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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>NOEL ROSA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>O samba de fraque e o mercado de consumo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Como o samba, inicialmente marginalizado, cantado por descendentes de escravos em barrac&otilde;es de zinco de bairros pobres do Rio de Janeiro, se tornou s&iacute;mbolo nacional? "A princ&iacute;pio, o samba foi combatido. Era considerado distra&ccedil;&atilde;o de vagabundo. Mas estava bem fadado. Desceu do morro, de tamancos, com o len&ccedil;o ao pesco&ccedil;o, vagou pelas ruas com um toco de cigarro apagado no canto da boca e as m&atilde;os enfiadas nas algibeiras vazias e, de repente, ei&#45;lo de fraque e luvas brancas nos sal&otilde;es de Copacabana", descreveu o compositor Noel Rosa, em entrevista ao jornal <I>O debate</I>, de Belo Horizonte, em 1935, uma p&eacute;rola de depoimento garimpada e reproduzida em sua biografia lan&ccedil;ada pelo jornalista Jo&atilde;o M&aacute;ximo e pelo m&uacute;sico Carlos Didier em 1990.</font></p>     <p><font size="3">Vinte anos depois, no ano do centen&aacute;rio de seu nascimento, somam&#45;se a esse comp&ecirc;ndio sobre vida e obra, homenagens e resgates da mem&oacute;ria do sambista, entre elas o enredo "Noel, a presen&ccedil;a do poeta da Vila", que a escola de samba Vila Isabel levou em fevereiro para a Marqu&ecirc;s de Sapuca&iacute;; o livro <I>O morro e o asfalto no Rio de Noel Rosa</I>, organizado por Leonel Kaz e Nigge Lode; o CD <I>Martinho da Vila canta Noel Rosa com elas</I>, com a participa&ccedil;&atilde;o das filhas de Martinho da Vila e de outras cantoras; e uma mostra de document&aacute;rios sobre as d&eacute;cadas de 1920 e 1930 que a Academia Brasileira de Letras programou para exibir em dezembro, m&ecirc;s em que nasceu o "poeta da Vila".</font></p>     <p><font size="3">O mo&ccedil;o de fam&iacute;lia abastada de Vila Isabel, que chegou a cursar medicina, mas abandonou a faculdade, gostava mesmo era da boemia, de subir o morro da Mangueira para beber e tocar com Cartola, com quem teve quatro parcerias. Tamb&eacute;m subia com frequ&ecirc;ncia o morro do Est&aacute;cio de S&aacute;, onde comp&ocirc;s outras dezoito can&ccedil;&otilde;es com Ismael Silva. Al&eacute;m do pr&oacute;prio Noel j&aacute; ter feito sucesso com seu samba de estreia, "Com que roupa?", de 1930, suas parcerias com Cartola e Ismael Silva foram gravadas por cantores como Francisco Alves e Carmem Miranda, &iacute;cones entre as classes com acesso aos produtos da ainda incipiente ind&uacute;stria cultural do pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="3">"O cinema, o r&aacute;dio e o disco foram os principais meios pelos quais Carmem Miranda, Francisco Alves, Cust&oacute;dio Mesquita, Noel Rosa, Ari Barroso entre tantos outros, transformaram o samba em um artigo de grande aceita&ccedil;&atilde;o no cen&aacute;rio cultural brasileiro, especialmente entre a classe m&eacute;dia", diz o historiador Ramiro Bicca Jr., professor do Instituto Metodista de Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura e autor da tese de doutorado "S&atilde;o coisas nossas: tradi&ccedil;&atilde;o e modernidade em Noel Rosa" (2009). "A transforma&ccedil;&atilde;o do samba em s&iacute;mbolo nacional teve que passar, necessariamente, pelo aval da classe m&eacute;dia carioca, pois esta, sendo composta por brancos e mesti&ccedil;os, foi respons&aacute;vel pela legitima&ccedil;&atilde;o desse g&ecirc;nero musical em um contexto capitalista e mercadol&oacute;gico". Essa associa&ccedil;&atilde;o de Noel Rosa e sua gera&ccedil;&atilde;o com a ind&uacute;stria cultural e a eleva&ccedil;&atilde;o do samba a s&iacute;mbolo nacional j&aacute; havia sido central em outra tese de doutorado anterior &agrave; de Bicca Jr., defendida em 2000 por Wander Frota, na &aacute;rea de letras, na Universidade de Minnesota, EUA.