<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252010000200022</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Celebridade para todos: um antídoto contra a solidão?]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Sibilia]]></surname>
<given-names><![CDATA[Paula]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>62</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>38</fpage>
<lpage>44</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252010000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252010000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252010000200022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/ensaios.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><font size=5>CELEBRIDADE PARA TODOS: UM ANT&Iacute;DOTO    CONTRA A SOLID&Atilde;O?</font></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Paula Sibilia</b></i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">O que significa ter uma experi&ecirc;ncia? Em 1933, o fil&oacute;sofo    Walter Benjamin escreveu um l&uacute;cido e contundente ensaio, no qual constatava    algo terr&iacute;vel: ap&oacute;s as vertigens que tomaram conta das paisagens    urbanas e rurais no s&eacute;culo XIX, na correnteza da moderniza&ccedil;&atilde;o    do mundo, nossa capacidade de vivenciar experi&ecirc;ncias teria se empobrecido.    A voracidade industrialista teria atropelado as condi&ccedil;&otilde;es que    permitiram aos narradores pr&eacute;-modernos colocar em circula&ccedil;&atilde;o    os relatos da tradi&ccedil;&atilde;o coletiva. Portanto, traduzir o real em    narrativas teria se tornado invi&aacute;vel num universo arrasado pelo frenesi    das novidades, com uma aluvi&atilde;o de dados que em sua rapidez incessante    n&atilde;o se deixam digerir pela mem&oacute;ria nem se recriar pela lembran&ccedil;a.    Toda essa agita&ccedil;&atilde;o teria gerado uma perda das possibilidades de    refletir sobre o mundo, bem como um inevit&aacute;vel distanciamento com rela&ccedil;&atilde;o    &agrave;s pr&oacute;prias viv&ecirc;ncias e uma impossibilidade de transform&aacute;-las    em experi&ecirc;ncia.</font></P>     <P><font size="3">E agora, o que acontece? Na primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo    XXI, nossa vida cotidiana se encontra ainda mais ati&ccedil;ada pela l&oacute;gica    veloz da informa&ccedil;&atilde;o, aquele turbilh&atilde;o denunciado pelo fil&oacute;sofo    alem&atilde;o como o respons&aacute;vel pela morte do narrador e, junto com    ele, a agonia da experi&ecirc;ncia. Quase oitenta anos depois dessa tr&aacute;gica    constata&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, a palavra "experi&ecirc;ncia" aparece    por toda parte. O termo foi apropriado pelo mercado, pela publicidade e pelo    marketing, que expelem convites sedutores para que o prezado consumidor sucumba    &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de comprar tal experi&ecirc;ncia &uacute;nica    ou aquela outra ainda mais extraordin&aacute;ria. Na internet, por exemplo,    a empresa MethodIzaz oferece a possibilidade de contratar um paparazzi para    uso pessoal. Al&eacute;m de acariciar a impag&aacute;vel sensa&ccedil;&atilde;o    de ser famoso &#151; porque o cliente n&atilde;o sabe exatamente quando ser&aacute;    fotografado nem conhece o profissional em quest&atilde;o &#151;, o servi&ccedil;o    permite que, depois, o sujeito se veja a si pr&oacute;prio nas fotos como os    demais o enxergam em sua vida cotidiana. E como o p&uacute;blico o admiraria    na m&iacute;dia, caso ele fosse digno de tais esplendores. </font></P>     <P><font size="3"><B>SER VISTO PARA CONFIRMAR QUE EXISTO </b>"Sem poses nem artif&iacute;cios",    explicam os paparazzi de aluguel, "a c&acirc;mera captura a beleza natural de    cada pessoa". A julgar pelos depoimentos dos usu&aacute;rios e pelas cita&ccedil;&otilde;es    