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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/brasil.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">M<small>EDICAMENTOS</small></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v62n3/line_blk.gif"></p>     <p><font size="4"><B>Fitoter&aacute;pico n&atilde;o &eacute; panaceia</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Na mitologia grega, <I>Panacea</I> era a deusa da cura, filha    de Ascl&eacute;pio (Escul&aacute;pio, na mitologia romana), o deus da medicina,    t&atilde;o h&aacute;bil em cirurgia e no uso de plantas para curar doen&ccedil;as    que Zeus o matou com um raio, achando que mortos estavam sendo ressuscitados.    <I>Panacea</I> aprendeu com o pai o poder curativo das ervas. A palavra panaceia,    hoje, significa rem&eacute;dio para todos os males e, para muitos, sin&ocirc;nimo    dos medicamentos produzidos a partir de plantas e utilizados no mundo inteiro.</font></p>     <p><font size="3">O uso indiscriminado dos fitoter&aacute;picos, por&eacute;m,    pode trazer consequ&ecirc;ncias graves para a sa&uacute;de. Afirma&ccedil;&otilde;es    do tipo "fitoter&aacute;pico n&atilde;o faz mal porque &eacute; rem&eacute;dio    natural" ou "planta medicinal se bem n&atilde;o faz, mal tamb&eacute;m    n&atilde;o faz", n&atilde;o s&atilde;o verdadeiras. A lista de exemplos    que as desmentem &eacute; longa. Plantas como aroeira brava (<I>Lithraea brasiliensis    </I>March), avel&oacute;s (<I>Euphorbia tirucalli</I> L.) e buchinha (<I>Luffa    operculata </I>Cogn) possuem subst&acirc;ncias que se ingeridas podem causar    intoxica&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">No Brasil, para ser comercializado um fitoter&aacute;pico deve    ter registro na Ag&ecirc;ncia Nacional de Vigil&acirc;ncia Sanit&aacute;ria    (Anvisa), respons&aacute;vel pela qualidade, seguran&ccedil;a e efic&aacute;cia    do produto, utilizando requisitos similares aos requeridos para os medicamentos    convencionais. "O controle de fitoter&aacute;picos &eacute; at&eacute;    mais r&iacute;gido do que de medicamentos convencionais para desvincul&aacute;&#45;los    da ideia de que s&atilde;o produtos de qualidade inferior ou sem risco",    afirma o professor Wagner Luiz Barbosa Ramos, da Universidade Federal do Par&aacute;    (UFPR), farmac&ecirc;utico de forma&ccedil;&atilde;o, com mestrado em qu&iacute;mica    e doutorado em ci&ecirc;ncias naturais. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a05img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Conforme dados de Andr&eacute;ia de Freitas no estudo "Estrutura    de mercado do segmento de fitoter&aacute;picos no contexto atual da ind&uacute;stria    farmac&ecirc;utica brasileira", o segmento brasileiro de fitoter&aacute;picos    faturou, entre novembro de 2003 e outubro de 2006, em torno de R$ 1,8 bilh&atilde;o.    Esse valor refere&#45;se somente aos fitoter&aacute;picos industrializados, n&atilde;o    envolvendo o mercado total de produtos obtidos de plantas medicinais. Existem    ainda os fitoter&aacute;picos manipulados, os produtos cadastrados na Anvisa    como alimentos ou cosm&eacute;ticos, al&eacute;m dos produtos artesanais e planta    medicinal <I>in natura</I>, utilizados amplamente na medicina popular. Conforme    salienta Antonio Jos&eacute; Lapa, professor da Universidade Federal de S&atilde;o    Paulo, "ningu&eacute;m sabe ao certo qual o valor total do mercado de fitoter&aacute;picos;    o que temos s&atilde;o estimativas, a partir das vendas feitas pelas ind&uacute;strias".    