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</front><body><![CDATA[ <P><font size="3"><b>PATRIM&Ocirc;NIO</b></font></P>     <P><font size="3"><b><font size=5>PRESERVA&Ccedil;&Atilde;O DA HIST&Oacute;RIA    PARA AL&Eacute;M DA ATRA&Ccedil;&Atilde;O TUR&Iacute;STICA</font></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/a21img01.jpg"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Fincada no Vale do Para&iacute;ba, em terras paulistas, a est&acirc;ncia    tur&iacute;stica de S&atilde;o Luiz do Paraitinga &eacute; famosa pelo belo    casario preservado, parte dele tombado por institutos governamentais de defesa    do patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico, e por um carnaval animado com marchinhas    que todos os anos faz sua popula&ccedil;&atilde;o de pouco mais de 10 mil habitantes    aumentar em at&eacute; 10 vezes. No come&ccedil;o de 2010, no entanto, o que    levou S&atilde;o Luiz para os notici&aacute;rios n&atilde;o foram esses atrativos,    mas o transbordamento do rio que d&aacute; nome &agrave; cidade, que a inundou    e destruiu ou danificou grande parte dos pr&eacute;dios hist&oacute;ricos. A    Igreja Matriz, constru&iacute;da no s&eacute;culo XVII e s&iacute;mbolo da cidade,    desabou com as fortes chuvas e ter&aacute; que ser totalmente reconstru&iacute;da.    Al&eacute;m dela, mais oito edif&iacute;cios foram perdidos e cerca de oitenta    ter&atilde;o que ser restaurados. V&aacute;rias outras localidades que concentram    importantes conjuntos arquitet&ocirc;nicos de valor hist&oacute;rico, como Ouro    Preto e Diamantina, tamb&eacute;m s&atilde;o cidades com grande fluxo tur&iacute;stico.    Tanto o desastre que se abateu sobre S&atilde;o Luiz do Paraitinga como os desafios    colocados pelas atividades tur&iacute;sticas nesses centros hist&oacute;ricos,    trazem &agrave; tona a capacidade de manter e preservar pr&eacute;dios hist&oacute;ricos    por parte do poder p&uacute;blico, seja na esfera municipal, estadual ou federal.</font></P>     <P><font size="3">S&atilde;o Luiz do Paraitinga foi declarada est&acirc;ncia tur&iacute;stica    em 2002, elevando para 29 o n&uacute;mero de cidades com tal qualifica&ccedil;&atilde;o    no estado de S&atilde;o Paulo. Essa condi&ccedil;&atilde;o garante ao munic&iacute;pio    uma verba maior por parte do estado, em geral usada para promo&ccedil;&atilde;o    do turismo. Al&eacute;m de estar perto do litoral, S&atilde;o Luiz tem um conjunto    de casas e sobrados tombados pelo Iphan (Instituto do Patrim&ocirc;nio Hist&oacute;rico    e Art&iacute;stico Nacional) e/ou pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrim&ocirc;nio    Hist&oacute;rico, Arqueol&oacute;gico, Art&iacute;stico e Tur&iacute;stico),    &oacute;rg&atilde;o ligado &agrave; Secretaria da Cultura do Estado de S&atilde;o    Paulo. Tamb&eacute;m abriga a casa onde nasceu Oswaldo Cruz, hoje um centro    cultural. Segundo Maria Tereza Paes, ge&oacute;grafa da Unicamp e tamb&eacute;m    conselheira do Condephaat, &eacute; um acervo representativo de um per&iacute;odo    importante da hist&oacute;ria do Brasil, o per&iacute;odo &aacute;ureo da produ&ccedil;&atilde;o    de caf&eacute;. "S&atilde;o Luiz apostou no turismo desde o tombamento", afirma    ela. "E essa op&ccedil;&atilde;o se deu exagerando os tra&ccedil;os para tornar    o lugar atrativo, sobretudo no per&iacute;odo do carnaval. Trata-se de uma dire&ccedil;&atilde;o    um tanto equivocada dessa e de outras cidades brasileiras que acabam tornando    esse patrim&ocirc;nio monofuncional, como se tais bens servissem apenas ao turismo.    Foi o que aconteceu no Pelourinho, que virou um cen&aacute;rio para o turista.    Isso entra em contradi&ccedil;&atilde;o, por exemplo, com a vida local", afirma    a ge&oacute;grafa.