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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>CURTA&#45;METRAGEM</b></font></P>     <P><font size="3"><b>R<SMALL>EALIZADOR BRASILEIRO ADERE AO CINEMA DE ZUMBIS</small></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Dentro ou fora do ambiente universit&aacute;rio, tem crescido    a produ&ccedil;&atilde;o de curtas&#45;metragens, aumento estimulado, em grande    parte, pelo barateamento e simplifica&ccedil;&atilde;o dos equipamentos assim    como amplia&ccedil;&atilde;o dos meios de divulga&ccedil;&atilde;o como a internet,    via YouTube e cong&ecirc;neres. Nesse ambiente facilitador, um velho personagem    parece renascer das cinzas nos curtas&#45;metragens brasileiros dos &uacute;ltimos    anos: o zumbi.</font></P>     <p><font size="3">Em sua origem, o personagem do zumbi foi associado a mist&eacute;rios    da religi&atilde;o eg&iacute;pcia como em <I>The ghoul</I> (<I>O zumbi</I>),    filme brit&acirc;nico de 1933, dirigido por T. Hayes Hunter e produzido pela    Gaumont&#45;British Picture Corporation. Com Cedric Hardwicke e Ernest Thesiger,    <I>O zumbi</I> traz Boris Karloff no papel do professor Morlant, egipt&oacute;logo    obcecado pela ideia da imortalidade, alcan&ccedil;ada por meio de um contrato    com An&uacute;bis. Mas os planos do professor Morlant n&atilde;o s&atilde;o    respeitados e este retorna como zumbi para se vingar daqueles que violaram sua    tumba.</font></P>     <p><font size="3">Mais de 50 anos depois, o zumbi servir&aacute; aos prop&oacute;sitos    do cinema independente americano em <I>A noite dos mortos vivos</I> (1968),    de George Romero. Desta vez n&atilde;o exatamente um &uacute;nico zumbi, mas    um ex&eacute;rcito deles, uma horda de vagantes furiosos famintos de carne e    sedentos de sangue. &Eacute; o come&ccedil;o da "cientificcionaliza&ccedil;&atilde;o"    do filme de zumbi, com a men&ccedil;&atilde;o a uma epidemia que transforma    pacatos cidad&atilde;os norte&#45;americanos em bestas comedoras de c&eacute;rebro.    <I>A noite dos mortos vivos</I> fundou uma franquia, influenciou diversas produ&ccedil;&otilde;es    subsequentes e gerou um <I>remake</I>, em 1990, por Tom Savini. A f&oacute;rmula,    eficiente e sedutora: um jogo de pega&#45;pega envolvendo um punhado de her&oacute;is,    abandonados &agrave; pr&oacute;pria sorte numa cidade fantasma, repleta de zumbis.    Pouca luz, abandono, muito sangue e gritaria.</font></P>     <p><font size="3">O pesquisador e professor de cinema L&uacute;cio Reis, da Faculdade    de Educa&ccedil;&atilde;o e Estudos Sociais de Lambari (MG), observa que, "em    termos de assiduidade na realiza&ccedil;&atilde;o, sem d&uacute;vida George    Romero &eacute; o grande exemplo. E isso apesar de ter rodado at&eacute; agora    apenas cinco filmes sobre zumbis". Reis acrescenta que George Romero inaugurou,    com <I>A noite dos mortos vivos</I> a era do zumbi canibal, lan&ccedil;ando    as bases que renovariam o g&ecirc;nero da&iacute; em diante. Permanece fiel    ao assunto at&eacute; hoje, j&aacute; com a sexta sequ&ecirc;ncia &#150; o &uacute;ltimo    foi o &oacute;timo <I>Di&aacute;rio dos mortos</I> (2007) &#150; em andamento. </font></P>     <p><font size="3"><b>ORIGEM DO TERMO <i>ZUMBI</i></b> Especialista em cinema de    horror e <I>exploitation</I>, Reis explica que "a palavra zumbi vem do    quimbundo <I>nzumbi</I> (fantasma, espectro) e acabou ligada &agrave; religi&atilde;o    haitiana, relacionada &agrave; ideia &#150; recorrente em v&aacute;rias culturas    e tradi&ccedil;&otilde;es &#150; de um morto se erguer da sepultura. Ao que tudo    indica, o vodu desenvolveu&#45;se primeiro no Haiti entre os escravos que trabalhavam    nos canaviais e incorporaram aos seus deuses nativos aspectos da religi&atilde;o    de seus senhores". O historiador acrescenta que "esse personagem ganhou    mais tempero gra&ccedil;as aos preconceitos de