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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/br.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>QUEST&Atilde;O URBANA</b></font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v62n4/line_blk.gif"></p>     <p><font size="4"><b>Tr&acirc;nsito e aumento da frota de ve&iacute;culos tornam vulner&aacute;veis a sa&uacute;de nas cidades</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Caos no tr&acirc;nsito, filas em bancos     e no com&eacute;rcio, transporte p&uacute;blico lotado. Atrasos, cansa&ccedil;o f&iacute;sico e mental. Sensa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a, medo, estresse. Esse estado ca&oacute;tico, hoje comum nos grandes centros urbanos, pode ter uma de suas matrizes no modelo de desenvolvimento que transformou as cidades em verdadeiras bombas&#45;rel&oacute;gio em termos de qualidade de vida e das rela&ccedil;&otilde;es humanas. Por outro lado, a percep&ccedil;&atilde;o e os questionamentos da sociedade civil acerca de problemas que, muitas vezes, permanecem invis&iacute;veis ou sem significado social na esfera pol&iacute;tico&#45;governamental, podem ser o diferencial nas discuss&otilde;es sobre os males causados &agrave; sa&uacute;de p&uacute;blica pelo simples fato de se viver em uma grande cidade.</font></p>     <p><font size="3">Se o foco for apenas a quest&atilde;o da polui&ccedil;&atilde;o atmosf&eacute;rica, percebe&#45;se uma apatia em rela&ccedil;&atilde;o ao tema,     o que contribui, inclusive, para a progressiva diminui&ccedil;&atilde;o da cobertura vegetal nos adensamentos urbanos, que tem afetado n&atilde;o apenas a concentra&ccedil;&atilde;o dos poluentes, mas tamb&eacute;m a manuten&ccedil;&atilde;o das temperaturas.     A excessiva queima de combust&iacute;veis f&oacute;sseis, com a crescente frota de ve&iacute;culos automotores no espa&ccedil;o que deveria ser ocupado pelo transporte p&uacute;blico menos agressivo ao ambiente, como <I>tr&oacute;lebus</I>, trens e metr&ocirc;s, &eacute; um dos principais fatores da queda na qualidade de vida nas regi&otilde;es metropolitanas. Configurado como mecanismo que se auto&#45;alimenta, o perfil ca&oacute;tico dos grandes centros urbanos brasileiros, no que diz respeito ao uso desordenado do solo e ao desatino nos meios de transporte, n&atilde;o apenas afeta a sa&uacute;de de seus habitantes, como eleva em muito seus custos.</font></p>     <p><font size="3">Nos &uacute;ltimos anos, estudos t&ecirc;m procurado mostrar, com resultados cada vez mais significativos, efeitos de morbidade e mortalidade associados aos poluentes do ar. Dados do Laborat&oacute;rio de An&aacute;lise     de Processos Atmosf&eacute;ricos (Lapat) da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) mostram que o gasto anual do Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de (SUS) relacionado com a n&atilde;o redu&ccedil;&atilde;o das emiss&otilde;es de poluentes no Brasil gira em torno de R$ 1,5 bilh&atilde;o, levando em conta o n&uacute;mero de mortes e os custos de morbidade como o tempo m&eacute;dio de interna&ccedil;&atilde;o e o custo dos procedimentos e dos medicamentos. Para Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do Instituto Nacional de An&aacute;lise Integrada do Risco Ambiental, ao desconsiderar o fator humano e os custos para a sa&uacute;de, a promo&ccedil;&atilde;o da circula&ccedil;&atilde;o de autom&oacute;veis acentua o problema da polui&ccedil;&atilde;o, causando danos &agrave; sa&uacute;de e preju&iacute;zos aos cofres p&uacute;blicos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/a04img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>FALTAM