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</front><body><![CDATA[ <p><b><font size=5>HQS</font></b></p>     <p><b><font size="3">Q<small>UADRINHOS ENTRARAM NA ESCOLA</small></font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n4/22f01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">H&aacute; 50 anos, um rep&oacute;rter policial da <i>Folha da    Manh&atilde;</i> se aventurou a mostrar algumas tirinhas que havia criado, com    um c&atilde;o e seu dono como personagens, e o jornal topou public&aacute;-las.    Bidu e Franjinha inauguravam ali a bem sucedida carreira do desenhista brasileiro    Maur&iacute;cio de Souza. Naquele mesmo ano de 1959, outros personagens com    seu c&atilde;ozinho de estima&ccedil;&atilde;o nasciam na Fran&ccedil;a, sob    a pena do ilustrador Albert Uderzo e do escritor Ren&eacute; Goscinny, para    ganhar o mundo: Asterix, o gaul&ecirc;s, seu amigo Obelix e o pequenino Ideafix.    Al&eacute;m da data de cria&ccedil;&atilde;o, o que mais haveria em comum entre    Asterix e a obra do criador da Turma da M&ocirc;nica?</font></p>     <p><font size="3">Embora tenham trajet&oacute;rias distintas, j&aacute; que os    personagens de Maur&iacute;cio sa&iacute;ram das tiras de jornais para as revistas    apenas uma d&eacute;cada depois, a Turma da M&ocirc;nica teve milh&otilde;es    de exemplares vendidos e suas hist&oacute;rias foram traduzidas em diversos    pa&iacute;ses, a exemplo do que aconteceu com as aventuras de Asterix. Ambas    as cria&ccedil;&otilde;es, cada uma a seu modo, devem seu sucesso inicial a    um trabalho de constru&ccedil;&atilde;o de uma identidade nacional. A G&aacute;lia    invadida pelo Imp&eacute;rio Romano, que enfrenta a resist&ecirc;ncia da pequena    aldeia de Asterix e seus amigos nas hist&oacute;rias de Uderzo e Goscinny, corresponde    ao atual territ&oacute;rio da Fran&ccedil;a. O contato entre vencedores e vencidos    representa a forma&ccedil;&atilde;o da cultura francesa. J&aacute; no Brasil,    os personagens de Maur&iacute;cio surgiram como uma alternativa aos j&aacute;    consagrados da Disney, como Mickey e Tio Patinhas, que encarnam o <i>american    way of life</i>. S&atilde;o crian&ccedil;as bem brasileiras que povoam as hist&oacute;rias    da Turma da M&ocirc;nica, e com as quais o p&uacute;blico infantil daqui facilmente    se identificou.</font></p>     <p><font size="3">O sucesso das cria&ccedil;&otilde;es brasileira e francesa seguiu    o caminho que a Disney trilhou na ind&uacute;stria do entretenimento, ganhando    as telas dos cinemas e se reproduzindo em jogos, brinquedos e parques tem&aacute;ticos.    As semelhan&ccedil;as poderiam parar por a&iacute;, j&aacute; que o formato    das aventuras de Asterix &eacute; mais sofisticado e o pre&ccedil;o &eacute;    bem maior, ficando limitadas a 33 t&iacute;tulos, mesmo Uderzo tendo dado continuidade    ao trabalho ap&oacute;s a morte de Goscinny. Mas tanto as hist&oacute;rias dos    gauleses quanto as da Turma da M&ocirc;nica t&ecirc;m sido usadas como um recurso    a mais em salas de aula brasileiras, e estudos recentes analisam o potencial    de ambas no ensino de hist&oacute;ria nas escolas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>VALORIZA&Ccedil;&Atilde;O </b>Selma de F&aacute;tima Bonif&aacute;cio,    que pesquisou o tema na Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade    Federal do Paran&aacute;, observa que ainda h&aacute; desconfian&ccedil;a em    rela&ccedil;&atilde;o ao uso did&aacute;tico de hist&oacute;rias em quadrinhos    (HQs), vistas at&eacute; a primeira metade do s&eacute;culo XX como um produto    cultural inferior. Na d&eacute;cada de 1960, por&eacute;m, o interesse de intelectuais    como Federico Fellini, Umberto Eco e Edgar Morin pelas HQs lan&ccedil;ou um    novo olhar sobre elas. "Hoje t&ecirc;m recebido um pouco mais de aten&ccedil;&atilde;o,    sendo objetos de an&aacute;lise e estudo em pesquisas acad&ecirc;micas e tamb&eacute;m    no espa&ccedil;o escolar", afirma.</font></p>     <p><font size="3">No Brasil, embora se tenha tentado j&aacute; nos anos 1940 e    1950 inserir as HQs &agrave; cultura de elite tradicionalmente ensinada nas    escolas, com as vers&otilde;es em quadrinhos de cl&aacute;ssicos das literaturas    universal - como <i>O corcunda de Notre Dame</i>, de Vitor Hugo - e brasileira    - como <i>O guarani</i>, de Jos&eacute; de Alencar -, &eacute; tamb&eacute;m    na d&eacute;cada de 1960 que os quadrinhos come&ccedil;am a entrar nos livros    did&aacute;ticos brasileiros, na inovadora obra do professor de hist&oacute;ria    Julierme de Abreu e Castro. E nos anos 1980, surgem em peri&oacute;dicos brasileiros    estudos sobre o uso de HQs como <i>Asterix</i> em aulas de hist&oacute;ria.