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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/tendenc.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size=5><b>Nutrigen&ocirc;nica: revolu&ccedil;&atilde;o    gen&ocirc;mica na nutri&ccedil;&atilde;o</b></font></P>     <P align="center"><font size="3"><i>Aline de Conti, Fernando Salvador Moreno</i>    <br>   <i>Thomas Prates Ong</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>A</b>limentar-se adequadamente &eacute; uma das principais    formas de se ter boa qualidade de vida. Em uma sociedade cada vez mais preocupada    com a sa&uacute;de, a nutri&ccedil;&atilde;o tem sido assun-to recorrente na    m&iacute;dia. Dietas para emagrecer ou prevenir doen&ccedil;as, como as do cora&ccedil;&atilde;o,    diabetes e c&acirc;ncer, s&atilde;o temas frequentes. Isso reflete o interesse    das pessoas em saber que alimentos consumir e quais evitar. </font></P>     <P><font size="3">&Agrave; semelhan&ccedil;a do que se observou em &aacute;reas    como medicina e farm&aacute;cia, tamb&eacute;m se verificou o impacto da conclus&atilde;o    do Projeto Genoma Humano na nutri&ccedil;&atilde;o. A partir do sequenciamento    do DNA humano, descobriu-se que nosso genoma cont&eacute;m aproximadamente 25    mil genes. Atualmente, o foco &eacute; entender o que fazem esses genes e como    s&atilde;o afetados por fatores ambientais, como tabagismo, polui&ccedil;&atilde;o,    atividade f&iacute;sica, estresse, medicamentos e a pr&oacute;pria dieta. Pelo    fato de estarmos expostos &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o ao longo de toda    nossa vida, desde a fase intra-uterina, h&aacute; particular interesse em como    se d&aacute; a intera&ccedil;&atilde;o entre nutrientes e compostos bioativos    de alimentos (CBA) com o genoma e qual o impacto na sa&uacute;de.</font></P>     <P><font size="3">A nutrigen&ocirc;mica introduziu uma perspectiva inovadora na    maneira de se propor recomenda&ccedil;&otilde;es nutricionais, que passam a    ser individualizadas, de acordo com as necessidades espec&iacute;ficas de cada    pessoa, influenciadas pelas caracter&iacute;sticas gen&eacute;ticas. A partir    de dados do sequenciamento do DNA humano, constatou-se que, apesar das profundas    diferen&ccedil;as existentes entre os indiv&iacute;duos quanto a seus fen&oacute;tipos,    como cor da pele, tipo de cabelo, peso e altura, seus genomas apresentam similaridade    de cerca de 99,9%. A pequena varia&ccedil;&atilde;o interindividual de 0,1%    se d&aacute;, principalmente, por meio de altera&ccedil;&otilde;es discretas    na sequ&ecirc;ncia do DNA conhecidas como polimorfismos de nucleot&iacute;deo    &uacute;nico (SNP, pronunciam-se "snips"), que existem aos milh&otilde;es no    genoma humano. Muitas vezes, os SNPs podem levar a mudan&ccedil;as na estrutura,    fun&ccedil;&atilde;o, quantidade ou localiza&ccedil;&atilde;o das prote&iacute;-nas    codificadas, alterando in&uacute;meros processos fisiol&oacute;gicos. Al&eacute;m    de interferirem em caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas, os SNPs tamb&eacute;m    podem influenciar o risco para doen&ccedil;as cr&ocirc;nicas n&atilde;o-transmiss&iacute;veis    (DCNT), necessidades de nutrientes e resposta aos alimentos.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Um importante objetivo da nutrigen&ocirc;mica &eacute;, assim,    o de estabelecer nutri&ccedil;&atilde;o personalizada com base no gen&oacute;tipo    para promover a sa&uacute;de e reduzir o risco de DCNT. O uso de dietas restritas    em fenilalanina por indiv&iacute;duos fenilceton&uacute;ricos ilustra o princ&iacute;pio    b&aacute;sico de aplica&ccedil;&atilde;o do conceito nutrigen&ocirc;mico de    individualiza&ccedil;&atilde;o alimentar. Indiv&iacute;duos com essa doen&ccedil;a    monog&ecirc;nica apresentam muta&ccedil;&atilde;o (tipo de varia&ccedil;&atilde;o    gen&eacute;tica rara) que compromete o funcionamento de um gene respons&aacute;vel    pela metaboliza&ccedil;&atilde;o