<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252010000400008</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Alimento e alimentação]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Batista Filho]]></surname>
<given-names><![CDATA[Malaquias]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>62</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>20</fpage>
<lpage>22</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252010000400008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252010000400008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252010000400008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/artigos.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5>APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O</font></p>     <p align="center"><font size=5><b>ALIMENTO E ALIMENTA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p align="center"><b><font size="3">Malaquias Batista Filho</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>A</b></font><font size="3">limenta&ccedil;&atilde;o e seu reflexo biol&oacute;gico (a nutri&ccedil;&atilde;o) representam os tra&ccedil;os de rela&ccedil;&otilde;es mais fortes da vida humana com o ambiente. &Eacute; atrav&eacute;s dos alimentos que se estabelece o ciclo de trocas com o meio f&iacute;sico, bi&oacute;tico e social, constituindo ecossistemas saud&aacute;veis ou insalubres. Um bom estado de nutri&ccedil;&atilde;o sup&otilde;e uma condi&ccedil;&atilde;o de equil&iacute;brio no complexo de fatores que se articulam na produ&ccedil;&atilde;o, consumo e utiliza&ccedil;&atilde;o metab&oacute;lica de energia e de nutrientes, em n&iacute;vel celular, individual ou em escala coletiva. Desvios para menos, levando, por diferentes mediadores, &agrave;s doen&ccedil;as carenciais, ou para mais, produzindo os excessos e impropriedades alimentares nutricionais, podem ser entendidos como desequil&iacute;brios que alteram os ecossistemas de vida das pessoas e das comunidades.</font></p>     <p><font size="3">Dessa forma, ao considerar a alimenta&ccedil;&atilde;o, o estado de nutri&ccedil;&atilde;o e de sa&uacute;de de indiv&iacute;duos e de popula&ccedil;&otilde;es, no presente, no passado e em suas tend&ecirc;ncias para o futuro, na verdade est&aacute; se fazendo um invent&aacute;rio da hist&oacute;ria, um exame descritivo e anal&iacute;tico da atualidade e um progn&oacute;stico (sempre temer&aacute;rio, mas sempre pertinente) dos desafios que devem ou podem aparecer. &Eacute; com essa vis&atilde;o que se apresenta, neste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico, sete artigos de diferentes estudiosos, representando diversas profiss&otilde;es e enfoques sobre quest&otilde;es relacionadas com alimentos e alimenta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Embora bem jovem, Sueli Aparecida Moreira, autora do artigo "Alimenta&ccedil;&atilde;o e comensalidade: aspectos hist&oacute;ricos e antropol&oacute;gicos" dedica&#45;se a um campo visitado por poucos estudiosos, quase sempre idosos. Ou seja, o retrospecto do homem desde os estados mais primitivos da esp&eacute;cie at&eacute; os cen&aacute;rios da modernidade. Refaz, desse modo, com o suporte da arqueologia, da antropologia e da hist&oacute;ria propriamente dita, a saga da humanidade na busca da provis&atilde;o de alimentos, desde a for&ccedil;a instintiva da fome at&eacute; o poder <I>instrutivo</I> do mercado liberal, aberto para todos, com exce&ccedil;&atilde;o dos muitos que n&atilde;o t&ecirc;m dinheiro para suas crescentes e sofisticadas demandas. O passado e o presente da alimenta&ccedil;&atilde;o contam a hist&oacute;ria do pr&oacute;prio homem, suas