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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Jardim Botânico do Rio de Janeiro e as ciências agrárias]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>JARDIM BOT&Acirc;NICO DO RIO DE JANEIRO E AS CI&Ecirc;NCIAS    AGR&Aacute;RIAS</b></font></P>     <p><font size="3"><b>Begonha Bediaga</b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>A</b></font><font size="3"> concep&ccedil;&atilde;o de bot&acirc;nica    que se buscou incentivar no Brasil, at&eacute; a segunda metade do s&eacute;culo    XIX, era utilit&aacute;ria. A agricultura n&atilde;o se constitu&iacute;a como    um saber diferenciado da bot&acirc;nica de forma evidente; em geral era referenciada    como a "arte", ou seja, a aplica&ccedil;&atilde;o do saber bot&acirc;nico.    Na cria&ccedil;&atilde;o do Curso P&uacute;blico de Agricultura na cidade da    Bahia, em 1812, o pr&iacute;ncipe&#45;regente D. Jo&atilde;o, ao instruir sobre    os assuntos que o professor deveria ensinar e o funcionamento da escola, n&atilde;o    separava os conhecimentos da agricultura daqueles da bot&acirc;nica:</font></P>     <blockquote>        <p><font size="3">O professor de agricultura ser&aacute; incumbido da dire&ccedil;&atilde;o,      cultura e economia do Jardim Bot&acirc;nico, que deve servir de escola de      agricultura, e ser distribu&iacute;do em tr&ecirc;s partes: a 1ª      servir&aacute; de escola bot&acirc;nica, classificada segundo o sistema de      fam&iacute;lias naturais; a 2ª de escola de cultura, melhora&ccedil;&atilde;o      das plantas ind&iacute;genas, e naturaliza&ccedil;&atilde;o das ex&oacute;ticas,      segundo o m&eacute;todo de Thuin, onde os alunos dever&atilde;o aprender todas      as opera&ccedil;&otilde;es agron&ocirc;micas, desde a rotea&ccedil;&atilde;o      &#91;<I>sic</I>&#93;, at&eacute; o ensoleiramento; a 3ª servir&aacute;      de viveiro de plantas (1).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Constata&#45;se a mesma associa&ccedil;&atilde;o na primeira publica&ccedil;&atilde;o    brasileira sobre jardins bot&acirc;nicos, <I>Discurso sobre a utilidade da institui&ccedil;&atilde;o    de jardins nas principais prov&iacute;ncias do Brasil</I> , de 1810. Seu autor,    Manuel Arruda C&acirc;mara, um representante do Iluminismo luso&#45;brasileiro,    era naturalista e fazendeiro de Pernambuco. Na obra, C&acirc;mara indicava a    necessidade de realizar "transplanta&ccedil;&otilde;es" de vegetais    como o caf&eacute;, a cana e o tabaco e apontava, tamb&eacute;m, a importa&ccedil;&atilde;o    de animais como carneiros, gado e cavalos para auxiliar o pa&iacute;s a gerar    riquezas. Para o autor, o meio capaz de tornar exequ&iacute;vel o projeto era    a "institui&ccedil;&atilde;o de hortos ou jardins em algumas prov&iacute;ncias    do Brasil" (2). Nas instru&ccedil;&otilde;es sobre instala&ccedil;&atilde;o    e administra&ccedil;&atilde;o desses estabelecimentos, afirmava que o inspetor    respons&aacute;vel deveria ser "instru&iacute;do em princ&iacute;pios da    agricultura; e muito melhor ser&aacute; se possuir a ci&ecirc;ncia da bot&acirc;nica".    Tamb&eacute;m apontava como fundamental que os estabelecimentos bot&acirc;nicos    dessem prioridade &agrave; serventia econ&ocirc;mica: "a institui&ccedil;&atilde;o    de semelhantes hortos n&atilde;o tem por objeto s&oacute; o agrad&aacute;vel    e o aumento da bot&acirc;nica, mas o seu principal fim &eacute; &uacute;til"    (2).</font></P>     <p><font size="3">Ao analisar o primeiro peri&oacute;dico brasileiro a publicar    artigos cient&iacute;ficos, <I>O Patriota</I> (1813&#45;1814), Kury fornece subs&iacute;dios    para compreender esse aspecto utilit&aacute;rio das ci&ecirc;ncias de ent&atilde;o,    quando a t&eacute;cnica estava diretamente associada ao conhecimento:</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="3">(...) seu &iacute;ndice j&aacute; pode indicar algumas caracter&iacute;sticas      do que os redatores entendiam por atividade cient&iacute;fica. Em primeiro      lugar, essa rubrica cont&eacute;m as seguintes subdivis&otilde;es: matem&aacute;tica;      navega&ccedil;&atilde;o e hidrografia; bot&acirc;nica e agricultura &#91;<I>grifo      meu</I>&#93;; qu&iacute;mica; medicina; mineralogia (que inclui as observa&ccedil;&otilde;es      meteorol&oacute;gicas). Embora exista uma rubrica espec&iacute;fica para as      "artes", os artigos de "ci&ecirc;ncias" incluem as aplica&ccedil;&otilde;es      pr&aacute;ticas das disciplinas (3).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A cria&ccedil;&atilde;o da cadeira de bot&acirc;nica e agricultura    (4) na Academia M&eacute;­dico&#45;Cir&uacute;rgica do Rio de Janeiro, em 1814,    mostra como os dois saberes estavam atrelados, at&eacute; na sua denomina&ccedil;&atilde;o.    