</font></P>     <P><font size="3">Nesses casos o selo de patrim&ocirc;nio cultural tem a fun&ccedil;&atilde;o    de agregar valor para a atividade tur&iacute;stica. A partir da&iacute; ele    passa a ser divulgado, sobretudo, por meio de imagens. De acordo com Tereza,    ocorre uma espetaculariza&ccedil;&atilde;o para o turismo. Por isso o restauro    e os procedimentos de manuten&ccedil;&atilde;o desses bens nem sempre s&atilde;o    feitos obedecendo a concep&ccedil;&atilde;o original dos projetos, mas sim,    para for&ccedil;ar a atratividade do olhar tur&iacute;stico. "&Eacute; como    se fosse uma maquiagem", aponta a ge&oacute;grafa. "A cidade ganha valor e isso    &eacute; importante, principalmente se voc&ecirc; pensar que muitas economias    no Vale do Para&iacute;ba foram desestruturadas e as cidades empobrecidas por    conta da decad&ecirc;ncia do caf&eacute;. S&atilde;o cidades que ficaram isoladas.    S&oacute; que, por conta disso, elas tamb&eacute;m tiveram seu patrim&ocirc;nio    preservado. Isso acontece muito no Brasil, inclusive nas cidades hist&oacute;ricas    mineiras. Boa parte do patrim&ocirc;nio cultural preservado s&oacute; ficou    intacta porque as cidades ficaram marginalizadas do processo de moderniza&ccedil;&atilde;o",    explica a pesquisadora.</font></P>     <P><font size="3">Para o chefe do escrit&oacute;rio t&eacute;cnico do Iphan em    Piren&oacute;polis (GO), Paulo S&eacute;rgio Gale&atilde;o, n&atilde;o se pode    negar que a turistifica&ccedil;&atilde;o traz riscos para o patrim&ocirc;nio.    Na medida em que o munic&iacute;pio passa a ser assediado pelo turismo &eacute;    natural que haja especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria, altera&ccedil;&otilde;es    nas taxas de ocupa&ccedil;&atilde;o e na natureza de uso dos im&oacute;veis    j&aacute; que muitos passam a ser aproveitados para fins comerciais. Em geral,    &eacute; mais f&aacute;cil lidar com im&oacute;veis p&uacute;blicos pois a&iacute;    a preserva&ccedil;&atilde;o pode seguir sem tantas interfer&ecirc;ncias nos    elementos arquitet&ocirc;nicos. No entanto, quando um im&oacute;vel tombado    pertence a iniciativa privada &eacute; necess&aacute;rio fazer concess&otilde;es.    Foi o que aconteceu recentemente no Palacete Lellis, constru&ccedil;&atilde;o    de 1920, que fica no centro velho da cidade de S&atilde;o Paulo, &aacute;rea    em processo de revitaliza&ccedil;&atilde;o. Pela nova determina&ccedil;&atilde;o    do Condephaat, o pr&eacute;dio poder&aacute; sofrer modifica&ccedil;&otilde;es    internas, desde que sua fachada seja mantida intacta. A ideia &eacute; que,    por meio da fachada, seja poss&iacute;vel conhecer a hist&oacute;ria de um bem    como um todo. "Nosso objetivo &eacute; proteger o essencial de determinada ambi&ecirc;ncia.    Quando se trata de um bem privado temos que, ao mesmo tempo olhar com muita    parcim&ocirc;nia os objetivos dos propriet&aacute;rios em rela&ccedil;&atilde;o    aos nossos objetivos preservacionistas", diz. "N&atilde;o podemos esquecer que    a movimenta&ccedil;&atilde;o trazida pelo turismo tamb&eacute;m &eacute; positiva,    traz benef&iacute;cios para a comunidade. A gest&atilde;o de um bem coletivo    &eacute; uma arte", complementa.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><b>EQUIL&Iacute;BRIO NECESS&Aacute;RIO</b> O turismo agrega    valor econ&ocirc;mico, trazendo recursos para essas cidades, at&eacute; mesmo    para o restauro dos bens arquitet&ocirc;nicos, e gera empregos para popula&ccedil;&atilde;o    local. Por&eacute;m, h&aacute; impactos como vandalismo e press&atilde;o na    infraestrutura local, al&eacute;m, &eacute; claro, de usos equivocados desses    bens culturais. "Grandes faixas ou letreiros comprometem a visualiza&ccedil;&atilde;o    do bem tombado", exemplifica. E &eacute; a&iacute; que entra a fiscaliza&ccedil;&atilde;o.    Muitas vezes o Iphan e o Condephaat t&ecirc;m regulamenta&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica    para uso de bens tombados, mas o poder municipal n&atilde;o tem, causando preju&iacute;zos    para o patrim&ocirc;nio como um todo. O que se configura, ent&atilde;o, &eacute;    um jogo que tenta equilibrar o valor econ&ocirc;mico e o valor cultural, quest&atilde;o    presente nas discuss&otilde;es sobre patrim&ocirc;nio, n&atilde;o s&oacute;    no Brasil, mas em todo mundo.