<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252010000100022</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Ciência e Ggoethe: cafeína e flores]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Baumann]]></surname>
<given-names><![CDATA[Thomas W.]]></given-names>
</name>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Dornelas]]></surname>
<given-names><![CDATA[Marcelo Carnier]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Frungillo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Mário Luiz]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Mazzafera]]></surname>
<given-names><![CDATA[Paulo]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A03"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Estadual de Campinas Instituto de Biologia Departamento de Biologia Vegetal]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Unicamp Instituto de Estudos da Linguagem Departamento de Teoria Literária]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A03">
<institution><![CDATA[,Unicamp Instituto de Biologia Departamento de Biologia Vegetal]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>62</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>56</fpage>
<lpage>59</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252010000100022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252010000100022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252010000100022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/ensaios.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4"><b>A CI&Ecirc;NCIA E GOETHE: CAFE&Iacute;NA E FLORES</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><b>Thomas W. Baumann    <br>   Marcelo Carnier Dornelas    <br>   M&aacute;rio Luiz Frungillo    <br>   Paulo Mazzafera</I></b></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A vida de Johann Wolfgang von Goethe se estende por um longo    per&iacute;odo de tempo, e abarca muitas &eacute;pocas. Quando o poeta nasceu,    em 1749, ainda eram vis&iacute;veis os &uacute;ltimos vest&iacute;gios do barroco    nas artes e na literatura. Quando morreu aos 83 anos, em 1832, o mundo j&aacute;    passara pela Guerra de Independ&ecirc;ncia Americana (1775&#45;1783), pela Revolu&ccedil;&atilde;o    Francesa (1789), a literatura alem&atilde; passara pelo Pr&eacute;&#45;Romantismo    (<i>Sturm und Drang</i>), pelo Classicismo, dois movimentos dos quais Goethe    &eacute; um dos principais representantes, e pelo Romantismo, do qual eventualmente    se aproximou, embora na maior parte do tempo tenha tido rela&ccedil;&otilde;es    tensas de incompreens&atilde;o m&uacute;tua com os rom&acirc;nticos. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Tamb&eacute;m entre seu nascimento e sua morte a ci&ecirc;ncia    conheceu uma not&aacute;vel evolu&ccedil;&atilde;o: dos &uacute;ltimos embates    com a alquimia &agrave; descoberta da cafe&iacute;na, das primeiras observa&ccedil;&otilde;es    de fen&ocirc;menos el&eacute;tricos aos come&ccedil;os do eletromagnetismo,    do sistema de plantas de Lineu para uma sistematiza&ccedil;&atilde;o natural    das plantas, da observa&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento do embri&atilde;o    animal para a concep&ccedil;&atilde;o de uma ideia de evolu&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m sua vida &eacute; rica em experi&ecirc;ncias e    transforma&ccedil;&otilde;es. Goethe ficou internacionalmente conhecido com    a publica&ccedil;&atilde;o do romance <i>Os sofrimentos do jovem Werther</i>    (1774). Inspirado em parte no amor infeliz do pr&oacute;prio Goethe por uma    mo&ccedil;a comprometida, expressava tamb&eacute;m a revolta do burgu&ecirc;s    contra a estreiteza a que estava condenado numa &eacute;poca de exclusivismo    aristocr&aacute;tico, e terminava com o suic&iacute;dio do her&oacute;i. Goethe,    por&eacute;m, sobreviveu &agrave; crise. </font></P>     <p><font size="3">Acontecimentos capitais de sua vida s&atilde;o a ida para a    cidade de Weimar, onde assumiu posi&ccedil;&otilde;es importantes na administra&ccedil;&atilde;o    do ducado, e a viagem &agrave; It&aacute;lia, nos