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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n4/mundo.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>D<small>IREITOS</small> A<small>UTORAIS</small></b></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v61n4/line_blk.gif"></p>     <p><b><font size="4">1984: o futuro chegou e amea&ccedil;a direito do usu&aacute;rio</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v61n4/08f01.jpg"></p>     <p><i><font size="3">Este &eacute; um pedido de desculpas pelo modo que lidamos    previamente com a venda de c&oacute;pias ilegais de 1984 e outras obras no Kindle.    Nossa "solu&ccedil;&atilde;o" ao problema foi est&uacute;pida, n&atilde;o pensada,    e dolorosamente fora de nossos princ&iacute;pios. &Eacute; completamente auto-infligido    e merecemos a cr&iacute;tica que recebemos. Usaremos a cicatriz deste erro doloroso    para nos ajudar a tomar decis&otilde;es melhores daqui por diante; decis&otilde;es    estas que reflitam nossa miss&atilde;o.&nbsp;</font></i></p>     <p><font size="3">Com profundas desculpas aos nossos clientes, Jeff Bezos, Fundador    &amp; CEO, Amazon.com (texto traduzido do original em ingl&ecirc;s)</font></p>     <p><font size="3">A pesada <i>mea culpa</i> do executivo-chefe da Amazon, a gigante    de vendas pela internet, reflete tanto a rea&ccedil;&atilde;o indignada de seus    clientes quanto a percep&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria de haver cruzado limites    &eacute;ticos de maneira in&eacute;dita na jovem hist&oacute;ria da privacidade    digital. No dia 17 de julho de 2009, os donos de livros eletr&ocirc;nicos (e-book)    Kindle, vendidos pela Amazon, que compraram os downloads de <i>1984</i> e <i>Animal    farm</i>, de George Orwell, tiveram suas c&oacute;pias remotamente deletadas    de seus aparelhos pela Amazon.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n4/08f01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O modelo de neg&oacute;cios do <i>e-book</i> Kindle &eacute;    baseado na compra de downloads. O aparelho &eacute; um dispositivo equipado    com uma tela LCD, teclado e um <i>touchpad</i>, para intera&ccedil;&atilde;o    com o usu&aacute;rio, e tamb&eacute;m com uma placa para acesso a rede sem fio    (<i>wireless</i>). A compra do aparelho &eacute; conjugada com a assinatura    de um servi&ccedil;o de rede para transfer&ecirc;ncia de conte&uacute;dos. Usando    o Kindle em conjunto com uma rede <i>wireless</i>, o cliente pode navegar no    site da Amazon e comprar conte&uacute;dos para serem lidos no equipamento. Praticidade    e agilidade, unidos &agrave; conveni&ecirc;ncia de levar um acervo de livros,    revistas e jornais, todos armazenados em um dispositivo s&oacute;.</font></p>     <p><font size="3">Mas, como sempre, no espinhoso mundo do <i>copyright</i>, o    que deveria ser simples se torna complexo. Nesse modelo, a Amazon atua como    um intermedi&aacute;rio entre o detentor dos direitos autorais e o comprador    da obra. Al&eacute;m disso, o portal Amazon.com permite que empresas parceiras,    atrav&eacute;s de mecanismos de auto-publica&ccedil;&atilde;o, ofere&ccedil;am    conte&uacute;dos aos clientes. Uma parceira, a MobileReference, ofereceu no    Amazon.com as duas obras de George Orwell, sem possuir os direitos sobre as    mesmas. A Mobile explicou que na Austr&aacute;lia as obras est&atilde;o em dom&iacute;nio    p&uacute;blico e especificou a venda somente nesse pa&iacute;s, mas a Amazon    n&atilde;o teria seguido a determina&ccedil;&atilde;o. Quando notificada do    fato pelo real detentor, a Amazon apressou-se em corrigir os erros: os downloads    foram removidos, e um comando remoto enviado aos <i>e-books</i> Kindle de seus    usu&aacute;rios apagou os arquivos que haviam sido comprados.