<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252010000200012</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Moda sob a ótica da disciplina e do controle: algumas considerações]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Preciosa]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rosane]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Avelar]]></surname>
<given-names><![CDATA[Suzana]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Juiz de Fora Instituto de Artes e Design ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Universidade de São Paulo Escola de Artes, Ciências e Humanidades ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>62</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>26</fpage>
<lpage>28</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252010000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252010000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252010000200012&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/moda.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><font size=5>MODA SOB A &Oacute;TICA DA DISCIPLINA E DO    CONTROLE: ALGUMAS CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES</font></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>Rosane Preciosa    <br>   Suzana Avelar </b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>E</b>m 1990, Gilles Deleuze escreveu um texto intitulado    <I>Post-Scriptum sobre as sociedades de controle, </I>fundamental, a nosso ver,    para se entender como se opera a passagem de uma sociedade moderna, predominantemente    gerida pelas formas disciplinares, e cuja palavra-chave &eacute; modeliza&ccedil;&atilde;o,    para uma outra, a que denominou de controle. Esta, por sua vez, ao inv&eacute;s    de simplesmente proceder a modeliza&ccedil;&otilde;es, modula, ou seja, dissemina    modelos, e os faz variar, espalhando-os por toda parte.</font></P>     <P><font size="3">Imprescind&iacute;vel dizer que, sob essa outra l&oacute;gica,    a de controle, esses modelos n&atilde;o ser&atilde;o mais vivenciados por aqueles    que os incorporam como uma imposi&ccedil;&atilde;o, mas, ao contr&aacute;rio,    como uma sugest&atilde;o. Exerce-se a&iacute; um tipo de poder bem mais sutil    e, talvez, por isso mesmo, bem mais eficaz, convincente, merecendo, ent&atilde;o,    de nossa parte uma enorme aten&ccedil;&atilde;o.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Ao longo de seu texto, Deleuze vai diagnosticando essa passagem    e nos introduzindo nesse outro modo de funcionamento, que caracterizaria a sociedade    contempor&acirc;nea. Com ele, podemos pensar o que fomos, o que somos e no que    estamos nos tornando. A partir da&iacute;, ent&atilde;o, ocorreu-nos a ideia    de nos apropriarmos dessa valiosa ferramenta te&oacute;rica, desloc&aacute;-la    para a ind&uacute;stria da moda, buscando compreender suas engrenagens. Mas,    para tanto, &eacute; necess&aacute;rio que sua forma&ccedil;&atilde;o inicial    seja revisitada.</font></P>     <P><font size="3">Voltemos assim &agrave; consolida&ccedil;&atilde;o de tal ind&uacute;stria,    em sua autonomizac&atilde;o, que data de meados do s&eacute;culo XIX, num cen&aacute;rio    burgu&ecirc;s-industrial, quando a perda da import&acirc;ncia da hist&oacute;ria    pregressa come&ccedil;a a ser fato consumado, inaugurada por aquilo que conhecemos    como a ideologia moderna. Nessa nova din&acirc;mica, como apontam Gilda de Melo    e Souza (1987), Thorstein Veblen (1969) e Eric J. Hobsbawm (1977), a roupa passa    a exercer um poder jamais ocorrido, ganha um novo estatuto: "a roupa faz o homem"    (1).</font></P>     <P><font size="3">Em sua relev&acirc;ncia moderna, t&atilde;o bem descrita por    Charles Baudelaire, a roupa, ou o corpo vestido, &eacute; de suma import&acirc;ncia    nas rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-sociais, pois apresenta o homem em    sua leitura mais imediata e circunstancial. A alta costura, a nova ordem da    ind&uacute;stria burocr&aacute;tica (2) liberal e legitimada por essa sociedade    burguesa-industrial, passa a funcionar como uma gerenciadora das rela&ccedil;&otilde;es    humanas, atuando de forma t&atilde;o importante quanto o que representava, outrora,    a hereditariedade: a moda, essa ind&uacute;stria que se coloca nos meandros    sociais, passa ent&atilde;o a sancionar normas e estabelecer padr&otilde;es,    encarrega-se da apresenta&ccedil;&atilde;o individual, numa verdadeira demonstra&ccedil;&atilde;o    de exerc&iacute;cio de um biopoder (ainda que simplificando o conceito, entendemos    por biopoder o controle que se exerce sobre "a vida", sobre as popula&ccedil;&otilde;es,    sobre as subjetividades). A "institui&ccedil;&atilde;o moda" passa a funcionar    como elemento regulador de condutas e hierarquias dentro desse ambiente.