anos de 1786 e 1788, sua descoberta    da Antiguidade e sua ades&atilde;o ao Classicismo. Anos depois escrever&aacute;    um romance que &eacute; uma esp&eacute;cie de contraponto ao <i>Werther: Os    anos de aprendizagem de Wilhelm Meister</i> (1807), o prot&oacute;tipo do g&ecirc;nero    do romance de forma&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">&Eacute; nos seus primeiros anos em Weimar que Goethe come&ccedil;a    a se dedicar &agrave; ci&ecirc;ncia, realizando estudos de mineralogia, bot&acirc;nica    e anatomia. Neste &uacute;ltimo campo destaca&#45;se sua descoberta do osso intermaxilar.    Com sua teoria das cores pretendeu, sem sucesso, desmentir as descobertas de    Isaac Newton. Muito conhecida &eacute; tamb&eacute;m sua <i>Metamorfose das    plantas</i> (1790). Mas n&atilde;o seria correto dizer que sua carreira liter&aacute;ria    e sua atividade de cientista corram paralelas, sem jamais se encontrar. Obras    como o <i>Fausto</i> (1806), especialmente em sua segunda parte, o romance <i>Afinidades    eletivas</i> (1809) e uma parte de sua l&iacute;rica demonstram que o conhecimento    adquirido tamb&eacute;m foi transfigurado poeticamente. E seu modo de ver a    ci&ecirc;ncia n&atilde;o deixa de ser o de um poeta. A natureza como tema da    poesia tinha sido uma das descobertas dos pr&eacute;&#45;rom&acirc;nticos, e o <i>Werther</i>    tem belas e longas p&aacute;ginas plenas de um sentimento que oscila da harmonia    para a desarmonia com ela &agrave; medida que os sofrimentos do protagonista    recrudescem. Mais tarde, quando se dedica ao estudo mais sistem&aacute;tico    da natureza, Goethe n&atilde;o deixa de v&ecirc;&#45;la como um todo do qual se    pode aproximar por caminhos diversos, criando um m&eacute;todo de observa&ccedil;&atilde;o    que parte da observa&ccedil;&atilde;o da natureza material e org&acirc;nica    e culmina com a uni&atilde;o de todas essas observa&ccedil;&otilde;es parciais    atrav&eacute;s da "for&ccedil;a do esp&iacute;rito" (1). &Eacute;    tamb&eacute;m pela "for&ccedil;a do esp&iacute;rito" que se podem    percorrer os est&aacute;gios de observa&ccedil;&atilde;o: o dos "usu&aacute;rios"    (os que buscam a utilidade s&atilde;o os primeiros a delimitar o campo da ci&ecirc;ncia),    o dos "desejosos de conhecimento" (que precisam de um olhar pl&aacute;cido    e desinteressado, uma inquieta&ccedil;&atilde;o curiosa, um entendimento claro),    o dos "contempladores" (que j&aacute; se comportam de modo produtivo;    o conhecimento, ampliando a si mesmo, exige, sem o perceber, a contempla&ccedil;&atilde;o,    e os que o buscam n&atilde;o podem prescindir da imagina&ccedil;&atilde;o produtiva)    e o "dos que compreendem" (que tamb&eacute;m se poderiam chamar "os    criadores", s&atilde;o produtivos no mais alto grau: partindo de ideias,    declaram a unidade do todo, e em certa medida cabe &agrave; natureza integrar&#45;se    a essa ideia) (2). </font></P>     <p><font size="3"><b>A DESCOBERTA DA CAFE&Iacute;NA POR TR&Ecirc;S HOMENS E UM    POETA</b> O per&iacute;odo que envolve a descoberta da cafe&iacute;na, Goethe    vivia em Weimar e era supervisor da Universidade de Jena, sendo ativo estimulador    do progresso cient&iacute;fico. Goethe era um autodidata em ci&ecirc;ncias naturais    e sempre se rodeava de especialistas para apoiar seus estudos, pois percebia    que, na virada do s&eacute;culo XIX, o mundo passava por uma revolu&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica e se n&atilde;o a acompanhasse, colocaria em risco suas atividades    em filosofia natural. Por exemplo, devido &agrave; eminente publica&ccedil;&atilde;o    de Christian Konrad Sprengel (1750&#45;1816) sobre o mutualismo entre flores e insetos    (3), Goethe rapidamente publicou seu ensaio sobre a metamorfose das plantas    (4). </font></P>     <p><font size="3">O primeiro homem em nossa hist&oacute;ria &eacute; Lorenz Oken    (1779&#45;1851). Orf&atilde;o desde muito jovem e estudando em extrema pobreza,    Oken doutorou&#45;se em medicina pela Universidade de Freiburg, em 1804. Entre 1804    e 1805 continuou