POL&Iacute;TICAS P&Uacute;BLICAS</b> Se a promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de &eacute; papel social do Estado e parte integrante dos princ&iacute;pios do SUS, que prev&ecirc; a universalidade do acesso aos servi&ccedil;os, em contrapartida, &eacute; fato que o colapso de metr&oacute;poles como S&atilde;o Paulo n&atilde;o &eacute; fruto do acaso. Deriva de modelos de desenvolvimento marcados pela aus&ecirc;ncia de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas claras e bem estruturadas quanto &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o, &agrave; mobilidade e relacionadas diretamente &agrave; polui&ccedil;&atilde;o atmosf&eacute;rica, considerada, hoje, um dos principais agentes de mortalidade e morbidade nas grandes regi&otilde;es metropolitanas.</font></p>     <p><font size="3">Numa compara&ccedil;&atilde;o entre a maior cidade brasileira e a maior cidade dos Estados Unidos, se v&ecirc; que S&atilde;o Paulo, com mais de 11 milh&otilde;es de habitantes, possui apenas 63 quil&ocirc;metros de linhas de metr&ocirc;, cerca de oito vezes menos do que Nova York, com 479 quil&ocirc;metros de linhas para pouco mais de 8 milh&otilde;es de habitantes. Os riscos &agrave; sa&uacute;de humana por conta da falta de uma pol&iacute;tica p&uacute;blica de incentivo ao transporte coletivo n&atilde;o&#45;poluente ficam ainda mais evidentes, considerando o decorrente aumento da frota de autom&oacute;veis na capital paulista que, em 2010, atingiu as 6,8 milh&otilde;es de unidades, das quais 40% t&ecirc;m idade acima dos 10 anos, ou seja, quase 2,5 milh&otilde;es de autom&oacute;veis que emitem ainda mais poluentes.</font></p>     <p><font size="3"><b>SOMOS O QUE RESPIRAMOS</b> Estudo desenvolvido na USP por Saldiva, com Alfesio Braga e Luiz Alberto Amador Pereira, mostram que o ar, sobretudo nas grandes metr&oacute;poles, &eacute; um dos elementos que mais tem sido agredido pela a&ccedil;&atilde;o humana. O r&aacute;pido crescimento das &aacute;reas metropolitanas, sem planejamento adequado, fez com que  as chamadas fontes m&oacute;veis de polui&ccedil;&atilde;o se tornassem um problema de grande magnitude que, segundo Saldiva, em S&atilde;o Paulo, elas responderem por 90% da emiss&atilde;o de poluentes. A cidade sofre, inclusive, com fen&ocirc;menos meteorol&oacute;gicos naturais, como a invers&atilde;o t&eacute;rmica, t&iacute;pica dos meses secos de inverno, que impede a dispers&atilde;o dos poluentes. E esse ac&uacute;mulo de poluentes acentua a morbidade resultante de doen&ccedil;as, bem como a mortalidade devido a problemas respirat&oacute;rios e cardiovasculares.</font></p>     <p><font size="3">A queima de combust&iacute;veis f&oacute;sseis produz gases que, apesar n&atilde;o&#45;poluentes, contribuem para o aquecimento da temperatura, agravando o efeito estufa. Conforme atesta Vanderlei Borsari, gerente da Companhia Ambiental do Estado de S&atilde;o Paulo (Cetesb), dessa queima tamb&eacute;m resultam gases nocivos &agrave; sa&uacute;de, como &oacute;xidos de nitrog&ecirc;nio, hidrocarbonetos     n&atilde;o&#45;metano, alde&iacute;dos e     mon&oacute;xido de carbono.