Lapa, especialista em farmacologia, destaca que grande parte do mercado de fitoter&aacute;picos    no Brasil se d&aacute; de modo informal. "O que em geral se considera &eacute;    que o mercado de fitoter&aacute;picos movimenta algo em torno de 10% do mercado    de f&aacute;rmacos", acrescenta Lapa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a05img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Dentre as plantas que mais possuem registro na Anvisa na forma    de seus derivados para obten&ccedil;&atilde;o de fitoter&aacute;picos est&atilde;o    o gingko (<I>Ginkgo biloba </I>L. ), ginseng (<I>Panax ginseng</I> A.A.Mey),    boldo&#45;do&#45;chile (<I>Peumus boldus Molina</I>), maracuj&aacute; (<I>Passiflora    incarnata</I> L.) e arnica (<I>Arnica montana</I> L.). Essas esp&eacute;cies    figuram entre as 34 previstas na lista de registro simplificado de fitoter&aacute;picos    (RE nº 89/04), ou seja, n&atilde;o precisam comprovar crit&eacute;rios de seguran&ccedil;a    e efic&aacute;cia terap&ecirc;uticas, e s&atilde;o reconhecidos pela comunidade    cient&iacute;fica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a05img03.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O uso de plantas em comunidades tradicionais est&aacute; apoiado    em um conhecimento consolidado por s&eacute;culos de observa&ccedil;&atilde;o.    Maria de F&aacute;tima Barbosa Coelho &eacute; agr&ocirc;noma e professora da    Universidade Rural do Semi&#45;&Aacute;rido (Ufersa), no Rio Grande do Norte, e    desenvolve pesquisas com etnoconhecimento e conserva&ccedil;&atilde;o de recursos    gen&eacute;ticos. Trabalha com plantas medicinais e j&aacute; conviveu com popula&ccedil;&otilde;es    tradicionais de diversas regi&otilde;es brasileiras. "As pessoas com quem    mantive contato n&atilde;o fazem uso indiscriminado de plantas. Em geral, s&atilde;o    os mais velhos que det&ecirc;m conhecimentos sobre as diferentes respostas a    plantas de indiv&iacute;duos da comunidade com o mesmo problema de sa&uacute;de".</font></p>     <p><font size="3">Para Maria de F&aacute;tima, aspectos como dosagem, &eacute;poca    e cuidados na coleta da parte da planta a ser usada, hor&aacute;rio para ingerir    o rem&eacute;dio e como se resguardar ap&oacute;s tom&aacute;&#45;lo, s&atilde;o    indicados quase sempre com muita &ecirc;nfase. E salienta: "no Cerrado    de Mato Grosso, onde popula&ccedil;&otilde;es tradicionais usam mais de 550    esp&eacute;cies, os efeitos colaterais s&atilde;o conhecidos, mesmo quando n&atilde;o    existe pesquisa oficial sobre a planta". </font></p>     <p><font size="3">O mesmo n&atilde;o pode ser dito de pessoas que ouvem falar    de uma planta e, sem saber de detalhes de uso, fazem um ch&aacute; e acham que    isso resolve.</font></p>     <p><font size="3">Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, a amplia&ccedil;&atilde;o    do consumo de fitoter&aacute;picos e a crescente participa&ccedil;&atilde;o    da ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica geraram a necessidade de se normatizar    a produ&ccedil;&atilde;o e comercializa&ccedil;&atilde;o em larga escala. Wagner    Luiz Barbosa Ramos, professor da Universidade Federal do Par&aacute;, explica    que hoje existe um grande esfor&ccedil;o por parte de &oacute;rg&atilde;os governamentais    brasileiros para formular diretrizes para registro de medicamentos fitoter&aacute;picos    e para revisar normas t&eacute;cnicas de produ&ccedil;&atilde;o e comercializa&ccedil;&atilde;o    desses produtos, levando em conta os avan&ccedil;os cient&iacute;ficos na &aacute;rea.</font></p>     <p><font size="3">Valdir Veiga Jr., engenheiro qu&iacute;mico e professor na Universidade    Federal do Amazonas (Ufam), assinala que os fitoter&aacute;picos devem ser padronizados,    suas atividades farmacol&oacute;gicas devem ser estabelecidas conforme sua composi&ccedil;&atilde;o    e somente ent&atilde;o as doses terap&ecirc;uticas podem ser definidas, para    evitar uso em quantidades t&oacute;xicas. </font></p>     <p><font size="3">Na literatura cient&iacute;fica s&atilde;o relatados in&uacute;meros    casos de toxicidade de plantas medicinais. Nos grandes centros urbanos do Brasil,    parte da comercializa&ccedil;&atilde;o desses produtos &eacute; feita em mercados    e feiras populares, de dif&iacute;cil fiscaliza&ccedil;&atilde;o, e na cren&ccedil;a    de que n&atilde;o possuem efeitos colaterais. Em artigo publicado em 2004 na    revista <I>Qu&iacute;mica Nova</I>, Veiga Jr. e colaboradores destacam que plantas    medicinais, como ginkgo e o alho (<I>Allium sativum L.