</font></p>     <p><font size="3">O historiador Bicca Jr. defende que a import&acirc;ncia de Noel nesse processo reside no fato de ele transitar entre o samba tradicional e a modernidade do r&aacute;dio e do disco, entre a boemia dos morros e a profissionaliza&ccedil;&atilde;o como m&uacute;sico e compositor. Nessa fronteira da tradi&ccedil;&atilde;o com a modernidade, Noel tamb&eacute;m oscila entre a influ&ecirc;ncia da moderna ind&uacute;stria cultural norte&#45;americana, que tanto o r&aacute;dio quanto o cinema j&aacute; ajudavam a globalizar nas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX &#150; compondo ele pr&oacute;prio os seus <I>foxtrotes </I>&#150;, e a defesa da identidade nacional e das tradi&ccedil;&otilde;es e costumes brasileiros, como no samba "N&atilde;o tem tradu&ccedil;&atilde;o", em que culpa o cinema falado por transforma&ccedil;&otilde;es no comportamento do brasileiro e arremata: "Amor l&aacute; no morro &eacute; amor pra chuchu/As rimas do samba n&atilde;o s&atilde;o I love you/E esse neg&oacute;cio de al&ocirc;, al&ocirc; boy e al&ocirc; Johnny/S&oacute; pode ser conversa de telefone".</font></p>     <p><font size="3">Outra oscila&ccedil;&atilde;o de Noel apontada pelo historiador &eacute; entre apoiar a exalta&ccedil;&atilde;o do trabalho defendida pelo governo de Get&uacute;lio Vargas, sugerindo ao malandro que passe a usar gravata &#150; algo retomado, d&eacute;cadas depois, por Chico Buarque, em "Homenagem ao malandro" &#150; e apontar em m&uacute;sicas, como "O orvalho vem caindo", problemas sociais como o do sem&#45;teto que dorme em um banco de pra&ccedil;a e &eacute; acordado por um guarda&#45;civil cujo sal&aacute;rio estava atrasado. "Noel tinha consci&ecirc;ncia da dist&acirc;ncia que havia entre o povo das ruas e a ordem oficial da pol&iacute;tica brasileira. Ele deixa transparecer em muitas de suas composi&ccedil;&otilde;es a ideia de que mesmo os representantes dessa ordem vigente &#150; policiais, autoridades, funcion&aacute;rios p&uacute;blicos &#150; s&atilde;o parte da imensa quantidade de gente que n&atilde;o compreende a complexidade do sistema, suas corrup&ccedil;&otilde;es, seus conchavos e, portanto, tamb&eacute;m s&atilde;o v&iacute;timas da explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e ideol&oacute;gica", ilustra Bicca Jr.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/a20img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>AULAS DE HIST&Oacute;RIA</b> Tanto as can&ccedil;&otilde;es de Noel que tratam da influ&ecirc;ncia estrangeira quanto as que abordam quest&otilde;es sociais s&atilde;o consideradas por diversos pesquisadores como uma cr&ocirc;nica de seu tempo. Por isso, a professora Katia Maria Abud, da Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o da USP, defende que a representa&ccedil;&atilde;o do cotidiano na m&uacute;sica popular seja considerada como registro hist&oacute;rico e usada em aulas de hist&oacute;ria. Ela d&aacute; como exemplo a can&ccedil;&atilde;o "Tr&ecirc;s apitos", de Noel, que tem como personagem uma oper&aacute;ria de f&aacute;brica de tecidos e pode ser associada ao per&iacute;odo de industrializa&ccedil;&atilde;o da era Vargas. "As f&aacute;bricas de tecido foram um dos primeiros tipos de ind&uacute;strias a se estabelecerem nas cidades brasileiras. Nessas f&aacute;bricas, o operariado era predominantemente feminino", diz Katia.</font></p>     <p><font size="3">A abordagem que ela sugere n&atilde;o se limita aos aspectos da produ&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica do per&iacute;odo, mas inclusive &agrave;queles ligados a h&aacute;bitos e costumes, como nos versos "Voc&ecirc; no inverno/Sem meias vai pro trabalho", dessa mesma can&ccedil;&atilde;o. "O coment&aacute;rio sobre a aus&ecirc;ncia de meias, mais do que o frio que possa sentir a personagem, liga&#45;se a mudan&ccedil;as no comportamento feminino. No final da segunda d&eacute;cada daquele s&eacute;culo, nas grandes cidades brasileiras, especialmente na capital da Rep&uacute;blica, as mulheres abandonavam o uso das grossas meias de algod&atilde;o que escondiam suas pernas", explica. A prova de que a sugest&atilde;o de Katia pode dar certo veio no pr&oacute;prio bairro de Noel: gra&ccedil;as ao trabalho da Oficina de Artes e Of&iacute;cios Herdeiros da Vila, o desempenho dos alunos de uma escola municipal do bairro vem melhorando com aulas que usam sambas para tratar da hist&oacute;ria do pa&iacute;s.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Rodrigo Cunha</i></font></p>      ]]></body>
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