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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/mundo.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">RESENHA</font></P>     <P><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/line_blk.gif"></font></P>     <P> <font size="3"><b><font size=5>Vida, morte e imortalidade: desvendando a    hist&oacute;ria das c&eacute;lulas HeLa</font></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">HeLa &eacute; a sigla de uma linhagem celular bem conhecida    de pesquisadores das ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas e m&eacute;dicas. No entanto,    poucos sabem a origem da sigla e, tampouco, a hist&oacute;ria de Henrietta Lacks,    uma mulher negra que viveu entre os anos de 1920 e 1950, nos Estados Unidos,    da qual foram extra&iacute;das c&eacute;lulas cancerosas que originaram a primeira    linhagem imortal de c&eacute;lulas humanas. O impacto de tal fa&ccedil;anha    na ci&ecirc;ncia m&eacute;dica moderna foi profundo e vasto, muito embora a    fam&iacute;lia de Lacks tivesse vivido um enorme sil&ecirc;ncio (e falta de    informa&ccedil;&atilde;o) sobre sua importante contribui&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <P><font size="3">Rebecca Skloot conta tal trajet&oacute;ria em seu livro, <I>The    immortal life of Henrietta Lacks,</I> publicado este ano pela Editora Crown.    A jornalista deixou a plateia da livraria de Harvard &#150; um dos centros de    refer&ecirc;ncia mundial em pesquisa m&eacute;dica &#150; quase sem f&ocirc;lego    ao ler o tocante primeiro cap&iacute;tulo do livro, que trata do exame que levou    ao diagn&oacute;stico do tumor em Henrietta &#150; ocorrido na ala para pacientes    "de cor". Se hoje a hist&oacute;ria escrita por Rebecca choca por considerar    pacientes meros doadores de material biol&oacute;gico, &eacute; preciso cuidado,    recomenda a autora, para n&atilde;o se transpor as leis atuais para os anos    1950. "Na &eacute;poca, era considerado justo usar pacientes como sujeitos de    pesquisa, mesmo sem serem informados, como forma de retribui&ccedil;&atilde;o    ao tratamento gratuito que recebiam", disse. A legisla&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ou    e hoje os comit&ecirc;s de &eacute;tica em pesquisa s&atilde;o rigorosos em    rela&ccedil;&atilde;o ao consentimento informado, embora haja espa&ccedil;o    para melhorias.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/a08img01.jpg"></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Foram dez anos de pesquisas, entrevistas, viagens e contatos    com os familiares de Lacks &#150; um belo exemplo do cada vez menos presente    jornalismo investigativo &#150;, at&eacute; que Rebecca Skloot conseguisse condensar    tudo em uma obra sobre ci&ecirc;ncia e seus bastidores, e que levanta quest&otilde;es    s&eacute;rias sobre a rela&ccedil;&atilde;o m&eacute;dico-pesquisador-paciente,    os impactos da prec&aacute;ria comunica&ccedil;&atilde;o dos cientistas com    a sociedade, consentimento informado, propriedade intelectual e patentes de    c&eacute;lulas, entre outras. Entremeada ao criterioso conte&uacute;do cient&iacute;fico    est&aacute; a hist&oacute;ria da perda de uma m&atilde;e. E por isso, emociona.</font></P>     <P><font size="3">Henrietta teve dois peda&ccedil;os do colo do seu &uacute;tero    removidos antes do in&iacute;cio da radioterapia para tratar um c&acirc;ncer    no prestigioso hospital Johns Hopkins. Colocadas em condi&ccedil;&otilde;es    especiais para cultivo em laborat&oacute;rio, suas c&eacute;lulas de tecido    canceroso, ao contr&aacute;rio das isoladas do peda&ccedil;o saud&aacute;vel,    se multiplicaram em uma velocidade nunca antes vista pelos cientistas, e por    isso chamaram aten&ccedil;&atilde;o de nomes como Howard Jones, Richard Wesley    TeLinde e George Gey, e que seriam respons&aacute;veis por uma verdadeira revolu&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica. </font></P>     <P><font size="3">Jones foi o primeiro m&eacute;dico a atender Henrietta ap&oacute;s    ter sido diagnosticada com c&acirc;ncer; TeLinde, autor de um livro texto refer&ecirc;ncia    em cirurgia ginecol&oacute;gica, na &eacute;poca lutava contra o excesso de    histerectomias em fun&ccedil;&atilde;o de diagn&oacute;sticos err&ocirc;neos    de c&acirc;ncer cervical. Gey era o chefe do laborat&oacute;rio de cultura de    tecidos no mesmo hospital e trabalhava h&aacute; tr&ecirc;s d&eacute;cadas tentando    fazer crescer c&eacute;lulas malignas fora do corpo, em placas e tubos, em busca    da causa e cura do c&acirc;ncer. Mary Kubicek, t&eacute;cnica do laborat&oacute;rio    de Gey, recebeu as amostras retiradas de Henrietta e as manipulou sem muita    esperan&ccedil;a, como mais uma entre tantas. Cortou o tecido em pequenos quadrados,    colocou-os em tubos de cultura e escreveu HeLa usando uma caneta preta. A surpresa    veio ap&oacute;s poucos dias: a olho nu foi poss&iacute;vel enxergar uma nuvem    branca no fundo do tubo, indicativo de que as c&eacute;lulas haviam se multiplicado    em "intensidade mitol&oacute;gica". </font></P>     <P><font size="3">George Gey, entusiasmado com o resultado, come&ccedil;ou a distribuir    c&eacute;lulas HeLa para cientistas interessados, o que possibilitou o uso dessa    linhagem nos mais variados estudos, como para entender as infec&ccedil;&otilde;es    por alguns v&iacute;rus (como HIV e sarampo), descrever os 48 cromossomos humanos,    testar produtos cosm&eacute;ticos e farmac&ecirc;uticos, al&eacute;m de terem    sido e serem fundamentais no estabelecimento e padroniza&ccedil;&atilde;o de    t&eacute;cnicas seminais de cultura de c&eacute;lulas.