</I>), podem influenciar    negativamente no tratamento de doen&ccedil;as como Aids e c&acirc;ncer. </font></p>     <p><font size="3"><B>RESPONSABILIDADE</b> A m&iacute;dia tem um papel importante    na divulga&ccedil;&atilde;o rigorosa e cuidadosa do conhecimento cient&iacute;fico    dispon&iacute;vel sobre fitoter&aacute;picos. Recentemente, por exemplo, mat&eacute;ria    com chamada na primeira p&aacute;gina de um jornal paulista de grande circula&ccedil;&atilde;o,    apontou o avel&oacute;s como poss&iacute;vel primeiro quimioter&aacute;pico    nacional, eficaz no tratamento de c&acirc;ncer. "Divulgar uma not&iacute;cia    como essa &eacute; perigoso, especialmente quando se observa o desespero de    pessoas com familiares com c&acirc;ncer em est&aacute;gio terminal", considera    Veiga Jr.. "A formula&ccedil;&atilde;o errada pode provocar mais estragos    que a pr&oacute;pria doen&ccedil;a". </font></p>     <p><font size="3">O avel&oacute;s &eacute; uma planta de origem africana, encontrada    nas regi&otilde;es Norte e Nordeste do Brasil, que produz uma seiva semelhante    ao l&aacute;tex. A pesquisa visando sua aplica&ccedil;&atilde;o no tratamento    de c&acirc;ncer &eacute; do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (IIEP),    associado ao Hospital Albert Einstein, em S&atilde;o Paulo. A Anvisa estabelece    que um estudo cl&iacute;nico deve ser feito em cinco fases. Os testes da fase    pr&eacute;&#45;cl&iacute;nica, com diversos tipos de tumores s&oacute;lidos, apontaram    resultados positivos. Atualmente, a pesquisa est&aacute; na fase 2, de estudo    terap&ecirc;utico piloto, cujo objetivo &eacute; demonstrar a atividade e estabelecer,    em grupos de 100 a 200 pessoas doentes, a seguran&ccedil;a a curto prazo do    princ&iacute;pio ativo. Pesquisas desse tipo geram muitas expectativas. "O    que est&aacute; sendo estudado", esclarece o professor Valdir, "&eacute;    a atividade de uma subst&acirc;ncia que est&aacute; presente no l&aacute;tex".    Ele salienta: "h&aacute; diversas outras subst&acirc;ncias presentes no    latex do avel&oacute;s, v&aacute;rias delas muito t&oacute;xicas". As plantas    medicinais fazem parte da cultura de comunidades do interior do Brasil. Para    Maria de F&aacute;tima, em comunidades isoladas dos grandes centros, o acesso    a m&eacute;dicos &eacute; inexistente ou muito prec&aacute;rio, o acesso ao    SUS &eacute; dif&iacute;cil e fitoter&aacute;picos s&atilde;o praticamente a    &uacute;nica alternativa. Ela alerta que "um dos grandes problemas que    as comunidades enfrentam hoje &eacute; o desinteresse dos jovens em rela&ccedil;&atilde;o    ao uso de plantas. Muitas vezes, se deslocam para as cidades maiores, em busca    de empregos ou de educa&ccedil;&atilde;o formal, e passam a encarar sua cultura    como inferior e a considerar o uso de plantas um atraso". </font></p>     <p><font size="3">Veiga J&uacute;nior acrescenta que o conhecimento tradicional    do uso de plantas medicinais tem sido perdido com essa acultura&ccedil;&atilde;o.    N&atilde;o h&aacute; mais a identifica&ccedil;&atilde;o inequ&iacute;voca da    planta; do local em que deve ser cultivada, se no sol ou na sombra; do hor&aacute;rio    e &eacute;poca do ano em que deve ser coletada; da forma de preparo, etc. "A    perda desse conhecimento aumenta enormemente a possibilidade da planta medicinal    n&atilde;o surtir efeito ou, ainda, ter um efeito delet&eacute;rio".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><I>Leonor Assad</I></font></p>      ]]></body>
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