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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/brasil.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>50 ANOS</b></font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v62n1/line_blk.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Ver Bras&iacute;lia, viver em Bras&iacute;lia</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Bras&iacute;lia nasceu imponente, adulta, com um planejamento    nunca antes visto para uma cidade brasileira. Foi concebida em termos definitivos,    "feita para permanecer e traduzir, com dignidade, uma nova fase do Brasil,    n&atilde;o de um pa&iacute;s diferente, mas que continua voltado para o futuro.    Enfim, sabe&#45;se l&aacute; o que se tem pela frente". Estas palavras est&atilde;o    no discurso sobre o plano piloto da capital, proferidas em 1974 por L&uacute;cio    Costa, um dos autores dessa grande obra. Cinquenta anos depois de sua funda&ccedil;&atilde;o,    em 21 de abril de 1960, a cidade projetada por Oscar Niemeyer e Lucio Costa,    ainda espanta e impressiona pelo projeto urban&iacute;stico e pela monumentalidade    de edif&iacute;cios como sua catedral ou o Pal&aacute;cio da Alvorada. Hoje,    no entanto, o projeto &eacute; desafiado pelo crescimento populacional, pelo    tr&aacute;fego intenso de carros e pelo contraste gritante das cidades sat&eacute;lites,    aquelas que ficam fora de Bras&iacute;lia e abrigam a maior parte de seus trabalhadores.</font></P>     <P> <font size="3">"O futuro de uma cidade projetada n&atilde;o &eacute;    uma inc&oacute;gnita na medida em que o projeto/plano &eacute; executado para    que seja o que se quer dela no momento do projeto. No caso, os anos 1950. Uma    cidade planejada poderia ter um desenvolvimento que exigiria adapta&ccedil;&otilde;es    ao longo do seu percurso, mas uma cidade projetada &eacute; algo que nasce no    momento de sua inaugura&ccedil;&atilde;o", considera Regina Meyer, arquiteta    e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S&atilde;o    Paulo (USP). "O plano piloto foi rigidamente projetado e realizado. O sistema    vi&aacute;rio e toda a infraestrutura, integralmente instalados. O futuro j&aacute;    estava ali em 1960. N&atilde;o haveria mudan&ccedil;as. Esse &eacute; o drama    de Bras&iacute;lia: uma cidade que nasceu com a sua imagem, forma e fun&ccedil;&atilde;o    adulta pr&eacute;&#45;definida". Regina, coordenadora do Laborat&oacute;rio    de Urbanismo da Metr&oacute;pole na USP, acrescenta que o presidente Juscelino    Kubitschek queria uma cidade moderna e voltada exclusivamente &agrave; administra&ccedil;&atilde;o    p&uacute;blica. Atividades econ&ocirc;micas seriam apenas de natureza terci&aacute;ria.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a04fig01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>NO MEIO DO NADA</b> Em seu livro <i>As curvas do tempo. Mem&oacute;rias</i>    (1999), Oscar Niemeyer conta que em 1956 o presidente Juscelino Kubitschek lhe    fez o convite de construir uma capital moderna &#151; "a mais bela capital deste    mundo". No ano seguinte o projeto do plano piloto da nova cidade foi aprovado    e os primeiros pr&eacute;dios come&ccedil;aram a ser constru&iacute;dos. Empregando    um ex&eacute;rcito de trabalhadores e excedendo todas as metas or&ccedil;ament&aacute;rias,    a transfer&ecirc;ncia da capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central se    concretizou em apenas tr&ecirc;s anos e dez meses. Para Andrey Rosenthal Schlee,    diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Bras&iacute;lia    (UnB), o cinquenten&aacute;rio da capital chega com muitos problemas, mas tamb&eacute;m    com muitas solu&ccedil;&otilde;es e acertos. "Antes de ser tratada como    uma ideia impratic&aacute;vel, Bras&iacute;lia deve ser encarada como mais um    exemplo do gigantesco processo de urbaniza&ccedil;&atilde;o brasileiro, caracterizado,    entre outras coisas, pela concentra&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&atilde;o    nos centros urbanos e pela cria&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o    de novas cidades praticamente do zero", diz. </font></P>     <P><font size="3">Em meados da d&eacute;cada de 1950, o Brasil era um pa&iacute;s    predominantemente rural, com mais de 60% da popula&ccedil;&atilde;o no campo.    