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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n2/prosa.gif"></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size="4">Leila Guenther</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size=5><b>O DOM DO JASMIM</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Ela era destrui&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o podia negar que    n&atilde;o fosse. Que n&atilde;o carregasse, como uma cicatriz, o sinal dos    p&aacute;rias. O toque de Midas ao contr&aacute;rio, de modo a arruinar tudo    o que tocasse. E ela n&atilde;o sabia n&atilde;o ser assim. Por v&aacute;rias    vezes tentara, mas, antes de olhar para baixo, vinha a vertigem que lhe roubava    a corda sobre a qual se equilibrava. E, quando dava por si, j&aacute; tinha    posto tudo a perder. N&atilde;o era como uma tenta&ccedil;&atilde;o que se acercava:    era como se ela fosse o pr&oacute;prio diabo ca&iacute;do. Tinha uma necessidade    brutal de chacoalhar tudo, de tornar as coisas vivas a seu modo, pela viol&ecirc;ncia,    pela crueldade, pela dor. Para sobreviver a isso, alguns fugiram, mas, quando    davam por si, tudo o que desejavam era ter de volta aquilo que os matava, buscando,    de forma pat&eacute;tica, o que haviam desdenhado com horror. Porque o extremo    das coisas sempre fascina. Porque os vivos preferem existir no limite. Ele,    ao contr&aacute;rio dos outros, tinha permanecido, mas, para compor a fr&aacute;gil    estabilidade que lhe permitisse viver dela sem morrer disso, viajava com frequ&ecirc;ncia    sob diversos pretextos. Ela fingia acreditar neles. Quando ele partia, ela punha    o perfume que ele tanto odiava porque lhe lembrava o cheiro da morte, dos cemit&eacute;rios    abandonados onde algumas plantas secam e outras vicejam em desordem. Ela punha    o perfume para si mesma, sem saber que com isso real&ccedil;ava sua sina. Ela    o usava at&eacute; que ele voltasse. E ele voltava, pois sabia afinal que o    espet&aacute;culo de um vulc&atilde;o em erup&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era    menos belo s&oacute; porque assolava uma cidade.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><font size="3"><b><font size="4">TRIUNFO</font></b></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Quando Narciso nasceu, o cego Tir&eacute;sias, que j&aacute;    vira o que era ser homem e o que era ser mulher, anunciou aos pais do belo menino    que este viveria bastante e que durante muito tempo s&oacute; saberia enxergar    a si mesmo. Os pais, o deus Cefiso e a ninfa Lir&iacute;ope, n&atilde;o ficaram    surpresos com o destino: com uma origem t&atilde;o nobre, seria dif&iacute;cil    que Narciso n&atilde;o se achasse, em sua longa exist&ecirc;ncia, o centro do    mundo.</font></P>     <P><font size="3">As &eacute;pocas transcorreram sem que Narciso fosse tocado    pelo amor, que, no entanto, despertava tragicamente nos outros: a ninfa Eco,    desesperada de paix&atilde;o n&atilde;o-correspondida, enlouqueceu, passando    a repetir o nome do amado para qualquer coisa que lhe dissessem, o jovem Am&iacute;nias    se suicidou com uma espada dada pelo pr&oacute;prio Narciso. Santos, pecadores,    pintores e outros artistas o amaram sem que ele percebesse, t&atilde;o concentrado    estava na imagem de si mesmo. At&eacute; que, um dia, ao buscar seu reflexo    numa fonte, como costumava fazer no exerc&iacute;cio do amor-pr&oacute;prio,    viu l&aacute; dentro o corpo de uma jovem afogada. Foi a primeira vez que Narciso    viu algo mais bonito que ele pr&oacute;prio. N&atilde;o se sabe se por amor    &agrave;quela imagem ou por &oacute;dio de sua beleza, ele se matou, afogando-se    ali tamb&eacute;m.</font></P>     <P><font size="3">Nesse lugar nasceu uma flor, a que deram o nome de of&eacute;lia.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><I><b>Leila Guenther </b>nasceu em Blumenau, Santa Catarina.    Formou-se em letras pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Atualmente    trabalha como revisora de texto em Campinas, onde mora. Em 2006 publicou o livro    de contos </i>O v&ocirc;o noturno das galinhas<I> (Ateli&ecirc; Editorial).    Com Paulo Franchetti, contribuiu com o conto "Inscri&ccedil;&atilde;o" para    o livro </I>Quartas hist&oacute;rias: contos baseados em narrativas de Guimar&atilde;es    Rosa<I> (Garamond, 2006). Em 2008, participou do livro </I>Capitu mandou flores:    contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte<I> (Gera&ccedil;&atilde;o    Editorial) com o conto "A outra causa", uma releitura de "A causa secreta".    Desde o come&ccedil;o de 2009, mant&eacute;m o blog </I><a href="http://nalinhadavida.blogspot.com/" target="_blank">http://nalinhadavida.blogspot.com/</a>.</font></P>      ]]></body>
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