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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Por um mapa antropológico da moda]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/moda.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><font size="4">ENTREVISTA</font></b><font size="4"> Massimo    Canevacci</font></font></P>     <P><font size="3"><b><font size=5>Por um mapa antropol&oacute;gico da moda</font></b></font></P>     <P><font size="3"><b>Tarc&iacute;sio D'Almeida</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">O ANTROP&Oacute;LOGO ITALIANO MASSIMO CANEVACCI QUE, AL&Eacute;M    DA MODA, TEM SE DEDICADO AOS ESTUDOS DOS COMPORTAMENTOS CULTURAIS CONTEMPOR&Acirc;NEOS,    DEFENDE UMA AMPLIA&Ccedil;&Atilde;O DOS DEBATES EM TORNO DA MODA.</font></P>     <P><font size="3">Entender a moda pelo enfoque antropol&oacute;gico. Esse &eacute;    um dos roteiros de reflex&atilde;o que permeia a atual trajet&oacute;ria intelectual    do antrop&oacute;logo italiano Massimo Canevacci, autor de <I>Culturas extremas:    muta&ccedil;&otilde;es juvenis nos corpos das metr&oacute;polis</I> (DP&amp;A,    2005). Titular da cadeira de antropologia cultural na Faculdade de Sociologia    da Universidade La Sapienza de Roma e professor visitante nas universidades    de Frankfurt e de Nova York, Canevacci &eacute; autor de in&uacute;meros livros    que abordam estudos sobre antropologia das artes visuais, do cinema e das culturas    urbanas.</font></P>     <P><font size="3">Em sua primeira visita ao Brasil (<a name="tx1"></a><a href="#nt1">1</a>),    Canevacci discutiu quais s&atilde;o as articula&ccedil;&otilde;es existentes    na moda, que atuam desde sua produ&ccedil;&atilde;o imaterial, seu consumo,    as redes de contradi&ccedil;&otilde;es da mesma, al&eacute;m de enfocar ideologia    e modismos. Para o antrop&oacute;logo, o estudo sobre o tema, a partir de v&aacute;rios    enfoques e correntes de pensamento, s&oacute; melhora a sua compreens&atilde;o.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">A seguir, entrevista exclusiva realizada com Canevacci, onde    sua perspectiva antropol&oacute;gica da moda pode ser amplamente debatida durante    o semin&aacute;rio na Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes (ECA) da    Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) (<a name="tx2"></a><a href="#nt2">2</a>).</font></P>     <P><font size="3"><b>Tarcisio D'Almeida</b> <I>Sua trajet&oacute;ria intelectual    tem sido voltada &agrave; antropologia do cinema, dos estudos de cultura visual    nas metr&oacute;poles. Como surgiu esse interesse pela moda?</i></font></P>     <P><font size="3"><b>Massimo Canevacci</b> Nesses &uacute;ltimos anos fiquei interessado    pelos estilos da cultura juvenil e a moda est&aacute; inclusa nesse interesse    tamb&eacute;m, sobretudo pela forma figurativa e a express&atilde;o de linguagens    do corpo que contribuem nas concep&ccedil;&otilde;es de comunica&ccedil;&atilde;o    visual desse fim de s&eacute;culo.</font></P>     <P><font size="3"><I>Voc&ecirc; acha que, no caso da moda das tribos urbanas dos    anos 1990, h&aacute; uma profus&atilde;o de imagens dial&eacute;ticas nessa    cultura tipicamente urbana em busca da liberdade de estilos?</I></font></P>     <P><font size="3">Acho isso extremamente importante. &Eacute; esse sistema de    comunica&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fico dos jovens, que surgiu com o hip    hop &#91;movimento musical dos negros dos sub&uacute;rbios norte-americanos&#93;,    que fez mudar os estilos de se vestir. Funcionou como um movimento contr&aacute;rio,    saindo das periferias para os grandes centros. Com isso, temos uma comprova&ccedil;&atilde;o    de que a moda n&atilde;o &eacute; s&oacute; produzida do centro para as periferias.    A cria&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica de estilos pode ser proveniente das    camadas menos privilegiadas tamb&eacute;m.