da sua repercuss&atilde;o midi&aacute;tica, o produto &agrave; venda parece    fazer certo sucesso. At&eacute; que nem surpreende tanto assim, pois ser famoso    tem se tornado uma das metas mais ambicionadas por boa parte da popula&ccedil;&atilde;o    global. E o que essa empresa vende &eacute; mais ou menos isso, ou pelo menos    ela oferece a possibilidade de se ter a "experi&ecirc;ncia" de algo assim. A    ideia &eacute; que o cliente possa se sentir uma estrela por meio dessa singela    artimanha, mesmo que mais n&atilde;o seja durante um &uacute;nico e grandioso    dia. Por que n&atilde;o se permitir, ent&atilde;o, brincar de ser uma dessas    figuras fascinantes que irradiam seu encanto nas revistas de celebridades? Aquelas    que n&atilde;o s&oacute; enfeiti&ccedil;am os espectadores nas telas do cinema    e da televis&atilde;o, mas tamb&eacute;m costumam aparecer nos programas e nas    publica&ccedil;&otilde;es de fofocas, seja fazendo compras por tr&aacute;s de    um enorme par de &oacute;culos escuros ou andando pela rua sem maquiagem nem    vestes dignas do tapete vermelho. Ou, quem sabe, um dia de mais sorte, arrumando    algum esc&acirc;ndalo na sa&iacute;da de uma boate ou numa praia long&iacute;nqua    com escassas roupas e companhias inesperadas. </font></P>     <P><font size="3">Agora existe a democr&aacute;tica possibilidade de adquirir    tamanha experi&ecirc;cia. Portanto, aqueles desventurados que n&atilde;o costumam    despertar o menor interesse desse tipo de fot&oacute;grafos e, portanto, suas    rotinas di&aacute;rias raramente s&atilde;o documentadas com lentes de aumento    e seus rostos jamais aparecem retratados nas telas globais, j&aacute; t&ecirc;m    solu&ccedil;&atilde;o para essa injusti&ccedil;a. Basta dar um clique com o    mouse e pronto: compra-se um paparazzo sob medida. Embora depois os meios de    comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o estejam dispostos a pagar fortunas pela    exclusividade de mostrar essas imagens que imortalizaram um passeio pelo supermercado    ou que captaram os gestos do cidad&atilde;o tomando um cafezinho, agora h&aacute;    uma solu&ccedil;&atilde;o para o drama dos sem-fama. A internet oferece um outdoor    com espa&ccedil;o para todos: nessas vitrines mais populares, qualquer um pode    ser visto como tem direito. As op&ccedil;&otilde;es s&atilde;o inumer&aacute;veis    e n&atilde;o cessam de se multiplicar: blogs, fotologs, Orkut, Facebook, MySpace,    Twitter, Youtube e um longo etc&eacute;tera. Gra&ccedil;as &agrave; rede mundial    de computadores, enfim, parece que o acesso &agrave; fama tem se democratizado.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Custa pensar que h&aacute; pouco mais de uma d&eacute;cada quase    ningu&eacute;m sabia o que era a internet, e os paparazzi n&atilde;o tinham    tanto trabalho como hoje em dia. Entretanto, cabe lembrar que essa curiosa esp&eacute;cie    de aves vorazes nasceu j&aacute; faz meio s&eacute;culo, e com muito glamour:    o encarregado de batiz&aacute;-las foi um personagem de La dolce vita. Paparazzo    era o fot&oacute;grafo que acompanhava o jornalista de futilidades encarnado    por Marcello Mastroianni nesse filme de 1960, numa compara&ccedil;&atilde;o    em l&iacute;ngua italiana entre o cl&aacute;ssico tumulto de empurr&otilde;es    e flashes, por um lado, e, por outro, a algazarra dos p&aacute;ssaros famintos    diante de uma poss&iacute;vel presa. Sem a eleg&acirc;ncia concedida pelo tom    s&eacute;pia e os s&oacute;brios ternos daqueles tempos, hoje os paparazzi se    reproduzem como moscas dispostas a capturar &#151; e a vender, &eacute; claro    &#151; qualquer fragmento de vida mais ou menos celebriz&aacute;vel em technicolor.    </font></P>     <P><font size="3">Al&eacute;m disso, &agrave; medida que as c&acirc;meras digitais    se incrustam at&eacute; nos telefones celulares e se tornam um acess&oacute;rio    imprescind&iacute;vel no equipamento b&aacute;sico, todos temos nos convertido    em vers&otilde;es caseiras daquele ilustre ancestral felliniano: sempre prontos    para disparar o gatilho sobre qualquer famoso que tenha o azar de atravessar    nosso caminho. E, quem sabe, talvez tamb&eacute;m sonhando com a gl&oacute;ria    de algum dia poder estar do outro lado: ali, na cobi&ccedil;ada mira dos cliques    e holofotes.</font></P>     <P><font size="3">Em que pese a novidade do fen&ocirc;meno, algo de tudo isso    j&aacute; devia estar flutuando no ar um par de d&eacute;cadas atr&aacute;s.    &Eacute; o que sugere, pelo menos, um dos contos da Trilogia de Nova York, o    livro de Paul Auster publicado nos anos 1980, cujo protagonista contratava um    detetive para que seguisse seus pr&oacute;prios passos e o observasse a partir    de um apartamento vizinho. "Ele sabe que voc&ecirc; o observa, ou n&atilde;o    sabe?", perguntava em certo momento um dos personagens. "&Eacute; claro que    ele sabe", respondia o outro. "Ele tem que saber, pois do contr&aacute;rio nada    teria sentido. Porque ele precisa de mim". Essa inquietante conclus&atilde;o    talvez possa lan&ccedil;ar alguma luz sobre os peculiares costumes que hoje    fermentam por toda parte: "precisa que meus olhos o observem, precisa de mim    para comprovar que continua vivo".</font></P>     <P><font size="3"><B>A INTIMIDADE COMO VITRINE </b>Faz pouco mais de dez anos,    as maravilhas interativas da rede come&ccedil;avam a ganhar adeptos em todo    o mundo, e os detetives j&aacute; tinham se transformado num recurso claramente    obsoleto. Outras tecnologias apareceram com o fim de obter id&ecirc;ntico prop&oacute;sito:    ser observado para confirmar que se est&aacute; vivo. Isso parece constatar,    ao menos, um caso que passou &agrave; hist&oacute;ria: JenniCam, o site montado    em 1997 por uma garota de vinte anos de idade. A jovem causou certo impacto    quando decidiu instalar v&aacute;rias c&acirc;meras de v&iacute;deo nos diversos    ambientes de sua casa, apontando para todos os cantos, a fim de que suas lentes    transmitissem pela internet tudo o que acontecia entre as paredes do seu lar.    </font></P>     <P><font size="3">Qualquer um podia espionar seu quarto, sua cozinha, sua sala    e inclusive seu banheiro, em qualquer momento do dia ou da noite sem sequer    ser percebido. Ao contr&aacute;rio, ali&aacute;s: a mo&ccedil;a sorria e jurava    que todos os olhos do mundo eram muito bem-vindos. As c&acirc;meras passaram    v&aacute;rios anos conectadas, e a vida nesse doce lar parecia transcorrer como    se as lentes n&atilde;o existissem. "Simplesmente, gosto de me sentir observada",    explicava essa pioneira, quando a decis&atilde;o de exibir a pr&oacute;pria    intimidade ainda era uma extravag&acirc;ncia que requeria explica&ccedil;&otilde;es.    Agora s&atilde;o milh&otilde;es os sites desse tipo que proliferam na Web.</font></P>     <P><font size="3">N&atilde;o parece haver aqui nenhum temor &agrave; t&atilde;o    falada "invas&atilde;o da privacidade", por&eacute;m algo quase oposto. Tudo    aquilo que antes concernia &agrave; pudica intimidade pessoal tem se "evadido"    do antigo espa&ccedil;o privado, transbordando seus limites, para invadir aquela    esfera que antes se considerava p&uacute;blica. O que se busca nessa exposi&ccedil;&atilde;o    volunt&aacute;ria que anseia alcan&ccedil;ar as telas globais &eacute; se mostrar,    justamente: constituir-se como um personagem vis&iacute;vel. Por sua vez, essa    nova legi&atilde;o de exibicionistas satisfaz outra vontade geral do p&uacute;blico    contempor&acirc;neo: o desejo de espionar e consumir vidas alheias. </font></P>     <P><font size="3">Por todos esses motivos, os muros que costumavam proteger a    privacidade individual est&atilde;o se esburacando. Sua capacidade de ocultar    a intimidade aos intrometidos olhos alheios j&aacute; n&atilde;o parece t&atilde;o    valiosa. Agora essas paredes se deixam infiltrar por olhares tecnicamente mediados    &#151; ou midiatizados &#151; que flexibilizam e alargam os limites do que se    pode dizer e mostrar. Das webcams at&eacute; os paparazzi, dos blogs e fotologs    at&eacute; YouTube e MySpace, das c&acirc;meras de vigil&acirc;ncia at&eacute;    os reality-shows e talk-shows, a velha intimidade transformou-se em outra coisa.    