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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/brasil.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b><font size="3">F</font></b><font size="3">AL&Eacute;SIAS</font></font></P>     <P><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/line_blk.gif"></font></P>     <P> <font size="3"><b><font size=5>As belas e perigosas constru&ccedil;&otilde;es    da natureza</font></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">O oceano Atl&acirc;ntico banha o litoral brasileiro que se estende    por mais de 8 mil quil&ocirc;metros, predominados por costas baixas. Mas, por    vezes, a terra firme se imp&otilde;e ao mar por meio de escarpas com inclina&ccedil;&atilde;o    acentuada. Surgem, a&iacute;, as fal&eacute;sias, esculpidas principalmente    pela a&ccedil;&atilde;o erosiva das ondas do mar.</font></P>     <P><font size="3">Por sua beleza e pela possibilidade de vista panor&acirc;mica,    essas forma&ccedil;&otilde;es naturais atraem a instala&ccedil;&atilde;o de    grandes complexos hoteleiros, condom&iacute;nios e turismo predat&oacute;rio    que acabam por comprometer sua exist&ecirc;ncia e as transformam em &aacute;reas    de risco de desmoronamento.</font></P>     <P><font size="3">As fal&eacute;sias no Brasil ocorrem principalmente nas regi&otilde;es    Nordeste e Sudeste, onde se alternam com praias, dunas, mangues, recifes, ba&iacute;as    e restingas, e conferem singularidade &agrave; paisagem litor&acirc;nea. Jos&eacute;    Maria Landim Dominguez, professor titular em geologia costeira e sedimentar    da Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que na zona costeira entre    Rio de Janeiro e Par&aacute; ocorre uma unidade geol&oacute;gica conhecida como    Forma&ccedil;&atilde;o Barreiras. "Nos trechos onde existe um d&eacute;ficit    no balan&ccedil;o de sedimentos, a Forma&ccedil;&atilde;o Barreiras alcan&ccedil;a    a linha de costa formando fal&eacute;sias". Essa unidade geol&oacute;gica &eacute;    constitu&iacute;da de rochas pouco consolidadas, o que as torna muito suscept&iacute;veis    &agrave; eros&atilde;o pela a&ccedil;&atilde;o das ondas do mar e das &aacute;guas    da chuva. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/a03img01.jpg"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">O potencial tur&iacute;stico da regi&atilde;o litor&acirc;nea,    e em especial do Nordeste brasileiro, tem sido apontado em diversos estudos    que destacam seus atributos naturais, culturais e a abund&acirc;ncia de m&atilde;o-de-obra    com custos baixos. As &aacute;reas onde ocorrem as fal&eacute;sias possuem um    atrativo especial para o turista: &eacute; o mar visto de cima. Ronaldo Fernandes    Diniz, professor do Instituto Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, Ci&ecirc;ncia    e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), considera que "juntamente com as    praias arenosas e dunas locais, as fal&eacute;sias do Nordeste constituem paisagens    de rara beleza e, portanto, de grande valor para as atividades tur&iacute;sticas    e o desenvolvimento regional".</font></P>     <P><font size="3">Nos &uacute;ltimos anos, o n&uacute;mero de empreendimentos    tur&iacute;sticos no Nordeste aumentou muito e h&aacute; um grande crescimento    de complexos hoteleiros nas bordas das fal&eacute;sias. Luiz Gonzaga God&oacute;i    Trigo, professor da Escola de Artes, Ci&ecirc;ncias e Humanidades da Universidade    de S&atilde;o Paulo (USP), aponta que de norte a sul do Brasil as &aacute;reas    litor&acirc;neas t&ecirc;m sido ocupadas intensa e irregularmente e n&atilde;o    apenas por empreendimentos hoteleiros. "Hot&eacute;is, condom&iacute;nios privados    de dif&iacute;cil fiscaliza&ccedil;&atilde;o e grandes centros comerciais ocupam    bordas de fal&eacute;sias e manguezais, sabidamente &aacute;reas de risco".    