</font></p>     <p><font size="3">Mesmo com o reembolso provido aos clientes, o epis&oacute;dio    causou furor em grupos de usu&aacute;rios, f&oacute;runs online de discuss&atilde;o    de privacidade digital, grupos de ativistas para liberdades civis, etc. Grupos    de defesa de direitos de usu&aacute;rios e especialistas em privacidade digital    acusaram a Amazon de haver violado um tabu do mundo digital: sem notifica&ccedil;&atilde;o    pr&eacute;via, muito menos consentimento, entraram nos aparelhos dos usu&aacute;rios    e removeram arquivos. Em alguns casos, foi removido conjuntamente as anota&ccedil;&otilde;es    que os usu&aacute;rios haviam feito sobre as obras (o Kindle permite tal fun&ccedil;&atilde;o).    Segundo Corynne McSherry, advogada da organiza&ccedil;&atilde;o de defesa dos    direitos dos internautas Eletronic Frontier Foundation, a a&ccedil;&atilde;o    destruiu arquivos que acompanhavam alguns <i>e-books</i>, como palestras que    professores planejavam dar, sobre as obras e trabalhos universit&aacute;rios    que estudantes preparavam com base nos livros. No mundo dos livros impressos,    a a&ccedil;&atilde;o equivaleria a um vendedor de livros entrar na casa de um    comprador sem sua autoriza&ccedil;&atilde;o (ou mesmo ci&ecirc;ncia), retirar    um livro da sua estante e deixar um bilhere "vendido por engano" junto com um    cheque de reembolso.</font></p>     <p><font size="3">Embora o problema tenha ocorrido com usu&aacute;rios norte-americanos    do Kindle, nunca se pode menosprezar a extens&atilde;o da influ&ecirc;ncia dos    EUA no resto do mundo, mais ainda quando se trata de tecnologia. Que precedentes    o acontecido representa, justamente na "terra da liberdade"? O epis&oacute;dio    - que a ironia fez acontecer justamente com o livro <i>1984</i>, um romance    que dramatiza a interfer&ecirc;ncia de governos e corpora&ccedil;&otilde;es    na vida individual - disparou o gatilho de uma s&eacute;rie de discuss&otilde;es    acaloradas sobre o significado de privacidade digital e sobre qual o equil&iacute;brio    que deve existir entre prote&ccedil;&atilde;o de direito autoral e direitos    dos usu&aacute;rios. De um lado, a Amazon argumenta que as tecnologias de prote&ccedil;&atilde;o    de direitos autorais (chamadas conjuntamente de DRM, Digital Rights Management,    ou, pela vers&atilde;o dos grupos de ativistas, Digital Restrictions Management)    s&atilde;o necess&aacute;rias para convencer os detentores de <i>copyrights</i>    de que o Kindle &eacute; uma plataforma confi&aacute;vel para suas obras. De    outro lado, grupos de ativismo como a Funda&ccedil;&atilde;o Fronteira Eletr&ocirc;nica    (EFF, na sigla em ingl&ecirc;s) acusam a Amazon de pr&aacute;ticas inaceit&aacute;veis,    que violam direitos individuais fundamentais.</font></p>     <p><font size="3">O mercado de conte&uacute;do (m&uacute;sica, v&iacute;deo, cinema,    artes visuais, not&iacute;cias jornal&iacute;sticas, etc) relaciona-se com a    internet de uma forma esquizofr&ecirc;nica: por um lado, a explos&atilde;o de    banda larga dos &uacute;ltimos anos representa oportunidade para venda de conte&uacute;do    e an&uacute;ncios. Por outro, a natureza capilar, an&aacute;rquica e an&ocirc;nima    da rede &eacute; ambiente hostil &agrave;s pr&aacute;ticas de monop&oacute;lio    e domina&ccedil;&atilde;o t&iacute;picas dessas mega-corpora&ccedil;&otilde;es.    A ind&uacute;stria da m&uacute;sica, a primeira m&iacute;dia e ser extensamente    pirateada na internet, mostrou &agrave;s outras ind&uacute;strias como elas    estariam dali a alguns anos, com o avan&ccedil;o da tecnologia e, principalmente,    da banda larga.