da fenilalanina. O consequente aumento das    concentra&ccedil;&otilde;es sangu&iacute;neas desse amino&aacute;cido frente    a uma alimenta&ccedil;&atilde;o normal tem repercuss&otilde;es graves, que incluem    defici&ecirc;ncia mental. O teste do pezinho, obrigat&oacute;rio no Brasil,    possibilita identificar os rec&eacute;m-nascidos que apresentam essa muta&ccedil;&atilde;o    e, assim, indicar a dieta espec&iacute;fica necess&aacute;ria. </font></P>     <P><font size="3">A aplica&ccedil;&atilde;o da abordagem nutrigen&ocirc;mica no    contexto das DCNT &eacute;, entretanto, mais complexa visto que sua origem &eacute;    polig&ecirc;nica. Do ponto de vista gen&eacute;tico, para se estimar o risco    para essas diferentes doen&ccedil;as ser&aacute; necess&aacute;rio conhecer    o impacto da combina&ccedil;&atilde;o de milh&otilde;es de polimorfismos distribu&iacute;dos    no genoma. Al&eacute;m disso, tamb&eacute;m dever&atilde;o ser previstas intera&ccedil;&otilde;es    dessas varia&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas com fatores ambientais, sobretudo    a alimenta&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">A capacidade de nutrientes e CBA modular a express&atilde;o    g&ecirc;nica dever&aacute; ser considerada na escolha de alimentos espec&iacute;ficos    com a finalidade de se evitar a ocorr&ecirc;ncia de DCNT. Diferentemente de    f&aacute;rmacos, que foram desenhados para atuar em vias espec&iacute;ficas,    os componentes dos alimentos apresentam m&uacute;ltiplos alvos moleculares.    Apesar de sua menor pot&ecirc;ncia quando comparados a mol&eacute;culas sint&eacute;ticas,    nutrientes e CBA podem atuar de forma sin&eacute;rgica por se encontrarem em    diferentes combina&ccedil;&otilde;es nos alimentos. </font></P>     <P><font size="3">O sulforafano, presente no br&oacute;colis, foi capaz de induzir    a express&atilde;o de genes importantes para o mecanismo de defesa celular contra    compostos qu&iacute;micos estranhos ao organismo, sendo considerado um CBA com    potencial efeito anti-carcinog&ecirc;nico. </font></P>     <P><font size="3">Pesquisadores que atuam na &aacute;rea de nutrigen&ocirc;mica    estimam que nas pr&oacute;ximas d&eacute;cadas poderemos encontrar o seguinte    cen&aacute;rio: uma mulher de 20 anos preocupada com sua sa&uacute;de procura    orienta&ccedil;&atilde;o com equipe multidisciplinar, que, por sua vez, solicita    o sequenciamento de seu genoma. Os dados s&atilde;o analisados com aux&iacute;lio    de um software espec&iacute;fico e apontam alta probabilidade da paciente desenvolver    diabetes por volta de seus 45 anos. Orienta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o fornecidas    quanto a mudan&ccedil;as de h&aacute;bitos de vida, inclusive os alimentares.    Uma dieta personalizada com base no DNA &eacute; prescrita para se reduzir o    risco de desenvolvimento da doen&ccedil;a. Essa mulher adquire no setor de alimentos    personalizados do supermercado produtos espec&iacute;ficos para seu gen&oacute;tipo.    A efetividade da ado&ccedil;&atilde;o dessas medidas &eacute; avaliada periodicamente    por meio da an&aacute;lise de seu perfil global de express&atilde;o g&ecirc;nica    e de metab&oacute;litos... </font></P>     <P><font size="3">Apesar de parecer uma realidade distante, atualmente j&aacute;    existem empresas que realizam testes gen&eacute;ticos e os vendem diretamente    ao consumidor via internet. Esses testes informam sobre o risco de desenvolver    determinadas doen&ccedil;as, como por exemplo, doen&ccedil;as do cora&ccedil;&atilde;o,    c&acirc;ncer, diabetes, Alzheimer, osteoporose, entre outras. Hoje em dia j&aacute;    &eacute; poss&iacute;vel mapear 42 genes por US$400 e com os avan&ccedil;os    crescentes da tecnologia envolvida com esse diagn&oacute;stico estima-se que    esse pre&ccedil;o ir&aacute; diminuir tornando-se cada vez mais acess&iacute;vel    &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. Da mesma maneira, a nutrig&ocirc;mica j&aacute;    est&aacute; sendo comercializada por algumas companhias que vendem esses testes    gen&eacute;ticos e ainda realizam aconselhamento nutricional e comercializam    produtos como, por exemplo, suplementos vitam&iacute;nicos. </font></P>     <P><font size="3">Atualmente, diversas pesquisas em nutrigen&ocirc;mica est&atilde;o    sendo realizadas em diferentes pa&iacute;ses, envolvendo redes de pesquisadores.    