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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/mundo.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>RESENHA</b></font></P>     <p><img src="/img/revistas/cic/v62n1/line_blk.gif"></P>     <P><font size="4"><b>Darwin, homem moral</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">No ano em que se comemorou o bicenten&aacute;rio do nascimento    de Charles Darwin e os 150 anos da publica&ccedil;&atilde;o de sua obra mais    famosa &#151; <i>A origem das esp&eacute;cies</i> &#151;, surgiu uma nova faceta do personagem    conhecido como o pai da evolu&ccedil;&atilde;o. Em <i>A causa sagrada de Darwin</i>    (Editora Record, 668p., 2009), Adrian Desmond e James Moore apresentam um homem    movido por sensibilidade, por uma arraigada &eacute;tica moral e pelo horror    &agrave; escravid&atilde;o. O choque de ouvir os gritos, em Pernambuco, de um    escravo sendo torturado teria sido o principal impulso para que o jovem brit&acirc;nico    desenvolvesse e publicasse a argumenta&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica que    organiza a vida numa &aacute;rvore geneal&oacute;gica, e assim defende a igualdade    entre todos os seres vivos, humanos inclusive.</font></P>     <P><font size="3">O novo livro &eacute; a resposta a uma pergunta que, segundo    James Moore, tinha ficado pendente na extensa biografia que a dupla escreveu    e que foi publicada no Brasil em 1995: por que Darwin teria perseguido uma causa    t&atilde;o perigosa, a da ancestralidade comum entre todos os seres vivos, que    corria o risco de arruinar sua vida pessoal e sua reputa&ccedil;&atilde;o profissional?</font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a07fig01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Era, argumentam, uma causa profundamente importante para Darwin,    que permeou toda a sua vida. Ele foi educado por uma fam&iacute;lia que defendia    os direitos humanos e estudou na Universidade de Cambridge, onde na mesma &eacute;poca    estudavam e lecionavam antiescravagistas not&oacute;rios. Ele viveu numa Inglaterra    que, na primeira metade do s&eacute;culo XIX, fervilhava em protestos contra    a escravid&atilde;o. Moore percorreu registros de peti&ccedil;&otilde;es antiescravagistas    &#151; dezenas de milhares de nomes exercitando a democracia incipiente &#151;, al&eacute;m    de jornais da &eacute;poca, e concluiu que os protestos contra a escravid&atilde;o    foram um dos maiores movimentos morais daquele pa&iacute;s, um experimento em    democracia antes que ela existisse como &eacute; hoje.</font></P>     <P><font size="3">Darwin conheceu negros bem&#45;sucedidos na Inglaterra, como um    ator de sucesso que fazia v&aacute;rios pap&eacute;is no teatro da cidade onde    ele vivia, conviveu com pessoas das mais diversas ra&ccedil;as em suas viagens    pelo mundo e presenciou cenas que o marcaram para o resto da vida. A mais not&oacute;ria    aconteceu em Pernambuco, j&aacute; no fim da passagem do navio de explora&ccedil;&atilde;o    Beagle pelo Brasil: "Por tr&aacute;s das paredes, invis&iacute;veis, inalcan&ccedil;&aacute;veis,    mas horrivelmente reais, vinham 'os mais lament&aacute;veis gemidos' e gritos.    (...) A raiva e a frustra&ccedil;&atilde;o deixaram&#45;no se sentindo 'impotente    como uma crian&ccedil;a' &#151; incapaz de ajudar a si mesmo ou a uma criatura inocente    (...). Essa emo&ccedil;&atilde;o o perseguiria para o resto da vida. Um 'grito    distante' sempre traria de volta as lembran&ccedil;as daquele escravo torturado".    </font></P>     <P><font size="3">A cicatriz deixada pela experi&ecirc;ncia reaparece com for&ccedil;a    no ataque violento que Darwin fez &agrave; escravatura no texto revisto do <i>Di&aacute;rio    do Beagle</i> publicado em 1845. E, de acordo com a tese de Desmond e Moore,    desembocou no corpo te&oacute;rico que ele legou &agrave; hist&oacute;ria do    pensamento cient&iacute;fico. Ele n&atilde;o revelou tudo em <i>A origem das    esp&eacute;cies</i>, j&aacute; bomb&aacute;stico demais para tratar tamb&eacute;m    da quest&atilde;o humana, que deixou para tratar com cuidado mais tarde. Como    n&atilde;o fazia nada de maneira leviana ou incompleta, Darwin reuniu todos    os argumentos poss&iacute;veis para rebater quaisquer obje&ccedil;&otilde;es    poss&iacute;veis e publicou, em 1871, <i>A origem do homem e a sele&ccedil;&atilde;o    sexual</i> (<i>The descent of man, and selection in relation to sex</i>). </font></P>     <P><font size="3">&Eacute; um livro menos lido e menos mencionado do que o tomo    inaugural da sele&ccedil;&atilde;o natural, em parte por ser imenso e aparentemente    desconexo. A parte de sele&ccedil;&atilde;o sexual, de acordo com Moore, &eacute;    quase um cat&aacute;logo das diferen&ccedil;as entre machos e f&ecirc;meas,    informa&ccedil;&otilde;es aparentemente obscuras sobre animais de todos os tipos.    