</font></P>     <P><font size="3">At&eacute; aproximadamente a d&eacute;cada de 1960, a alta costura    prop&otilde;e formas de modelar o corpo comprovando sua interven&ccedil;&atilde;o    nas din&acirc;micas sociais e no sucesso burgu&ecirc;s. A partir da&iacute;,    essa se v&ecirc; abalada por aquilo que chamamos da consolida&ccedil;&atilde;o    do <I>pr&ecirc;t-&agrave;-porter</I>. Mas, na verdade, qual o significado dessa    nova bipolaridade?</font></P>     <P><font size="3"> A fal&ecirc;ncia da alta costura se d&aacute; em nome do sucesso    do <I>pr&ecirc;t-&agrave;-porter</I>. Isso &eacute; fato. Para Baudot (3), a    alta costura e a confec&ccedil;&atilde;o deixam de formar um elo cont&iacute;nuo,    e se v&ecirc;em distanciadas. Assim, o monop&oacute;lio da moda de cem anos    (termo utilizado por Gilles Lipovetsky em seu livro <I>O imp&eacute;rio do ef&ecirc;mero</I>    para designar a centraliza&ccedil;&atilde;o da alta costura durante um s&eacute;culo    que se inicia aproximadamente em 1860, com Charles F. Worth, e termina com a    consolida&ccedil;&atilde;o do <I>pr&ecirc;t-&agrave;-porter</I> em 1960) se    enfraquece a partir dos novos criadores e de uma sociedade que n&atilde;o depende    totalmente (ou apenas) de uma refer&ecirc;ncia hierarquizante. Os jovens ent&atilde;o    passam a inovar o sistema da moda, sendo vistos simultaneamente como consumidores    e criadores.</font></P>     <blockquote>        <p><font size="3">"Para satisfazer &agrave; demanda de novidades, ela &#91;a      confec&ccedil;&atilde;o&#93; deve dotar-se de c&eacute;lulas criativas que      v&atilde;o assegurar a notoriedade daqueles que ser&atilde;o chamados daqui      por diante de estilistas." (4)</font></p> </blockquote>     <P><font size="3">Os primeiros escrit&oacute;rios de estilo passam a ser criados,    tendo como principais nomes Fran&ccedil;oise Vincent-Ricard e Madame Arnodin,    que abre o seu escrit&oacute;rio de estilo em 1961 contribuindo assim para a    organiza&ccedil;&atilde;o de um sistema que vai da fabrica&ccedil;&atilde;o    &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o, consolidando uma "cadeia de produ&ccedil;&atilde;o    coerente"(5) . As butiques se difundem tendo como marco a de Elie Jacobson,    no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1960, mais conhecida como Doroth&eacute;e    Bis.</font></P>     <P><font size="3">Nesse sentido, Lipovetsky (2) afirma que "a configura&ccedil;&atilde;o    hierarquizada e unit&aacute;ria precedente rompeu-se". Vemos ent&atilde;o a    gradativa transi&ccedil;&atilde;o da sociedade disciplinar para o que Deleuze    identificou como sociedade de controle, cujo contorno fica mais n&iacute;tido    a partir de meados da d&eacute;cada de 1980, se pensarmos sobretudo na manifesta&ccedil;&atilde;o    das "tribos urbanas", que irrompem nessa ocasi&atilde;o, e em que prevalece    uma proposi&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla de "estilos". O que era, ent&atilde;o,    concebido como uma determina&ccedil;&atilde;o feita de forma fechada nos ateli&ecirc;s    de alta costura, onde o criador se colocava como o olho determinador das hierarquias,    tomando como refer&ecirc;ncia a alta sociedade, passa a escapar desse lugar,    desse centro de controle, como vimos, a partir da consolida&ccedil;&atilde;o    do <I>pr&ecirc;t-&agrave;-porter</I>. Importante frisar que jovens consumidores    e criadores ao mesmo tempo, criam linhas de fuga em rela&ccedil;&atilde;o a    essa din&acirc;mica anterior, minando o poderio monopolizado pela alta costura,    e, de alguma forma, tamb&eacute;m passam a expressar uma nova composi&ccedil;&atilde;o    do capitalismo, agora mais flex&iacute;vel, que investir&aacute; cada vez mais    na pot&ecirc;ncia de cria&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos para se expandir.    