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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/brasil.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">S<small>A&Uacute;DE</small> P<small>&Uacute;BLICA</small></font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v62n1/line_blk.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Doen&ccedil;as negligenciadas est&atilde;o nos pa&iacute;ses    pobres e em desenvolvimento</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a03fig01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Espalhadas por todo o planeta, mais de um bilh&atilde;o de pessoas    vivem com menos de US$ 2 por dia: seja no Brasil ou outros pa&iacute;ses da    Am&eacute;rica Latina e do Caribe, na &Aacute;frica, na &Aacute;sia e, tamb&eacute;m,    nos Estados Unidos e em alguns pa&iacute;ses da Europa. Est&atilde;o principalmente    no campo, em &aacute;reas urbanas de pobreza extrema e em regi&otilde;es de    conflito. Sofrem de todo tipo de car&ecirc;ncia &#150; de &aacute;gua pot&aacute;vel,    de escolaridade, de saneamento b&aacute;sico, de moradia e de acesso a tratamentos    de sa&uacute;de &#150; e s&atilde;o as principais v&iacute;timas de doen&ccedil;as    negligenciadas. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O progresso cient&iacute;fico dos &uacute;ltimos 30 anos, principalmente    em pa&iacute;ses desenvolvidos, gerou avan&ccedil;os m&eacute;dicos sem precedentes    e um ganho substancial na expectativa de vida. Um artigo publicado na revista    <I>Lancet</I>, em 2006, apontou que, entre 1975 e 2004, foram registrados 1.556    medicamentos. Destes, por&eacute;m, apenas 21 foram registrados para doen&ccedil;as    negligenciadas, apesar de representarem 12% da carga global de doen&ccedil;as.    E mais: em 2002, quando o mercado mundial de f&aacute;rmacos era de US$ 400    bilh&otilde;es, nos Estados Unidos 194 novos medicamentos estavam sendo desenvolvidos    pela ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica e de biotecnologia, dos quais apenas    uma &uacute;nica droga era contra doen&ccedil;as parasit&aacute;rias e nenhuma    era vacina contra doen&ccedil;as tropicais.</font></P>     <p><font size="3">A lista de doen&ccedil;as consideradas negligenciadas varia    de um pa&iacute;s para outro. Atualmente, a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial    da Sa&uacute;de (OMS) concentra seus esfor&ccedil;os em dois grandes grupos:    doen&ccedil;as trat&aacute;veis e contra as quais existem meios de combate (como    filariose linf&aacute;tica, oncocercose, esquistossomose e dengue), e doen&ccedil;as    ainda sem tratamento e que exigem cuidados espec&iacute;ficos (como leishmaniose    e doen&ccedil;a de Chagas). No Brasil, o quadro de doen&ccedil;as negligenciadas    &eacute; inquietante, a julgar pelas informa&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis    em artigos publicados em peri&oacute;dicos qualificados da &aacute;rea m&eacute;dica.    Peter Hotez, da George Washington University Medical Center, nos EUA, aponta    que grande parte dessas doen&ccedil;as da Am&eacute;rica Latina e Caribe ocorre    atualmente no Brasil, incluindo todos os casos de tracoma e hansen&iacute;ase,    e a maioria dos casos de ascar&iacute;ase, dengue, ancilostom&iacute;ase, esquistossomose    e leishmaniose visceral. </font></P>     <p><font size="3">Muitas pesquisas t&ecirc;m sido desenvolvidas. Um artigo publicado    na <I>Nature Genetics</I> em 2002 apontava, dentre as dez biotecnologias de    maior impacto na sa&uacute;de dos pa&iacute;ses em desenvolvimento, os m&eacute;todos    diagn&oacute;sticos de doen&ccedil;as infecciosas, simples e baratos, baseados    em tecnologias moleculares; as vacinas recombinantes contra doen&ccedil;as infecciosas;    os biof&aacute;rmacos recombinantes mais baratos (insulina, interferons); a    bioinform&aacute;tica para identifica&ccedil;&atilde;o de alvos para f&aacute;rmacos    e estudo de intera&ccedil;&otilde;es pat&oacute;geno&#45;hospedeiro; e o sequenciamento    de genomas de pat&oacute;genos com vistas &agrave; compreens&atilde;o de sua    biologia e ao desenvolvimento de novos agentes antimicrobianos.