<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252010000200010</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Moda: ausência de crítica séria e descomprometida]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Façanha]]></surname>
<given-names><![CDATA[Astrid]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Centro Universitário Senac Faculdade Santa Marcelina ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>62</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>22</fpage>
<lpage>24</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252010000200010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252010000200010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252010000200010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/moda.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><font size="4">ENTREVISTA </font></b><font size="4">Lars    Svendsen </font></font></P>     <P><font size="4"><b><font size=5>Moda: Aus&ecirc;ncia de cr&iacute;tica s&eacute;ria    e descomprometida</font></b></font></P>     <P><font size="3"><b>Astrid Fa&ccedil;anha </b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">PARA O ESCRITOR E PROFESSOR DE FILOSOFIA NA NORUEGA, DESDE QUANDO    O CONCEITO DE ALTA COSTURA FOI ACEITO, EM 1860, A MODA ASPIRA OCUPAR SEU LUGAR    NO MUNDO DA ARTE.</font></P>     <P><font size="3">Lars Svendsen, professor associado do Departamento de Filosofia,    da Universidade de Bergan, na Noruega, e autor do livro <I>Fashion: a philosophy</I>    (editora Reaktion) esteve no final do ano passado, em S&atilde;o Paulo, para    uma palestra sobre a cr&iacute;tica jornal&iacute;stica, no evento Pense Moda.    Segundo o fil&oacute;sofo, desde quando a <I>haute couture</I> foi introduzida    por volta de 1860, a moda aspira fazer parte do universo da arte, do qual foi    exclu&iacute;da no s&eacute;culo XVIII, quando passou a ser considerada mero    of&iacute;cio ou artefato.</font></P>     <P><font size="3">Ainda assim, alguns dos primeiros designers de moda como Charles    Frederick Worth (1825-1895) e Paul Poiret (1879-1944) se consideravam artistas    e gostavam de pensar que criavam n&atilde;o sobre encomenda, mas a partir da    pr&oacute;pria subjetividade. Worth passou a "assinar" suas obras, ao colocar    etiqueta com seu pr&oacute;prio nome nas suas roupas. Poiret tinha uma vis&atilde;o    rom&acirc;ntica da moda, criava pe&ccedil;as autorais, se inspirava em correntes    art&iacute;sticas da sua &eacute;poca al&eacute;m de ser colecionador de arte    e frequentador de ateli&ecirc; de artistas.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Para Svendsen, uma das raz&otilde;es da moda n&atilde;o ter    a credibilidade como arte &eacute; a falta de uma cr&iacute;tica s&eacute;ria    e consistente que avalie a sua produ&ccedil;&atilde;o, o que faz com que a mesma    acabe sendo vista como mera <I>commodity</I>. Em sua opini&atilde;o, a cobertura    de moda feita pelos grandes jornais &eacute;, em geral, superficial.&nbsp; Por    outro lado, a proximidade dos jornalistas especializados com o mundo da moda    acaba por gerar um tipo de reportagem comprometida, que mais exalta do que avalia.&nbsp;    Ele refor&ccedil;a a import&acirc;ncia da produ&ccedil;&atilde;o de moda ser    submetida ao julgamento anal&iacute;tico e cr&iacute;tico como forma de legitimar    o campo.</font></P>     <P><font size="3">A boa cr&iacute;tica, pontua o fil&oacute;sofo, deve ser independente    e trazer com clareza a descri&ccedil;&atilde;o, interpreta&ccedil;&atilde;o    e contextualiza&ccedil;&atilde;o da obra.&nbsp; Por outro lado, ele admite se    tratar de um g&ecirc;nero subjetivo que, inevitavelmente, traz &agrave; tona    o repert&oacute;rio do pr&oacute;prio cr&iacute;tico. Svendsen v&ecirc; com    bons olhos a cr&iacute;tica negativa, ainda que seja rara e acabe por gerar    ressentimentos. "Chegou a hora de a moda amadurecer e aceitar a cr&iacute;tica    ruim".</font></P>     <P><font size="3">Svendsen acredita que o jornalismo de moda tem um papel fundamental    na avalia&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o de bens de consumo e usa    um termo do soci&oacute;logo franc&ecirc;s, Pierre Bourdieu, para refor&ccedil;ar    que a imprensa &eacute; respons&aacute;vel por "criar criadores". Por&eacute;m,    esclarece que a cr&iacute;tica &eacute; um g&ecirc;nero de cobertura jornal&iacute;stica,    que n&atilde;o tem nada a ver com a promo&ccedil;&atilde;o de marcas e grifes    que &eacute; feito pelas assessorias de imprensa, cuja linguagem acaba sendo    reproduzida na m&iacute;dia.