necessidades materiais, suas inquieta&ccedil;&otilde;es existenciais, seus conflitos interiores e exteriores, suas cren&ccedil;as transcendentais. Mais do que a materialidade dos diversos itens que fazem a pauta qualitativa do consumo, al&eacute;m dos conhecimentos cient&iacute;ficos que descrevem o valor nutritivo de cada produto natural ou industrialmente processado, os alimentos, ou melhor, a alimenta&ccedil;&atilde;o tem um valor simb&oacute;lico, uma identidade cultural pr&oacute;pria que a modernidade, com suas demandas globalizantes, n&atilde;o consegue descaracterizar completamente. Nesse sentido, as observa&ccedil;&otilde;es de Sueli Aparecida sobre as transfigura&ccedil;&otilde;es de processos culin&aacute;rios representados na moderna gastronomia (os pratos h&iacute;bridos, as "migra&ccedil;&otilde;es" dos temperos, a miscigena&ccedil;&atilde;o dos sabores) s&atilde;o exemplos instigantes. H&aacute; 300 mil anos, com a descoberta do fogo, fez&#45;se a cozinha, como o primeiro laborat&oacute;rio do homem, possibilitando o salto tecnol&oacute;gico do cozimento. E, de laborat&oacute;rio em laborat&oacute;rio, desde as pesquisas b&aacute;sicas que fazem os transg&ecirc;nicos no in&iacute;cio da cadeia alimentar at&eacute; a sofistica&ccedil;&atilde;o final dos produtos liofilizados, se materializa a hist&oacute;ria da alimenta&ccedil;&atilde;o humana, casada cada vez mais com a pr&oacute;pria hist&oacute;ria de povos e civiliza&ccedil;&otilde;es e divorciada, tamb&eacute;m cada vez mais, da natureza.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O artigo "Transi&ccedil;&atilde;o alimentar/nutricional ou muta&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica" trata de um dos maiores desafios dos tempos atuais e seus futuros desdobramentos: como e para onde caminha esse processo de mudan&ccedil;as cada vez mais aceleradas, que altera de um ano para outro (e bem nitidamente, de um dec&ecirc;nio para outro), o quadro de doen&ccedil;as e causas de morte? Como e para onde, no contexto da transi&ccedil;&atilde;o epidemiol&oacute;gica, evolui um de seus mais importantes componentes, a transi&ccedil;&atilde;o alimentar/nutricional?</font></p>     <p><font size="3">Os dois processos de mudan&ccedil;as, com suas combina&ccedil;&otilde;es de causas e efeitos, representam, em seus resultados finais, um balan&ccedil;o de aspectos positivos e negativos bem evidentes. A passagem da expectativa de uma vida m&eacute;dia de 33 anos, vigente h&aacute; cerca de um s&eacute;culo, para a estimativa que hoje j&aacute; supera os 80 anos em alguns pa&iacute;ses, &eacute; uma prova sem contesta&ccedil;&atilde;o dos ganhos que a modernidade conquistou.</font></p>     <p><font size="3">H&aacute; pouco mais de 60 anos, dois ter&ccedil;os da humanidade passava fome. Hoje, oscila em 15%, quando j&aacute; poderia ser menos de 10%. Muitas doen&ccedil;as associadas a car&ecirc;ncias nutricionais foram erradicadas e controladas. Claro, n&atilde;o estamos nos referindo &agrave;s grandes discrep&acirc;ncias que as situa&ccedil;&otilde;es heterog&ecirc;neas de condi&ccedil;&otilde;es de vida imprimem &agrave;s compara&ccedil;&otilde;es entre indigentes, remediados e ricos de todo o mundo.</font></p>     <p><font size="3">No entanto, ao lado do progresso evidente, desenha&#45;se um cen&aacute;rio de incertezas que, j&aacute; comprometendo o presente, projeta&#45;se assustadoramente para o futuro. A transi&ccedil;&atilde;o alimentar/nutricional, nesse contexto, mostra sua outra face. Mant&ecirc;m&#45;se, ainda, os problemas carenciais correspons&aacute;veis por mais de 50% das mortes de crian&ccedil;as no mundo, enquanto quatro das doen&ccedil;as relacionadas com a alimenta&ccedil;&atilde;o, nutri&ccedil;&atilde;o e estilos de vida ocidentais se associam a quase 60% das mortes de popula&ccedil;&otilde;es adultas. E n&atilde;o s&atilde;o apenas os velhos males: doen&ccedil;as novas est&atilde;o surgindo. Ou ressurgindo males antigos. E a grande interroga&ccedil;&atilde;o: para onde vamos?