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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>RESENHA</b></font></P>     <P><font size="3"><b>L<SMALL>ITERATUA E CINEMA: ADAPTANDO LINGUAGENS</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a24fig01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A literatura e o cinema possuem um relacionamento t&atilde;o    estreito que, em alguns casos, &eacute; dif&iacute;cil dizer onde um come&ccedil;a    e o outro termina. Esse caso de amor &eacute; antigo, remonta &agrave;s origens    da s&eacute;tima arte, &agrave; &eacute;poca em que o franc&ecirc;s George M&eacute;li&egrave;s,    pioneiro na arte do cinema, se inspirou no livro de J&uacute;lio Verne <I>Da    Terra &agrave; Lua</I> para criar seu mais famoso filme <I>Viagem &agrave; Lua    </I>(1902) &#150; talvez a primeira adapta&ccedil;&atilde;o de uma obra liter&aacute;ria    para a grande tela. Mas esse caso de amor nem sempre foi tranquilo: o cinema    recebeu (e ainda recebe) muitas cr&iacute;ticas no sentido de realizar adapta&ccedil;&otilde;es    superficiais, de n&atilde;o compreender o verdadeiro sentido da obra liter&aacute;ria    e at&eacute; mesmo de as desvirtuar. Mas o livro <I>A literatura atrav&eacute;s    do cinema &#150; realismo, magia e a arte da adapta&ccedil;&atilde;o</I> (Ed. UFMG,    2008), de Robert Stam, professor titular da Universidade de Nova Iorque, tenta    mudar essa ideia.</font></P>     <p><font size="3">Stam &eacute; autor de mais de 15 livros sobre cinema, entre    os quais <I>Brazilian cinema </I>(Columbia University Press, 1995, ainda sem    tradu&ccedil;&atilde;o) e <I>O espet&aacute;culo interrompido: literatura e    cinema de desmistifica&ccedil;&atilde;o </I>(Paz e Terra, 1981). Em sua &uacute;ltima    obra, lan&ccedil;ada pela Editora UFMG, o pesquisador faz uma an&aacute;lise    das adapta&ccedil;&otilde;es f&iacute;lmicas de obras can&ocirc;nicas que v&atilde;o    desde <I>Dom Quixote</I>, de Miguel de Cervantes, e <I>Robson Cruso&eacute;</I>,    de Daniel Defoe, a cl&aacute;ssicos da literatura brasileira, como <I>Mem&oacute;rias    P&oacute;stumas de Br&aacute;s Cubas</I>, de Machado de Assis, e <I>Macuna&iacute;ma</I>,    de M&aacute;rio de Andrade. Sem tratar o cinema como uma arte menor, subordinada    &agrave; literatura, Stam discute a arte da adapta&ccedil;&atilde;o realizada    por cineastas como Stanley Kubrick, Luis Bu&ntilde;uel e Orson Welles. </font></P>     <p><font size="3">O livro de Stam mostra que o cinema n&atilde;o &eacute; a literatura    em imagens, mas possui linguagem e recursos pr&oacute;prios. Para levar a cabo    as adapta&ccedil;&otilde;es, o autor aponta que &eacute; preciso "desempenhar    transforma&ccedil;&otilde;es temporais e sobreposi&ccedil;&otilde;es espaciais",    al&eacute;m de "fus&otilde;es e deslocamentos meton&iacute;micos e metaf&oacute;ricos",    de modo a criar um di&aacute;logo entre o livro e o filme. Nesse di&aacute;logo    a obra cinematogr&aacute;fica consegue, muitas vezes, lan&ccedil;ar luzes sobre    a obra liter&aacute;ria, captando e revelando, melhor do que muitos cr&iacute;ticos    e resenhas, sua ess&ecirc;ncia, afirma o pesquisador norte&#45;americano.</font></P>     <p><font size="3">Esse &eacute; o caso de <I>Dom Quixote</I>, obra de 1605, considerado    o primeiro romance moderno, adaptado para o cinema, em 1992, por Welles. A obra    ganhou v&aacute;rias adapta&ccedil;&otilde;es ao cinema, mas Robert Stam escolhe    justamente a vers&atilde;o de Welles &#150; mais "infiel" ao texto original,    por&eacute;m mais pr&oacute;xima do esp&iacute;rito da obra. Nela, o diretor    pin&ccedil;a as principais caracter&iacute;sticas da obra e a transfere para    um tempo moderno, em que Dom Quixote e Sancho Pan&ccedil;a convivem com carros,    televis&otilde;es e at&eacute; homens chegando &agrave; Lua. Apesar da