seus estudos em W&uuml;rzburg como assistente de Friedrich    Wilhelm Schelling (1775&#45;1854), um famoso proponente da filosofia natural especulativa    e protegido de Goethe na Universidade de Jena, entre 1798&#45;1803. Apesar de fascinado    pelas ideias de Schelling, Oken n&atilde;o concordava com as especula&ccedil;&otilde;es    e o empiricismo do mestre, abandonando&#45;o. Em 1805, com uma publica&ccedil;&atilde;o    na qual antecipava a exist&ecirc;ncia do protoplasma e a arquitetura celular    de organismos uni e multicelulares, Oken ganhou uma posi&ccedil;&atilde;o na    Universidade de G&ouml;ttingen. Ele formulou um abrangente conceito/sistema    sobre "a natureza" e introduziu novos termos, primeiro em <i>Abri</i></font><font><i>&#946;</i></font><font size="3">    <i>des systems der biologie</i> (1806), depois em <i>Lehrbuch der Naturphilosophie</i>    (1808&#45;11) e finalmente em <i>Allgemeine Naturgeschichte f&uuml;r alle St&auml;nde</i>    (1833&#45;45, 7 Vols.). A grande reputa&ccedil;&atilde;o que Oken conseguiu com    suas proposi&ccedil;&otilde;es chegaram ao conhecimento de Goethe, em Weimar.    Em 1807, ele conseguiu a posi&ccedil;&atilde;o de "professor of medicine"    na Universidade de Jena e, ao contr&aacute;rio de se tornar submisso, logo de    in&iacute;cio passou a competir cientificamente com seu benfeitor. No entanto,    devido &agrave;s suas ideias pol&iacute;ticas, Oken foi demitido em 1819. Ap&oacute;s    v&aacute;rios anos, em 1832, Oken conseguiu ingressar na rec&eacute;m criada    Universidade de Zurique, onde tornou&#45;se reitor em 1833, posi&ccedil;&atilde;o    que manteve at&eacute; sua aposentadoria em 1851 (5).</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a22fig01.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">O homem n&uacute;mero dois foi o experimentalista Johann Wolfgang    D&ouml;bereiner (1780&#45;1849). Tal qual Oken, ele cresceu sob dif&iacute;cil situa&ccedil;&atilde;o    financeira. Ap&oacute;s tr&ecirc;s anos de aprendizado com um apotec&aacute;rio    e depois de cinco anos como um viajante sonhador e financeiramente incapaz de    ingressar na universidade ou comprar uma farm&aacute;cia, retornou &agrave;    casa de seus pais na Bav&aacute;ria. Por volta de 1803 ficou conhecido por uma    publica&ccedil;&atilde;o sobre experimentos qu&iacute;micos pr&aacute;ticos.    Em Jena, Goethe ouviu sobre o talento de D&ouml;bereiner em qu&iacute;mica e,    em 1810, o jovem de 30 anos, tornou&#45;se professor de qu&iacute;mica e tecnologia    na Universidade de Jena. Duas importantes contribui&ccedil;&otilde;es foram    a idealiza&ccedil;&atilde;o das <i>triads</i> (precursores do sistema de classifica&ccedil;&atilde;o    peri&oacute;dica de elementos) e os trabalhos sobre cat&aacute;lise usando platina.    D&ouml;bereiner sempre foi grato a Goethe e os dois Johann Wolfgangs interagiram    de forma espetacular, o que permitiu Jena tornar&#45;se um renomado centro de pesquisa    em qu&iacute;mica e ci&ecirc;ncias naturais (6).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Em 1818, o nosso homem n&uacute;mero tr&ecirc;s, Friedlieb Ferdinand    Runge (1794&#45;1867), chegou em Jena. Ele tinha ouvido sobre o talento sedutor    e &uacute;nico de Oken em inspirar uma nova gera&ccedil;&atilde;o de jovens    cientistas. A primeira pessoa que encontrou em Jena foi Karl Ludwig Sand (1795&#45;1820)    que o apresentou a D&ouml;bereiner. Runge disse a ele sobre suas experi&ecirc;ncias    com as plantas meimendro negro (<i>Hyoscyamus niger</i> L.), beladona (<i>Atropa    belladonna</i> L.) e orelha&#45;de&#45;macaco (<i>Datura stramonium</i> L.). Runge tinha    sido capaz de isolar os princ&iacute;pios ativos com um ensaio <i>in vivo</i>    baseado na dilata&ccedil;&atilde;o da pupila dos olhos de gatos. Desde que o    conhecimento sobre venenos estava se deslocando das facilmente identific&aacute;veis    subst&acirc;ncias inorg&acirc;nicas para os forensicamente n&atilde;o identific&aacute;veis    venenos org&acirc;nicos, D&ouml;bereiner elaborou um sofisticado teste pelo    qual seu estudante teria que descobrir a exata posi&ccedil;&atilde;o de uma    subst&acirc;ncia extra&iacute;da da orelha&#45;de&#45;macaco, entre doze inofensivas.    