</font></P>     <P><font size="3">Al&eacute;m disso, refor&ccedil;a que os jornalistas de moda    n&atilde;o deveriam ser vistos como escravos dos estilistas e marcas. Infelizmente,    segundo ele, o que se nota, &eacute; uma enorme depend&ecirc;ncia na ind&uacute;stria,    da parte dos profissionais da imprensa, cujo papel deveria ser desafiar o sistema.    "O papel do jornalista e cr&iacute;tico &eacute; produzir com qualidade, na    &aacute;rea em que atuam, para que suas pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es    profissionais sejam fortalecidas".</font></P>     <P><font size="3"><b>ASTRID FA&Ccedil;ANHA</b><I> Voc&ecirc; escreveu outros livros    de filosofia &#150; como</I> The philosophy of evil<I>, de 2001 e </I>A philosophy    of boredom<I>, em 2004. Como chegou no </I>Fashion a philosophy<I>?</i></font></P>     <P><font size="3"><b>LARS SVENDSEN</b> Tem um cap&iacute;tulo no livro, <I>A philosophy    of boredom</I>, que aborda o assunto, a partir da&iacute;, cheguei &agrave;    conclus&atilde;o que deveria escrever uma filosofia da moda.</font></P>     <P><font size="3"><I>Por que a moda passou a despertar tanto interesse?</I></font></P>     <P><font size="3">A moda &eacute; uma importante manifesta&ccedil;&atilde;o da    cultura contempor&acirc;nea. Eu me preocupo em entender quem somos, por que    nosso comportamento &eacute; assim e, por a&iacute; vai. Portanto, devido &agrave;    influ&ecirc;ncia cultural da moda em nossas vidas, se tornou &oacute;bvio, para    mim, que se trata de um assunto que merece uma investiga&ccedil;&atilde;o profunda    e s&eacute;ria.</font></P>     <P><font size="3"><I>Voc&ecirc; foi recriminado por seus colegas intelectuais    quando decidiu investigar a moda no campo da filosofia?</I></font></P>     <P><font size="3">Meus colegas acad&ecirc;micos acharam que eu tinha ficado louco,    pois consideram que a moda, definitivamente, n&atilde;o &eacute; assunto para    um fil&oacute;sofo s&eacute;rio. Ao mesmo tempo, muitas pessoas da moda acharam    que eu apresentei o assunto de maneira chata e dif&iacute;cil de entender. Alguns    estilistas, por&eacute;m, mandaram e-mail dizendo que tinham gostado muito do    livro.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><I>E a rea&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia ao livro?</I></font></P>     <P><font size="3">A maioria dos jornalistas de moda ficou chocada com a minha    cr&iacute;tica ao jornalismo de moda. O meu coment&aacute;rio favorito foi de    uma profissional, reclamando de eu n&atilde;o ter dado &ecirc;nfase ao lado    divertido e brincalh&atilde;o da moda.</font></P>     <P><font size="3"><I>Qual a import&acirc;ncia do pensamento reflexivo na moda,    de que forma afeta a criatividade?</I></font></P>     <P><font size="3">Vou citar S&oacute;crates nas palavras de Plat&atilde;o, sobre    isso: "A vida sem reflex&atilde;o n&atilde;o vale a pena ser vivida". Portanto,    diria que, uma roupa feita sem reflex&atilde;o n&atilde;o vale a pena ser vestida.    Acredito que esta &eacute; uma reposta divertida para uma pergunta s&eacute;ria!</font></P>     <P><font size="3"><I>Para a cr&iacute;tica de moda a reflex&atilde;o &eacute;    inevit&aacute;vel…</I></font></P>     <P><font size="3">Cr&iacute;ticos de moda deveriam ser capazes de explicar, para    seus leitores, porque uma cole&ccedil;&atilde;o foi um sucesso ou um fracasso    e ajud&aacute;-los a adquirir uma percep&ccedil;&atilde;o mais ampla da sua    pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o com a moda. Na realidade significa ensinar    o leitor a arte da cr&iacute;tica, de ter a capacidade de emitir um julgamento    que seja sustentado por uma raz&atilde;o. Significa conduzir o leitor para abaixo    da superf&iacute;cie, para entender a relev&acirc;ncia desses artefatos para    suas vidas. Afinal, os cr&iacute;ticos tamb&eacute;m podem exigir algo dos seus    leitores, que eles se tornem reflexivos! </font></P>     <P><font size="3"><I>Como deve ser a cr&iacute;tica de moda?</I></font></P>     <P><font size="3">A cr&iacute;tica de moda deve ser rigorosa, colocada com clareza    e informada historicamente. N&atilde;o deve minimizar ou simplificar como grande    parte da cr&iacute;tica de moda atual faz, nem ser desnecessariamente obscura,    como &eacute; grande parte da cr&iacute;tica contempor&acirc;nea de arte. A    cr&iacute;tica deveria buscar vitalidade e aud&aacute;cia, distinguir o original    do derivativo e pontuar o desenvolvimento do designer, mostrar momentos de mudan&ccedil;as    e ciclos e tentar identificar esses momentos, al&eacute;m de se perguntar sobre    tais escolhas est&eacute;ticas em particular. Al&eacute;m disso, ressaltar t&eacute;cnicas,    materiais e, por fim, emitir um julgamento. Por&eacute;m um julgamento com propriedade,    n&atilde;o uma mera opini&atilde;o sem fundamento. Cr&iacute;ticos nunca conseguem    ser completamente objetivos, por&eacute;m deveriam justificar suas opini&otilde;es.