</font></p>     <p><font size="3">De acordo com artigo publicado pela equipe do N&uacute;cleo Interdisciplinar de Planejamento Energ&eacute;tico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) (revista <I>InterfacEHS</I>, 2007), a polui&ccedil;&atilde;o gera uma enorme degrada&ccedil;&atilde;o da qualidade de vida, provocando uma s&eacute;rie de doen&ccedil;as respirat&oacute;rias, cardiovasculares e neoplasias &#151; morbidades que est&atilde;o entre as principais causas de morte nos centros urbanos. Al&eacute;m de altera&ccedil;&otilde;es inflamat&oacute;rias das vias a&eacute;reas, com preju&iacute;zo dos mecanismos de defesa dos pulm&otilde;es, aumento das crises de asma e dor pr&eacute;&#45;cordial, limita&ccedil;&atilde;o funcional, maior utiliza&ccedil;&atilde;o de medicamentos, de consultas em pronto&#45;socorro e interna&ccedil;&otilde;es hospitalares. Em geral, os mais vulner&aacute;veis s&atilde;o crian&ccedil;as e idosos, que, na capital paulista, comp&otilde;em aproximadamente 15% da popula&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"><b>DESTRUI&Ccedil;&Atilde;O DE RIOS E MATAS</b>     Estudo, conduzido por Saldiva e colegas, destaca que "em S&atilde;o Paulo, assaltamos os leitos de nossos rios, retificando os seus cursos e engessando&#45;os com asfalto ao longo de suas margens. Em resumo, realizamos um processo de esclerose das nossas vias fluviais que, volta e meia, nos cobram o pre&ccedil;o sob a forma de inunda&ccedil;&otilde;es. Falamos do aspecto de tr&aacute;fego com imensa tristeza sem mencionar a deteriora&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do dos rios pelo esgoto, como numa septicemia incontrol&aacute;vel".</font></p>     <p><font size="3">Para os pesquisadores, embora erros fatais tenham sido cometidos, pouco se apreendeu deles, pois, ap&oacute;s a destrui&ccedil;&atilde;o dos rios da regi&atilde;o metropolitana de S&atilde;o Paulo, atualmente a cria&ccedil;&atilde;o do chamado Rodoanel (voltado a diminuir o tr&aacute;fego rodovi&aacute;rio de cargas) vai estrangular as poucas reservas de mata, com a expans&atilde;o da cidade em seu crescimento desenfreado. "Isto ocorre embora a metr&oacute;pole paulista j&aacute; tenha um hist&oacute;rico muito significativo de monitoramento da qualidade do     ar e um conhecimento importante dos seus efeitos sobre a sa&uacute;de", afirmam.</font></p>     <p><font size="3">Nesse sentido, a amplia&ccedil;&atilde;o das marginais do rio Tiet&ecirc; reflete uma pol&iacute;tica excludente, que privilegia os ve&iacute;culos privados no lugar do transporte coletivo.     A obra, al&eacute;m de construir tr&ecirc;s novas pistas em cada margem     do rio, cria complexos vi&aacute;rios que interligam o centro nevr&aacute;lgico a bairros adjacentes     e rodovias, com alargamentos de 16 metros em pontes j&aacute; existentes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">De acordo com a urbanista Raquel Rolnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, em entrevista &agrave; revista <I>F&oacute;rum </I>(Vol.82, 2010), a cadeia de produ&ccedil;&atilde;o do autom&oacute;vel tornou&#45;se um dos elementos essenciais do modelo de desenvolvimento econ&ocirc;mico, representando mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) do pa&iacute;s. &Eacute; expl&iacute;cita, dessa forma, a influ&ecirc;ncia que tal desequil&iacute;brio exerce sobre a sa&uacute;de humana. Entretanto, por mais &oacute;bvias que essas informa&ccedil;&otilde;es possam parecer, suas dimens&otilde;es ainda n&atilde;o foram nem assimiladas nem discutidas de modo suficiente pela sociedade, para que se pense em uma formula&ccedil;&atilde;o diferente do estilo de vida em prol da sa&uacute;de &#151; um estado de completo bem&#45;estar f&iacute;sico, mental e social, como define a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Samuel Antenor</i>    <br> <i>colaboraram Rodrigo de Oliveira Andrade    <br>  e Moys&eacute;s Floriano Machado&#45;Filho</i></font></p>      ]]></body>
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