Runge teve sucesso no teste e D&ouml;bereiner ficou convencido do progresso    de seu pupilo em um assunto de interesse de Goethe, que era respons&aacute;vel    pela disciplina de medicina forense. Ent&atilde;o, D&ouml;bereiner agendou um    encontro de Runge com Goethe, que ocorreu em 3 de outubro de 1819. Goethe interrogou    o jovem pesquisador e, ao final do encontro, passou para as m&atilde;os de Runge    uma caixa com sementes (n&atilde;o torradas) de caf&eacute;, a qual um grego    tinha enviado a ele como uma exclusividade (7), e pouco depois Runge descobriu    a cafe&iacute;na nas sementes de caf&eacute; (8).</font></P>     <p><font size="3">Em conclus&atilde;o, a descoberta da cafe&iacute;na ocorreu    quando Johann Wolfgang Goethe propiciou o encontro de Oken e D&ouml;bereiner    em Jena, que, por sua vez, estimularam o jovem Runge, que se tornou famoso n&atilde;o    somente pelos trabalhos com produtos naturais, mas tamb&eacute;m por seu trabalho    pioneiro com qu&iacute;mica de corantes (9).</font></P>     <p><font size="3"><b>GOETHE E A ESTRUTURA DAS FLORES</b> Dos amigos que Goethe    teve, o que provavelmente teve uma maior influ&ecirc;ncia sobre seu esp&iacute;rito    criativo e sobre sua obra foi Johan Friedrich Von Schiller (1759&#45;1805). E o    curioso &eacute; que, segundo o pr&oacute;prio Goethe, foi uma amizade dif&iacute;cil    de engrenar. A raz&atilde;o disso &eacute; que Schiller, em seus trabalhos filos&oacute;ficos,    principalmente em <i>Sobre gra&ccedil;a e dignidade</i> (1793) sempre defendeu    as ideias kantianas e nada poderia ser mais avesso ao pensamento de Goethe do    que o de Kant. De acordo com Kant, a natureza est&aacute; toda dentro do esp&iacute;rito    humano e de acordo com Goethe, o esp&iacute;rito humano &eacute; que est&aacute;    inserido na natureza. </font></P>     <p><font size="3">Em seus ensaios "Primeiro encontro com Schiller" e    "Influ&ecirc;ncia da filosofia moderna", Goethe relata como v&ecirc;    a maneira de pensar de Schiller: "Ao inv&eacute;s de considerar a natureza    como algo independente, viva e distribuindo ordem e leis desde sua parte mais    inferior at&eacute; a mais superior, Schiller a considera apenas sob a &oacute;tica    de umas poucas experi&ecirc;ncias e inclina&ccedil;&otilde;es humanas subjetivas".    J&aacute; Schiller, tinha Goethe como um &iacute;dolo de sua juventude e nutria    por ele um sentimento de amor e &oacute;dio, segundo suas pr&oacute;prias palavras,    "semelhante ao que sentia Brutus por Caesar". Goethe era dez anos    mais velho e muito mais famoso que Schiller. Schiller invejava Goethe por sua    posi&ccedil;&atilde;o de status junto ao governo de Weimar e a facilidade com    a qual Goethe al&ccedil;ou sua carreira, facilitado pela sua posi&ccedil;&atilde;o    social, enquanto Schiller tinha origem humilde e precisou amargar uma carreira    m&eacute;dica&#45;militar n&atilde;o desejada. Schiller tinha orgulho do que tinha    conquistado com esfor&ccedil;o. Essa atitude foi interpretada, &agrave; primeira    vista por Goethe, como "uma aura de arrog&acirc;ncia e ego&iacute;smo".</font></P>     <p><font size="3">Assim, a amizade entre Goethe e Schiller parecia bastante improv&aacute;vel.    No entanto, no in&iacute;cio dos anos 1790, Goethe precisava muito de um interlocutor    &agrave; sua altura. Ele acabara de retornar &agrave; Weimar depois de passar    dois anos (de 1786 a 1788) na It&aacute;lia, com a confian&ccedil;a renovada    e um grande &iacute;mpeto de escrever. No entanto, encontrou uma recep&ccedil;&atilde;o    bastante morna de seu c&iacute;rculo de rela&ccedil;&otilde;es. Igualmente,    nesse mesmo per&iacute;odo, Schiller precisava desesperadamente de Goethe. Com    o intuito de manter&#45;se da vida acad&ecirc;mica, Schiller pretendia lan&ccedil;ar    um peri&oacute;dico liter&aacute;rio e de cultura denominado <i>Die Horen</i>    e o que poderia ser melhor para a repercuss&atilde;o desse peri&oacute;dico    do que um