</font></p>     <p><font size="3">A professora Sandra Roberta Ferreira, autora do estudo "Alimenta&ccedil;&atilde;o, nutri&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de: avan&ccedil;os e conflitos da modernidade" ocupa, como docente e pesquisadora, um espa&ccedil;o privilegiado de observa&ccedil;&otilde;es e experi&ecirc;ncias no dia a dia de suas atividades profissionais. Transitando entre a Escola Paulista de Medicina e a Faculdade de Sa&uacute;de P&uacute;blica da USP percorre, de fato, um itiner&aacute;rio bem maior, como participante de um estudo multic&ecirc;ntrico que se desenvolve no Brasil, Jap&atilde;o e Estados Unidos sobre <I>diabetes mellitus</I> tipo 2. S&atilde;o j&aacute; 20 anos caminhando, contando e seguindo as li&ccedil;&otilde;es que se renovam, de forma surpreendente, nas mais de duzentas publica&ccedil;&otilde;es (revistas, livros, anais de simp&oacute;sios e congressos nacionais e internacionais) que o grupo tem produzido a partir do problema do <I>diabetes mellitus</I>, doen&ccedil;as associadas e contexto de vida de diferentes popula&ccedil;&otilde;es dos tr&ecirc;s pa&iacute;ses, com &ecirc;nfase nos aspectos alimentares. Trata&#45;se de uma experi&ecirc;ncia muito rica para os participantes do N&uacute;cleo Tem&aacute;tico aqui apresentado. De fato, o <I>diabetes mellitus </I>tipo 2 representa, possivelmente, uma doen&ccedil;a paradigm&aacute;tica das grandes mudan&ccedil;as que est&atilde;o redesenhando o perfil de morbimortalidade no mundo. Reflete, de fato, como imagem matriz, as transforma&ccedil;&otilde;es marcantes que est&atilde;o transcorrendo nos h&aacute;bitos alimentares, estilos de vida e quadro de valores comportamentais (inclusive &eacute;ticos) do mundo moderno. N&atilde;o pode ser entendida como uma doen&ccedil;a solit&aacute;ria: comp&otilde;e, de fato, um conjunto de morbidades parceirizadas com as doen&ccedil;as cr&ocirc;nicas n&atilde;o transmiss&iacute;veis (DCNT) que, h&aacute; pouco mais de 20 anos, assumiram o topo das causas de morte da popula&ccedil;&atilde;o de todos os pa&iacute;ses ricos e de um ter&ccedil;o &agrave; metade das na&ccedil;&otilde;es em desenvolvimento. S&oacute; a t&iacute;tulo de exemplo: um comit&ecirc; de especialistas da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de, consolidando dados de s&eacute;ries temporais, prev&ecirc; que em 30 anos, a preval&ecirc;ncia de <I>diabetes mellitus</I> tipo 2 dever&aacute; duplicar. Ora, j&aacute; se disp&otilde;e de dados, como no caso de Pernambuco, de que esta estimativa pode ser duplicada ou triplicada dentro de apenas dez anos. Na verdade, o progresso material dos tempos modernos n&atilde;o &eacute; apenas uma sucess&atilde;o linear de conquistas e bem&#45;estar: &eacute;, tamb&eacute;m, um <I>front</I> de pequenos e grandes males para a sa&uacute;de do homem.