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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>100 ANOS DE ADONIRAN </b></font></p>     <p><font size="3"><b>A<small>S MIL FACETAS DO COMPOSITOR QUE FOI A VOZ DE</small>    S<small>&Atilde;O</small> P<small>AULO</small> </b> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Se o sinh&ocirc; n&atilde;o t&aacute; lembrado d&aacute; licen&ccedil;a    de cont&aacute;: este ano Adoniran Barbosa completaria 100 anos. Ele nasceu    Jo&atilde;o Rubinato em 6 de agosto de 1910, na cidade de Valinhos no interior    paulista, mas se transformou no compositor que melhor traduziu a alma paulistana    dos bairros oper&aacute;rios, da garoa fria da madrugada e o esp&iacute;rito    dos bares e dos amores bo&ecirc;mios. O dialeto marcante de suas letras era    a fala dos imigrantes de alguns bairros populares, principalmente da zona leste    de S&atilde;o Paulo, que rompeu essas barreiras geogr&aacute;ficas e passou    a ser ouvido em qualquer agrupamento de amigos, dedilhado por toda parte onde    sua m&uacute;sica se fizesse presente.</font></p>     <p><font size="3">Comemorar o centen&aacute;rio de Adoniran Barbosa &eacute; destacar    uma trajet&oacute;ria ampla e diversificada. Uma s&eacute;rie de eventos e lan&ccedil;amentos    &#150; um musical dirigido por Rubens Ewald Filho, programas para a TV e o relan&ccedil;amento    da biografia, escrita por Celso Campos Jr. &#150; devem relembrar o artista que nasceu    multim&iacute;dia. Merece destaque o Portal Adoniran, idealizado por sua filha    Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, e a Casa de Adoniran, projeto de um    museu, ainda em fase inicial, que pretende catalogar um acervo riqu&iacute;ssimo    com partituras, discos, letras de m&uacute;sicas, antigos programas de r&aacute;dio    e at&eacute; as miniaturas que Adoniran costumava confeccionar e presentear    os amigos. Ator, cantor e compositor, poucos artistas conseguiram traduzir t&atilde;o    bem a cidade de S&atilde;o Paulo em personagens e can&ccedil;&otilde;es. "Adoniran    &eacute; um &iacute;cone da sonoridade paulistana tanto quanto a Avenida Paulista    ou o Parque Ibirapuera s&atilde;o refer&ecirc;ncias da cidade. Ele consegue    expressar em suas m&uacute;sicas o que &eacute; se sentir paulistano",    afirma Maria Izilda Santos de Matos, historiadora da PUC&#45;SP. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a22img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>POESIA DAS MALOCAS</b> Mais conhecido pelas m&uacute;sicas,    Adoniran trabalhou em televis&atilde;o e cinema, mas foi no r&aacute;dio que    atingiu seu auge como artista. Ele se aposentou como r&aacute;dio&#45;ator pela    Record. Nos anos cinquenta e sessenta tinha o programa de maior sucesso da r&aacute;dio    paulista: o <I>Hist&oacute;rias das malocas</I> (1955), onde interpretava Charutinho,    um malandro malsucedido e desocupado. "Seus tipos eram inspirados em pessoas    comuns, falas e entona&ccedil;&otilde;es de diferentes territ&oacute;rios da    cidade", conta Izilda Matos, que publicou, em 2007, <I>A cidade, a noite    e o cronista: S&atilde;o Paulo e Adoniran Barbosa</I>. Adoniran era, acima de    tudo, um observador atento. Ele caminhava na cidade, conversava, ouvia, e, a    partir dessas viv&ecirc;ncias, criava seus personagens. "O ser ator acabou    imprimindo elementos que se tornariam fundamentais para o compositor",    complementa Matos. &Eacute; da cidade que vem o sotaque inconfund&iacute;vel,    uma s&iacute;ntese de elementos da oralidade de imigrantes, negros e nordestinos    que conviviam na capital.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a22img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Nas composi&ccedil;&otilde;es, melancolia e den&uacute;ncia    eram combinadas com humor, com a melodia contagiante e, por que n&atilde;o,    uma boa dose de do&ccedil;ura. &Eacute; um humor sempre ligado ao cotidiano    das grandes cidades: despejos, demoli&ccedil;&atilde;o, desemprego, desencontros.    