</font></p>     <p><font size="3">Novas formas de se publicar e distribuir conte&uacute;dos foram    concebidas, com base na ideia de que o direito autoral tradicional era inadequado    para a era digital. Novos termos de licenciamento de obras, como o Creative    Commons (CC), atacam o poder do "todos os direitos reservados". Prop&otilde;e,    alternativamente, "alguns direitos reservados". Segundo Lawrence Lessig, professor    de direito e autor do livro <i>Free culture</i> (Penguin Press, 2004), "o CC    baseia-se na no&ccedil;&atilde;o de que nenhuma obra criativa &eacute; isolada,    sempre inspira-se em maior ou menor grau em obras anteriores". Portanto, para    o pr&oacute;prio bem-estar da atividade art&iacute;stica e intelectual criativa,    &eacute; importante garantir algum grau de compartilhamento e c&oacute;pia de    obras.</font></p>     <p><font size="3">Na era digital, a necessidade de grandes atravessadores e fornecedores    de bens culturais, como os est&uacute;dios de cinema e as gravadoras de discos    pode estar diminuindo, uma vez que os meios de produ&ccedil;&atilde;o tornaram-se    mais acess&iacute;veis e a pr&oacute;pria internet pode prover a distribui&ccedil;&atilde;o.    No Brasil, artistas como o pioneiro Lob&atilde;o e outros como Ed Motta, Gilberto    Gil e BNeg&atilde;o, j&aacute; fizeram experi&ecirc;ncias com distribui&ccedil;&atilde;o    de suas obras pela internet. Os roqueiros ingleses do&nbsp;Radiohead colocaram    um CD inteiro para download em seu site, em 2007. Recentemente, o escritor Paulo    Coelho disponibilizou tr&ecirc;s de seus livros mais recentes e ainda n&atilde;o-publicados    via editoras tradicionais. Ele ainda declara em seu site n&atilde;o ter inten&ccedil;&otilde;es    de vender os direitos dessas obras para editoras, no futuro pr&oacute;ximo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n4/08f02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Por considerar a utiliza&ccedil;&atilde;o de tecnologias DRM    inconcili&aacute;veis com as garantias fundamentais dos usu&aacute;rios, a Funda&ccedil;&atilde;o    do Software Livre (FSF, sigla em ingl&ecirc;s) incluiu o Kindle da Amazon em    sua campanha "Defective by design", contra o DRM. A FSF procura convencer a    Amazon a eliminar todo o DRM empregado no Kindle e tamb&eacute;m a tornar p&uacute;blico    o c&oacute;digo-fonte dos programas que equipam o aparelho.</font></p>     <p><font size="3">Por ora, em rela&ccedil;&atilde;o ao Kindle, a Amazon desculpa-se    garantindo que n&atilde;o repetir&aacute; o ato no futuro. O problema &eacute;    que o ocorrido exp&otilde;e a pr&oacute;pria funcionalidade, embutida no Kindle,    de obedecer a comandos remotos da empresa. E isso n&atilde;o est&aacute; explicitado    nem mesmo nos termos do contrato de servi&ccedil;o do aparelho. Se a tecnologia    foi concebida e implementada, est&aacute; l&aacute; para ser usada, quando necess&aacute;rio.    No jogo pesado da ind&uacute;stria do <i>copyright</i> tradicional, isso significa    livrar a empresa dos multimilion&aacute;rios processos por viola&ccedil;&atilde;o    de direitos autorais.</font></p>     <p><font size="3">Se a empresa pretende respeitar usu&aacute;rios, como faz crer    as "profundas desculpas" de Jeff Bezos, em casos semelhantes no futuro, s&oacute;    mesmo o futuro dir&aacute;. Por enquanto, o Kindle permanece exposto como um    computador n&atilde;o-confi&aacute;vel: &eacute; capaz de obedecer a comandos    remotos, alheios - e at&eacute; mesmo contr&aacute;rios - &agrave; vontade de    seus reais donos. Nos termos da FSF, &eacute; "defeituoso pelo design".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><i><font size="3">Bruno Buys</font></i></p>      ]]></body>
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