O mesmo decreto que criou a cadeira nomeava para o cargo frei Leandro do Sacramento,    que dez anos depois assumiria a dire&ccedil;&atilde;o do Jardim Bot&acirc;nico    da Lagoa Rodrigo de Freitas (JB) (5). Entre suas diversas iniciativas na institui&ccedil;&atilde;o,    sobressai a planta&ccedil;&atilde;o de ch&aacute; (<I>Camellia sinensis</I>)    em larga escala, com os objetivos de aclimatar a esp&eacute;cie e buscar variedades    que melhor se adequassem ao clima e solo, al&eacute;m de propagar a cultura    com distribui&ccedil;&atilde;o de sementes. </font></P>     <p><font size="3">Segundo relat&oacute;rio ministerial, em 1828 colhia&#45;se no JB    o correspondente a cerca de 338 quilos de sementes, que eram distribu&iacute;das    gratuitamente aos produtores rurais. As atividades da institui&ccedil;&atilde;o    com o ch&aacute; elucidam de maneira exemplar a jun&ccedil;&atilde;o de saberes    te&oacute;ricos e pr&aacute;ticos com objetivos econ&ocirc;micos. Inicialmente,    foram identificadas suas caracter&iacute;sticas morfol&oacute;gicas e fisiol&oacute;gicas,    a distribui&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica da esp&eacute;cie e a sua classifica&ccedil;&atilde;o.    E, por meio da produ&ccedil;&atilde;o de sementes, aclimata&ccedil;&atilde;o    da esp&eacute;cie ao nosso clima e solo, al&eacute;m do estudo das variedades    (6), iniciou&#45;se a produ&ccedil;&atilde;o da especiaria, na tentativa de implantar,    em grande escala, a cultura no Brasil. </font></P>     <p><font size="3">De fato, na primeira metade do s&eacute;culo XIX, o JB seguiu    orienta&ccedil;&otilde;es no sentido de experimentar culturas que tivessem retorno    econ&ocirc;mico, ao mesmo tempo em que dispunha seu arboreto para o lazer da    popula&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m houve dificuldades em dar continuidade    ao projeto por diversos motivos, entre os quais a falta de dota&ccedil;&atilde;o    or&ccedil;ament&aacute;ria do governo e a crescente demanda pol&iacute;tico&#45;econ&ocirc;mica    (7).</font></P>     <p><font size="3">Em 1861, o JB foi cedido a uma institui&ccedil;&atilde;o privada,    o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura (IIFA) a solu&ccedil;&atilde;o    encontrada, pelo governo imperial, para resolver a dif&iacute;cil equa&ccedil;&atilde;o    que enfrentava nos &uacute;ltimos tempos, relativa &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o    e miss&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o. Mas, antes de me deter sobre as    atividades do JB sob a administra&ccedil;&atilde;o do IIFA, apresento um breve    olhar panor&acirc;mico do contexto internacional das ci&ecirc;ncias voltadas    para a agricultura, que ajuda a compreender, em parte, a atua&ccedil;&atilde;o    do JB no &acirc;mbito das ci&ecirc;ncias agr&aacute;rias, no per&iacute;odo.</font></P>     <p><font size="3">No plano cient&iacute;fico internacional, o contexto era de    efervesc&ecirc;ncia. Descobertas no campo da agronomia floresciam na Europa,    com destaque para a qu&iacute;mica agr&iacute;cola, a fisiologia dos vegetais    e os conhecimentos dos componentes do solo. Entre as inven&ccedil;&otilde;es    noticiadas que certamente provocaram uma "revolu&ccedil;&atilde;o"    na agricultura da Europa e EUA, salientam&#45;se as de Justus Liebig (1803&#45;1873).    Pode&#45;se dizer que uma das mais relevantes foi a identifica&ccedil;&atilde;o    da fun&ccedil;&atilde;o dos elementos minerais na composi&ccedil;&atilde;o do    solo e na nutri&ccedil;&atilde;o vegetal. O qu&iacute;mico alem&atilde;o demonstrou    que, al&eacute;m dos elementos org&acirc;nicos encontrados no esterco, nas folhas    secas, em restos de alimentos, entre outros locais, o vegetal necessita tamb&eacute;m    de elementos inorg&acirc;nicos. Seus estudos, divulgados na d&eacute;cada de    1840, tiveram grande impacto na agricultura, pois resultavam em poderes ilimitados    ao conhecimento da composi&ccedil;&atilde;o do solo e, por conseguinte, na poss&iacute;vel    reposi&ccedil;&atilde;o de nutrientes por meio de adubos.</font></P>     <p><font size="3">Uma grande campanha da m&iacute;dia desencadeou ent&atilde;o    um otimismo exagerado ao preconizar que, com a composi&ccedil;&atilde;o do solo    identificada nos laborat&oacute;rios de qu&iacute;mica, e uma vez constatada    a aus&ecirc;ncia de determinados nutrientes, estes poderiam ser restitu&iacute;dos    &agrave; natureza, o que permitiria novas lavouras e o uso permanente do solo,    sem necessidade de descanso ou de rod&iacute;zio de culturas. Os adeptos dos    fertilizantes tamb&eacute;m defendiam que eles poderiam combater as chamadas    pragas agr&iacute;colas, gra&ccedil;as &agrave; an&aacute;lise do solo e &agrave;    suposta adi&ccedil;&atilde;o dos nutrientes carentes nas planta&ccedil;&otilde;es,    a fim de que o vegetal ganhasse for&ccedil;a para combater os "invasores".