narrativa    acidentada, que levou dez anos de filmagens, Welles capta a modernidade do cl&aacute;ssico    de Cervantes, suas observa&ccedil;&otilde;es sagazes sobre a humanidade e toda    a tradi&ccedil;&atilde;o espanhola que transpira da obra. De acordo com Robert    Stam, a obra de Welles &eacute; um excelente exemplo de que a arte da adapta&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; simplesmente tirar as hist&oacute;rias das p&aacute;ginas    de um livro e coloc&aacute;&#45;las na tela, mas um exerc&iacute;cio de criatividade    e liberdade, a cria&ccedil;&atilde;o de uma nova obra &#150; e &agrave;s vezes at&eacute;    mesmo de uma nova hist&oacute;ria.</font></P>     <p><font size="3">Mas n&atilde;o &eacute; sempre que esse di&aacute;logo &eacute;    revelador. Muitas vezes as adapta&ccedil;&otilde;es cinematogr&aacute;ficas    ficam devendo &agrave;s obras liter&aacute;rias, analisa o autor de <I>A literatura    atrav&eacute;s do cinema</I>. Em Robinson Cruso&eacute; (1719), obra adaptada    para o cinema por Luis Bu&ntilde;uel (1954), o personagem burgu&ecirc;s individualista    e possessivo de Defoe &eacute; apresentado como mais soci&aacute;vel e greg&aacute;rio,    em uma obra estranhamente conservadora &agrave; qual Stam n&atilde;o poupa cr&iacute;ticas    "A adapta&ccedil;&atilde;o de Bu&ntilde;uel &eacute; de uma coniv&ecirc;ncia    frustrante com as conven&ccedil;&otilde;es racistas e imperialistas que est&atilde;o    no romance de Defoe", afirma. Em <I>Lolita</I>, de Vladimir Nabokov (1955),    a adapta&ccedil;&atilde;o feita for Stanley Kubrick (1962) exagera na sutiliza    (imposta pela censura), cortando as passagens mais densas da obra liter&aacute;ria    e n&atilde;o atingindo toda sua plenitude. Enquanto que <I>Madame Bovary</I>,    de Auguste Flaubert (1857), adaptado por Claude Chabrol (1991) para o cinema,    deixa de fora a riqueza estil&iacute;stica do livro e trata com superficialidade    o que a obra tem de mais importante: sua personagem principal, Emma Bovary,    com seus conflitos psicol&oacute;gicos, suas emo&ccedil;&otilde;es conturbadas,    seu comportamento tolo e tr&aacute;gico. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a24fig02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>CINEMA NACIONAL</b> Sendo tamb&eacute;m um brasilianista,    Robert Stam n&atilde;o poderia deixar de analisar as obras brasileiras. Entre    elas, destaca <I>Macuna&iacute;ma</I> (1928), adaptada para o cinema por Joaquim    Pedro de Andrade (1969). Para o autor, o filme consegue captar a ess&ecirc;ncia    da obra liter&aacute;ria, aproveitando bem as possibilidades pol&iacute;ticas    e art&iacute;sticas da adapta&ccedil;&atilde;o. Andrade filmou <I>Macuna&iacute;ma    </I>no auge da ditadura, e transferiu o enredo para o mesmo per&iacute;odo,    condensando no filme n&atilde;o apenas uma cr&iacute;tica ao militarismo, mas    tamb&eacute;m as efervescentes manifesta&ccedil;&otilde;es culturais brasileiras    do per&iacute;odo, como o Cinema Novo e a Tropic&aacute;lia.</font></P>     <p><font size="3">Imprimindo um olhar contempor&acirc;neo &agrave; releitura dessas    obras e suas narrativas cinematogr&aacute;ficas, Robert Stam evidencia os efeitos    correlatos de uma linguagem para a outra, mostrando que a arte da adapta&ccedil;&atilde;o    ainda tem possibilidades inexploradas. Abordando quest&otilde;es cruciais como    reflexividade, par&oacute;dia, realismo e magia, ele aponta os sucessos e insucessos    de se transferir as obras de uma linguagem para a outra. Para ele, o cinema    n&atilde;o est&aacute; subordinado &agrave; literatura e n&atilde;o &eacute;    uma arte menor, concedendo, assim, uma nova dignidade &agrave; arte da adapta&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><I>Chris Bueno</I></font></P>      ]]></body>
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