Com a nova organiza&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria da moda, localizada    em meados da d&eacute;cada de 1960, isto &eacute;, com novos polos criadores    e com a concatena&ccedil;&atilde;o da cadeia t&ecirc;xtil e da cria&ccedil;&atilde;o,    seguimos em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; dispers&atilde;o da cria&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">Com o advento das tecnologias digitais, um novo paradigma se    coloca: o rompimento do espa&ccedil;o e do tempo se superp&otilde;e &agrave;    l&oacute;gica geogr&aacute;fica dos continentes, imediatizando as cria&ccedil;&otilde;es,    que passam a ser lan&ccedil;adas em tempo real. Parece que, a partir desse momento,    a cria&ccedil;&atilde;o deixa de seguir uma ordem de presente-passado-futuro    para quase se tornar apenas presente. Quase, porque a heran&ccedil;a da disciplina    parece insistir em vigorar, pois a cultura de querer saber o que ser&aacute;    o "novo", agora sondado por escrit&oacute;rios de estilo, para melhor prescrev&ecirc;-lo,    continua a existir. Estes passam a executar as suas pesquisas em tempo real,    e os dados coletados nas ruas hoje, amanh&atilde; j&aacute; s&atilde;o vendidos    como tend&ecirc;ncia. O dado da c&oacute;pia tamb&eacute;m &eacute; curioso,    pois se pode dizer que essa ind&uacute;stria se aprimora em rela&ccedil;&atilde;o    ao seu maquin&aacute;rio (que tamb&eacute;m funciona em tempo real) e passa    a reproduzir o que os desfiles internacionais lan&ccedil;am e s&atilde;o vistos    pela internet (novamente, o tempo real da novidade disseminada).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Talvez caiba dizer que a moda ao se vir conectada &agrave; web,    o que lhe permitiu expandir sua informa&ccedil;&atilde;o de forma imediata e    fulminante, pode escamotear melhor seu jogo duplo: a sua face disciplinadora,    "verticalizada", que ainda persiste, e uma outra, mais complexa, que faz desaparecer    no seu pr&oacute;prio funcionamento, caracteristicamente "horizontalizado",    logo descentralizado, seu iminente controle.</font></P>     <P><font size="3">Sabemos que a ind&uacute;stria da moda agora n&atilde;o mais    atua apenas de forma pan&oacute;ptica, restritiva, mas, "liberta" os corpos    de um controle r&iacute;gido e fisicamente posicionado ("os olhos da institui&ccedil;&atilde;o")    e espera, realmente deseja e acalenta a ideia de liberdade fluida, de um corpo    l&iacute;quido que se transforma de maneira mais frequente, e n&atilde;o s&oacute;    se renova a cada esta&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">A pele satel&iacute;tica, assim como a enuncia Derrick Kerckhove    em seu livro <I>A pele da cultura</I> (1995)<B> &#150; </B>uma pele conectada    na rede, uma rede de fluxos onde tudo &eacute; informa&ccedil;&atilde;o digital<B>    &#150; </B>&eacute; de fato, o objeto de desejo da ind&uacute;stria e do pr&oacute;prio    usu&aacute;rio, a fim de vivenciar cada momento poss&iacute;vel de gozo narc&iacute;sico,    ainda que reconhe&ccedil;amos que n&atilde;o podemos atribuir &agrave;s tecnologias    digitais apenas um uso narcisista, o que seria uma avalia&ccedil;&atilde;o reducionista    de nossa parte.</font></P>     <P><font size="3">Dentro dessa nova concep&ccedil;&atilde;o de fluidez mutante    do corpo, a ind&uacute;stria da moda continua funcionando como um "estranho",    paradoxal mesmo, dicion&aacute;rio de costumes, para usar as palavras de Baudelaire,    e ao mesmo tempo atualizando-o, s&oacute; que em um tempo presente, imediato,    real, desordenado e/ ou (des)hierarquizado. Desordenado quando rompe com a l&oacute;gica    da ordem conhecida, ainda que a hierarquia, de uma certa forma, permane&ccedil;a    ainda a mesma.</font></P>     <P><font size="3">Assim, os escrit&oacute;rios de estilo, que puseram em crise    a disciplina dos ateli&ecirc;s dos grandes costureiros em meados de 1960, hoje    est&atilde;o munidos de aparatos digitais que apreendem as transforma&ccedil;&otilde;es    percebidas a cada instante. O controle estabelece-se nas redes de fluxo, onde    o corpo &eacute;, ao mesmo tempo, objeto de captura e tamb&eacute;m capturado.