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</front><body><![CDATA[ <P><font size="3"><b>LITERATURA</b></font></P>     <P><font size="3"><b><font size=5>QUANDO A FIC&Ccedil;&Atilde;O INSPIRA A CI&Ecirc;NCIA</font></b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">O fim do mundo do s&eacute;culo XXI &eacute; quente, tem atmosfera    cinzenta, derrete geleiras, inunda &aacute;reas populosas, desertifica florestas    tropicais e responde pelo nome de aquecimento global. Os cientistas (ou boa    parte deles) assumem a postura de quem soa o alarme para reverter nossa queda    iminente no abismo da extin&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <P><font size="3">Apesar do papel de alertar para desastres iminentes, a ci&ecirc;ncia    ocupou um indesculp&aacute;vel lugar de destaque na escalada de conhecimento    que nos deu o d&uacute;bio t&iacute;tulo de primeira esp&eacute;cie a ser capaz    de se auto-extinguir (e, de quebra, levar consigo todas as outras). Cruzando    os caminhos da ci&ecirc;ncia e dos homens respons&aacute;veis pelas bombas nucleares    com o ambiente cultural de sua &eacute;poca, o historiador brit&acirc;nico P.    D. Smith produziu um calhama&ccedil;o de mais de 500 p&aacute;ginas de uma narrativa    muito bem escrita: <I>Os homens do fim do mundo: o verdadeiro Dr. Fant&aacute;stico    e o sonho da arma total</I>, editado no Brasil pela Cia. Das Letras.</font></P>     <P><font size="3"> Muito j&aacute; se escreveu sobre Guerra Fria, a corrida armamentista    entre Estados Unidos e a ent&atilde;o Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, como tamb&eacute;m    sobre o papel da ci&ecirc;ncia nesse perigoso jogo. Por&eacute;m, o que torna    o livro de Smith algo muito valioso &eacute; sua abordagem baseada num riqu&iacute;ssimo    levantamento da produ&ccedil;&atilde;o, desde o s&eacute;culo XIX at&eacute;    os anos 1960, da fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e da literatura que    lidou com os dilemas da ci&ecirc;ncia. O professor e pesquisador da University    College London combina o <I>background</I> biogr&aacute;fico de cientistas-chave,    seu expressivo conhecimento de hist&oacute;ria da f&iacute;sica e uma abordagem    culturalista para demonstrar como a ci&ecirc;ncia e a imagina&ccedil;&atilde;o    art&iacute;stica, de Goethe a Stanley Kubrick, se envolveram num jogo de retroalimenta&ccedil;&atilde;o    que, simultaneamente, alertou para os perigos da obten&ccedil;&atilde;o de armas    altamente destrutivas e produziu a paran&oacute;ica realidade da amea&ccedil;a    do conflito nuclear no auge da Guerra Fria.</font></P>     <P><font size="3">O livro de Smith pode ser visto como uma tentativa de mostrar    a for&ccedil;a do imagin&aacute;rio na constru&ccedil;&atilde;o da realidade    que os homens experimentam. Gra&ccedil;as ao extenso levantamento documental    (t&atilde;o extenso que, &agrave;s vezes, Smith soa repetitivo e pouco conciso)    sobre a fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, seja ela da melhor cepa, sejam    as mais baratas hist&oacute;rias veiculadas em revistas populares, o livro convence    o leitor de que a intera&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e imagina&ccedil;&atilde;o    ficcional &eacute; mais profunda e complexa do que o senso comum faz crer. N&atilde;o    h&aacute; f&oacute;rmulas que permitam saber se &eacute; a ci&ecirc;ncia quem    alimenta a imagina&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria sobre ela, ou se o que    acontece &eacute; o contr&aacute;rio. Sem ousar estabelecer qualquer tipo de    rela&ccedil;&atilde;o causal entre essas "duas culturas" &#150; pois ambas contribuem    para a forma&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito de uma &eacute;poca &#150;    Smith mostra competentemente a maneira como imagens, vis&otilde;es e sonhos    sobre o conhecimento cient&iacute;fico fertilizaram tanto a imagina&ccedil;&atilde;o    dos f&iacute;sicos te&oacute;ricos quanto a de jornalistas de ci&ecirc;ncia    e escritores de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica.</font></P>     <P><font size="3"><b>A FIC&Ccedil;&Atilde;O DE WELLS </b>Nada exemplifica isso    melhor do que a hist&oacute;ria do f&iacute;sico h&uacute;ngaro Leo Szilard.    Ele &eacute; o homem que teve alguns dos <I>insights</I> mais decisivos para    que uma expectativa geral das primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX se    tornasse exequ&iacute;vel: a de que seria gerada uma quantidade enorme de energia    a partir da manipula&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria ao n&iacute;vel do &aacute;tomo.    Como Smith conta, o f&iacute;sico era um leitor &aacute;vido de fic&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica e, principalmente, de H. G. Wells, autor da conhecida obra    Guerra dos mundos. Szilard reconheceu a d&iacute;vida com Wells sobre o conceito    de rea&ccedil;&atilde;o em cadeia em que n&ecirc;utrons despeda&ccedil;am n&uacute;cleos    at&ocirc;micos &ndash; que acabou sendo a base tanto da gera&ccedil;&atilde;o    de energia nuclear pac&iacute;fica quanto a da bomba at&ocirc;mica.</font></P>     <p><font size="3"> A Szilard &eacute; atribu&iacute;da a vis&atilde;o de uma "arma    total" que extinguiria a vida na Terra, um dos fios que orientaram Smith no    labirinto dessa hist&oacute;ria. A "bomba de cobalto" estaria quase ao alcance    da tecnologia da &eacute;poca e &eacute; a mesma arma que destruiria o mundo    no cl&aacute;ssico de Kubrick, <i>Dr. Fant&aacute;stico</i>, de 1964.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> O livro de Smith &eacute; recheado de exemplos de "Doutores    Fant&aacute;sticos" que, como Teller e o inventor do foguete nazista V2, Wernher    von Braun, n&atilde;o demonstram qualquer preocupa&ccedil;&atilde;o ou dilema    moral com o uso que ser&aacute; feito do brilhante e catastr&oacute;fico resultado    de seu trabalho. Trata-se, no fundo, de um lembrete de que a amea&ccedil;a permanece.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"> <font size="3"><i>Danilo Albergaria </i></font></p>      ]]></body>
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