artigo (ou, melhor ainda, v&aacute;rios) do famoso Goethe? Uma carta    formal convidando&#45;o a submeter uma contribui&ccedil;&atilde;o ao <i>Die Horen</i>    e um encontro "fortuito" (h&aacute; suspeitas de que Schiller o tenha    provocado) em 1794 mudaram para sempre a vida e a obra dos dois homens. </font></P>     <p><font size="3">Nessa &eacute;poca, August Karl Batsch (1761&#45;1802) havia fundado    uma sociedade naturalista cujas reuni&otilde;es peri&oacute;dicas eram frequentadas    por Goethe. As conversas com Goethe giravam ao redor do conceito da "planta    primordial" (<i>Urpflanze</i>) que ele come&ccedil;ara a idealizar na It&aacute;lia    e cujo ensaio publicara h&aacute; pouco &#150; <i>Versuch, die metamorphose der pflanzen    zu erkl&auml;ren</i> (1790). Numa dessas reuni&otilde;es, Goethe encontra&#45;se    cara a cara com Schiller, que pareceu interessado no assunto e fez uma ou outra    observa&ccedil;&atilde;o sagaz, o que fez Goethe registrar: "Ele &#91;Schiller&#93;    ouviu e observou com vivacidade o que descrevi sobre a metamorfose das plantas    com grande interesse e simpatia, mas quando terminei, sacudiu a cabe&ccedil;a    e disse: 'Isso n&atilde;o &eacute; uma experi&ecirc;ncia, &eacute; uma ideia';    o que me deixou perplexo e zangado, pois isso mostrava, com maior evid&ecirc;ncia,    o ponto que nos separava". No entanto, em um movimento de mestre, Schiller    envia em seguida uma carta para Goethe datada de 23 de agosto de 1794 (mas que    chega providencialmente no dia do anivers&aacute;rio de Goethe, em 28 de agosto),    em que Schiller rel&ecirc; as diferen&ccedil;as conceituais entre ambos como    sendo, na verdade, complementares e sutilmente sugere o quanto um tem a oferecer    ao outro. A partir desse momento, nasce uma amizade de pouco mais de dez anos    entre o autor de <i>Fausto</i> (1806) e o autor de <i>Guilherme Tell</i> (1804),    possuindo as obras m&aacute;ximas de cada autor uma dose n&atilde;o desprez&iacute;vel    da influ&ecirc;ncia do outro.</font></P>     <p><font size="3">Em 1805, Schiller morre de complica&ccedil;&otilde;es de uma    doen&ccedil;a respirat&oacute;ria cr&ocirc;nica e &eacute; enterrado em uma    igreja em Weimar. Em 1826, houve a necessidade de remanejar todos os despojos    enterrados na igreja e, como no jazigo encontravam&#45;se v&aacute;rias ossadas,    Goethe foi chamado a confirmar a identifica&ccedil;&atilde;o do cr&acirc;nio    de Schiller. Esse evento o chocou muito, levando&#45;o, logo em seguida, a escrever    um poema contemplativo denominado "Ao contemplar o cr&acirc;nio de Schiller".</font></P>     <p><font size="3">O in&iacute;cio da amizade com Schiller, designado por Goethe    como um "feliz acontecimento" foi motivada pelo texto da <i>Metamorfose    das plantas</i>. Nenhum outro texto seria mais adequado a essa conex&atilde;o,    uma vez que o mesmo cont&eacute;m todos os elementos inerentes ao pensamento    tradicionalmente goethiano (experi&ecirc;ncia, observa&ccedil;&atilde;o aguda    da natureza), como ao schilleriano (abstra&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o    de estruturas te&oacute;ricas explicativas da natureza). O ponto central do    texto &eacute; a predi&ccedil;&atilde;o por Goethe da exist&ecirc;ncia te&oacute;rica    de um suposto "arqu&eacute;tipo foliar" (<i>Blat</i>) como o princ&iacute;pio    gerador de todas as estruturas vegetais (10). Essa ideia prevaleceu at&eacute;    nossos dias, pois ainda aprendemos nas aulas de bot&acirc;nica que todos os    &oacute;rg&atilde;os florais nada mais s&atilde;o que folhas modificadas...    E, no entanto, esse princ&iacute;pio te&oacute;rico foi definitivamente provado    apenas 300 anos depois da publica&ccedil;&atilde;o de Goethe por dois grupos    independentemente: o de Enrico Coen, na Inglaterra, e o de Elliot Meyerowitz,    nos EUA. Ambos publicaram conjuntamente um trabalho na revista <i>Nature</i>    em 1991 (11) descrevendo um modelo de intera&ccedil;&otilde;es moleculares,    onde muta&ccedil;&otilde;es em genes codificadores de fatores de transcri&ccedil;&atilde;o    da fam&iacute;lia Mads&#45;box provocam modifica&ccedil;&otilde;es home&oacute;ticas.    