</font></P>     <P><font size="3">O trabalho de reconstru&ccedil;&atilde;o em S&atilde;o Luiz    do Paraitinga segue a tend&ecirc;ncia fachadista, que remete &agrave; cenariza&ccedil;&atilde;o    do patrim&ocirc;nio. Somente as fachadas do casario n&atilde;o podem ser modificadas,    a parte interna dos im&oacute;veis sim. J&aacute; a Igreja Matriz est&aacute;    sendo reconstru&iacute;da seguindo exatamente o que havia antes das enchentes.    "Estamos tentando salvar o maior n&uacute;mero de elementos da igreja para configurar    originalidades para esses pr&eacute;dios acidentados", conta S&eacute;rgio Gale&atilde;o,    que coordena a reconstru&ccedil;&atilde;o na cidade. Ele ressalta, entretanto,    que esse processo &eacute;, sobretudo, um trabalho de reinterpreta&ccedil;&atilde;o    que tem que considerar o acidente e outras mudan&ccedil;as. "N&atilde;o &eacute;    nosso objetivo suprimir as marcas do tempo. Vamos tentar reproduzir os cen&aacute;rios    de antes, mas com as devidas cicatrizes", disse ele. A pesquisadora da Unicamp,    Maria Tereza Paes, questiona at&eacute; que ponto &eacute; correto fazer modifica&ccedil;&otilde;es    em um bem tombado. "&Eacute; dif&iacute;cil definir o que &eacute; real e o    que &eacute; aut&ecirc;ntico. O patrim&ocirc;nio cultural pode ser considerado    em risco quando &eacute; muito alterado mas, por outro lado, temos uma tend&ecirc;ncia    a nos aceitar como uma sociedade h&iacute;brida, com v&aacute;rios elementos    misturados", diz ela. Os famosos castelos medievais na Europa s&atilde;o resultado    de v&aacute;rias altera&ccedil;&otilde;es para chegar ao que vemos hoje. A hist&oacute;ria    &eacute; din&acirc;mica, n&atilde;o &eacute; algo congelado.</font></P>     <P><font size="3"><b>AL&Eacute;M DO TURISMO</b> O retorno a um processo de valoriza&ccedil;&atilde;o    dos n&uacute;cleos hist&oacute;ricos brasileiros ocorre em um momento em que    esses n&uacute;cleos j&aacute; s&atilde;o vistos tamb&eacute;m como produtos    comerciais de consumo cultural. Por isso a associa&ccedil;&atilde;o com o turismo    parece natural para localidades como S&atilde;o Luiz do Paraitinga. Um exemplo    disso s&atilde;o algumas festas ligadas &agrave; religiosidade rural que come&ccedil;am    a atrair turistas. "H&aacute; o risco aqui de for&ccedil;ar a popula&ccedil;&atilde;o    envolvida nesses rituais a se adaptar ao tempo do turismo, mudando at&eacute;    mesmo o calend&aacute;rio original das festas. Elas entram tamb&eacute;m em    processo de falseamento e espetaculariza&ccedil;&atilde;o", conta Tereza. Uma    alternativa, que j&aacute; ocorre em alguns lugares, &eacute; fazer duas festas,    sendo uma exclusivamente para atender ao turista. "Acredito que &eacute; uma    boa sa&iacute;da porque n&atilde;o h&aacute; perda de sentido. N&atilde;o podemos    descartar solu&ccedil;&otilde;es que insiram um bem cultural, com conhecimento    local, na forma de produ&ccedil;&atilde;o capitalista. Se a partir dele a popula&ccedil;&atilde;o    conseguir um canal para se desenvolver, tanto melhor", defende Tereza.</font></P>     <P><font size="3">No fim do ano passado o Iphan organizou o I F&oacute;rum Nacional    do Patrim&ocirc;nio Cultural, na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. Uma    das quest&otilde;es discutidas foi buscar outros modos de incentivar o desenvolvimento    econ&ocirc;mico de localidades ricas em patrim&ocirc;nio, al&eacute;m do turismo.    Um exemplo seriam atividades ligadas &agrave; popula&ccedil;&atilde;o local    como capacita&ccedil;&atilde;o para os of&iacute;cios do restauro ou criar novas    atividades econ&ocirc;micas para essa popula&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m do    trabalho de conscientiza&ccedil;&atilde;o para valoriza&ccedil;&atilde;o do    patrim&ocirc;nio. "O bem tombado s&oacute; ganha legitimidade quando o valor    atribu&iacute;do a ele tem resson&acirc;ncia na popula&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o    s&oacute; na pol&iacute;tica p&uacute;blica", afirma Maria Tereza Paes.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="right"><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/a21img02.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>      ]]></body>
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