A surpresa &eacute; justamente mostrar que est&aacute; a&iacute; a origem do    homem. Entre animais, &eacute; comum que os machos sejam maiores e mais vistosos,    pois precisam atrair a aten&ccedil;&atilde;o das f&ecirc;meas que escolhem seus    parceiros com crit&eacute;rios rigorosos. Para Darwin, a superioridade masculina    era um fato da natureza &#151; que justificava que, homem de seu tempo, n&atilde;o    apoiasse o direito das mulheres ao voto e n&atilde;o tenha mandado suas filhas    para a escola. </font></P>     <P><font size="3">Mas, no que diz respeito &agrave; sele&ccedil;&atilde;o sexual,    para ele a intelig&ecirc;ncia humana inverteu as regras do jogo. S&atilde;o    as mulheres que se enfeitam, na Inglaterra de Darwin com chap&eacute;us e broches    de penas e at&eacute; aves ex&oacute;ticas inteiras e, hoje, com len&ccedil;os,    joias e roupas atraentes, sem falar em sorrisos e comportamentos sedutores.    &Eacute; o jogo da beleza, que embora n&atilde;o ajude ningu&eacute;m no embate    da sele&ccedil;&atilde;o natural &#151; n&atilde;o d&aacute; for&ccedil;as para brigar,    nem maior capacidade de encontrar alimento &#151; &eacute; o que aumenta as chances    de deixar descendentes na pr&oacute;xima gera&ccedil;&atilde;o, por meio da    sedu&ccedil;&atilde;o. Ele observava a natureza das sociedades, inclusive o    comportamento das pessoas, com a mesma curiosidade e o mesmo m&eacute;todo com    que buscava entender comunidades de aves ou besouros em ambientes silvestres    remotos.</font></P>     <P><font size="3">A maneira uniforme como ele discute todos os organismos, dos    crust&aacute;ceos aos humanos, deixa bem claro que, para Darwin, todos os seres    vivos t&ecirc;m uma origem comum e fazem parte de uma mesma &aacute;rvore geneal&oacute;gica.    E o mesmo vale para as ra&ccedil;as humanas. Assim como n&atilde;o h&aacute;    distin&ccedil;&otilde;es r&iacute;gidas entre uma esp&eacute;cie e outra, as    ra&ccedil;as tamb&eacute;m se encaixam num cont&iacute;nuo de varia&ccedil;&atilde;o.    Esp&eacute;cies n&atilde;o seriam mais do que ra&ccedil;as bem definidas. Darwin    acreditava que as ra&ccedil;as humanas poderiam estar no caminho de se tornarem    esp&eacute;cies distintas, caso permanecessem isoladas a ponto de passar a ver    pessoas diferentes com repugn&acirc;ncia, em vez de atra&ccedil;&atilde;o sexual.    Se isso acontecesse, seria poss&iacute;vel que uma ra&ccedil;a viesse a eliminar    a outra. E os brancos, "com sua civiliza&ccedil;&atilde;o mais complexa    e seus c&eacute;rebros mais desenvolvidos", provavelmente eliminariam os    negros. &Eacute; parte do jogo da natureza, assim como esp&eacute;cies naturalmente    se extinguem nos embates evolutivos. Al&eacute;m disso, o naturalista ingl&ecirc;s    era, afinal, um homem de seu tempo e n&atilde;o conseguia sair completamente    dos preconceitos vigentes.</font></P>     <P><font size="3">A tese de Desmond e Moore &eacute; ousada e ainda n&atilde;o    terminou de ser testada pela cr&iacute;tica. Moore considera poss&iacute;vel    que algumas pessoas contestem a tese de que a motiva&ccedil;&atilde;o de Darwin    para desenvolver a teoria da evolu&ccedil;&atilde;o era, sobretudo, moral, mas    pelo menos elas ver&atilde;o que o livro est&aacute; recheado de fatos interessantes    &#151; a mesma cr&iacute;tica feita ao <i>Origem das esp&eacute;cies</i> na &eacute;poca    de sua publica&ccedil;&atilde;o. De toda maneira, nossa vis&atilde;o de Charles    Darwin nunca mais ser&aacute; a mesma com essas novas revela&ccedil;&otilde;es.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><i>Maria Guimar&atilde;es</i></font></P>      ]]></body>
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