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/a08img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">No artigo "Seguran&ccedil;a alimentar e nutricional: pressupostos para uma nova cidadania", de Am&aacute;lia Leonel Nascimento e Sonia L&uacute;cia de Andrade, exp&otilde;e&#45;se a curiosa sequ&ecirc;ncia de um conceito que, em menos de um s&eacute;culo, mudou de forma e conte&uacute;do doutrin&aacute;rio, at&eacute; se constituir num estatuto de cidadania. Thomas Mann, em sua utopia, e Rousseau, em seu pioneirismo pela justi&ccedil;a social, assumiriam com toda convic&ccedil;&atilde;o esses postulados. De fato, numa leitura otimizada do conceito, j&aacute; em sua vers&atilde;o do s&eacute;culo XXI, fica claramente configurada uma proposta de exerc&iacute;cio pleno de cidadania, tendo na seguran&ccedil;a alimentar seu n&uacute;cleo de sustenta&ccedil;&atilde;o, que vai al&eacute;m, muito al&eacute;m, de se acessar tr&ecirc;s, quatro ou cinco boas refei&ccedil;&otilde;es ao dia, cobrindo todo o abeced&aacute;rio da nutri&ccedil;&atilde;o de A (vitamina A) a Z (zinco).</font></p>     <p><font size="3">Muito rapidamente: a fome no passado b&iacute;blico era um castigo sobrenatural administrado em pacotes epidemiol&oacute;gicos, junto com as doen&ccedil;as pestilenciais e as guerras que, &agrave;s vezes, duravam cem anos, mesmo sendo santas. No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, a guerra entre pa&iacute;ses entra, estrategicamente, na hist&oacute;ria da seguran&ccedil;a alimentar: ganhavam a luta as for&ccedil;as armadas que, ao lado dos canh&otilde;es, tinham campos de produ&ccedil;&atilde;o ou armazenagem de alimentos para abastecer suas tropas e suas popula&ccedil;&otilde;es. Tornava&#45;se, portanto, uma quest&atilde;o de seguran&ccedil;a nacional. Finda a Segunda Guerra Mundial a seguran&ccedil;a alimentar mudou de alcance e de estrat&eacute;gia com o advento da Revolu&ccedil;&atilde;o Verde, entendendo&#45;se que o problema da fome era uma quest&atilde;o tecnol&oacute;gica de produ&ccedil;&atilde;o de alimentos. Trinta anos de paz (Confer&ecirc;ncia da FAO, 1974) e desloca&#45;se radicalmente o foco da seguran&ccedil;a: o n&oacute; g&oacute;rdio da quest&atilde;o milenar da fome teria que ser desatado nas amarras da pobreza, como uma quest&atilde;o de renda do produtor/consumidor de alimentos. Finalmente, o cen&aacute;rio conclusivo: a seguran&ccedil;a alimentar e nutricional &eacute; um direito de todos, como parte de um conceito de cidadania que s&oacute; se realiza no contexto de todos os outros direitos. Ou seja, direitos econ&ocirc;micos, sociais, pol&iacute;ticos, culturais, coparticipativos, deveres &eacute;ticos e ecol&oacute;gicos, todos unidos e exercidos &agrave; luz de um foco no futuro: a sustentabilidade. &Eacute; o desafio para uma nova civiliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Ricardo Abramovay, autor do artigo "Alimentos <I>versus</I> popula&ccedil;&atilde;o: est&aacute; ressurgindo o fantasma malthusiano?" tem, desde os primeiros anos de sua vida profissional, uma s&oacute;lida hist&oacute;ria de reflex&atilde;o cr&iacute;tica e de milit&acirc;ncia pol&iacute;tica em torno dos grandes temas de uma economia humanizada e sustent&aacute;vel. Esse trabalho recoloca na agenda dos debates mais cruciais dos nossos tempos a quest&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o de alimentos e seu consumo, seja na situa&ccedil;&atilde;o atual seja em suas proje&ccedil;&otilde;es para o futuro. Resgata&#45;se, em parte, a l&oacute;gica e as advert&ecirc;ncias de Thomas Malthus, o pastor religioso que, em sua &eacute;poca, fundou as bases de uma paradisciplina, hoje com estatuto de disciplina curricular com muitas aplica&ccedil;&otilde;es: a demografia. Mas, ao lado do pioneirismo dos conceitos malthusianos e suas contribui&ccedil;&otilde;es para o entendimento da din&acirc;mica populacional, o que de fato ficou como interpreta&ccedil;&atilde;o mais estigmatizante de sua teoria foi a tese de que a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos se fazia segundo o ritmo de uma escala aritm&eacute;tica, enquanto a popula&ccedil;&atilde;o cresceria segundo os termos de uma progress&atilde;o geom&eacute;trica. Essas tend&ecirc;ncias divergentes dos dois termos da equa&ccedil;&atilde;o conduziria, matematicamente, &agrave; fome, como um desfecho previs&iacute;vel e fatal. Na sua perspectiva, as mortes por conta da fome, doen&ccedil;as e guerras eram alternativas "naturais" para restabelecer o equil&iacute;brio demogr&aacute;fico, controlando seu vetor principal: o crescimento populacional.