Com a industrializa&ccedil;&atilde;o promovida por JK, o cen&aacute;rio come&ccedil;ou    a mudar. O emprego nas grandes cidades aumentou, as pessoas passaram a migrar    e a economia cresceu. O crescimento veio acompanhado de investimento governamental    em estradas, visando &agrave; interioriza&ccedil;&atilde;o do "progresso"    &#151; o que envolvia a constru&ccedil;&atilde;o de Bras&iacute;lia. Ainda segundo    Schlee, no Brasil, o processo de urbaniza&ccedil;&atilde;o aparece j&aacute;    no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, com a constru&ccedil;&atilde;o e inaugura&ccedil;&atilde;o    de Belo Horizonte, em 1897, refor&ccedil;ado com a constru&ccedil;&atilde;o    de Goi&acirc;nia, em 1937. </font></P>     <P><font size="3"><b>FUNCIONALIDADE</b> Para colocar de p&eacute; a nova cidade,    Niemayer optou por se concentrar no projeto dos pr&eacute;dios, preferindo delegar    o projeto urban&iacute;stico para outra pessoa. A op&ccedil;&atilde;o foi lan&ccedil;ar    um concurso nacional que escolheria a melhor proposta. Na &eacute;poca todos    expoentes da arquitetura moderna no Brasil, como Rino Levi, Villanova Artigas    e Carlos Cascaldi, enviaram projetos que podem ser considerados aplica&ccedil;&otilde;es    dos ideais do urbanismo funcionalista, segundo Schlee. A escolha foi feita pela    Companhia de Urbaniza&ccedil;&atilde;o da Nova Capital (Novacap), de Lucio Costa,    amigo pr&oacute;ximo de Niemeyer. "Trata&#45;se de um conceito que, segundo    a l&oacute;gica da arquitetura moderna, busca espa&ccedil;os que se assemelham    a super quadras, em um desenho ordenado e planejado, em oposi&ccedil;&atilde;o    &agrave; informalidade da organiza&ccedil;&atilde;o urbana de uma cidade como    S&atilde;o Paulo, por exemplo. O resultado, em boa parte dos casos, s&atilde;o    espa&ccedil;os urbanos altamente dependentes do autom&oacute;vel com grandes    bols&otilde;es de estacionamento. Grandes pr&eacute;dios distantes entre si    s&atilde;o cercados por espa&ccedil;os livres desqualificados, cobertos por    vegeta&ccedil;&atilde;o", acrescenta. Uma omiss&atilde;o crucial no edital    que determinava as regras para elabora&ccedil;&atilde;o do projeto piloto da    nova cidade era que n&atilde;o se previa qual seria sua popula&ccedil;&atilde;o.    "Em resposta &agrave;s consultas dos profissionais que concorriam no concurso,    Niemeyer estabeleceu uma densidade m&aacute;xima prevista de 500 mil habitantes;    50 anos depois, 2,5 milh&otilde;es de pessoas vivem na capital", conta    Schlee.</font></P>     <P><font size="3"><b>UMA CIDADE PARA O CARRO</b> Com infraestrutura vi&aacute;ria    invej&aacute;vel, no entanto, o mal das cidades brasileiras foi lentamente se    instalando tamb&eacute;m. "Ali fica claro que um plano tem que pensar em    outras vari&aacute;veis al&eacute;m da dimens&atilde;o das avenidas. O dado    b&aacute;sico seria o transporte p&uacute;blico", afirma Regina. Para ela,    a aus&ecirc;ncia do transporte p&uacute;blico de massa no plano proposto; o    excesso de desenho do sistema vi&aacute;rio, em detrimento do seu modo de funcionamento,    criou uma cidade inteiramente cativa do autom&oacute;vel. &Eacute; preciso lembrar    que a rela&ccedil;&atilde;o entre popula&ccedil;&atilde;o nacional <i>versus</i>    posse de autom&oacute;vel particular na d&eacute;cada de 1950, estava prestes    a se alterar profundamente com a chegada da ind&uacute;stria automobil&iacute;stica    no Brasil, pelas m&atilde;os do mesmo governo que criava Bras&iacute;lia. De    acordo com a pesquisadora, a aus&ecirc;ncia de uma pol&iacute;tica de transporte    p&uacute;blico de massa em Bras&iacute;lia, associada &agrave; presen&ccedil;a    da classe trabalhadora vivendo fora do plano piloto e &agrave; produ&ccedil;&atilde;o    de autom&oacute;veis a pre&ccedil;os mais acess&iacute;veis para boa parte da    classe m&eacute;dia, provocou um r&aacute;pido esgotamento do sistema vi&aacute;rio    das grandes cidades, inclusive o brasiliense. "N&atilde;o h&aacute; a menor    d&uacute;vida, o pedestre em Bras&iacute;lia &eacute; um indiv&iacute;duo renegado    de forma muito expl&iacute;cita. A cidade cujo desenho nasceu do cruzamento    dos eixos rodovi&aacute;rios expressos n&atilde;o &eacute; em momento algum    prop&iacute;cia ao pedestre", diz. O pedestre em Bras&iacute;lia &eacute;    quase sempre um indiv&iacute;duo que al&eacute;m de n&atilde;o possuir um carro,    tamb&eacute;m n&atilde;o mora nas superquadras do plano piloto. &Eacute; uma    pessoa "de fora" e de outra classe social. Percorrer longos trajetos    a p&eacute; &eacute; uma atividade dos que trabalham no com&eacute;rcio local,    nas resid&ecirc;ncias e outros servi&ccedil;os menores. S&atilde;o eles que    usam o prec&aacute;rio sistema de transporte p&uacute;blico da cidade. </font></P>     <P><font size="3">O principal gargalo est&aacute; na nova condi&ccedil;&atilde;o    metropolitana que Bras&iacute;lia adquiriu. Isso significa que o plano piloto    e as cidades sat&eacute;lites (Sobradinho, Gama, Ceil&acirc;ndia, N&uacute;cleo    Bandeirante, Cruzeiro, dentre outras) formam um espa&ccedil;o cont&iacute;nuo    (metropolitano) muito desigual do ponto de vista social e econ&ocirc;mico. Esse    &eacute; um atributo de todas as grandes cidades brasileiras que n&atilde;o    poupou Bras&iacute;lia. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
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