viajantes que, com sua vis&atilde;o    colonialista, descreveram o Haiti como local de sangrentos rituais de magia    negra, orgias selvagens e mortos reanimados. O que acabou refor&ccedil;ado pela    supersti&ccedil;&atilde;o nativa, sem falar na ind&uacute;stria de turismo e    estrutura de poder haitiana. Vale lembrar que a ditadura Duvalier se utilizava    das cren&ccedil;as religiosas locais como um dos sustent&aacute;culos de seu    regime. E foi o cinema que deu maior dimens&atilde;o ao zumbi e o redirecionou,    desde as primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, em filmes como <I>Zumbi    branco</I> (<I>White zombie,</I>1932), com Bela Lugosi revivendo os mortos para    trabalharem em sua planta&ccedil;&atilde;o e as produ&ccedil;&otilde;es de Val    Lewton para a RKO, iniciadas com <I>I walked with a zombie</I> (1943)".</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/a25fig01.jpg"></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>ZUMBI DO BRASIL</b> No ambiente do curta&#45;metragem brasileiro,    o zumbi encontrou acolhida nos &uacute;ltimos anos. Reis considera que a motiva&ccedil;&atilde;o    dos realizadores independentes vem, sobretudo, da influ&ecirc;ncia da produ&ccedil;&atilde;o    estrangeira, que teria grande circula&ccedil;&atilde;o no mercado de v&iacute;deo."Grande    parte dos filmes de zumbi feitos l&aacute; fora, principalmente os realizados    a partir do final da d&eacute;cada de 1970, foram lan&ccedil;ados em VHS por    diversas empresas, algumas de car&aacute;ter bem duvidoso. Ainda que com distribui&ccedil;&atilde;o    prec&aacute;ria, serviram de inspira&ccedil;&atilde;o para uma gera&ccedil;&atilde;o    de aficionados do horror, pelos extremos gr&aacute;ficos a que chegavam. Gente    sendo comida viva pelos zumbis, entranhas expostas, sangue… E alguns deles,    por esse car&aacute;ter radical, resolveram experimentar em suas pr&oacute;prias    produ&ccedil;&otilde;es fundo&#45;de&#45;quintal, j&aacute; nos anos 1990, momento em    que c&acirc;meras j&aacute; estavam bem acess&iacute;veis. &Eacute; o caso do    pioneiro Petter Baiestorf com seu <I>Zombio</I> (1999), se n&atilde;o a primeira,    a mais interessante produ&ccedil;&atilde;o sobre o tema at&eacute; ent&atilde;o".</font></P>     <p><font size="3">Para Reis, <I>Zombio</I> &eacute; o mais interessante filme    de zumbis realizado no Brasil. "Escrito e dirigido pelo catarinense Petter    Baiestorf, &eacute; uma homenagem aos filmes de zumbi, especialmente os italianos    do diretor Lucio Fulci. Repleto de refer&ecirc;ncias ao cinema B de horror e    fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, o longa&#45;metragem narra a hist&oacute;ria    de um casal que resolve acampar numa ilha e &eacute; atacado por um grupo de    mortos canibais", comenta Reis. Outro t&iacute;tulo que merece ser colocado    em evid&ecirc;ncia, na opini&atilde;o do pesquisador, &eacute; o curta <I>Cr&ocirc;nicas    de um zumbi adolescente</I> (2002), de Andr&eacute; ZP. "Este parece aqueles    filmes de adolescentes que se tornam monstros, feitos nos anos 1950 (na linha    <I>I was a teenage werewolf</I>). Rodado em preto&#45;e&#45;branco, trata do fracassado    Zeca que volta da sepultura como um cad&aacute;ver repugnante que tenta se integrar    novamente na rotina. Mais recentemente posso citar ainda outro curta, a com&eacute;dia    de horror <I>Minha esposa &eacute; um zumbi</I> (2006), de Joel Caetano (que    numa vers&atilde;o mais longa e com um pouquinho mais de dinheiro poderia figurar    no cat&aacute;logo de uma Troma) e os rec&eacute;m&#45;vistos e bem elaborados <I>Era    dos mortos</I> (2007), de Rodrigo Brand&atilde;o, e <I>Capital dos mortos</I>    (2007), de Tiago Belotti. Filmes que podem ser o pren&uacute;ncio de uma linha    de filmes de zumbis brasileiros, pelas m&atilde;os de realizadores independentes",    observa Reis.