</font></p>     <p><font size="3">"Apesar de enfocar a Antiguidade, em determinados momentos ocorrem    fus&otilde;es cronol&oacute;gicas, como no &aacute;lbum <i>Asterix e os normandos</i>,    uma ponte entre hist&oacute;ria antiga e medieval", diz o historiador Johnni    Langer, da Universidade Federal do Maranh&atilde;o, outro incentivador da potencialidade    das HQs no ensino. "Os estere&oacute;tipos e anacronismos podem tanto ser trabalhados    com alunos da 5ª s&eacute;rie do fundamental quanto do ensino m&eacute;dio,    especialmente os vinculados ao comportamento da figura do outro (romanos, escandinavos)    em rela&ccedil;&atilde;o aos gauleses (franceses modernos)", explica. "O mais    importante &eacute; fazer com que os alunos percebam a import&acirc;ncia de    refletir o que veem e, a partir disto, poder criar um entendimento sobre a hist&oacute;ria    e suas poss&iacute;veis re-interpreta&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o importa    a faixa et&aacute;ria do estudante ou o n&iacute;vel de escolaridade. O que    importa &eacute; o mecanismo de reflex&atilde;o, tanto para o ensino fundamental    quanto o m&eacute;dio", explica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v61n4/22f02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Tanto Langer quanto Selma defendem a combina&ccedil;&atilde;o    do uso de HQs com outras fontes no ensino de hist&oacute;ria, o que n&atilde;o    exclui uma vis&atilde;o cr&iacute;tica sobre elas. "Por serem ve&iacute;culos    portadores de mensagens, representa&ccedil;&otilde;es e concep&ccedil;&otilde;es    de mundo, os quadrinhos possuem in&uacute;meras possibilidades de articula&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica e ideol&oacute;gica. Ao abordarem temas como cidadania, pol&iacute;tica    e outros valores sociais, as hist&oacute;rias transmitem mensagens, que podem    se aproximar do p&uacute;blico leitor, na medida em que seus personagens, inseridos    em determinados contextos, assumem posturas, defendem princ&iacute;pios, criticam    sistemas", avalia Selma.</font></p>     <p><font size="3">Em seu estudo, ela analisou, entre outras obras, a cole&ccedil;&atilde;o    <i>Voc&ecirc; sabia?</i>, lan&ccedil;ada por Maur&iacute;cio de Souza a partir    de 2003, e dividida em fasc&iacute;culos dedicados a temas da hist&oacute;ria    do Brasil, como o descobrimento, a independ&ecirc;ncia, a aboli&ccedil;&atilde;o    dos escravos e a proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica. Neles, os personagens    de Maur&iacute;cio assumem os pap&eacute;is de D. Jo&atilde;o VI, D. Pedro e    Carlota Joaquina, ente outros. Selma observa as refer&ecirc;ncias cl&aacute;ssicas    retomadas por Maur&iacute;cio em alguns fasc&iacute;culos e que poderiam ser    usadas junto com as HQs nas aulas de hist&oacute;ria. "Ao lerem a obra quadrinizada    de <i>O descobrimento do Brasil</i>, crian&ccedil;as e adolescentes passam a    tomar contato com fontes escritas, como a Carta de Caminha, e iconogr&aacute;ficas,    como o quadro cl&aacute;ssico de Victor Meirelles retratando a 1ª Missa no Brasil.    Elas s&atilde;o didatizadas e transformadas para a linguagem dos quadrinhos,    dentro da perspectiva e do estilo consagrado do quadrinista", aponta.</font></p>     <p><font size="3">Selma acrescenta, no entanto, que certas simplifica&ccedil;&otilde;es    decorrentes da brevidade das narrativas em HQs devem ser consideradas pelo professor    que us&aacute;-las como um suporte a mais no ensino. Ela d&aacute; como exemplo    o fasc&iacute;culo de Maur&iacute;cio sobre a Aboli&ccedil;&atilde;o, que resume    &agrave; assinatura da princesa Isabel o epis&oacute;dio da conquista da liberdade    pelos escravos. Selma e Langer, contudo, concordam que &eacute; poss&iacute;vel    trabalhar com as HQs como algo muito al&eacute;m do mero entretenimento. "O    professor n&atilde;o pode utilizar a HQ apenas como uma ilustra&ccedil;&atilde;o    ou refor&ccedil;o para o conte&uacute;do desenvolvido nas aulas, mas sim enfatizar    a mesma como um instrumento de reflex&atilde;o", afirma Langer. "Ela n&atilde;o    &eacute; simplesmente uma obra de divers&atilde;o ou passatempo, mas um produto    social e hist&oacute;rico, portanto, com ideias e valores sobre o passado",    conclui o historiador.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Rodrigo Cunha</i></font></p>      ]]></body>
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