<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252010000400006</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[De volta à era pré-antibiótica: a busca emergencial por novos arcabouços]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Morales]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ana Paula]]></given-names>
</name>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Caldas]]></surname>
<given-names><![CDATA[Cristina]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>62</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>14</fpage>
<lpage>16</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252010000400006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252010000400006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252010000400006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/mundo.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>A<SMALL>NTIBI&Oacute;TICOS</SMALL></b></font></p>     <p><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/line_blk.gif"></font></p>     <p><font size="4"><b>De volta &agrave; era pr&eacute;-antibi&oacute;tica: a busca emergencial por novos arcabou&ccedil;os</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">H&aacute; controv&eacute;rsias se o termo "antibi&oacute;tico" teria sido cunhado por Selman Waksman, laureado com Pr&ecirc;mio Nobel "pela descoberta da estreptomicina, o primeiro antibi&oacute;tico efetivo contra tuberculose", ou pelo disc&iacute;pulo de Louis Pasteur, Paul Vuillemin, que introduziu o conceito de "antibiose", processo no qual um organismo produz uma subst&acirc;ncia que impede ou dificulta o crescimento de outro organismo. Mas quando o assunto &eacute; a crescente taxa de resist&ecirc;ncia bacteriana a tais medicamentos &#150; em fun&ccedil;&atilde;o do uso abusivo e inadequado &#150;, o consenso entre os especialistas impera. As principais urg&ecirc;ncias da &aacute;rea, amparadas pela Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de (OMS) s&atilde;o: controle rigoroso da venda, monitoramento constante do consumo e desenvolvimento de novos antibi&oacute;ticos.</font></p>     <p><font size="3">"A resist&ecirc;ncia bacteriana &eacute; um problema mundial de sa&uacute;de p&uacute;blica", afirma Julival Ribeiro, chefe do Departamento de Microbiologia do Hospital de Base de Bras&iacute;lia . O grave problema da resist&ecirc;ncia desenvolvida pelas bact&eacute;rias <I>Pseudomonas aeruginosa</I> e <I>Acinetobacter spp</I> &eacute; um exemplo claro de qu&atilde;o cr&iacute;tica &eacute; a situa&ccedil;&atilde;o. Segundo Ribeiro, tais bact&eacute;rias respondem somente a um &uacute;nico antibi&oacute;tico, a polimixina, desenvolvida na d&eacute;cada de 1950. A exist&ecirc;ncia desse tipo de bact&eacute;rias, chamadas multirresistentes, nos deixa vulner&aacute;veis a esses microrganismos. "Estamos vivendo a era pr&eacute;&#45;antibi&oacute;tica, ou seja, estamos voltando a viver sem antibi&oacute;tico", alerta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/a06img01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Lauri Hicks, m&eacute;dica do Centro de Controle e Preven&ccedil;&atilde;o de Doen&ccedil;as (CDC, na sigla em ingl&ecirc;s) nos Estados Unidos, acredita que rastrear o uso de antibi&oacute;ticos &eacute; fundamental para entender quais profissionais de sa&uacute;de prescrevem mais e para quais condi&ccedil;&otilde;es cl&iacute;nicas ou doen&ccedil;as, como uma forma de entender o uso inapropriado de antibi&oacute;ticos. "Usamos essas informa&ccedil;&otilde;es para definir o alvo de interven&ccedil;&otilde;es e a&ccedil;&otilde;es educacionais", diz. Hicks &eacute; diretora do "Get smart: know when antibiotics work", programa que tem uma agenda de pesquisa e tamb&eacute;m organiza campanhas educativas voltadas para os profissionais de sa&uacute;de e o p&uacute;blico em geral. Um dos alvos &eacute; esclarecer que os antibi&oacute;ticos curam infec&ccedil;&otilde;es bacterianas e n&atilde;o virais, como gripes e resfriados, a maioria das tosses e bronquites, dores de garganta n&atilde;o causadas por estreptococo ou uma simples coriza.</font></p>     <p><font size="3">Uma recente pesquisa de percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica sobre a resist&ecirc;ncia bacteriana, realizada pelo Eurobar&ocirc;metro (&oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por pesquisas de opini&atilde;o p&uacute;blica da Uni&atilde;o Europeia) e publicada em abril, revela que, apesar de 95% dos europeus dizerem ter obtido antibi&oacute;ticos por meio de prescri&ccedil;&atilde;o ou diretamente de um m&eacute;dico, 53% deles ainda acredita que esse tipo de medicamento pode combater os v&iacute;rus e 47% acha que s&atilde;o eficazes contra a gripe e resfriados. Al&eacute;m da falta de informa&ccedil;&atilde;o dos consumidores, outros aspectos contribuem para o consumo indiscriminado de antibi&oacute;ticos: mais de 50% das prescri&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas para essas subst&acirc;ncias no mundo s&atilde;o inadequadas, segundo a OMS.