</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a12img01.gif"></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Outras pesquisas na mesma &eacute;poca tamb&eacute;m colaboraram    para a melhoria da produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola, a exemplo do uso    das leguminosas para fixa&ccedil;&atilde;o do nitrog&ecirc;nio ao solo, do uso    do calc&aacute;rio para corrigir a acidez do solo, da pesquisa fisiol&oacute;gica    sobre agentes de enfermidades e o combate delas. Com todos esses conhecimentos,    anunciava&#45;se maior produtividade e qualidade dos produtos extra&iacute;dos da    natureza, e agricultores de v&aacute;rias partes do mundo buscavam informa&ccedil;&otilde;es    sobre o assunto, obtidas principalmente em revistas e peri&oacute;dicos voltados    para o grande p&uacute;blico.</font></P>     <p><font size="3">O debate e as mudan&ccedil;as de procedimentos na agricultura    resultaram na valoriza&ccedil;&atilde;o de saberes que buscavam obter status    cient&iacute;fico, como agronomia, qu&iacute;mica agr&iacute;cola, pedologia,    meteorologia agr&iacute;cola e silvicultura. No bojo desse movimento, outros    ramos de conhecimento atinentes &agrave;s atividades rurais, como a veterin&aacute;ria    e a zootecnia, tiveram oportunidade de firmar&#45;se como saberes &uacute;teis que    exigiam pesquisa e, portanto, reconhecimento e apoio do Estado e da sociedade.</font></P>     <p><font size="3">No Brasil, repercutiam as novas propostas sobre o aumento e    a melhoria da produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola e pecu&aacute;ria, e os    produtores e a emergente comunidade cient&iacute;fica buscavam sintonizar&#45;se    com os avan&ccedil;os produzidos na Europa e nos EUA. A economia brasileira    firmava&#45;se, sobretudo, na agricultura de exporta&ccedil;&atilde;o e sofria grande    concorr&ecirc;ncia, em pre&ccedil;o e qualidade, com os produtos de outros pa&iacute;ses.    O mercado internacional compelia os produtores a incrementar a agricultura,    principalmente as lavouras de a&ccedil;&uacute;car e caf&eacute;. O governo    imperial, por sua vez, buscava aprimorar suas rela&ccedil;&otilde;es com os    grandes propriet&aacute;rios de terras, base de sua sustenta&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica, apresentando solu&ccedil;&otilde;es para    a situa&ccedil;&atilde;o. O IIFA conformou&#45;se, ent&atilde;o, em um espa&ccedil;o    em que produtores rurais e governo, em conjunto, estariam dedicados a implantar    projetos "modernizadores" para a agricultura, por&eacute;m sem grandes    reformas do modelo agroexportador que o pa&iacute;s mantinha.</font></P>     <p><font size="3">Ap&oacute;s a incorpora&ccedil;&atilde;o do Jardim Bot&acirc;nico,    o IIFA foi organizado em quatro &oacute;rg&atilde;os principais: Jardim Bot&acirc;nico,    Fazenda Normal, Asilo Agr&iacute;cola e <I>Revista Agr&iacute;cola</I>. Os objetivos    principais a nortear a sua estrutura&ccedil;&atilde;o eram pedag&oacute;gicos    e tecnocient&iacute;ficos. No que concerne aos primeiros, procurava&#45;se aliar    ao ensino te&oacute;rico a pr&aacute;tica no campo, para que os lavradores abandonassem    as t&eacute;cnicas "rudimentares" e aderissem &agrave;s "modernas".    Quanto aos objetivos tecnocient&iacute;ficos, estavam calcados na experimenta&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica, que tratava de investigar a intera&ccedil;&atilde;o do complexo    solo/planta/clima de forma a maximizar a produ&ccedil;&atilde;o da lavoura,    melhorar a qualidade do produto e incrementar novas culturas de esp&eacute;cies    de plantas com potencial econ&ocirc;mico; al&eacute;m disso, buscava&#45;se incentivar    o uso de m&aacute;quinas e instrumentos agr&iacute;colas na lavoura.</font></P>     <p><font size="3">Entre os membros da diretoria e s&oacute;cios do IIFA, encontravam&#45;se    dirigentes do governo, intelectuais, cientistas e propriet&aacute;rios rurais.    Assim, os debates ali travados sobre a lavoura e outras atividades pertinentes    &agrave; produ&ccedil;&atilde;o rural ultrapassavam os limites da prov&iacute;ncia    fluminense, apesar dos estatutos e o pr&oacute;prio nome da institui&ccedil;&atilde;o    restringir geograficamente sua atua&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Quanto ao contrato entre governo e IIFA sobre o JB, acordava&#45;se    n&atilde;o s&oacute; a cess&atilde;o deste ao instituto, como tamb&eacute;m    a de benfeitorias e terrenos adjacentes. O Estado colaboraria com uma subven&ccedil;&atilde;o    anual, a t&iacute;tulo de aux&iacute;lio para manuten&ccedil;&atilde;o do bem    p&uacute;blico. Em contrapartida, o IIFA deveria fundar um estabelecimento rural    e criar uma escola pr&aacute;tica de agricultura, al&eacute;m de conservar e    melhorar as benfeitorias e arvoredos do JB e franquear a sua visita&ccedil;&atilde;o    ao