Esse modelo, denominado "modelo ABC", prev&ecirc; que a identidade    de todos os &oacute;rg&atilde;os florais &eacute; controlada de maneira combinatorial,    pela express&atilde;o de apenas tr&ecirc;s grupos de genes. Muta&ccedil;&otilde;es    que eliminam as fun&ccedil;&otilde;es dos tr&ecirc;s grupos, transformam &oacute;rg&atilde;os    florais em folhas. Coen e Meyerowitz reconheceram formalmente a influ&ecirc;ncia    do trabalho de Goethe na descoberta. Floresce, assim, 300 anos depois, a semente    da amizade entre Goethe e Schiller.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Thomas W. Baumann</b> &eacute; professor aposentado da    Universidade de Zurique, Su&iacute;&ccedil;a, onde trabalhava com o metabolismo    de cafe&iacute;na em plantas.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <b>Marcelo Carnier Dornelas</b> &eacute; professor do Departamento de Biologia    Vegetal do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),    onde trabalha com as bases moleculares do desenvolvimento floral.    <br>   <b>M&aacute;rio Luiz Frungillo</b> &eacute; docente do Departamento de Teoria    Liter&aacute;ria do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, onde trabalha    com teoria e cr&iacute;tica liter&aacute;rias, literatura geral e comparada    e literatura brasileira.    <br>   <b>Paulo Mazzafera</b> &eacute; professor do Departamento de Biologia Vegetal    do Instituto de Biologia da Unicamp, onde trabalha com metabolismo de compostos    secund&aacute;rios em plantas ( <a href="mailto:pmazza@unicamp.br">pmazza@unicamp.br</a>).</i></font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp; </P>     <p><font size="3"> <b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Kuhn D. Nachwort zu den Schriften zur allgemainen Naturwissenschaft    &#150; Morphologie &#150; Geologie. <I>In: </I>Goethe, Johann Wolfgang von. <I>Werke</I>.    Hamburger Ausgabe. <I>Munique: DTV</I>, Vol.13. 1994. p.556.    </font></P>     <p> <font size="3"> Idem, p.557.</font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Sprengel, C.K. <I>Das entdeckte geheimnis der natur im    bau und in der befruchtung der blumen</I>. Cramer 1972, reprint, Lehre. 1793.    </font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Goethe, J.W. von. <I>Versuch, die metamorphose der pflanzen    zu erkl&auml;ren</I>. Carl Wilhelm Ettinger, Gotha. 1790.    </font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Kuhn&#45;Schnyder, E. <I>Lorenz Oken (1779&#45;1851); Erster rektor    der Universit&auml;t Z&uuml;rich</I>. Verlag Hans Rohr, Z&uuml;rich. 1980.    </font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Kauffman, G.B. From triads to catalysis: Johann Wolfgang    D&ouml;bereiner (1780&#45;1849) on the 150th anniversary of his death <I>Chem. Educator</I>,    Vol.4, n.5 pp. 186&#45;197, 1999.    </font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Anft, B. <I>Friedlieb Ferdinand Runge &#150; sein Leben und    sein Werk</I>. Friedrich&#45;Wilhelms&#45;Universit&auml;t. 1937.    </font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Runge, F.F. Anleitung zu einer besseren Zerlegungsweise    der Vegetabilien durch Theorie und Versuche. <I>In:</I> Runge F.F., (Ed.) <I>Neueste    phytochemische entdeckungen zur begr&uuml;ndung einer wissenschaftlichen phytochemie</I>,    Berlin. 1820.    </font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Runge, F.F. <I>Kyanol und pyrol, zwei neue produkte der    trockenen destillation</I>. Versammlung der deutschen Naturfroscher und Aerzte,    Breslau. 1833.    </font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Dornelas, M.C.; Dornelas, O. "Da folha &agrave; flor:    revisitando os conceitos de Goethe sobre a 'metamorfose' das plantas".<I>    Braz. J. Plant Physiol.</I>, Vol.17, n.4 pp.335&#45;344. 2005.     </font></P>     <!-- ref --><p> <font size="3"> Coen, E.S.; Meyerowitz E.M. "The war of the worls:    genetic interactions controlling flower development". <I>Nature</I>, Vol.353,    pp. 31&#45;37. 1991. </font>  ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Kuhn]]></surname>