</font></P>     <P><font size="3"><I>Em quais dire&ccedil;&otilde;es apontam as abordagens de    moda da fase posterior &agrave;s contribui&ccedil;&otilde;es sociol&oacute;gicas    de Ren&eacute; K&ouml;nig e Georg Simmel e da semiologia de Roland Barthes?</I></font></P>     <P><font size="3">A quest&atilde;o fundamental da relev&acirc;ncia das contribui&ccedil;&otilde;es    desses autores, pelo menos para minha abordagem, &eacute; a de que a distin&ccedil;&atilde;o    do dualismo entre o org&acirc;nico e o inorg&acirc;nico (o material e o cultural)    perdeu espa&ccedil;o. Gosto das tend&ecirc;ncias surgidas com a mescla entre    moda e arte na contemporaneidade, pois experimentar fus&otilde;es entre dois    estilos (express&otilde;es) &eacute; uma marca de comunica&ccedil;&atilde;o    visual p&oacute;s-dualista. O trabalho dos estilistas e artistas fica mais enriquecido    com essa fus&atilde;o de vis&otilde;es e est&eacute;ticas criativas no mundo    da moda; o emprego de tecnologias, como a <I>cyber</I>, cria toda uma rede de    trocas constantes entre os dois campos. Os limites da moda s&atilde;o invis&iacute;veis.</font></P>     <P><font size="3"><I>Al&eacute;m de forte polo de cria&ccedil;&atilde;o, como    a It&aacute;lia reflete moda atualmente?</I></font></P>     <P><font size="3">Sem sombra de d&uacute;vida, Mil&atilde;o &eacute; um dos centros    financeiros mais importantes no mundo da moda. &Eacute; a capital p&oacute;s-industrial    da moda na It&aacute;lia. Existem os v&aacute;rios conglomerados de empresas,    como Prada, entre outras, que respondem por boa parte da produ&ccedil;&atilde;o    econ&ocirc;mica nacional. Em contrapartida, a produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica    italiana sobre moda tamb&eacute;m tem seu destaque, sobretudo a partir dos anos    1960/70.</font></P>     <P><font size="3"><I>Qual seu di&aacute;logo com as obras de Gillo Dorfles (com    seus dois livros sobre moda) e outros autores como Francesca Alfano Miglietti    (ou FAM) e seu estudo sobre as mutila&ccedil;&otilde;es no corpo contempor&acirc;neo?</I></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Realmente, Gillo Dorfles &eacute; um autor fundamental na It&aacute;lia.    Ele aborda as formas est&eacute;ticas e da m&iacute;dia italiana. Sou bastante    interessado tamb&eacute;m na rela&ccedil;&atilde;o entre as formas comunicativas,    da arte e da moda. Com isso tento fazer um estudo da produ&ccedil;&atilde;o    e interrela&ccedil;&atilde;o constru&iacute;da na mescla desses campos a partir    de uma vis&atilde;o dos conflitos semi&oacute;ticos. Meu enfoque est&aacute;    mais centrado na constitui&ccedil;&atilde;o da vida nas metr&oacute;poles na    comunica&ccedil;&atilde;o (ambas marcadas pela p&oacute;s-modernidade) do que    no trabalho tradicional. Tento acompanhar o trabalho da FAM, pois ela consegue    convergir exatamente essa vis&atilde;o ca&oacute;tica das problem&aacute;ticas    da contemporaneidade, sobretudo na sua revista <I>Virus</I>, sobre os v&aacute;rios    processos de mudan&ccedil;as/mutila&ccedil;&otilde;es no corpo e na moda.</font></P>     <P><font size="3"><I>O soci&oacute;logo brasileiro Gilberto Freyre, no livro </i>Modos    de homem &amp; modas de mulher (1987)<I>, apontou as ideologias, as modas, os    modismos, os costumes e comportamentos do Brasil desde o s&eacute;culo XIX.    E, hoje, como voc&ecirc; v&ecirc; essas (inter)rela&ccedil;&otilde;es?</i></font></P>     <P><font size="3">Normalmente muitos antrop&oacute;logos n&atilde;o se interessam    pela moda, acham-na um tema fr&iacute;volo e ef&ecirc;mero demais para a academia.    Mas &eacute; um objeto de estudo relevante sim, como qualquer outro, pois tem    a ver com comportamento e atitudes psicossociais dos indiv&iacute;duos. Precisa    dos v&aacute;rios enfoques cient&iacute;ficos e se Gilberto Freyre j&aacute;    fez sua contribui&ccedil;&atilde;o intelectual porque n&oacute;s n&atilde;o    damos continuidade? A minha &uacute;nica advert&ecirc;ncia &eacute; de que a    antropologia e a sociologia t&ecirc;m de tomar certo cuidado com a produ&ccedil;&atilde;o    imaterial na p&oacute;s-modernidade.