E agora est&aacute; &agrave; vista de todos. Ou, pelo menos, &eacute; isso o    que conseguem aqueles afortunados: os famosos.</font></P>     <P><font size="3"> Embora n&atilde;o deixe de ser verdade que agora "qualquer    um" pode ser famoso, levando em conta o fluxo incessante de celebridades que    nascem e morrem sem nada ter feito de extraordin&aacute;rio, mas apenas por    ter conquistado alguma vitrine mais ou menos abrangente. Porque cabe &agrave;s    telas, ou &agrave; mera visibilidade, essa capacidade de conceder um brilho    extraordin&aacute;rio &agrave; banalidade exposta no rutilante espa&ccedil;o    midi&aacute;tico. S&atilde;o as lentes da c&acirc;mera e os holofotes que criam    e d&atilde;o consist&ecirc;ncia ao real, por mais an&oacute;dino que seja o    referente para o qual os flashes apontam. A parafern&aacute;lia t&eacute;cnica    da visibilidade &eacute; capaz de conceder sua aura a qualquer coisa (ou a qualquer    um) e, nesse gesto, de algum modo o realizam: d&atilde;o-lhe exist&ecirc;ncia,    confirmam que est&aacute; vivo.</font></P>     <P><font size="3">Talvez seja por isso que as palavras "famoso" e "famosa", que    costumavam ser adjetivos qualificativos &#151; e, portanto, deviam acompanhar    um digno substantivo que os justificasse: um artista famoso, uma atriz famosa,    um famoso pol&iacute;tico etc &#151;, hoje t&ecirc;m se tornado substantivos    auto-justific&aacute;veis: um famoso, uma famosa, um grupo de famosos. Na nossa    "sociedade do espet&aacute;culo", a celebridade se auto-legitima. Por que os    famosos s&atilde;o famosos? A &uacute;nica resposta poss&iacute;vel, para boa    parte dos casos, &eacute; que os famosos s&atilde;o famosos porque s&atilde;o    famosos.</font></P>     <P><font size="3">Al&eacute;m disso, aquelas silhuetas fulgurantes que conseguiram    passar do outro lado do vidro costumam ser exaltadas em seus pap&eacute;is de    "qualquer um". Afinal, essa &eacute; a principal miss&atilde;o dos paparazzi:    gra&ccedil;as a seu trabalho, famosos das linhagens mais diversas s&atilde;o    ovacionados por serem "comuns". Para consegui-lo, no entanto, devem aprimorar    sua intimidade a fim de exibi-la sob a luz da visibilidade mais resplandecente.    Assim se projetam, por toda parte, esses fragmentos de vidas supostamente privadas    que, mesmo sendo triviais &#151; ou talvez precisamente por causa disso? &#151;,    parecem fascinantes diante da avidez dos olhares alheios.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">N&atilde;o deveria surpreender, portanto, que todos hoje se    vejam impelidos a se estetizarem constantemente, como se estivessem na mira    dos paparazzi. Para que a vida ganhe consist&ecirc;ncia e inclusive exist&ecirc;ncia,    &eacute; preciso estiliz&aacute;-la como se pertencesse ao protagonista de um    filme. Por isso, para nos auto-construirmos seguindo esses modelos e polir a    pr&oacute;pria imagem, uma infinidade de ferramentas est&atilde;o dispon&iacute;veis    no mercado. A meta consiste em enfeitar e recriar o eu como se fosse um personagem    audiovisual. E visto que investimos tanto esfor&ccedil;o, tempo e dinheiro nessa    tarefa, n&atilde;o seria uma pena prescindir de um bom paparazzo capaz de documentar    os resultados?