</font></p>     <p><font size="3">Pondo de lado os aspectos ideol&oacute;gicos (Malthus era, de fato e de direito, um reacion&aacute;rio) o que sobra de verdade nas suas predi&ccedil;&otilde;es, como um maldito profeta do Apocalipse? &Eacute; na dire&ccedil;&atilde;o desse questionamento que Ricardo Abramovay recoloca Malthus na ribalta dos novos cen&aacute;rios e seus desafios, levando em conta os novos enredos de um mundo em r&aacute;pida transi&ccedil;&atilde;o. Claro: o foco mais imediato &eacute; o problema alimentar, como carro&#45;chefe de uma cadeia de outras grandes quest&otilde;es que preocupam o presente e o futuro da pr&oacute;pria vida como ecossistema vi&aacute;vel e sustent&aacute;vel. Vale a pena ler, reler e consultar Abramovay, que coordena o N&uacute;cleo de Economia Socioambiental da USP, um centro de converg&ecirc;ncias e de irradia&ccedil;&atilde;o de ideias e movimentos em torno do que deve ser o desenvolvimento humano.</font></p>     <p><font size="3">Mantendo, h&aacute; v&aacute;rios anos, um interc&acirc;mbio muito ativo com a Universidade de Paris, junto ao n&uacute;cleo mais consolidado de estudos sociol&oacute;gicos e antropol&oacute;gicos sobre alimenta&ccedil;&atilde;o no mundo, Rossana Proen&ccedil;a apresenta uma excelente s&iacute;ntese sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre cultura, pr&aacute;ticas alimentares e a hist&oacute;ria da humanidade. No prato, na mesa, na cozinha, nos bares e restaurantes, se opera o jogo da din&acirc;mica sociocultural e ambiental, com seus antecedentes, seus processos, valores, demandas e expectativas. A alimenta&ccedil;&atilde;o &eacute; uma das coprodu&ccedil;&otilde;es da hist&oacute;ria.</font></p>     <p><font size="3">No longo itiner&aacute;rio que resgata os pr&oacute;prios caminhos do g&ecirc;nero humano, do <I>Homo sapiens</I> ao <I>Homo sedentarius</I> dos tempos modernos, a alimenta&ccedil;&atilde;o &eacute; um testemunho vivo das civiliza&ccedil;&otilde;es at&eacute; chegar &agrave; globaliza&ccedil;&atilde;o atual. Agora, &eacute; o tempo das encruzilhadas &#150; misturam&#45;se as cozinhas, os temperos se tornam h&iacute;bridos, alimentos produzidos no Extremo Oriente s&atilde;o consumidos no Ocidente e vice&#45;versa, pelas trocas comerciais, pelo transplante de sementes para a forma&ccedil;&atilde;o de lavouras em outros continentes, pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o invasivos que propagam novos valores e novos h&aacute;bitos. &Eacute; um paradoxo que o encurtamento do tempo e do espa&ccedil;o, agora, distancia as pessoas, f&iacute;sica e emocionalmente, de tal forma que a comida, que era um ato solid&aacute;rio de uni&atilde;o e congra&ccedil;amento, se torna um evento solit&aacute;rio, que se faz como uma circunst&acirc;ncia ocasional no dia a dia da jornada de trabalho e da vida. Afasta&#45;se a caracter&iacute;stica familiar, perde&#45;se o v&iacute;nculo com a comunidade, chega&#45;se ao tecnicismo das composi&ccedil;&otilde;es de nutrientes e at&eacute; &agrave; sofistica&ccedil;&atilde;o da gastronomia molecular. Poucos sabem o que &eacute; isto, mas logo, logo, o termo ganhar&aacute; <I>status</I> de globaliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">O