</font></P>     <p><font size="3">De acordo com estudos publicados pelo Instituto George para    a Sa&uacute;de Internacional, com apoio da Funda&ccedil;&atilde;o Bill &amp;    Melinda Gates, em 2007 foram investidos US$ 2,56 bilh&otilde;es em pesquisa    de doen&ccedil;as negligenciadas. Desse total, pesquisas sobre a Aids ficaram    com 42%; mal&aacute;ria e tuberculose, com outros 34% e, menos de 5%, foram    para pesquisas em doen&ccedil;a do sono, leishmaniose visceral e doen&ccedil;a    de Chagas, que afetam juntas mais de 500 milh&otilde;es de pessoas. </font></P>     <p><font size="3">Segundo Michel Lotrowska, diretor do escrit&oacute;rio regional    no Rio de Janeiro da Iniciativa Medicamentos para Doen&ccedil;as Negligenciadas    (DNDi, na sigla em ingl&ecirc;s), "em 2003, a &Aacute;frica consumia apenas    1% dos rem&eacute;dios produzidos na &eacute;poca". Lotrowska conta que    a DNDi surgiu justamente ante &agrave;s constata&ccedil;&otilde;es da organiza&ccedil;&atilde;o    M&eacute;dicos Sem Fronteiras (MSF), que faltavam medicamentos em regi&otilde;es    empobrecidas. E acrescenta: "para doen&ccedil;as que tamb&eacute;m atingiam    pa&iacute;ses ricos, os rem&eacute;dios eram muito caros; para doen&ccedil;as    que s&oacute; atingiam pa&iacute;ses pobres, os rem&eacute;dios eram muito velhos,    sem inova&ccedil;&atilde;o, e por vezes com muitos efeitos colaterais".    A DNDi trabalha no desenvolvimento de produtos sem fins lucrativos, pesquisa    e desenvolve novos tratamentos para as doen&ccedil;as mais negligenciadas e    tem como parceiros fundadores o Instituto Pasteur, na Fran&ccedil;a, a Fiocruz,    no Brasil, o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de da Mal&aacute;sia e os institutos    de pesquisa cl&iacute;nica da &Iacute;ndia e do Qu&ecirc;nia. Seu principal    objetivo &eacute; fornecer, at&eacute; 2014, de seis a oito novos tratamentos    que atendam &agrave;s necessidades desses pacientes.</font></P>     <p><font size="3">Para Lotrowska, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; consequ&ecirc;ncia    "tanto de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas insuficientes voltadas para    P&amp;D de medicamentos de interesse nacional dos pa&iacute;ses em desenvolvimento,    quanto da falta de mercado, provocada pelo baixo interesse econ&ocirc;mico que    esses pacientes representam para a ind&uacute;stria". Com baixo poder aquisitivo    e sem influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica, os doentes e sistemas de sa&uacute;de    de pa&iacute;ses pobres n&atilde;o conseguem gerar o retorno financeiro exigido    pela maior parte das empresas. </font></P>     <p><font size="3"><b>ALGUNS AVAN&Ccedil;OS</b> Desde 2006, a OMS e suas mais de    25 organiza&ccedil;&otilde;es parceiras adotam a quimioterapia preventiva como    estrat&eacute;gia de combate &agrave; oncocercose, &agrave; filariose linf&aacute;tica,    &agrave; esquistossomose e &agrave;s geohelmint&iacute;ases. Para combat&ecirc;&#45;las,    popula&ccedil;&otilde;es afetadas recebem medicamentos a pre&ccedil;os muito    reduzidos ou doados por fabricantes. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a03fig02.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Se compararmos o quadro atual com o de 1985, h&aacute; margem    para otimismo. Naquele ano a OMS estimava que, em todo o mundo, cerca de 360    milh&otilde;es de pessoas sofriam de tracoma e 5,2 milh&otilde;es de hansen&iacute;ase.    Atualmente, ainda s&atilde;o muitos os afetados por tracoma &#150; 80 milh&otilde;es    de pessoas &#150; mas a queda foi de mais de 75%. A hansen&iacute;ase afeta pouco    menos de 213 mil pessoas e, nesse per&iacute;odo, mais de 14,5 milh&otilde;es    de pessoas foram curadas.