p&uacute;blico nos domingos e dias de festa. </font></P>     <p><font size="3">O IIFA organizou&#45;se, ent&atilde;o, separando as &aacute;reas    de lavoura daquelas voltadas para o lazer. As primeiras foram denominadas Fazenda    Normal (8) e as segundas permaneceram como Jardim Bot&acirc;nico. Mais tarde,    em 1869 foi criado o Asilo Agr&iacute;cola, para abrigar &oacute;rf&atilde;os    oriundos da Santa Casa de Miseric&oacute;rdia. N&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil    distinguir as atividades realizadas por cada um desses estabelecimentos, talvez    por serem poucos os funcion&aacute;rios que acabavam se desdobrando em in&uacute;meras    tarefas tanto na Fazenda Normal como no JB e, &agrave;s vezes, no Asilo Agr&iacute;cola,    ou por serem os espa&ccedil;os cont&iacute;guos e as atividades, muitas vezes,    servirem a mais de um estabelecimento.</font></P>     <p><font size="3">Na Fazenda Normal foi constitu&iacute;do um Laborat&oacute;rio    Qu&iacute;mico, cuja atribui&ccedil;&atilde;o era analisar solos, plantas e    ra&iacute;zes, de modo a subsidiar as planta&ccedil;&otilde;es. Tamb&eacute;m    buscava "atrav&eacute;s de experi&ecirc;ncias, os preservativos mais eficazes    para a conserva&ccedil;&atilde;o do milho, feij&atilde;o, arroz e outros produtos    mais suscet&iacute;veis de se deteriorarem em curto espa&ccedil;o de tempo"    (9). Mais tarde, o laborat&oacute;rio assumiria estudos de meteorologia agr&iacute;cola,    crescentemente utilizada no aux&iacute;lio da compreens&atilde;o dos fen&ocirc;menos    da atmosfera terrestre que influ&iacute;am nos vegetais tanto no presente quanto    no futuro, com o prop&oacute;sito de orientar lavradores no planejamento das    atividades agr&iacute;colas.</font></P>     <p><font size="3">As planta&ccedil;&otilde;es da Fazenda Normal seguiam crit&eacute;rios    tecnocient&iacute;ficos utilizando&#45;se conhecimentos al&eacute;m daqueles tradicionalmente    referentes ao campo da bot&acirc;nica. O crescimento e colheita eram etapas    importantes a serem observadas e analisadas, como afirmava o diretor do IIFA,    Nicolau Joaquim Moreira, em 1885:</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="3">Na Fazenda Normal n&atilde;o se procede &agrave; cultura alguma      sem medir&#45;se a &aacute;rea a cultivar, examinando&#45;se ao mesmo tempo a natureza      f&iacute;sica e qu&iacute;mica do solo, sistema de cultura a seguir, a qualidade      e a propor&ccedil;&atilde;o da semente, &eacute;poca da planta&ccedil;&atilde;o,      desenvolvimento da planta, floresc&ecirc;ncia, frutifica&ccedil;&atilde;o      e produ&ccedil;&atilde;o, terminando pela an&aacute;lise do produto, tanto      da quantidade como na qualidade de seus elementos constitutivos (10).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3"> Diversas culturas foram experimentadas na Fazenda, como Nicolau    Joaquim Moreira informava em relat&oacute;rio ao Minist&eacute;rio da Agricultura,    Com&eacute;rcio e Obras P&uacute;blicas (Macop), em 1886 (11):</font></P>     <blockquote>        <p><font size="3">Continua a Fazenda Normal a entregar&#45;se &agrave; cultura das      diversas esp&eacute;cies de plantas econ&ocirc;micas, dando prefer&ecirc;ncia      as que s&atilde;o mais procuradas pelos lavradores como sejam &#150; cana&#45;de&#45;a&ccedil;&uacute;car,      o algod&atilde;o, o fumo a mandioca, o aipim, a araruta, o cacau, o caf&eacute;,      a baunilha etc.    <br>     N&atilde;o se limita, por&eacute;m, a Fazenda Normal &agrave; cultura &uacute;nica      dos vegetais que constituem a base da lavoura nacional, aclima e propaga tamb&eacute;m      o teosinto, a juta, a rami, a vinha, a amoreira, o sorgo, o pain&ccedil;o,      o caoutchou, o ch&aacute;, o mate e muitas outras plantas de valor industrial,      quer ex&oacute;ticas, quer ind&iacute;genas. </font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Quanto ao Jardim Bot&acirc;nico, sua paisagem passou por processo    cont&iacute;nuo de forma&ccedil;&atilde;o e transforma&ccedil;&atilde;o, com    o cultivo de esp&eacute;cies pautado na beleza e no exotismo e com o adorno    de alamedas, lagos e cascatas, no arboreto. Ao longo dos anos nele foram instaladas    cadeiras e mesas, nivelado o ch&atilde;o e eliminado o "p&acirc;ntano",    para proporcionar mais conforto &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. O n&uacute;mero    de visitantes era bastante expressivo &#150; em dias de feriado chegava a tr&ecirc;s    mil &#150;, como informavam os relat&oacute;rios ministeriais.