; o ano do centen&aacute;rio do descobrimento da doen&ccedil;a    de Chagas e em 9 de julho de 1878 nascia, na Fazenda Bom Retiro, pr&oacute;ximo    &agrave; pequena cidade de Oliveira, Minas Gerais, Carlos Chagas. Gabriela Chaves,    membro no Brasil da MSF, explica que se trata de um apelo para que "os governos    dos pa&iacute;ses end&ecirc;micos n&atilde;o considerem os pacientes casos perdidos,    e apostem no diagn&oacute;stico e no tratamento de pessoas infectadas, em vez    de se concentrar somente no controle vetorial". E acrescenta "&eacute; necess&aacute;rio    maior esfor&ccedil;o em pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos".</font></p>     <p><font size="3">A doen&ccedil;a de Chagas &eacute;, dentre as doen&ccedil;as    infecto-parasit&aacute;rias, a quarta causa de morte no Brasil. Jo&atilde;o    Carlos Pinto Dias, pesquisador do Centro de Pesquisa Ren&eacute; Rachou (CPqRR),    unidade da Fiocruz situada em Belo Horizonte, afirma que existem no Brasil "entre    2 e 2,5 milh&otilde;es de portadores de doen&ccedil;a de Chagas, e entre 4 e    5 mil &oacute;bitos s&atilde;o registrados por ano. Os principais estados atingidos    s&atilde;o Minas Gerais, Goi&aacute;s e Bahia, afetando principalmente homens    entre 50 e 65 anos". No mundo s&atilde;o cerca de 16 milh&otilde;es de pessoas    infectadas.</font></p>     <p><font size="3">Muitos portadores convivem com a doen&ccedil;a sem saber. Quando    h&aacute; sintoma, explica Dias, o diagn&oacute;stico &eacute; feito por sorologia    convencional amplamente dispon&iacute;vel nos laborat&oacute;rios de an&aacute;lise    e tamb&eacute;m nos laborat&oacute;rios p&uacute;blicos. Dias &eacute; um dos    principais especialistas em doen&ccedil;a de Chagas no Brasil e estima que "pelo    menos 40% das pessoas infectadas com Chagas s&atilde;o totalmente assintom&aacute;ticas    e s&oacute; s&atilde;o descobertos em inqu&eacute;ritos sorol&oacute;gicos ou    na doa&ccedil;&atilde;o de sangue". As formas mais importantes de transmiss&atilde;o    da doen&ccedil;a ainda s&atilde;o as vetoriais, seja via les&atilde;o resultante    da picada, seja por mucosa ocular ou oral, mas tamb&eacute;m apresentam import&acirc;ncia    epidemiol&oacute;gica a transmiss&atilde;o por transfus&atilde;o e cong&ecirc;nita,    alerta o pesquisador.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3">MIGRA&Ccedil;&Atilde;O RURAL </font></b><font size="3">No    Brasil, a mudan&ccedil;a para os centros urbanos fez surgir a transmiss&atilde;o    da doen&ccedil;a de Chagas por transfus&atilde;o sangu&iacute;nea, quando indiv&iacute;duos    infectados passaram a vender sangue para sobreviver. Um trabalho publicado por    Dias em 2007 (<i>Cad. Sa&uacute;de P&uacute;blica</i>, Supl.23, 2007) aponta    que cerca de 70% dos indiv&iacute;duos infectados no Brasil vivem nas cidades,    fazendo com que o risco de transmiss&atilde;o por transfus&atilde;o sangu&iacute;nea    seja muito alto, caso n&atilde;o haja um rigoroso controle nos bancos de sangue.    Por isso, dentre as estrat&eacute;gias de combate &agrave; doen&ccedil;a de    Chagas que est&atilde;o sendo adotadas pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de    est&aacute; o trabalho da Coordena&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;tica Nacional    de Sangue e Hemoderivados supervisionando e apoiando a sele&ccedil;&atilde;o    sorol&oacute;gica de candidatos &agrave; doa&ccedil;&atilde;o de sangue no pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="3">Embora seja dif&iacute;cil a erradica&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a    devido &agrave; intensa circula&ccedil;&atilde;o do parasito entre reservat&oacute;rios    e vetores silvestres, o controle &eacute; poss&iacute;vel, impedindo a transmiss&atilde;o    por transfus&atilde;o e com uma cont&iacute;nua vigil&acirc;ncia, em todos os    munic&iacute;pios, para que o inseto vetor n&atilde;o mais colonize resid&ecirc;ncias    humanas. "No fim dos anos setenta se estimavam 100 mil novos casos por ano no    Brasil, hoje registram-se pouco mais de 100 novos casos por ano, portanto uma    redu&ccedil;&atilde;o de mil vezes", acrescenta Dias.