</font></p>     <p><font size="3">Campanhas conduzidas mundo afora mostram que diferentes esfor&ccedil;os na tentativa de diminui&ccedil;&atilde;o do consumo de antibi&oacute;ticos podem trazer resultados positivos, conforme an&aacute;lise feita por pesquisadores da &aacute;rea e publicada na revista <I>Lancet Infectious Diseases</I> (Vol.10, no.1, 2010). Na Fran&ccedil;a, a campanha "Antibi&oacute;ticos n&atilde;o s&atilde;o autom&aacute;ticos", realizada entre 2002 e 2007, reduziu em 26,5% o consumo do medicamento no pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="3">Outro monitoramento importante &eacute; o de microrganismos resistentes presentes em hospitais, uma vez que o frequente uso de antimicrobianos nesses ambientes potencializa a sele&ccedil;&atilde;o de linhagens que n&atilde;o respondem a m&uacute;ltiplos antibi&oacute;ticos. No Brasil, estimativas da OMS apontam que as infec&ccedil;&otilde;es hospitalares atingem 14% dos pacientes internados. No mundo todo, estima&#45;se que 1,4 milh&atilde;o de pessoas sofram de infec&ccedil;&otilde;es contra&iacute;das em hospitais.</font></p>     <p><font size="3"><b>CONTROLANDO A VENDA NO BRASIL</b>  A Ag&ecirc;ncia Nacional de Vigil&acirc;ncia Sanit&aacute;ria (Anvisa) convocou, em mar&ccedil;o, uma audi&ecirc;ncia p&uacute;blica para discutir medidas mais restritivas para a prescri&ccedil;&atilde;o e venda dos antibi&oacute;ticos no Brasil. S&oacute; no pa&iacute;s, tal com&eacute;rcio movimentou, em 2009, cerca de R$ 1,6 bilh&atilde;o, segundo relat&oacute;rio do instituto IMS Health. O consumo m&eacute;dio de antibi&oacute;ticos nos oito pa&iacute;ses de maior mercado farmac&ecirc;utico da Am&eacute;rica Latina aumentou em cerca de 10% entre 1997 e 2007, segundo estudo publicado em mar&ccedil;o na <I>Revista Panamericana de Sa&uacute;de P&uacute;blica</I> (Vol.27, no.3, 2010). No Brasil, esse aumento foi da ordem de 8% no mesmo per&iacute;odo.</font></p>     <p><font size="3">"&Eacute;de suma import&acirc;ncia um controle rigoroso na venda de antimicrobianos, j&aacute; que seu uso indiscriminado pode predispor a uma maior resist&ecirc;ncia bacteriana e, portanto,     a uma vida &uacute;til menor dos mesmos", diz Augusto Diogo Filho, membro da Comiss&atilde;o de Controle de   Antimicrobianos do Hospital de Cl&iacute;nicas da Universidade Federal de Uberl&acirc;ndia.</font></p>     <p><font size="3">As medidas sugeridas pela Anvisa receberam grande apoio dos profissionais da sa&uacute;de. A inclus&atilde;o dos antibi&oacute;ticos na categoria de medicamentos de controle especial, como proposto pelo &oacute;rg&atilde;o, tornaria mais rigoroso o controle da apresenta&ccedil;&atilde;o da prescri&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica para a venda desse tipo de rem&eacute;dio &#150; j&aacute; previsto na legisla&ccedil;&atilde;o, mas que nem sempre &eacute; cumprido &#150;, com a reten&ccedil;&atilde;o da receita m&eacute;dica no ato da compra e o controle eletr&ocirc;nico da movimenta&ccedil;&atilde;o de alguns antibi&oacute;ticos nas farm&aacute;cias e drogarias pelo Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados.</font></p>     <p><font size="3"><b>A BUSCA POR NOVOS ANTIBI&Oacute;TICOS</b>  A maioria dos antibi&oacute;ticos dispon&iacute;veis atualmente s&atilde;o derivados de estruturas b&aacute;sicas introduzidas entre meados da d&eacute;cada de 1930 e final da d&eacute;cada de 1960, de acordo com revis&atilde;o publicada por Fischbach e Walsh na revista <I>Science</I>, (Vol.325, no.5944, 2009). Segundo os cientistas, as novas gera&ccedil;&otilde;es de antibi&oacute;ticos s&atilde;o, em sua grande maioria, resultados de modifica&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas perif&eacute;ricas desses arcabou&ccedil;os antigos. Por exemplo, a amoxicilina &eacute; uma simples modifica&ccedil;&atilde;o da penicilina.