</font></P>     <P><font size="3">No entanto, as tecnologias digitais favorecem a um pleno deslizamento    de sentido (leia-se como conex&otilde;es inumeramente poss&iacute;veis), ou    seja, proporcionam maneiras diversas de percep&ccedil;&atilde;o desse corpo    que a ind&uacute;stria da moda sabe, e muito bem, elaborar e se apropriar. A    moda atual, por um lado, nos oferece uma leitura majorit&aacute;ria, hegem&ocirc;nica,    e, por outro lado, est&aacute; povoada de "vozes minorit&aacute;rias" que se    conectam e se desconectam formando esse todo indiscern&iacute;vel: "as duas    coisas podem coexistir porque n&atilde;o s&atilde;o vividas no mesmo plano"(6)<B>.</B>    S&atilde;o potencialidades que est&atilde;o a&iacute;, mesmo emaranhadas.</font></P>     <blockquote>        <p> <font size="3">"O capitalismo n&atilde;o se expande &#150; multiplicando      os canais, penetrando nos n&iacute;veis mais moleculares, dilatando-se complacente      para admitir o que quer neutralizar, inventando, reutilizando &#150; sem oferecer      perigo para si mesmo" (7)<B>.</b></font></p> </blockquote>     <P><font size="3">Podemos pensar a partir da&iacute; que, a despeito dos controles    todos, haver&aacute; sempre no ar uma vitalidade criativa, um vetor de inven&ccedil;&atilde;o,    que pode desmanchar territ&oacute;rios que confinem sujeitos a modos padronizados    de pensar, de viver, de vestir. Acreditamos mesmo que o pr&oacute;prio ambiente    das novas tecnologias agenciado &agrave; vida e sua exuberante varia&ccedil;&atilde;o    de formas, cria dispositivos de alargamento da sensibilidade, que podem engendrar    transforma&ccedil;&otilde;es e realizar novos paradigmas &eacute;tico-est&eacute;ticos.</font></P>     <P><font size="3">Hoje, contamos, aqui e ali, com designers de moda que se posicionam    de forma a romper com a ideia de novidade sazonal, preferindo afirmar territ&oacute;rios    de cria&ccedil;&atilde;o singulares, que escapam das pesquisas dos escrit&oacute;rios    de estilos. Para estes, os projetos de cria&ccedil;&atilde;o constituem-se como    pr&aacute;ticas de interven&ccedil;&atilde;o na exist&ecirc;ncia: novos arranjos    funcionais e est&eacute;ticos que acabam por desencadear muta&ccedil;&otilde;es    na subjetividade.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Nesse contexto, podemos citar o belga Walter van Beirendonck,    um dos precursores do que se tornar&aacute; recorrente a partir da d&eacute;cada    de 1990 e ainda permanece. Esse criador, al&eacute;m de participar do grupo    conhecido como "Os seis de Antu&eacute;rpia", tamb&eacute;m realiza cole&ccedil;&otilde;es    fora do grande circuito internacional da ind&uacute;stria da moda (as <I>Fashion    Weeks</I>) com uma repercuss&atilde;o internacional. Suas cole&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o divulgadas via web, tanto em seu site quanto no YouTube. O mais curioso    aqui &eacute; que mesmo estando fora dessa institui&ccedil;&atilde;o, suas cria&ccedil;&otilde;es    influenciam criadores e tend&ecirc;ncias por todo o globo. E mais: ele lida    com paradigmas fundamentais em nossa atualidade colocando em quest&atilde;o    o corpo biol&oacute;gico, as discuss&otilde;es sobre g&ecirc;nero, lan&ccedil;ando    m&atilde;o de refer&ecirc;ncias das mais diversas poss&iacute;veis.</font></P>     <P><font size="3"> Nessa mesma concep&ccedil;&atilde;o, seguem-se Courtney Smith    e Sean Tophham, idealizadores da publica&ccedil;&atilde;o <I>Extreme Fashion</I><B>,    </B>de 2005. Mais do que uma cataloga&ccedil;&atilde;o de cria&ccedil;&otilde;es,    trata-se de um manifesto contra a rigidez da ind&uacute;stria da moda e seus    escrit&oacute;rios de estilo. Tal manifesto coloca em quest&atilde;o a cultura    da ind&uacute;stria da moda em sua sazonalidade, seu calend&aacute;rio fixo,    seus desfiles de dif&iacute;cil acesso (tanto para o observador quanto para    o criador) e sua exig&ecirc;ncia de uma quase comercializa&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">J&aacute; Yohji Yamamoto, um criador que passou a integrar a    ind&uacute;stria da moda na d&eacute;cada de 1980, de alguma maneira tamb&eacute;m    contribui para subverter tal sistema, ao reproduzir uma cria&ccedil;&atilde;o    sua no site do Show Studio. Ele coloca &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o essa    cria&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas no desenho t&eacute;cnico, mas tamb&eacute;m    no passo-a-passo da modelagem com todas as etapas do processo. Passa a ser poss&iacute;vel,    ent&atilde;o, que qualquer pessoa baixe tais arquivos, reproduza a pe&ccedil;a    no tecido desejado e envie uma foto de sua leitura daquele molde. O resultado    s&atilde;o diversas pe&ccedil;as, cada uma podendo pertencer a uma cole&ccedil;&atilde;o    completamente diferente.