</font></P>     <P><font size="3"><I>O que faz a cr&iacute;tica de moda subverter a cr&iacute;tica    tradicional?</I></font></P>     <P><font size="3">Claramente, cr&iacute;ticos de moda t&ecirc;m pouca for&ccedil;a,    alguns j&aacute; foram banidos de desfiles por terem escrito cr&iacute;ticas    negativas, isso n&atilde;o acontece em outras &aacute;reas. Tanto na literatura    quanto nas artes pl&aacute;sticas a cr&iacute;tica negativa &eacute; aceita,    mesmo que o artista n&atilde;o fique muito contente com os resultados. &Agrave;s    vezes, as cr&iacute;ticas mais interessantes s&atilde;os as negativas, at&eacute;    as obras-primas t&ecirc;m seus defeitos e muitas vezes s&atilde;o esses defeitos    que as tornam interessantes. Por&eacute;m, quando lemos sobre moda nos jornais    e revistas somos levados a acreditar que s&oacute; existem obras-primas impec&aacute;veis    no reino da moda.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><I>Voc&ecirc; cita in&uacute;meros fil&oacute;sofos no seu livro,    de Plat&atilde;o &agrave; Immanuel Kant e Adam Smith. Por outro lado, explora    pensamentos de soci&oacute;logos modernos como Georg Simmel, Walter Benjamim    e Pierre Bourdieu. Em sua opini&atilde;o, de que forma as diferentes correntes    de pensamento interferem na interpreta&ccedil;&atilde;o que &eacute; feita da    moda. Poder&iacute;amos dizer que a filosofia tem um vi&eacute;s mais moralista    e a sociologia mais comportamental?</I></font></P>     <P><font size="3">A filosofia quer saber o que &eacute; certo, quem est&aacute;    certo o que &eacute; a verdade, este &eacute; um ponto de vista filos&oacute;fico.    N&oacute;s, fil&oacute;sofos, levamos a investiga&ccedil;&atilde;o para esse    lado. Por outro lado, Simmel, era um soci&oacute;logo que se considerava um    fil&oacute;sofo, inclusive escreveu a obra chamada <I>A filosofia da moda</I>.    Independente das poss&iacute;veis abordagens, o fato &eacute; que a moda tem    conquistado um papel cada vez mais significativo na cultura contempor&acirc;nea,    portanto &eacute; importante preparar-se para entender o fen&ocirc;meno. Veremos    cada vez mais artigos e longos ensaios sobre moda e cr&iacute;tica de moda,    portanto &eacute; natural que se caminhe para uma filosofia de moda. Como diria    a fil&oacute;sofa Hanna Arendt: "Pensar &eacute; uma atividade positiva que    ao mesmo tempo nos distrai e subestima nossos h&aacute;bitos e regras". Segundo    Arendt, "todo pensamento exige que se pare e, pense". Portanto o mais importante    &eacute; dar uma passo atr&aacute;s para ganhar alguma perspectiva.</font></P>     <P><font size="3"><I>Voc&ecirc; desconstr&oacute;i as teorias cl&aacute;ssicas    de moda, articuladas por pensadores como Anne Hollander, Roland Barthes e Gilles    Lipovetsky, para citar alguns. Qual desses te&oacute;ricos faz mais sentido    para voc&ecirc;? </I></font></P>     <P><font size="3">Adoro o Gilles Lipovetsky, especialmente o seu livro <I>O imp&eacute;rio    do ef&ecirc;mero</I>. Por&eacute;m, discordo da maioria dos pontos de vista    colocada por ele, mas &eacute; um dos melhores livros para se discordar que    conhe&ccedil;o! Infelizmente Barthes &eacute; imposs&iacute;vel de ler. O seu    livro &#150; <I>Sistema da moda &#150;</I> demanda um esfor&ccedil;o enorme    para entender e, no final, n&atilde;o acrescenta muito. O Simmel &eacute; muito    bom. Acredite-se ou n&atilde;o, o escritor escoc&ecirc;s Thomas Carlyle escreveu    um livro h&aacute; 200 anos &#150; <I>Sartor Resartus</I> &#150; que &eacute;    totalmente p&oacute;s-moderno e cont&eacute;m &oacute;timos <I>insights</I>    sobre a moda, apesar de se tratar de um romance esquisit&iacute;ssimo!</font></P>     <P><font size="3"><I>E quanto a voc&ecirc;, o que pensa da moda?</I></font></P>     <P><font size="3">A moda &eacute; um assunto complexo. N&atilde;o consigo resumir    em uma &uacute;nica resposta. Se pudesse responder com duas frases, n&atilde;o    teria escrito um livro inteiro sobre o assunto!</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><I><b>Astrid Fa&ccedil;anha</b> &eacute; jornalista especializada    em moda, mestre em ci&ecirc;ncia da informa&ccedil;&atilde;o pela Universidade    Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Leciona nos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o    e p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em moda da Faculdade Santa Marcelina e    do Centro Universit&aacute;rio Senac/SP. Email: </i><a href="mailto:astridfacanha@terra.com.br">astridfacanha@terra.com.br</a></font></P>      ]]></body>
</article>