</font></p>     <p><font size="3">A OMS alerta para a diminui&ccedil;&atilde;o de novas fam&iacute;lias de drogas antimicrobianas, que por muito tempo garantiam estarmos "&agrave; frente" dos pat&oacute;genos, e para a escassez de incentivos para o desenvolvimento de novas drogas desse tipo. Aliado ao fato de que o tratamento de infec&ccedil;&otilde;es bacterianas geralmente &eacute; curto, durando apenas alguns dias (o que n&atilde;o &eacute; rent&aacute;vel), o pr&oacute;prio mecanismo de resist&ecirc;ncia bacteriana &eacute; um fator que desmotiva a ind&uacute;stria, "porque sempre ser&atilde;o necess&aacute;rios novos antibi&oacute;ticos, o que demandaria investimentos cont&iacute;nuos", afirma Ricardo Henrique Kruger, pesquisador da Universidade de Bras&iacute;lia. Aqui entra a iniciativa dos pesquisadores na busca de novos agentes microbianos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Michael Fischbach, pesquisador da Universidade da Calif&oacute;rnia em S&atilde;o Francisco, acredita que tr&ecirc;s estrat&eacute;gias s&atilde;o igualmente promissoras na busca por novos antibi&oacute;ticos: pesquisar nichos microbiol&oacute;gicos pouco explorados, desenhar estrat&eacute;gias que previnam o uso de arcabou&ccedil;os que j&aacute; est&atilde;o no mercado e redirecionar o uso de bibliotecas de mol&eacute;culas sint&eacute;ticas. "Parte de nossa pesquisa envolve o uso de estrat&eacute;gias de gen&ocirc;mica para descobrir novos antibi&oacute;ticos de <I>Streptomyces</I> e actinomicetos relacionados", diz. Em colabora&ccedil;&atilde;o com o pesquisador Christopher Walsh, da Universidade de Harvard, Fischbach estuda como as bact&eacute;rias sintetizam uma classe de antibi&oacute;ticos conhecidos como pept&iacute;deos thiazolyl.</font></p>     <p><font size="3">No Brasil, Kruger desenvolve um projeto em parceria com o HBDF, na busca por drogas que combatam as principais cepas bacterianas causadoras de infec&ccedil;&otilde;es no local: <I>Acinetobacter baumannii</I> e <I>Pseudomonas aeruginosa</I>. Ele explora o solo do Cerrado em busca de microrganismos que produzem antibi&oacute;ticos, a fim de encontrar algum composto que se mostre eficaz contra as cepas multirresistentes. "O solo tem a maior diversidade e riqueza de produtos bacterianos de todas as amostras ambientais, e quanto mais diversa &eacute; a amostra inicial, maior a sua chance de encontrar &#91;um novo antibi&oacute;tico&#93;", argumenta.</font></p>     <p><font size="3">Outras iniciativas foram dadas por um grupo de cientistas liderado pelo pesquisador Oct&aacute;vio Franco, do Centro de Ci&ecirc;ncias Gen&ocirc;micas e Biotecnologia da Universidade Cat&oacute;lica de Bras&iacute;lia que, recentemente, descobriu no ouri&ccedil;o&#45;do&#45;mar um pept&iacute;deo com atividade antimicrobiana eficiente contra as bact&eacute;rias <I>Escherichia coli</I>, <I>Salmonella, Proteus</I> e <I>Klebsiella</I>, que causam infec&ccedil;&otilde;es intestinais, renais e pulmonares. O grupo j&aacute; tem cinco mol&eacute;culas antibi&oacute;ticas patenteadas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/a06img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O momento atual &eacute; de buscar novos arcabou&ccedil;os. Uma vis&atilde;o promissora, de acordo com cientistas que estudam o papel ecol&oacute;gico de antibi&oacute;ticos na natureza, &eacute; passar a olhar tais mol&eacute;culas mais como pacificadoras em suas comunidades e menos como armas biol&oacute;gicas. Antibi&oacute;ticos produzidos por bact&eacute;rias no solo ligam e desligam genes de outros microrganismos e orquestram o crescimento da comunidade, consolidando uma fun&ccedil;&atilde;o muito mais de facilitadores de comunica&ccedil;&atilde;o do que de guerra. "Fa&ccedil;a um amplo rastreamento por sinaliza&ccedil;&atilde;o e voc&ecirc; achar&aacute; novos antibi&oacute;ticos", disse Roberto Kolter, pesquisador da Universidade de Harvard, &agrave; revista <I>Science</I>. Entender o real papel dos antibi&oacute;ticos na natureza pode trazer nova luz ao problema da resist&ecirc;ncia bacteriana.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>AS BACT&Eacute;RIAS MAIS PRESENTES NOS HOSPITAIS DO PA&Iacute;S</b></font></p>     <p><font size="3">Os dados coletados pela Rede Nacional de Monitoramento da Resist&ecirc;ncia Microbiana em Servi&ccedil;os de Sa&uacute;de &#150; Rede RM, entre julho de 2006 e junho de 2008, revelam que os organismos mais presentes nos hospitais brasileiros foram os do g&ecirc;nero <I>Staphylococcus</I>, (47% das notifica&ccedil;&otilde;es), seguidos da <I>Klebsiella pneumoniae</I>, que respondeu por 13%, <I>Pseudomonas aeruginosa</I> (11%), <I>Acinetobacer</I> (11%), <I>Enterobacter</I> (6%), <I>Enterococcus</I> (5%) e <I>Candida</I> (4%).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Ana Paula Morales e Cristina Caldas</i></font></p>      ]]></body>
</article>