Um exemplo importante &eacute; a Organiza&ccedil;&atilde;o de Nutrigen&ocirc;mica    da Uni&atilde;o Europeia (Nugo), que engloba 22 organiza&ccedil;&otilde;es de    10 pa&iacute;ses europeus. Em 2007, foi criada a Rede Brasileira de Nutrigen&ocirc;mica    que se prop&otilde;e a estimular o desenvolvimento dessa disciplina cient&iacute;fica    em nosso pa&iacute;s. O foco prim&aacute;rio da rede consiste na promo&ccedil;&atilde;o    e coordena&ccedil;&atilde;o de projetos integrados, realizados em nossa popula&ccedil;&atilde;o,    considerada como a mais miscigenada do mundo. Assim, os coordenadores da rede    acreditam que al&eacute;m de incentivar a pesquisa com alimentos direcionados    &agrave; variabilidade gen&eacute;tica da popula&ccedil;&atilde;o brasileira    faz-se necess&aacute;rio a cria&ccedil;&atilde;o um banco de dados sobre estudos    em nutrigen&ocirc;mica, originados de pesquisas realizadas com brasileiros.    Pesquisadores interessados em atuar nessa &aacute;rea podem se cadastrar no    site da rede (<a href="http://www.nutrigenomicabrasil.org" target="_blank">www.nutrigenomicabrasil.org</a>).</font></P>     <P><font size="3">Como informa&ccedil;&otilde;es contidas no genoma ser&atilde;o    fundamentais para se estimar risco de DCNT e estabelecer dietas personalizadas,    surgem, do ponto de vista gen&ocirc;mico, implica&ccedil;&otilde;es sociais    e &eacute;ticas. Como garantir a confidencialidade da informa&ccedil;&atilde;o    gen&eacute;tica? Como proteger o cidad&atilde;o de eventuais a&ccedil;&otilde;es    discriminat&oacute;rias? Indiv&iacute;duos que apresentem maior risco para desenvolver    determinado tipo de doen&ccedil;a poderiam ser preteridos em processos de contrata&ccedil;&atilde;o    ou aquisi&ccedil;&atilde;o de seguros? Aspectos relacionados ao custo e acessibilidade    a futuros servi&ccedil;os nutrigen&ocirc;micos tamb&eacute;m devem ser levados    em considera&ccedil;&atilde;o. Ser&atilde;o limitados apenas ao setor privado    ou o sistema p&uacute;blico de sa&uacute;de ter&aacute; condi&ccedil;&otilde;es    de oferec&ecirc;-los para a popula&ccedil;&atilde;o em geral? Al&eacute;m disso,    paralelamente ao desenvolvimento de investiga&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas    em nutrigen&ocirc;mica, devem-se formar profissionais qualificados, aptos a    atuar na interface entre nutri&ccedil;&atilde;o e gen&ocirc;mica no contexto    de pesquisa, ensino e cl&iacute;nica. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><i>Aline de Conti</i></b><I> &eacute; farmac&ecirc;utica    industrial e p&oacute;s-doutoranda no Laborat&oacute;rio de Dieta, Nutri&ccedil;&atilde;o    e C&acirc;ncer da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Farmac&ecirc;uticas (FCF) da Universidade    de S&atilde;o Paulo (USP). Email: </I><a href="mailto:deconti@usp.br">deconti@usp.br</a>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <b><i>Fernando Salvador Moreno</i></b><I> &eacute; m&eacute;dico, doutor em    cl&iacute;nica medicina e professor titular do Laborat&oacute;rio de Dieta,    Nutri&ccedil;&atilde;o e C&acirc;ncer, da FCF/USP. Email: </I><a href="mailto:rmoreno@usp.br">rmoreno@usp.br</a>    <br>   <b><i>Thomas Prates Ong</i></b><I> &eacute; farmac&ecirc;utico-bioqu&iacute;mico,    professor doutor do Laborat&oacute;rio de Dieta, Nutri&ccedil;&atilde;o e C&acirc;ncer,    da FCF/USP, e integra a comiss&atilde;o organizadora da Rede Brasileira de Nutrigen&ocirc;mica.    Email: </I><a href="mailto:tong@usp.br">tong@usp.br</a></font></P>      ]]></body>
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