</font></P>     <p><font size="3">Decerto o JB era importante espa&ccedil;o de lazer e servia    de "cart&atilde;o&#45;postal" do imp&eacute;rio, divulgado no Brasil e    exterior. Um exemplo do uso do local para fins paisag&iacute;sticos e legitima&ccedil;&atilde;o    do poder mon&aacute;rquico foi a doa&ccedil;&atilde;o de bambus ex&oacute;ticos,    feita por D. Pedro II. Em carta a Fernando II, rei&#45;consorte de Portugal, o imperador    do Brasil destacava, a um s&oacute; tempo, os tais bambus que ele trouxera do    Egito, o viveiro do Jardim Bot&acirc;nico e a atua&ccedil;&atilde;o do amigo,    o visconde de Bom Retiro, presidente da institui&ccedil;&atilde;o durante vinte    anos:</font></P>     <blockquote>        <p><font size="3">Prefiro, como tu, voltar minha vista ao longo dos gigantes      bambus. H&aacute; muitas variedades desse elegant&iacute;ssimo vegetal no      Jardim Bot&acirc;nico do Rio tendo minha viagem ao Egito sido causa da introdu&ccedil;&atilde;o      de algumas delas.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     (...) O viveiro daquele Jardim &eacute; um dos melhores que eu conhe&ccedil;o,      devido isto, sobretudo, a meu, ou antes, a nosso amigo Bom Retiro (12).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">D. Pedro II orgulhava&#45;se em exibir, no exterior, o Jardim Bot&acirc;nico    da Corte. Se na Europa os reis tinham imponentes jardins bot&acirc;nicos, com    representantes de esp&eacute;cies do mundo todo, o "monarca dos tr&oacute;picos"    buscava mostrar que o de seu pa&iacute;s n&atilde;o ficava atr&aacute;s, inclusive    porque, al&eacute;m de possuir uma natureza enaltecida e cobi&ccedil;ada pelos    europeus, a institui&ccedil;&atilde;o brasileira tamb&eacute;m cultivava plantas    ex&oacute;ticas e criava belas paisagens.</font></P>     <p><font size="3">Em artigo sobre a constru&ccedil;&atilde;o da paisagem do JB,    Oliveira (13) busca elementos hist&oacute;ricos que auxiliam na leitura da "sobreposi&ccedil;&atilde;o    de diferentes projetos" do estabelecimento, em duzentos anos de atividades.    Ao se deter no per&iacute;odo em que o Jardim esteve subordinado ao IIFA, a    autora ressalta:</font></P>     <blockquote>        <p><font size="3">Outra quest&atilde;o que se observa at&eacute; o advento da      Rep&uacute;blica &eacute; a aus&ecirc;ncia de hierarquiza&ccedil;&atilde;o      dos conhecimentos de agricultura, horticultura e bot&acirc;nica. Tais premissas      foram seguidas e ampliadas a partir da d&eacute;cada de 1860, com a administra&ccedil;&atilde;o      do Jardim pelo Imperial Instituto Fluminense de Agricultura (...).     <br>     (...) Esse per&iacute;odo de administra&ccedil;&atilde;o do Jardim pelo Instituto      &eacute;, nesse sentido, particularmente significativo. Nele, a institui&ccedil;&atilde;o      combinou sua voca&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica,      al&eacute;m de se consolidar como jardim p&uacute;blico da cidade. </font></p> </blockquote>     <p><font size="3">O JB, portanto, n&atilde;o era destinado somente a propiciar    &aacute;rea de lazer &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m era    parte da engrenagem que executava os objetivos do IIFA. Um artigo de 1879 na    <I>Revista Agr&iacute;cola</I> (14), sobre as atividades do JB, assinalava que    o grande orgulho do estabelecimento era o viveiro de plantas, destinado igualmente    &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o de mudas e sementes para o p&uacute;blico,    ao arboreto, &agrave; Fazenda Normal e ao Asilo Agr&iacute;cola.</font></P>     <p><font size="3">De fato, a produ&ccedil;&atilde;o dos viveiros era de grande    escala e por certo colaborou significativamente na introdu&ccedil;&atilde;o    e amplia&ccedil;&atilde;o de culturas e esp&eacute;cies vegetais no Brasil.    Segundo relatos, poucas na&ccedil;&otilde;es possu&iacute;am extens&atilde;o    e diversidade de vegetais compar&aacute;veis ao exemplar brasileiro. Em cem    mil metros quadrados produzia&#45;se, por ano, cerca de 350 mil plantas (15), que    n&atilde;o s&oacute; abasteciam as grandes lavouras como tamb&eacute;m eram    usadas na ornamenta&ccedil;&atilde;o de pra&ccedil;as e ruas p&uacute;blicas    e em reflorestamentos. A produ&ccedil;&atilde;o de sementes e mudas era, em    grande parte, distribu&iacute;da gratuitamente ou colocada &agrave; venda atrav&eacute;s    de divulga&ccedil;&atilde;o nos peri&oacute;dicos de maior circula&ccedil;&atilde;o.    O relat&oacute;rio ministerial de 1886, por exemplo, informava a distribui&ccedil;&atilde;o    de 41 toneladas de variedades de cana&#45;de&#45;a&ccedil;&uacute;car para diversas    prov&iacute;ncias, e o envio de duas toneladas &agrave; Alemanha, al&eacute;m    do abastecimento do mercado nacional com 550 quilos de sementes.</font></P>     <p><font size="3">O IIFA participava tamb&eacute;m da rede de interc&acirc;mbios    de sementes e mudas de plantas, principalmente com jardins bot&acirc;nicos como    o de Paris, Ilhas Maur&iacute;cio e da Reuni&atilde;o, Java, Melbourne, Kew,    Pisa e Hamburgo. Ressalte&#45;se que tal interc&acirc;mbio ocorria com institui&ccedil;&otilde;es    cong&ecirc;neres do exterior, o que denota que, nesse particular, o JB contribuiu    para legitimar os prop&oacute;sitos do IIFA perante a comunidade cient&iacute;fica    internacional.