</font></P>     <P><font size="3">Ainda que sobre a moda recaiam formas sutis de controle, hoje,    e cada vez mais, &eacute; poss&iacute;vel pensar no designer de moda como um    agente ressignificador da cultura, na medida em que ele passa a funcionar como    um catalisador de outros universos de refer&ecirc;ncia. Tentar entender a moda    apenas sob a &oacute;tica da disciplina &eacute; n&atilde;o estar suficientemente    atento a algumas pr&aacute;ticas surpreendentes que, em seu exerc&iacute;cio,    a moda vem nos apresentando. E disso resultam experimentos tanto no plano social    quanto subjetivo, que consolidam outros modos do fazer-pensar moda no contempor&acirc;neo.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><I><b>Rosane Preciosa </b>&eacute; doutora em psicologia cl&iacute;nica    pela Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica (PUC/SP), professora adjunta    do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).    Email: </i><a href="mailto:rosane_preciosa@yahoo.com.br">rosane_preciosa@yahoo.com.br</a>    <br>   <I><b>Suzana Avelar </b>&eacute; doutora em comunica&ccedil;&atilde;o e semi&oacute;tica    pela PUC/SP, professora da Escola de Artes, Ci&ecirc;ncias e Humanidades (EACH)    da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Email: </i><a href="mailto:suavelar@uol.com.br">suavelar@uol.com.br</a></font></P>     <P><font size="3"><I>&nbsp;</I></font></P>     <P><font size="3"><B>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</B></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">1. Hobsbawn, E. J. <I>A era do capital</I>. Rio de Janeiro:    Editora paz e Terra, 1977, p.241.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3"> 2. Lipovetsky, G. <I>O imp&eacute;rio do ef&ecirc;mero</I>.    S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.107.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3"> 3. Baudot, F. <I>A moda do s&eacute;culo</I>. S&atilde;o Paulo:    Cosac&amp;Naify, 2002, p.172.     </font></P>     <P><font size="3">4. Idem, p.212. </font></P>     <P><font size="3">5. Ibidem.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">6. Deleuze, G. <I>Conversa&ccedil;&otilde;es</I>. S&atilde;o    Paulo: Editora 34, 1992, p.214.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3"> 7. Caiafa, J. <I>Nosso s&eacute;culo XXI &#150; Notas sobre    arte, t&eacute;cnicas e poderes</I>. Rio de Janeiro: Relume Dumar&aacute;, 2000,    p. 61.</font> ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Hobsbawn]]></surname>
<given-names><![CDATA[E. J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A era do capital]]></source>
<year>1977</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora paz e Terra]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Lipovetsky]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O império do efêmero]]></source>
<year>1987</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Companhia das Letras]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Baudot]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A moda do século]]></source>
<year>2002</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Cosac & Naify]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<label>6</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Deleuze]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Conversações]]></source>
<year>1992</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora 34]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<label>7</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Caiafa]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Nosso século XXI: Notas sobre arte, técnicas e poderes]]></source>
<year>2000</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Relume Dumará]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