</font></P>     <P><font size="3">Embora talvez coubesse perguntar, tamb&eacute;m, com tom um    tanto azedo: e tudo isso para qu&ecirc;? Para ser famosos, claro. Uma resposta    l&iacute;mpida e irreproch&aacute;vel. Aqueles "quinze minutos de fama" previstos    por Andy Warhol nos long&iacute;nquos anos 1960, como um direito de qualquer    mortal na era midi&aacute;tica, exprimiam uma intui&ccedil;&atilde;o vision&aacute;ria,    mas ainda imersa num ambiente dominado pela televis&atilde;o e pelos demais    meios de comunica&ccedil;&atilde;o unidirecionais. Algo semelhante pode ser    dito com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; universaliza&ccedil;&atilde;o do "direito    de ser filmado" que Walter Benjamin intu&iacute;ra v&aacute;rias d&eacute;cadas    antes, ao tentar compreender a imensa novidade do fen&ocirc;meno cinematogr&aacute;fico.    </font></P>     <P><font size="3">Cabe concluir, ent&atilde;o, que as redes inform&aacute;ticas    e os meios interativos talvez estejam cumprindo essa promessa que nem a televis&atilde;o    nem o cinema conseguiram satisfazer. E, talvez, consigam faz&ecirc;-lo de uma    maneira t&atilde;o radical que aqueles pensadores do s&eacute;culo XX jamais    poderiam ter previsto. </font></P>     <P> <font size="3">&Agrave; consuma&ccedil;&atilde;o desses luminosos press&aacute;gios    nos convidam os paparazzi de aluguel, por exemplo. Ou inclusive o YouTube, de    forma mais prosaica embora talvez mais eficaz, quando incita a se mostrar diante    de um p&uacute;blico maci&ccedil;o com seu slogan "Brodcast yourself!". Um sedutor    convite, ao qual cerca de cem milh&otilde;es de pessoas respondem todos os dias.</font></P>     <P><font size="3"><B>PERSONAGENS REAIS E P&Acirc;NICO DA SOLID&Atilde;O </b> "Estamos    enjoados de assistir aos atores interpretando emo&ccedil;&otilde;es falsas",    afirmava o sinistro produtor de O show de Truman. Grande sucesso cinematogr&aacute;fico    de 1998, o filme mostrava a vida de um sujeito adotado ao nascer por uma rede    de televis&atilde;o: dois atores foram contratados para interpretar os pais    da crian&ccedil;a, cuja vida se desenvolveria numa cidade cenogr&aacute;fica    infestada de c&acirc;meras de televis&atilde;o. O &uacute;nico que ignorava    tudo sobre essa encena&ccedil;&atilde;o e transmiss&atilde;o em tempo real era,    o personagem de Truman Burbank, que encantava os espectadores justamente por    causa disso. Porque n&atilde;o interpretava as "emo&ccedil;&otilde;es falsas"    de um personagem fict&iacute;cio, mas simplesmente vivia e mostrava suas emo&ccedil;&otilde;es    reais de personagem real, como explicara seu produtor &#151; uma artimanha cuja    sedu&ccedil;&atilde;o Benjamin captara h&aacute; v&aacute;rias d&eacute;cadas.</font></P>     <P><font size="3"> Mas muita coisa se passou nestes &uacute;ltimos doze anos.    Cabe lembrar, por exemplo, que o fict&iacute;cio protagonista daquele filme    afunda no desespero ao descobrir que sua vida inteira tinha sido um (mero?)    espet&aacute;culo para olhares alheios. J&aacute; na realidade, h&aacute; pouco    tempo noticiou-se que mais de 26 mil pessoas teriam se inscrito para participar    de um reality-show sem previs&atilde;o de fim, atendendo a uma convoca&ccedil;&atilde;o    da rede de TV alem&atilde; RTL. Uma esp&eacute;cie de Truman Show consentido,    eterno e realmente real. Assim, foi anunciado que o resto da vida das dezesseis    pessoas finalmente escolhidas iria transcorrer numa cidade cenogr&aacute;fica,    com todas suas "experi&ecirc;ncias" constantemente registradas por dezenas de    c&acirc;meras que as transmitiriam ao vivo pela televis&atilde;o. A not&iacute;cia    pode at&eacute; mesmo ser um boato ou um projeto finalmente abandonado, mas    o importante aqui &eacute; que ela &eacute; veross&iacute;mil e, portanto, pode    ajudar a compreender o grande sucesso das novas m&iacute;dias interativas no    mundo contempor&acirc;neo: elas permitem