</font></P>     <p><font size="3">Todavia, com o passar dos anos alguns setores come&ccedil;aram    a demonstrar insatisfa&ccedil;&atilde;o com a situa&ccedil;&atilde;o em que    se encontrava o JB. Em 1885, Nicolau Joaquim Moreira (16) propunha mudan&ccedil;as    para que se alcan&ccedil;asse o "desenvolvimento compat&iacute;vel com    os progressos do pa&iacute;s e os reclamos da civiliza&ccedil;&atilde;o"    (17). Reivindicava que o estabelecimento se tornasse uma "escola pr&aacute;tica    de hist&oacute;ria natural e um quadro cient&iacute;fico de nossa opulenta vegeta&ccedil;&atilde;o"    (17). Para embasar sua argumenta&ccedil;&atilde;o, o diretor do IIFA narrava    que os estrangeiros que vinham &agrave; corte, fosse em visita ou para fixar    resid&ecirc;ncia, teciam numerosos elogios ao Jardim Bot&acirc;nico. Como exemplo,    transcrevia as impress&otilde;es de um dos visitantes: "&Eacute; imposs&iacute;vel    imitar em parte alguma este jardim, porque n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel    reproduzir o luxo da vegeta&ccedil;&atilde;o tropical, verdadeiro transbordamento    de uma vida vegetal que se nota na natureza deste pa&iacute;s" (17). Comentava    Moreira que tais palavras deixavam os brasileiros orgulhosos, por&eacute;m gostaria    que os estrangeiros, depois de tecer louvores ao Jardim Bot&acirc;nico,</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="3">(...) acrescentassem as seguintes frases: "E de par com      a exuberante flora do Jardim Bot&acirc;nico se achavam o herb&aacute;rio,      suas cole&ccedil;&otilde;es carpol&oacute;gicas, seu museu, sua biblioteca      e o cat&aacute;logo cient&iacute;fico das preciosidades vegetais daquela circunscri&ccedil;&atilde;o.    <br>     N&atilde;o o fizeram nem o podiam fazer, Exm. Sr., porque n&atilde;o encontraram      esse tesouro, filho unicamente do esfor&ccedil;o, do trabalho e da intelig&ecirc;ncia      humana (17).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A inten&ccedil;&atilde;o de Moreira era equiparar o JB aos estabelecimentos    semelhantes da Europa. Para o cientista, a admira&ccedil;&atilde;o daquilo que    a natureza proporcionava deveria ser motivo de grande satisfa&ccedil;&atilde;o,    contudo n&atilde;o dignificava os t&eacute;cnicos e cientistas brasileiros,    tampouco a ci&ecirc;ncia que aqui se produzia.</font></P>     <p><font size="3">No mesmo relat&oacute;rio de 1885, o diretor informava sobre    a transfer&ecirc;ncia do Laborat&oacute;rio Qu&iacute;mico para o JB, "n&atilde;o    s&oacute; para poder ser facilmente visitado, como tamb&eacute;m para que os    trabalhos se verifiquem sob a inspe&ccedil;&atilde;o do diretor" (17).    Percebe&#45;se, mais uma vez, a inten&ccedil;&atilde;o do cientista em apresentar    a institui&ccedil;&atilde;o como um l&oacute;cus de ci&ecirc;ncia e n&atilde;o    apenas como um belo parque ornado por esp&eacute;cies de plantas brasileiras    e ex&oacute;ticas.</font></P>     <p><font size="3">Nicolau Joaquim Moreira representava, naquele momento, os interesses    de um grupo de cientistas e buscava, portanto, incorporar as atividades do JB    &agrave; pr&aacute;tica bot&acirc;nica. Ao mesmo tempo, desejava que as atividades    das ci&ecirc;ncias agr&aacute;rias resultassem em legitimidade do IIFA junto    a visitantes brasileiros e estrangeiros, aos pesquisadores e ao governo, diferenciando    a agronomia da agricultura tradicional. Nesse sentido, o f&aacute;cil acesso    do p&uacute;blico ao JB e a sua localiza&ccedil;&atilde;o na corte &#150; centro    de decis&otilde;es pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas do pa&iacute;s podem    ter sido convenientes como "vitrine" das atividades cient&iacute;ficas,    ao expor experimenta&ccedil;&atilde;o de novas t&eacute;cnicas de cultivo, an&aacute;lises    de solo em laborat&oacute;rio qu&iacute;mico e reprodu&ccedil;&atilde;o e melhoria    de ra&ccedil;as de animais.</font></P>     <p><font size="3">Entretanto a conviv&ecirc;ncia entre as fun&ccedil;&otilde;es    tecnocient&iacute;ficas e a concep&ccedil;&atilde;o de um jardim bot&acirc;nico,    visto por alguns apenas como "estabelecimento de recreio p&uacute;blico",    foi motivo de tens&atilde;o, em certos momentos. Argumentavam que a incorpora&ccedil;&atilde;o    do JB ao IIFA havia sido um erro, porque o estabelecimento recebia a maior cota    das verbas do governo destinadas ao IIFA e pouco ou nada fazia em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; agricultura.