Entre Recife e o Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, por exemplo, existem    muitas fal&eacute;sias com manguezais entre elas. Nessa regi&atilde;o est&atilde;o    sendo constru&iacute;dos v&aacute;rios hot&eacute;is e condom&iacute;nios, al&eacute;m    da Refinaria Abreu Lima, da Petrobras, e do Complexo Industrial Portu&aacute;rio    de Suape. Segundo Luiz Trigo, "tudo isso visa principalmente um desenvolvimento    r&aacute;pido da regi&atilde;o, mas sem levar em conta a conserva&ccedil;&atilde;o    ambiental". A legisla&ccedil;&atilde;o existe mas &eacute; pouco cumprida. Autor    de mais de vinte livros sobre turismo, Trigo denuncia: "no litoral do Nordeste    o problema maior n&atilde;o s&atilde;o os hot&eacute;is. Muitos estrangeiros    est&atilde;o comprando casas de condom&iacute;nios privados, inclusive em &aacute;reas    de preserva&ccedil;&atilde;o, e promovem o turismo sexual. Nesses locais, a    fiscaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; muito mais dif&iacute;cil". Segundo ele,    nos hot&eacute;is de grandes corpora&ccedil;&otilde;es, principalmente nos que    recebem turistas estrangeiros, a conserva&ccedil;&atilde;o ambiental &eacute;    uma estrat&eacute;gia de marketing, pois alguns deles n&atilde;o aceitam frequentar    hot&eacute;is que causam impacto no ambiente.</font></P>     <P><font size="3">Nas fal&eacute;sias, o processo erosivo atua em duas frentes:    na base, pela a&ccedil;&atilde;o das ondas e correntes marinhas; e no topo,    pela a&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas da chuva. As ondas escavam a base das    fal&eacute;sias e provocam desmoronamentos. Isto, combinado com a a&ccedil;&atilde;o    das &aacute;guas pluviais, faz com que as fal&eacute;sias recuem em dire&ccedil;&atilde;o    ao continente. O ge&oacute;logo Landim explica que esse recuo depende dos materiais    geol&oacute;gicos. Fal&eacute;sias esculpidas em rochas cristalinas mais resistentes    recuam muito lentamente, de modo quase impercept&iacute;vel. "A cidade de Salvador,    na Bahia, por exemplo, est&aacute; sobre fal&eacute;sias de rochas cristalinas,    com a cidade alta no topo e a cidade baixa na base. Existem v&aacute;rios pr&eacute;dios    na borda da escarpa, mas como as rochas s&atilde;o resistentes, o risco &eacute;    pequeno", diz Landim. Por outro lado, fal&eacute;sias esculpidas em rochas sedimentares    ou em sedimentos pouco consolidados recuam rapidamente. "Isto &eacute; o que    acontece em grande parte do Nordeste brasileiro", acrescenta.</font></P>     <P><font size="3">Fal&eacute;sias s&atilde;o naturalmente &aacute;reas de risco,    pois est&atilde;o constantemente submetidas ao processo erosivo que favorece    desmoronamentos, tanto no topo, como na base da fal&eacute;sia. "Existem casos    de banhistas que morreram porque estavam descansando na base de uma fal&eacute;sia,    ou caminhando muito pr&oacute;ximo &agrave; sua borda", afirma Landim, "e qualquer    constru&ccedil;&atilde;o ou estrutura humana, seja na base, seja no topo das    fal&eacute;sias estar&aacute; amea&ccedil;ada pelo recuo erosivo da linha de    costa".</font></P>     <P><font size="3">Um exemplo dessa din&acirc;mica &eacute; o Cabo Branco, na Para&iacute;ba,    uma fal&eacute;sia de 40 metros de altura formada por rocha calc&aacute;ria,    que j&aacute; foi considerado o ponto mais oriental da Am&eacute;rica. Perdeu    o t&iacute;tulo para a Ponta do Seixas, situada 3 km ao sul. Isto porque a eros&atilde;o    marinha promoveu o desgaste do Cabo Branco. Os sedimentos erodidos foram depositados    na Ponta do Seixas, fazendo com que esta avan&ccedil;asse uns 200 m no mar.    </font></P>     <P><font size="3">As fal&eacute;sias s&atilde;o consideradas &Aacute;reas de Preserva&ccedil;&atilde;o    Permanente (APP) pela Resolu&ccedil;&atilde;o nº 303/02 do Conselho Nacional    do Meio Ambiente (Conama), que pro&iacute;be qualquer tipo de ocupa&ccedil;&atilde;o    numa faixa de cem metros, contados da sua borda. Entretanto, apesar de protegidas    pela legisla&ccedil;&atilde;o, existem muitas ocupa&ccedil;&otilde;es irregulares    em bordas de fal&eacute;sias, que causam fortes impactos ambientais. Ronaldo    Diniz cita como principais a acelera&ccedil;&atilde;o do processo erosivo natural,    o comprometimento do valor est&eacute;tico da paisagem, o ac&uacute;mulo de    lixo e entulhos e a contamina&ccedil;&atilde;o do len&ccedil;ol fre&aacute;tico.    "Esses impactos aumentam a incid&ecirc;ncia de desmoronamentos e de escorregamentos,    principalmente em per&iacute;odos com maiores precipita&ccedil;&otilde;es pluviom&eacute;tricas",    complementa Ronaldo Diniz. </font></P>     <P><font size="3"><b>TURISMO E NATUREZA EM HARMONIA</b> Especialistas consideram    que o turismo &eacute; uma atividade que deve ser sustent&aacute;vel em termos    econ&ocirc;micos, sociais e ambientais. Para evitar impactos ambientais s&atilde;o    necess&aacute;rios planejamentos e zoneamentos que considerem a capacidade de    carga dos ecossistemas envolvidos. A capacidade de carga &eacute; o m&aacute;ximo    de uso poss&iacute;vel de um ecossistema sem causar efeitos negativos sobre    os recursos biol&oacute;gicos, sem reduzir a satisfa&ccedil;&atilde;o dos visitantes    e nem produzir efeito adverso sobre a sociedade receptora, a economia ou a cultura    local. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/a03img02.jpg"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Para Luiz Trigo, um dos exemplos no Brasil de que &eacute; poss&iacute;vel    conciliar conserva&ccedil;&atilde;o ambiental e turismo em &aacute;rea litor&acirc;nea    &eacute; a Riviera de S&atilde;o Louren&ccedil;o, no litoral norte de S&atilde;o    Paulo. Projetada considerando a capacidade de carga, conta com normas r&iacute;gidas    para o uso e ocupa&ccedil;&atilde;o do solo. O mesmo n&atilde;o acontece no    Jardim S&atilde;o Louren&ccedil;o, bairro ao lado onde, por falta de licen&ccedil;as    ou atraso na sua obten&ccedil;&atilde;o, os condom&iacute;nios residenciais    est&atilde;o atualmente com a constru&ccedil;&atilde;o atrasada ou embargada.    </font></P>     <P><font size="3">Outro exemplo de preserva&ccedil;&atilde;o e turismo sustent&aacute;vel    apontado por Luiz Trigo s&atilde;o os parques nacionais dos Estados Unidos e    do Canad&aacute;: "As comunidades, que estavam nas &aacute;reas antes da cria&ccedil;&atilde;o    dos parques, permaneceram no local e preservam rigorosamente suas terras, pois    possuem consci&ecirc;ncia ambiental; o retorno &eacute; a valoriza&ccedil;&atilde;o    do patrim&ocirc;nio". No Brasil, esfor&ccedil;os t&ecirc;m sido feitos e o Plano    Nacional de Turismo (PNT 2007/2010) foi elaborado com a colabora&ccedil;&atilde;o    de diferentes segmentos relacionados com turismo. O objetivo principal &eacute;    ser um indutor da inclus&atilde;o social, por meio da cria&ccedil;&atilde;o    de novos postos de trabalho, ocupa&ccedil;&atilde;o e renda, e pela absor&ccedil;&atilde;o    de novos turistas no mercado interno. Mas n&atilde;o bastam planos. "Hoje temos    pol&iacute;tica, mas falta fiscaliza&ccedil;&atilde;o, agilidade do Judici&aacute;rio    e responsabilidade social do consumidor de turismo", enfatiza Luiz Trigo. </font></P>     <P><font size="3">Fal&eacute;sias podem ser encontradas em v&aacute;rias regi&otilde;es    do mundo e, em muitas, h&aacute; turismo intenso: Algarves, em Portugal; ilha    de Capri, na It&aacute;lia; &Eacute;tretat, na Fran&ccedil;a; na fal&eacute;sia    de Moher, na Irlanda, e em muitas outras. Em Moher, por exemplo, existe um centro    de visitas com uma galeria subterr&acirc;nea onde fotografias, filmes e textos    apresentam a fal&eacute;sia ao p&uacute;blico visitante. A &aacute;rea da fal&eacute;sia    &eacute; considerada, desde 1988, &Aacute;rea de Ref&uacute;gio de Fauna e,    a partir de 1989, passou a ser tamb&eacute;m um Setor de Prote&ccedil;&atilde;o    Especial para P&aacute;ssaros.</font></P>     <P><font size="3">A atividade tur&iacute;stica em &aacute;rea de fal&eacute;sia    &eacute; vi&aacute;vel, desde que se respeite a legisla&ccedil;&atilde;o vigente.    "Em &aacute;reas pr&oacute;ximas &agrave;s bordas das fal&eacute;sias devem    ser evitados edifica&ccedil;&otilde;es, tr&aacute;fego de ve&iacute;culos, altera&ccedil;&otilde;es    no fluxo natural de &aacute;gua pluvial, deposi&ccedil;&atilde;o de lixo e entulhos    e explora&ccedil;&atilde;o tur&iacute;stica acima da capacidade de suporte local",    afirma Ronaldo Diniz. Landim acrescenta que &eacute; necess&aacute;rio disciplinar    o uso do solo, nas &aacute;reas pr&oacute;ximas &agrave; borda das fal&eacute;sias.    &Eacute; preciso estabelecer faixas de recuo baseadas em proje&ccedil;&otilde;es    de taxas hist&oacute;ricas de eros&atilde;o da linha de costa para uma determinada    localidade; proibir interven&ccedil;&otilde;es humanas, como jardins e fossas,    que provocam aumento da entrada de &aacute;gua no solo e, consequentemente,    aumento do risco de desmoronamento; e impedir que se construam obras de estabiliza&ccedil;&atilde;o    na forma de muros na base das fal&eacute;sias, que afetam a din&acirc;mica de    transporte e deposi&ccedil;&atilde;o de sedimentos, exacerbando os processos    erosivos nas &aacute;reas vizinhas. O professor acrescenta que "o recuo erosivo    das fal&eacute;sias &eacute; um processo natural, portanto qualquer ocupa&ccedil;&atilde;o    humana deve fornecer amplo espa&ccedil;o para que esse fen&ocirc;meno siga o    seu curso".</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="right"><font size="3"><I>Leonor Assad</I></font></P>      ]]></body>
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