</font></P>     <P><font size="3">Antes da ind&uacute;stria com fins lucrativos, a jornalista    norte-americana conta que cientistas constru&iacute;ram uma f&aacute;brica em    Tuskegee para produzir HeLa em larga escala, uma vez que experimentos mostraram    que com tais c&eacute;lulas seria poss&iacute;vel testar a efetividade e seguridade    da vacina contra poliomielite que acabara de ter sido desenvolvida (1952) por    Jonas Salk. Usar a linhagem HeLa para os testes de neutraliza&ccedil;&atilde;o    do v&iacute;rus era uma alternativa muito mais barata do que c&eacute;lulas    de macaco, protocolo dispon&iacute;vel &agrave; &eacute;poca. Cerca de seis    trilh&otilde;es de c&eacute;lulas eram produzidas semanalmente pela f&aacute;brica    localizada no estado do Alabama e enviadas para diferentes centros espalhados    pelo mundo. O esquema montado foi um sucesso e mostrou que a vacina da p&oacute;lio    era efetiva. Com o aumento da demanda, surgiu o primeiro centro de produ&ccedil;&atilde;o    e distribui&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas com fins lucrativos. Devagar    nascia a multibilion&aacute;ria ind&uacute;stria de venda de material biol&oacute;gico.</font></P>     <P><font size="3">Lado a lado com os benef&iacute;cios que as pesquisas com c&eacute;lulas    HeLa trouxeram para a pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia e suas aplica&ccedil;&otilde;es    na &aacute;rea de sa&uacute;de, Rebecca descreve a faceta obscura e triste do    tratamento dado aos negros. O contraste entre o sucesso da f&aacute;brica HeLa    e os infames experimentos de Tuskegee com negros portadores de s&iacute;filis,    que aconteceram no mesmo local e na mesma &eacute;poca, impressiona. Assim como    a descri&ccedil;&atilde;o das histerectomias em mulheres negras pobres no estado    do Mississippi, como forma de controle de natalidade e para a pr&aacute;tica    da t&eacute;cnica. Segundo Rebecca, conforme os negros foram migrando do sul    para o norte dos EUA, as hist&oacute;rias de que hospitais sequestravam negros    para pesquisa s&oacute; aumentaram. </font></P>     <P><font size="3">Mas a for&ccedil;a do livro vem mesmo do resgate detalhado que    a jornalista faz da trajet&oacute;ria de Henrietta, desde o seu nascimento em    1920, sua inf&acirc;ncia em Clover, no estado da Virg&iacute;nia, e sua morte    em 1951. Criada por seu av&ocirc;, Henrietta casou-se com seu primo e teve cinco    filhos que, ap&oacute;s sua morte, passaram por duros momentos de maus-tratos,    escravid&atilde;o nas lavouras de tabaco e abuso sexual. Esses mesmos filhos,    e agora netos, cresceram em um profundo sil&ecirc;ncio sobre Henrietta e suas    revolucion&aacute;rias c&eacute;lulas. A fam&iacute;lia s&oacute; soube, por    acaso, mais de 20 anos depois da morte de Henrietta, que suas c&eacute;lulas    estavam vivas. A not&iacute;cia, recebida com choque, levou os parentes a pensarem    que a pr&oacute;pria Henrietta estivesse viva. Mesmo depois de procurados, anos    mais tarde, para doarem sangue para a realiza&ccedil;&atilde;o de testes gen&eacute;ticos,    n&atilde;o lhes informaram sobre as aplica&ccedil;&otilde;es das HeLas, sua    import&acirc;ncia para a medicina, ou sobre as partes que lucraram com as c&eacute;lulas.    A maior contradi&ccedil;&atilde;o apresentada pelo livro &eacute; o fato dos    Lacks n&atilde;o ter condi&ccedil;&otilde;es para pagar um plano de sa&uacute;de.</font></P>     <P><font size="3">Rebecca n&atilde;o foi a primeira jornalista a abordar a fam&iacute;lia    interessada em saber mais sobre Henrietta, mas teve o m&eacute;rito de se preocupar    em informar e explicar detalhadamente todas as d&uacute;vidas da fam&iacute;lia    sobre a linhagem HeLa. A hist&oacute;ria de Henrietta Lacks nos leva a uma reflex&atilde;o    sobre a necessidade de aproximarmos meras amostras de c&eacute;lulas, tecidos,    soros, DNAs, RNAs, &agrave;s mais diversas vidas humanas que as produziram,    comunicando claramente os objetivos da pesquisa, por meio de linguagem adequada    ao doador da amostra.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="right"><font size="3"><I>Cristina Caldas</I></font></P>      ]]></body>
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