</font></P>     <p><font size="3">Um grupo insatisfeito iniciou, ent&atilde;o, uma campanha para    devolver o JB ao governo. A maioria de seus membros era ligada &agrave; produ&ccedil;&atilde;o    rural e defendia que o IIFA deveria proporcionar resultados imediatos &agrave;    agricultura, como aumento da produ&ccedil;&atilde;o e a solu&ccedil;&atilde;o    para as chamadas pragas agr&iacute;colas. A argumenta&ccedil;&atilde;o se baseava,    principalmente, no desempenho deficiente do IIFA, creditado, entre outros motivos,    ao seu funcionamento dentro de um local de livre acesso do p&uacute;blico, portanto,    sujeito a situa&ccedil;&atilde;o de intromiss&atilde;o que dificultavam os trabalhos.    Condenavam tamb&eacute;m o pequeno espa&ccedil;o destinado &agrave;s planta&ccedil;&otilde;es    experimentais e reivindicavam a instala&ccedil;&atilde;o da Fazenda Normal em    terreno de maior extens&atilde;o e distante da cidade. A inser&ccedil;&atilde;o    do Asilo Agr&iacute;cola na cidade tamb&eacute;m era motivo de queixas, porque    "colocava os asilados em contato com os v&iacute;cios inerentes &agrave;s    grandes capitais" (18), dificultando a adapta&ccedil;&atilde;o dos jovens    &agrave;s &aacute;reas rurais, para a qual eram formados.</font></P>     <p><font size="3">O IIFA, por sua vez, encontrava&#45;se em uma crise pol&iacute;tico&#45;institucional    desde finais da d&eacute;cada de 1870. O falecimento de seu presidente Luiz    Pedreira do Couto Ferraz, visconde de Bom Retiro, em 1886, agravou a situa&ccedil;&atilde;o    a ponto de o ministro da Agricultura, Rodrigo Augusto da Silva (1886&#45;1889),    no primeiro relat&oacute;rio ministerial de sua gest&atilde;o, tecer duras cr&iacute;ticas    &agrave; institui&ccedil;&atilde;o, e os conflitos tornaram&#45;se evidentes. Assim,    o advento da Rep&uacute;blica encontrou o IIFA em meio a problemas internos    e dificuldades de encontrar sa&iacute;da para sua crise. Os novos tempos jogariam    uma "p&aacute; de cal" na institui&ccedil;&atilde;o, que ainda sobreviveu    at&eacute; 1891, retirando de seu nome o ep&iacute;teto Imperial.</font></P>     <p><font size="3">Em mar&ccedil;o de 1890, o governo federal desanexou o Jardim    Bot&acirc;nico do IIFA e o subordinou ao Minist&eacute;rio da Agricultura. Sob    a dire&ccedil;&atilde;o do bot&acirc;nico Jo&atilde;o Barbosa Rodrigues, a institui&ccedil;&atilde;o    inaugurou o herb&aacute;rio, a biblioteca e o museu, o que parece revelar uma    certa primazia do campo cient&iacute;fico da bot&acirc;nica, na institui&ccedil;&atilde;o.    Ressalta&#45;se que, por essa &eacute;poca, os saberes das ci&ecirc;ncias agr&aacute;rias    firmavam&#45;se como ci&ecirc;ncias aut&ocirc;nomas, e institui&ccedil;&otilde;es    exclusivamente voltadas para eles eram concebidas. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A experi&ecirc;ncia do IIFA permite inferir que a coexist&ecirc;ncia    dos objetivos do JB com as atividades da Fazenda Normal foi poss&iacute;vel    enquanto as ci&ecirc;ncias agr&aacute;rias n&atilde;o se constitu&iacute;ram    como saberes especializados. A busca por legitima&ccedil;&atilde;o e autonomia    dos campos cient&iacute;ficos que estavam em forma&ccedil;&atilde;o pode ter    levado a um conflito de interesses. Entre outras causas, o IIFA pode ter encontrado    seu fim porque n&atilde;o mais atendia &agrave;s exig&ecirc;ncias para seu bom    funcionamento como institui&ccedil;&atilde;o de experimenta&ccedil;&atilde;o    agr&iacute;cola e tampouco como jardim bot&acirc;nico. De todo modo, as ci&ecirc;ncias    agr&aacute;rias tiveram, no IIFA, um espa&ccedil;o de experimenta&ccedil;&atilde;o    e de legitima&ccedil;&atilde;o perante a sociedade e o governo. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Begonha Bediaga</b> &eacute; historiadora, pesquisadora    do Jardim Bot&acirc;nico do Rio de Janeiro e doutoranda no Instituto de Geoci&ecirc;ncias    da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  Decreto de 25/01/1812. <i>Apud:</i> Coelho, France M.    Gontijo. "A constru&ccedil;&atilde;o das profiss&otilde;es agr&aacute;rias".    327 f. Tese de doutorado. Universidade de Bras&iacute;lia: Bras&iacute;lia,    pp.317&#45;318. 1999.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">2.  C&acirc;mara, M. A. "Discurso sobre a utilidade    da institui&ccedil;&atilde;o de jardins nas principais prov&iacute;ncias do    Brasil". <i>In:</i> Mello, J.A.G. (Org.). C&acirc;mara, Manuel Arruda da.    <i>Obras reunidas</i>. Recife: Funda&ccedil;&atilde;o de Cultura da Cidade de    Recife, p.202, 204. 1982.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">3.  Kury, L. "Descrever a p&aacute;tria, difundir o    saber". <i>In:</i> Kury, L. (Org.). <i>Iluminismo e imp&eacute;rio no Brasil:</i>    O patriota <i>(1813&#45;1814)</i>. Rio de Janeiro: Fiocruz, p.142. 2007.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">4.  Decreto de 9/12/1814 &#150; Cartas de Lei, Alvar&aacute;s,    Decretos e Cartas R&eacute;gias.     </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">5.  