dar vaz&atilde;o a essa insistente    demanda atual. Permitem que "qualquer um" se torne um personagem atraente, algu&eacute;m    que cotidianamente faz da sua vida um espet&aacute;culo destinado a milh&otilde;es    de olhos curiosos de todo o planeta. </font></P>     <P><font size="3"> Mas o que caracteriza mesmo um personagem? Qual seria a diferen&ccedil;a    com rela&ccedil;&atilde;o a uma pessoa real? Essa diferen&ccedil;a talvez resida    na solid&atilde;o. E, sobretudo, na capacidade de estarmos a s&oacute;s &#151;    uma habilidade cada vez mais rara. Ao contr&aacute;rio do que ainda teima em    ocorrer com os comuns mortais, os personagens jamais est&atilde;o sozinhos.    Sempre h&aacute; algu&eacute;m para observar o que eles fazem, acompanhando    com avidez todos seus atos e experi&ecirc;ncias, seus pensamentos, sentimentos    e emo&ccedil;&otilde;es. Seja um leitor, uma c&acirc;mera ou o olhar de um espectador:    os personagens sempre est&atilde;o &agrave; vista. Se ningu&eacute;m os olha,    eles deixam de existir. J&aacute; no nosso hero&iacute;smo de cada dia &#151;    e, sobretudo, nas nossas mis&eacute;rias cotidianas &#151; nem sempre temos    testemunhas. Com demasiada frequ&ecirc;ncia, ali&aacute;s, ningu&eacute;m nos    olha. Que importa, ent&atilde;o, se em algum momento fomos &uacute;nicos e maravilhosos?    Ou, ent&atilde;o, meramente "comuns", como ocorre com a maioria de n&oacute;s    na maior parte do tempo? Se ningu&eacute;m nos viu, neste mundo cada vez mais    dominado pela l&oacute;gica da visibilidade, poder&iacute;amos pensar que simplesmente    n&atilde;o existimos. </font></P>     <P><font size="3"> Essa repentina busca de visibilidade e da auto-exposi&ccedil;&atilde;o,    portanto, essa ambi&ccedil;&atilde;o de fazer do pr&oacute;prio eu um espet&aacute;culo    e de se tornar um personagem audiovisual, talvez seja uma tentativa mais ou    menos desesperada de satisfazer um velho desejo humano, demasiadamente humano:    afugentar os fantasmas da solid&atilde;o. Uma meta especialmente complicada    na sociedade contempor&acirc;nea, cujo modo de vida produz subjetividades "exteriorizadas"    e projetadas no vis&iacute;vel, que se desvencilharam da antiquada &acirc;ncora    fornecida pela "vida interior". Pois aquele espa&ccedil;o &iacute;ntimo e denso    que constitu&iacute;a a s&oacute;lida base da "interioridade" e que alicer&ccedil;ava    o eu moderno precisava, justamente, da solid&atilde;o e do sil&ecirc;ncio para    se auto-construir; por isso, os tipos subjetivos que floresceram no s&eacute;culo    XIX e boa parte do XX deviam se fortalecer &agrave; sombra dos olhares alheios.</font></P>     <P><font size="3"> Agora, por&eacute;m, esse fasc&iacute;nio suscitado pelo exibicionismo    e pelo voyeurismo, e pela dispendiosa busca de celebridade, encontra terreno    f&eacute;rtil numa sociedade atomizada por um individualismo com arestas narcisistas,    que precisa ver sua bela imagem refletida no olhar alheio para ser. A solid&atilde;o,    nesse quadro, longe de ter sido exterminada, converte-se num problema dif&iacute;cil    de ser resolvido: cada vez mais rara por ser cada vez mais intoler&aacute;vel,    promove suced&acirc;neos como a necessidade de conex&atilde;o permanente e a    ilus&atilde;o de se ter "um milh&atilde;o de amigos" nas miragens das redes    sociais.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><i><b>Paula Sibilia</b> &eacute; professora do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o    em Comunica&ccedil;&atilde;o e do Departamento de Estudos Culturais e M&iacute;dia    da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora dos livros O homem p&oacute;s-org&acirc;nico:    Corpo, subjetividade e tecnologias digitais (Ed. Relume Dumar&aacute;, 2002)    e O show do eu: A intimidade como espet&aacute;culo (Ed. Nova Fronteira, 2008).