</font></P>     <p><font size="3">Em dez pa&iacute;ses da &Aacute;frica do oeste, a oncocercose    n&atilde;o &eacute; mais um problema de sa&uacute;de p&uacute;blica, nem &eacute;    considerada uma doen&ccedil;a importante do ponto de vista socioecon&ocirc;mico.    Outro resultado promissor &eacute; com a dracunculose que, em 1985, atingia    cerca de 3,5 milh&otilde;es de pessoas em 20 pa&iacute;ses. Hoje, s&atilde;o    identificados menos de 5 mil casos em seis pa&iacute;ses, dos quais 98% est&atilde;o    concentrados em Gana e no Sud&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">Desde 2000, o tratamento contra filariose linf&aacute;tica foi    intensificado. Em 2007, 546 milh&otilde;es de pessoas, de 48 dos 81 pa&iacute;ses    end&ecirc;micos, foram submetidas a um tratamento preventivo dessa doen&ccedil;a:    em agosto de 2007, a China foi o primeiro pa&iacute;s a eliminar a filariose    linf&aacute;tica enquanto problema de sa&uacute;de p&uacute;blica, seguido pela    Rep&uacute;blica da Coreia, em mar&ccedil;o de 2008.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a03fig03.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>BOA VONTADE</b> Ainda timidamente, a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica    tem assumido compromissos. Pfizer, Merck, Sanofi&#45;Aventis, Bayer, Eisai e outras    t&ecirc;m feito parcerias em P&amp;D de novas drogas e na distribui&ccedil;&atilde;o    de medicamentos a popula&ccedil;&otilde;es afetadas. Nos &uacute;ltimos dois    anos foram lan&ccedil;ados, entre outros, dois medicamentos antimal&aacute;ria    e um novo tratamento para est&aacute;gios avan&ccedil;ados de doen&ccedil;a    do sono. Quase 40 anos ap&oacute;s o lan&ccedil;amento dos dois &uacute;nicos    rem&eacute;dios dispon&iacute;veis para doen&ccedil;a de Chagas, foi anunciado,    em 2009, um acordo entre a DNDi e a Eisai para teste de um novo medicamento    contra a doen&ccedil;a.</font></P>     <p><font size="3">Recentemente, a Pfizer Inc. abriu sua biblioteca de cerca de    200 mil compostos &agrave; DNDi e parceiros para testes contra a doen&ccedil;a    do sono, a leishmaniose visceral e a doen&ccedil;a de Chagas. Acordo semelhante    tamb&eacute;m foi firmado com a Medecines for Malaria Ventures (MMV) para testes    contra o <I>Plasmodium falciparum, </I>que causa a mal&aacute;ria aguda. </font></P>     <p><font size="3"><b>BRASIL TENTA FAZER SUA PARTE</b> A situa&ccedil;&atilde;o    melhorou desde 2003, embora ainda longe da ideal. Para o representante da DNDi,    o Brasil se destaca no cen&aacute;rio internacional: "&eacute; o sexto    no mundo em investimentos em pesquisa de doen&ccedil;as negligenciadas e o primeiro    dentre os pa&iacute;ses em desenvolvimento". Em 2008, os pa&iacute;ses    e blocos que mais investiram em pesquisas de doen&ccedil;as negligenciadas s&atilde;o    os EUA, com US$ 1,2 bilh&atilde;o(70%) seguidos pela Uni&atilde;o Europeia como    um todo, e Inglaterra, Holanda, Irlanda, respectivamente. O Brasil, em sexto    lugar, investiu US$ 21,9 milh&otilde;es (1,24%). </font></P>     <p><font size="3">Al&eacute;m de investir em pesquisa, &eacute; preciso passar    o conhecimento cient&iacute;fico para a inova&ccedil;&atilde;o na ind&uacute;stria.    E desenvolver novos produtos requer mecanismos inovadores de financiamento e    redu&ccedil;&atilde;o de custos. Michel Lotrowska acrescenta que para doen&ccedil;as    negligenciadas o sistema de patentes de novos medicamentos n&atilde;o funciona:    "o sistema precisa ter sustentabilidade; n&atilde;o basta descobrir uma    nova droga; &eacute; preciso test&aacute;&#45;la, distribu&iacute;&#45;la, treinar m&eacute;dicos    e tratar pacientes. Isso tem um custo elevado". Sem parcerias entre governos,    institui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais e empresas privadas e sem    est&iacute;mulos e compensa&ccedil;&otilde;es, doen&ccedil;as continuar&atilde;o    negligenciadas e milh&otilde;es de pessoas permanecer&atilde;o doentes e esquecidas.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><I>Leonor Assad</I></font></p>      ]]></body>
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