Atual Instituto de Pesquisas Jardim Bot&acirc;nico do    Rio de Janeiro. Ao longo de sua hist&oacute;ria, a institui&ccedil;&atilde;o    teve os nomes de Jardim de Aclimata&ccedil;&atilde;o, Horto Real e Jardim Bot&acirc;nico    da Lagoa Rodrigo de Freitas. Durante o per&iacute;odo em que esteve subordinada    ao IIFA, entre 1861 a 1889, a institui&ccedil;&atilde;o era referida como Jardim    Bot&acirc;nico (JB).     </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6.  Uso o termo "variedades" como conceito bot&acirc;nico    de plantas modificadas, situada, na hierarquia taxon&ocirc;mica, entre a esp&eacute;cie    (ou a subesp&eacute;cie) e a forma (Font Quer, P. <i>Diccionario de bot&aacute;nica</i>.    Barcelona: Labor, 1975). No caso, a busca por variedades de plantas de uma esp&eacute;cie    tinha por fim, principalmente, propiciar o aumento da produtividade ou a melhoria    do sabor.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">7.  Cf. Bediaga, B. "Conciliar o &uacute;til ao agrad&aacute;vel    e fazer ci&ecirc;ncia: Jardim Bot&acirc;nico do Rio de Janeiro &#150; 1808 a 1860".    <i>Hist&oacute;ria, Ci&ecirc;ncias, Sa&uacute;de &#150; Manguinhos</i>, Vol.14, n.4,    pp.1131&#45;1157. 2007.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">8.  Conforme decreto 2.607 de 30/6/1860, de cria&ccedil;&atilde;o    do IIFA, &agrave; Fazenda Normal competia &agrave; fase experimental dos projetos,    no que se refere tanto aos instrumentos e m&aacute;quinas agr&iacute;colas,    quanto aos ensaios de diferentes culturas na lavoura e a "extin&ccedil;&atilde;o    de vermes e insetos nocivos".    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">9.  Relat&oacute;rio do Minist&eacute;rio da Agricultura,    Com&eacute;rcio e Obras P&uacute;blicas (Macop), 1874, p.5.     </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">10.  Relat&oacute;rio do Macop, 1885, apenso, p.7.     </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">11.  Relat&oacute;rio do Macop, 1886, anexo A, p.16.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">12.  <i>Apud</i> Queir&oacute;z, F.A.F. Carta de D. Pedro    II, imperador do Brasil, ao rei D. Fernando II. <i>Revista da Faculdade de Letras:    Hist&oacute;ria</i>, s&eacute;rie II, Vol.2, pp.217&#45;234. 1985. p.230.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">13.  Oliveira, A. R. "Ordem e natureza: constru&ccedil;&atilde;o    da paisagem". <i>In:</i> Instituto de Pesquisas Jardim Bot&acirc;nico do    Rio de Janeiro. <i>Jardim Bot&acirc;nico do Rio de Janeiro</i>: 1808&#45;2008. Rio    de Janeiro, pp.84&#45;86. 2008. p.84 e 86.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">14.  <i>Revista Agr&iacute;cola</i>, Rio de Janeiro, Vol.10,    n.2, p.55&#45;58. 1879.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">15.  Relat&oacute;rio do Macop. 1877. p.7.     </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">16.  Nicolau Joaquim Moreira era m&eacute;dico e abolicionista    e foi incentivador da imigra&ccedil;&atilde;o de europeus. Publicou diversos    artigos e livros na &aacute;rea de agronomia e principalmente de qu&iacute;mica    agr&iacute;cola. Foi tamb&eacute;m membro ativo da Academia Imperial de Medicina,    adjunto de bot&acirc;nica do Museu Nacional, redator do <i>Auxiliador</i> e    presidente da Sain &#151; enfim, um dos mais destacados personagens da <i>intelligentsia</i>    do Segundo Imp&eacute;rio. Nesse per&iacute;odo, Nicolau Joaquim Moreira acumulava    os cargos, no IIFA, de diretor do JB, Asilo Agr&iacute;cola e Fazenda Normal,    al&eacute;m de redator da <i>Revista Agr&iacute;cola</i>.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">17.  Relat&oacute;rio do Macop, 1885, anexo D, p.3, 4 e 8.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">18.  Relat&oacute;rio do Macop, 1886, anexo D, p.5.</font> ]]></body><back>
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<source><![CDATA[Relatório do Macop]]></source>
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<source><![CDATA[Nicolau Joaquim Moreira era médico e abolicionista e foi incentivador da imigração de europeus. Publicou diversos artigos e livros na área de agronomia e principalmente de química agrícola. Foi também membro ativo da Academia Imperial de Medicina, adjunto de botânica do Museu Nacional, redator do Auxiliador e presidente da Sain: enfim, um dos mais destacados personagens da intelligentsia do Segundo Império. Nesse período, Nicolau Joaquim Moreira acumulava os cargos, no IIFA, de diretor do JB, Asilo Agrícola e Fazenda Normal, além de redator da Revista Agrícola]]></source>
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<source><![CDATA[Relatório do Macop]]></source>
<year>1885</year>
<page-range>3, 4 e 8</page-range></nlm-citation>
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<year>1886</year>
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