</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><B>BIBLIOGRAFIA CONSULTADA</B></font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">Auster, Paul. <I>Trilog&iacute;a de Nueva York</I>. Barcelona:    Editorial Anagrama, 2000.     </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3"> Benjamin, W. "A obra de arte na &eacute;poca de sua reprodutibilidade    t&eacute;cnica". <I>In:</I> Costa Lima, L. (Org.). <I>Teoria da cultura de massa</I>.    Paz e Terra. 1990.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3"> Benjamin, W. "Experi&ecirc;ncia e pobreza", e "O narrador".    In: <I>Obras escolhidas: Magia e t&eacute;cnica, arte e pol&iacute;tica</I>    (Vol. 1). Ed. Brasiliense. 1994.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P><font size="3"> Debord, Guy. <I>La sociedad del espect&aacute;culo</I>. La    Marca, 1995.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3"> Riesman, David. <I>A multid&atilde;o solit&aacute;ria</I>.    Ed. Perspectiva. 1995.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3"> Sennett, Richard. <I>O decl&iacute;nio do homem p&uacute;blico:    Tiranias da intimidade</I>. Companhia das Letras. 1999.    </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3"> Sibilia, Paula. <I>O show do eu: A intimidade como espet&aacute;culo</I>.    Nova Fronteira. 2008.</font><!-- ref --><P><font size="3"> Woolf, Virginia. <I>Un cuarto propio y otros ensayos</I>. A-Z    Editora. 1993.</font> ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Auster]]></surname>
<given-names><![CDATA[Paul]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Trilogía de Nueva York]]></source>
<year>2000</year>
<publisher-loc><![CDATA[^eBarcelona Barcelona]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editorial Anagrama]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Benjamin]]></surname>
<given-names><![CDATA[W]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica"]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Costa Lima]]></surname>
<given-names><![CDATA[L]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Teoria da cultura de massa]]></source>
<year>1990</year>
<publisher-name><![CDATA[Paz e Terra]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Benjamin]]></surname>
<given-names><![CDATA[W.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["Experiência e pobreza", e "O narrador".]]></article-title>
<source><![CDATA[Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política]]></source>
<year>1994</year>
<volume>1</volume>
<publisher-name><![CDATA[Ed. Brasiliense]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Debord]]></surname>
<given-names><![CDATA[Guy]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La sociedad del espectáculo]]></source>
<year>1995</year>
<publisher-name><![CDATA[La Marca]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Riesman]]></surname>
<given-names><![CDATA[David]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A multidão solitária]]></source>
<year>1995</year>
<publisher-name><![CDATA[Ed. Perspectiva]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Sennett]]></surname>
<given-names><![CDATA[Richard]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O declínio do homem público: Tiranias da intimidade]]></source>
<year>1999</year>
<publisher-name><![CDATA[Companhia das Letras]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Sibilia]]></surname>
<given-names><![CDATA[Paula]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O show do eu: A intimidade como espetáculo]]></source>
<year>2008</year>
<publisher-name><![CDATA[Nova Fronteira]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Woolf]]></surname>
<given-names><![CDATA[Virginia]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Un cuarto propio y otros ensayos]]></source>
<year>1993</year>
<publisher-name><![CDATA[A-Z Editora.]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