artigo de F&aacute;bio Gomes, In&ecirc;s Rugani de Castro e Carlos Monteiro, analisando marchas, contramarchas e, portanto, desafios que devem ser enfrentados no controverso processo de regulamenta&ccedil;&atilde;o da propaganda de alimentos no Brasil, ultrapassa em muito os objetivos de uma simples contribui&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e cient&iacute;fica. O que est&aacute; em foco, mais que os argumentos, r&eacute;plicas e tr&eacute;plicas, &eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o que confronta o interesse da sa&uacute;de coletiva face ao discurso e &agrave; pr&aacute;tica de livre mercado segundo princ&iacute;pios do <I>catecismo liberal do deixar fazer</I>. N&atilde;o se presta conta, porque o mercado livre, no seu jogo de lucros, perdas e danos, se autorregularia, corrigindo, validando ou excluindo erros, desvios e impropriedades. Uma quest&atilde;o de cren&ccedil;a?</font></p>     <p><font size="3">O caso do Brasil &eacute; um tanto singular. S&atilde;o t&atilde;o not&oacute;rias, eloquentes e conclusivas as observa&ccedil;&otilde;es sobre os riscos de pr&aacute;ticas alimentares adversas &#150; durante a gravidez para o bin&ocirc;mio m&atilde;e&#45;feto; nos primeiros meses de vida pelo desmame e erros da alimenta&ccedil;&atilde;o substitutiva durante o crescimento e desenvolvimento; na inf&acirc;ncia e adolesc&ecirc;ncia; ou por toda a vida em qualquer idade &#150;, que as Na&ccedil;&otilde;es Unidas (OMS) elaboraram um documento de consulta e ades&atilde;o para os mandat&aacute;rios de todos os pa&iacute;ses do mundo, propondo normas e estabelecendo compromissos sobre conceitos e pr&aacute;ticas da alimenta&ccedil;&atilde;o saud&aacute;vel. Mais ainda: as grandes empresas da ind&uacute;stria de alimentos, em seus pa&iacute;ses de origem ou em suas filiais, num consenso inteligente (pois do contr&aacute;rio seria remar contra a mar&eacute; dos poderes p&uacute;blicos e do poder do p&uacute;blico), passaram a acatar e at&eacute; a promover regras de publicidade para os alimentos, principalmente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s crian&ccedil;as. J&aacute; no Brasil, jogando com a desinforma&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico e, at&eacute; h&aacute; pouco tempo, com a complac&ecirc;ncia das autoridades, empresas industriais e comerciais e grandes redes de comunica&ccedil;&atilde;o, principalmente a televis&atilde;o, juntando seus interesses lutam abertamente e &agrave;s escondidas para criar exce&ccedil;&otilde;es, romper os muros de normas e limites para a propaganda de seus produtos, deixando de lado os riscos &agrave; sa&uacute;de, os custos econ&ocirc;micos das compras e os &ocirc;nus financeiros e humanos das doen&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="3">&Eacute; interessante ler, no artigo e suas refer&ecirc;ncias de cita&ccedil;&atilde;o, como e porqu&ecirc; se desenvolve o confronto aqui no Brasil. Creio que, com tais trabalhos, cobre&#45;se um campo tem&aacute;tico de vasto espectro, numa abordagem multidisciplinar como conv&eacute;m, de modo geral, ao novo esp&iacute;rito da ci&ecirc;ncia e da cultura e, notadamente, ao entendimento da &aacute;rea da alimenta&ccedil;&atilde;o humana.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><b>Malaquias Batista Filho</b> &eacute; professor e pesquisador do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) Recife, Brasil. &Eacute; membro do Conselho Nacional de Seguran&ccedil;a Alimentar e Nutricional (Consea) e bolsista do CNPq. Email: </I><a href="mailto:mbatista@imip.org.br">mbatista@imip.org.br</a></font></p>      ]]></body>
</article>