</font></P>     <P><font size="3"><I>A produ&ccedil;&atilde;o de moda est&aacute; mais voltada    &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o de estilos, est&eacute;ticas, ou meramente    ao consumo de bens?</I></font></P>     <P><font size="3">Os estilos de vida s&atilde;o muito interessantes e pluralizados    no mesmo indiv&iacute;duo, que pode vestir-se e se travestir v&aacute;rias vezes    durante um mesmo dia. E &eacute; essa capacidade e liberdade que traz o significado    da amplitude da contemporaneidade. Isso significa que a identidade n&atilde;o    &eacute; mais parada, fechada, mas sim aberta para a experimenta&ccedil;&atilde;o    das "identidades"; ela &eacute; mais flu&iacute;da, l&iacute;quida.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><I><b>Tarc&iacute;sio D'Almeida </b>&eacute; pesquisador e professor    do Curso Design de Moda da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de    Minas Gerais (EBA-UFMG). Pertence ao conselho editorial da revista acad&ecirc;mica    de moda </i>Dobra&#91;s&#93; <I>e &eacute; pesquisador-associado do Groupe d'&Eacute;tude    sur la Mode, da Universit&eacute; de Paris V, Sorbonne. Escreve sobre moda para    os jornais </I>O Estado de S. Paulo<I> e </I>Folha de S. Paulo<I>. Email: </I><a href="mailto:tarcisio.dalmeida@gmail.com">tarcisio.dalmeida@gmail.com</a></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><B> NOTAS</B></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><a name="nt1"></a><a href="#tx1">1</a>. Entrevista in&eacute;dita,    realizada durante o semin&aacute;rio ministrado pelo antrop&oacute;logo, em    19 e 20 de novembro de 1999 &#151;" Cultura da moda: panorama antropol&oacute;gico    da moda como produto"&#151; no Centro de Estudos da Moda, da Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es    e Artes da USP    <br>   <a name="nt2"></a><a href="#tx2">2</a>. Al&eacute;m do pensador italiano, o    Centro de Estudos da Moda da ECA-USP j&aacute; havia acolhido, em abril de 1999,    o fil&oacute;sofo franc&ecirc;s Jean-Louis Santoro, no semin&aacute;rio avan&ccedil;ado    sobre "Moda e literatura". No ano seguinte, foi a vez da professora Lesley Miller,    coordenadora da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em hist&oacute;ria de t&ecirc;xteis    e do vestu&aacute;rio, da Universidade de Southampton (Inglaterra), que debateu    a "Perspectiva hist&oacute;rica e mercadol&oacute;gica da alta costura". O fil&oacute;sofo    e ensa&iacute;sta franc&ecirc;s Gilles Lipovetsky, da Universidade de Grenoble    (Fran&ccedil;a), abordou "A moda e a mulher nas sociedades p&oacute;s-modernas",    e a pesquisadora Ana Mart&iacute;nez Barreiro, da Universidade de La Coru&ntilde;a    (Espanha), ministrou um semin&aacute;rio avan&ccedil;ado sobre "Uma nova cultura    da moda". Com essa agenda, conseguiu-se estabelecer uma sinergia com v&aacute;rios    intelectuais do exterior para enriquecer o debate sobre moda no, hoje inexistente,    Centro de Estudos da Moda da ECA-USP, projeto sob a batuta do professor Victor    Aquino, na &eacute;poca, diretor da ECA-USP e do Centro de Estudos da Moda.    De certa forma, tais eventos contribu&iacute;ram, junto &agrave; reitoria, para    o projeto que resultou na cria&ccedil;&atilde;o do Curso Tecnologia T&ecirc;xtil    e da Indument&aacute;ria (recentemente modificado para T&ecirc;xtil e Moda),    da Escola de Artes, Ci&ecirc;ncias e Humanidades (EACH) da USP. No in&iacute;cio,    havia a inten&ccedil;&atilde;o da ECA sediar o curso de moda mas, com o projeto    de expans&atilde;o universit&aacute;ria, esse, assim como outros novos cursos,    acabaram inclu&iacute;dos na nova unidade da universidade, localizada na Zona    Leste da capital paulista.</font></P>      ]]></body>
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