Nesse sentido foi importante a contribui&ccedil;&atilde;o de Osvaldo Moles,    compositor, parceiro de Adoniran tanto nos programas de r&aacute;dio, quanto    nas letras de v&aacute;rias m&uacute;sicas. De acordo com Izilda Matos, a trajet&oacute;ria    pol&iacute;tica de Osvaldo Moles, ligada a partidos de esquerda, conferia &agrave;s    suas letras esse teor de cr&iacute;tica &agrave; cidade que exibia sinais de    progresso, mas com grandes contrastes. Progresso que n&atilde;o chegava para    todos, excluindo, em particular, os moradores da "saudosa maloca".    "Era a den&uacute;ncia de uma cidade em constru&ccedil;&atilde;o&#45;destrui&ccedil;&atilde;o,    com movimento e ritmo assustadores", afirma a historiadora. "A cidade    mostrava&#45;se violenta em seu crescimento, criando uma vis&atilde;o id&iacute;lica    de um tempo perdido diante do progresso, um tipo de inconformismo que se aproxima    da resist&ecirc;ncia e aponta a den&uacute;ncia e, ao mesmo tempo, apregoa a    paci&ecirc;ncia", explica a historiadora. S&atilde;o exemplos de composi&ccedil;&otilde;es    com esse pano de fundo, <I>Abrigo de vagabundos</I>, <I>O despejo da favela</I>    e <I>Iracema</I> que morre atropelada por n&atilde;o se adaptar ao novo ritmo    da cidade. Para ela diz Adoniran: O chofer n&atilde;o teve curpa, Iracema/Paci&ecirc;ncia,    Iracema, paci&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font size="3"><B>A CIDADE COMO MUSA</b> Em <I>Saudosa maloca</I> &eacute;    expl&iacute;cita a nostalgia do tempo que passou: Saudosa maloca, maloca querida/...donde    n&oacute;s passemos os dias feliz de nossas vida. "Como um <I>flaneur</I>    que capta, observa, talvez o papel do compositor seja ser um sujeito hist&oacute;rico    do seu tempo, antenado, que capta tens&otilde;es, sensibilidades, emo&ccedil;&otilde;es    e as transforma can&ccedil;&otilde;es", acredita Izilda. Por conta disso    ele permanece atual para as novas gera&ccedil;&otilde;es. <I>Saudosa maloca</I>    foi gravada por Adoniran em um tom de den&uacute;ncia, era uma m&uacute;sica    triste e nost&aacute;lgica. De acordo com a historiadora da PUC, na &eacute;poca    em foi lan&ccedil;ada, em 1955, a m&uacute;sica n&atilde;o fez muito sucesso.    Somente quando foi gravada pelo grupo Dem&ocirc;nios da Garoa, em 1965, em um    tom ir&ocirc;nico e bem humorado (o grupo introduziu palavras que d&atilde;o    ritmo para a composi&ccedil;&atilde;o) a m&uacute;sica estourou. </font></p>     <p><font size="3">Elis Regina tamb&eacute;m gravou a m&uacute;sica (1978) em um    tom mais lento e triste fazendo com a que can&ccedil;&atilde;o ganhasse novo    sentido. "Hoje <I>Saudosa maloca </I>foi incorporada pelo Movimento dos    Trabalhadores Sem&#45;Teto (MTST), como uma esp&eacute;cie de hino", conta    Izilda Matos. "Quando v&atilde;o fazer alguma manifesta&ccedil;&atilde;o    eles cantam essa m&uacute;sica, dando&#45;lhe um sentido fortemente pol&iacute;tico.    Ao permitir in&uacute;meras reinterpreta&ccedil;&otilde;es, sua m&uacute;sica    e sua arte, centen&aacute;rias, continuam atuais. Sobretudo, porque nos encontramos    na cidade que ele descreve. Quando fala da cidade de S&atilde;o Paulo, Adoniran    descreve tamb&eacute;m o cotidiano de tantas outras grandes cidades, das transforma&ccedil;&otilde;es    constantes, da mistura de culturas, dos desencontros, da pressa para n&atilde;o    perder o trem, da favela e do corti&ccedil;o, do trabalho necess&aacute;rio    e da pregui&ccedil;a desejada. Muito al&eacute;m do "filho &uacute;nico",    de Arnesto ou Iracema, a cidade &eacute; a grande personagem na obra de Adoniran,    ela &eacute; sua musa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n3/a22img03.gif"></p>     ]]></body>
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