<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252010000100026</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Prosa]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lopes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ayde Veiga]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>62</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>66</fpage>
<lpage>67</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252010000100026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252010000100026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252010000100026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n1/prosa.gif"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><font size="3">A<SMALL>YDE</small> V<SMALL>EIGA</small> L<SMALL>OPES</small></font></P>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3"><b>CAMPO DE AGRI&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">&Agrave; tardinha a m&atilde;e mandou que ele fosse pela &uacute;ltima    vez colher o agri&atilde;o. Que amanh&atilde; isto j&aacute; n&atilde;o seria    poss&iacute;vel, nem depois de amanh&atilde;, nem depois de depois de amanh&atilde;,    nem nunca. Que amanh&atilde; muito cedo chegariam homens e madeira para levantar    o armaz&eacute;m, e ainda que algumas touceiras resistissem ao pisoteio da constru&ccedil;&atilde;o,    o que era quase imposs&iacute;vel, e ele depois pudesse ir at&eacute; o lugar    delas pelo alto v&atilde;o que ia ficar entre ch&atilde;o e assoalho, isto de    nada adiantaria, pois que l&aacute; estariam longe do sol, e longe do sol nem    mesmo uma verdura valente como o agri&atilde;o do seco &eacute; capaz de viver.    Que amanh&atilde;, pois, quando o apito da serraria anunciasse a hora de sempre    o pai chegar e ele fosse colher o agri&atilde;o fresco para o almo&ccedil;o,    o canteiro de agri&atilde;o j&aacute; n&atilde;o existiria.</font></P>     <p><font size="3">Ent&atilde;o ele tomou a tijelinha das m&atilde;os da m&atilde;e,    desceu os tr&ecirc;s degraus da varanda e ficou a contemplar a vastid&atilde;o    do terreiro, que ele sempre imaginara coberto de p&eacute;s de mexerica e de    melancias. Por&eacute;m ali, onde antes houve pinheiros como havia ainda em    toda volta da vila, ali era terra nua, nada havia, a n&atilde;o ser, justo no    lugar em que se construiria o armaz&eacute;m, aquelas touceiras de agri&atilde;o    do seco, a que ningu&eacute;m, exceto ele e o pai, dava muito valor. Amanh&atilde;    nem isto haveria. Morreria o agri&atilde;o para que em seu lugar se fizesse    o armaz&eacute;m de tr&ecirc;s portas com muito comprido balc&atilde;o, e por    tr&aacute;s da parede de prateleiras o dep&oacute;sito de mercadorias, lugar    de nichos e penumbras, bom para as brincadeiras de esconder. Sim, havia de ser    bom, mas seria outra coisa, n&atilde;o esta que vinha desde sempre e de repente    se acaba. Pois isso de as coisas se acabarem era mesmo poss&iacute;vel, e todas    as folhas que sobrassem da &uacute;ltima colheita, at&eacute; as mais tenras,    acabadas de brotar, amanh&atilde; deixariam de existir. Restariam esmagadas    sob os p&eacute;s dos carpinteiros, sob as t&aacute;buas de pinho que aqui e    ali se empilhariam &agrave; espera de se armar em constru&ccedil;&atilde;o id&ecirc;ntica    a de todas as casas da vila, da escola, da igrejinha, do escrit&oacute;rio,    da serraria mesma, e afinal pintarem&#45;se as paredes de id&ecirc;ntico amarelo    e as portas e janelas do mesmo verde do mar de pinheiros.</font></P>     <p><font size="3">E quando o menino acordou no dia seguinte, tudo j&aacute; come&ccedil;ava    a consumar&#45;se. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Muito tempo se passou desde ent&atilde;o. As margens do pinheiral    foram aos poucos se afastando na dire&ccedil;&atilde;o do horizonte, e tanto    se afastaram que decerto despencaram pelas bordas do mundo, pois nem mesmo ao    longe se via mais o contorno das arauc&aacute;rias. Da&iacute; que acabou por    se esvaziar o p&aacute;tio de toras, acalmaram&#45;se os vapores da serraria, e    tudo ficou muito quieto. Depois, uma a uma, milhares de t&aacute;buas se despregaram    e foram apodrecer, ou existir, talvez, ainda, em lugar insabido; desmontaram&#45;se    as m&aacute;quinas, arrasaram&#45;se os &uacute;ltimos vest&iacute;gios de que algo    ali tenha acontecido, e por cima de tudo semeou&#45;se um campo de soja. Por fim,    m&atilde;e e pai desapareceram, o menino mesmo desapareceu, de modo que &eacute;    imposs&iacute;vel saber agora onde houve o canteiro de agri&atilde;o.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Ayde Veiga Lopes</b> nasceu em 1955, em Ponta Grossa,    interior do Paran&aacute;. Em 1990 mudou&#45;se de Curitiba para Campinas. Exerceu,    durante muitos anos, a profiss&atilde;o de engenheira civil, na &aacute;rea    de hidr&aacute;ulica/hidrologia.</i></font></P>      ]]></body>
</article>