</font></P>     <p><font size="3"><I>Minha esposa &eacute; um zumbi</i>, curta&#45;metragem de 24    minutos lan&ccedil;ado em 2006, &eacute; o maior sucesso do cineasta paulistano    Joel Caetano e sua empresa, a Recurso Zero Produ&ccedil;&otilde;es. O filme    venceu a categoria m&aacute;xima do j&uacute;ri popular da I Mostra do Curta&#45;metragem    Fant&aacute;stico de Ilha Comprida, em 2006, e participou de mostras em S&atilde;o    Paulo, Porto Alegre e Goi&aacute;s. Sobre seu curta, Joel Caetano comenta: "O    filme foi escrito para ser trash mesmo, eu n&atilde;o tinha a inten&ccedil;&atilde;o    de fazer uma obra&#45;prima ou um filme s&eacute;rio. Uma vez, ouvi de um professor    meu a seguinte frase: 'se for para fazer bem feito, fa&ccedil;a o melhor; se    for para fazer mal feito, fa&ccedil;a o pior que puder. Assim evita ficar no    meio termo.' E foi o que fiz. Espero acertar quando for fazer o 'bem feito'    tamb&eacute;m!". A declara&ccedil;&atilde;o de Caetano foi dada em entrevista    &agrave; Rog&eacute;rio Ferraraz para o artigo "<I>Minha esposa &eacute;    um zumbi</I> e a mistura de g&ecirc;neros no cinema de Joel Caetano", publicado    em Gelson Santana (Org.), <I>Cinema de Bordas 2</I>, editora A L&aacute;pis,    2008).</font></P>     <p><font size="3"><I>Era dos mortos</i>, de Rodrigo Brand&atilde;o, tira vantagem    da voca&ccedil;&atilde;o meton&iacute;mica do cinema para criar em Santos Dumont    (MG) uma cidade&#45;fantasma assombrada por zumbis. Trechos de telejornais e imagens    de arquivo, "costuradas" a "fragmentos" da cidadezinha,    estabelecem o regime narrativo prop&iacute;cio a uma aventura apocal&iacute;ptica    num lugar indeterminado. Guardadas as devidas propor&ccedil;&otilde;es, o recurso    assemelha&#45;se ao utilizado por filmes como <I>Ensaio sobre a cegueira</I> (2008),    de Fernando Meirelles, no qual "retalhos" de S&atilde;o Paulo, Montevid&eacute;u,    Toronto etc, "costuram" uma cidade&#45;prot&oacute;tipo. Segundo o pr&oacute;prio    Brand&atilde;o, o principal modelo da narrativa de <I>Era dos mortos </I>est&aacute;    na din&acirc;mica de videogames como <I>Doom</I> ou <I>Resident Evil</I>. </font></P>     <p><font size="3">Embora n&atilde;o tenha sido a estreia de Brand&atilde;o em    projetos audiovisuais, foi sem d&uacute;vida sua realiza&ccedil;&atilde;o mais    ambiciosa. Seu conte&uacute;do pode ser baixado no site oficial de <I>Era dos    mortos</I> (<a href="http://www.eradosmortos.com.br/" target="_blank">http://www.eradosmortos.com.br/</a>),    onde tamb&eacute;m est&aacute; dispon&iacute;vel para download a trilha sonora    original do filme, que vai de Ambient music a Metalcore e foi composta por AlienAqtor,    Disorder of Rage (DxOxRx), Flanicx e o pr&oacute;prio Brand&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">No contexto de um cinema de dif&iacute;cil inser&ccedil;&atilde;o    comercial e mesmo sustentabilidade, o personagem do zumbi parece servir perfeitamente    aos prop&oacute;sitos "de guerrilha" de alguns jovens realizadores    independentes brasileiros. Um personagem impessoal, teleguiado, que prescinde    de maquiagem ou caracteriza&ccedil;&atilde;o sofisticada, de f&aacute;cil manipula&ccedil;&atilde;o    e inser&ccedil;&atilde;o em qualquer cen&aacute;rio. E de grande afinidade em    rela&ccedil;&atilde;o ao conte&uacute;do de novas m&iacute;dias como o videogame    ou a internet. Enfim, um personagem&#45;coringa que oferece boa margem de manobra    para os impulsos iniciais de qualquer jovem realizador f&atilde; de cultura    pop, cinema de g&ecirc;nero e vida digital. Muito provavelmente, os filmes de    zumbi continuar&atilde;o a proliferar na vizinhan&ccedil;a. E se voc&ecirc;    nunca assistiu a um, prepare&#45;se: chegar&aacute; o dia em que algum vai bater    &agrave; sua porta. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3"><I>Alfredo de Oliveira Suppia</I></font></P>      ]]></body>
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