<given-names><![CDATA[D.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="de"><![CDATA[Nachwort zu den Schriften zur allgemainen Naturwissenschaft - Morphologie - Geologie]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Goethe]]></surname>
<given-names><![CDATA[Johann Wolfgang von]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Werke]]></source>
<year></year>
<volume>13</volume>
<page-range>556</page-range><publisher-loc><![CDATA[Munique ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[DTV]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Sprengel]]></surname>
<given-names><![CDATA[C.K.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Das entdeckte geheimnis der natur im bau und in der befruchtung der blumen]]></source>
<year>1793</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lehre ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Goethe]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.W. von]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Versuch, die metamorphose der pflanzen zu erklären]]></source>
<year>1790</year>
<publisher-loc><![CDATA[Gotha ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Carl Wilhelm Ettinger]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Kuhn-Schnyder]]></surname>
<given-names><![CDATA[E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Lorenz Oken (1779-1851): Erster rektor der Universität Zürich]]></source>
<year>1980</year>
<publisher-loc><![CDATA[Zürich ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Verlag Hans Rohr]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Kauffman]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.B.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[From triads to catalysis: Johann Wolfgang Döbereiner (1780-1849) on the 150th anniversary of his death]]></article-title>
<source><![CDATA[Chem. Educator]]></source>
<year>1999</year>
<volume>4</volume>
<numero>5</numero>
<issue>5</issue>
<page-range>186-197</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Anft]]></surname>
<given-names><![CDATA[B.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Friedlieb Ferdinand Runge: sein Leben und sein Werk]]></source>
<year>1937</year>
<publisher-name><![CDATA[Friedrich-Wilhelms-Universität]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Runge]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="de"><![CDATA[Anleitung zu einer besseren Zerlegungsweise der Vegetabilien durch Theorie und Versuche]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Runge]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Neueste phytochemische entdeckungen zur begründung einer wissenschaftlichen phytochemie]]></source>
<year>1820</year>
<publisher-loc><![CDATA[Berlin ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Runge]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Kyanol und pyrol, zwei neue produkte der trockenen destillation]]></source>
<year>1833</year>
<publisher-loc><![CDATA[Breslau ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Versammlung der deutschen Naturfroscher und Aerzte]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Dornelas]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.C.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Dornelas]]></surname>
<given-names><![CDATA[O.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da folha à flor: revisitando os conceitos de Goethe sobre a 'metamorfose' das plantas]]></article-title>
<source><![CDATA[Braz. J. Plant Physiol.]]></source>
<year>2005</year>
<volume>17</volume>
<numero>4</numero>
<issue>4</issue>
<page-range>335-344</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Coen]]></surname>
<given-names><![CDATA[E.S.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Meyerowitz]]></surname>
<given-names><![CDATA[E.M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The war of the worls: genetic interactions controlling flower development]]></article-title>
<source><![CDATA[Nature]]></source>
<year>1991</year>
<volume>353</volume>
<page-range>31-37</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