</font></p>     <p><font size="3">Em 2006, a Organiza&ccedil;&atilde;o Panamericana de Sa&uacute;de,    vinculada &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de (Opas/OMS),    declarou o Brasil livre da transmiss&atilde;o da doen&ccedil;a de Chagas pela    principal esp&eacute;cie vetora, o barbeiro. Gabriela Chaves, do MSF, considera    que "isso gerou uma certa confus&atilde;o de que n&atilde;o temos mais doen&ccedil;a    de Chagas pois na &eacute;poca a Amaz&ocirc;nia n&atilde;o era considerada uma    regi&atilde;o end&ecirc;mica." Dados do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de indicam    que em 2005 foram notificados 10 casos de doen&ccedil;a de Chagas nos estados    da regi&atilde;o Norte. Em 2006, foram 88 casos, passando a 157 em 2007, e 124    em 2008. O maior n&uacute;mero de ocorr&ecirc;ncias foi registrado no Par&aacute;,    passando de 83 em 2006, para 109 em 2007 e 99 em 2008.</font></p>     <p><font size="3">Tentando detectar melhor o problema, a MSF e a Funda&ccedil;&atilde;o    Oswaldo Cruz (Fiocruz) estabeleceram uma parceria para a implanta&ccedil;&atilde;o    do programa de Capacita&ccedil;&atilde;o para o Diagn&oacute;stico e o Tratamento    da Doen&ccedil;a de Chagas na Regi&atilde;o da Amaz&ocirc;nia Brasileira. "Por    meio dessa parceria, profissionais s&atilde;o treinados para identificar nas    l&acirc;minas de mal&aacute;ria o parasita que provoca o mal de Chagas", diz    Gabriela.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3">TRATAR OS DOENTES </font></b><font size="3">Outro grande    desafio &eacute; o tratamento dos afetados. Apesar de potencialmente mortal,    historicamente os programas de sa&uacute;de de combate ao mal de Chagas deram    &ecirc;nfase &agrave; preven&ccedil;&atilde;o e &agrave; luta contra o vetor,    deixando em segundo plano o tratamento dos j&aacute; infectados. Gabriela considera    que, por ser uma doen&ccedil;a associada &agrave; pobreza e a popula&ccedil;&otilde;es    de baixa escolaridade, com muitos dos infectados convivendo com a doen&ccedil;a    durante anos, ela permanece esquecida. Os medicamentos existentes atualmente    - benznidazol e nifurtimox - foram desenvolvidos h&aacute; mais de 35 anos.    Os investimentos em pesquisa tamb&eacute;m s&atilde;o incipientes. O G-Finder    (Global Funding of Innovation for Neglected Diseases), inqu&eacute;rito realizado    pelo The George Institute for Internacional Health, que tem por objetivo tra&ccedil;ar    um panorama internacional dos investimentos em pesquisas de novos produtos e    tecnologias para o tratamento de doen&ccedil;as negligenciadas, constatou que    em 2007 foram gastos apenas US$ 10,1 milh&otilde;es em pesquisas sobre a doen&ccedil;a    de Chagas. Menos da metade foi gasto com a pesquisa de medicamentos, vacinas,    diagn&oacute;sticos e produtos de controle vetorial.</font></p>     <p><font size="3">Dias afirma que h&aacute; um esfor&ccedil;o no Brasil para capacitar    profissionais de sa&uacute;de e que existem pesquisas sobre novas drogas. "H&aacute;    desenvolvimento de c&eacute;lulas-tronco e existem pesquisas de novas formula&ccedil;&otilde;es    dos inseticidas convencionais; este ano deve sair uma pesquisa associando drogas    e outra com posaconazol, um antif&uacute;ngico que tem se revelado muito eficiente    contra o <i>T. cruzi</i> em experimentos em animais", diz o pesquisador assinalando    que para enfrentar a doen&ccedil;a de Chagas "as palavras m&aacute;gicas s&atilde;o    continuidade, determina&ccedil;&atilde;o e vontade pol&iacute;tica". Dias acrescenta,    "como dizia o pr&oacute;prio Chagas, em 1934: o importante, acima das gl&oacute;rias    acad&ecirc;micas, &eacute; acabar com esta doen&ccedil;a e cuidar dessa pobre    gente". E romper o sil&ecirc;ncio em torno de Marias e Jos&eacute;s que vivem    e sofrem com a doen&ccedil;a de Chagas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><i><font size="3">Leonor Assad</font></i></p>      ]]></body>
</article>
