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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>HIST&Oacute;RIA</b></font></p>     <p><font size="4"><b>No tempo em que o a&ccedil;&uacute;car n&atilde;o era vil&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O a&ccedil;&uacute;car, her&oacute;i no passado, segundo atestam historiadores da alimenta&ccedil;&atilde;o, perdeu esse posto nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. A dieta alimentar parece estar &agrave; merc&ecirc; dos modismos alimentados por pesquisas cient&iacute;ficas ou, ainda, por produtos aliment&iacute;cios inovadores turbinados com muito marketing para influenciar gosto e paladar. As rela&ccedil;&otilde;es entre alimento e sa&uacute;de mudaram. O exemplo do a&ccedil;&uacute;car &eacute; exemplar: hoje &eacute; considerado um dos maiores riscos &agrave; sa&uacute;de de crian&ccedil;as, jovens e idosos, um grande desafio de sa&uacute;de p&uacute;blica do s&eacute;culo XXI, respons&aacute;vel pelos altos &iacute;ndices de obesidade e de diabetes. Desde o s&eacute;culo XV o a&ccedil;&uacute;car &eacute; usado para fazer rem&eacute;dios, especialmente os originados de extratos de plantas e de conservas de frutas. No s&eacute;culo XVI, a Ilha da Madeira produzia casquinhas cristalizadas feitas com tirinhas de frutas c&iacute;tricas envolvidas em a&ccedil;&uacute;car para o combate ao escorbuto, uma doen&ccedil;a comum nas embarca&ccedil;&otilde;es de ent&atilde;o. O a&ccedil;&uacute;car refinado s&oacute; aparece no s&eacute;culo XVIII, antes disso, as receitas exigiam que o a&ccedil;&uacute;car fosse clarificado. Depois, o a&ccedil;&uacute;car refinado passa a ser chamado de "a&ccedil;&uacute;car da Ilha da Madeira" ou "a&ccedil;&uacute;car em p&oacute;".</font></p>     <p><font size="3">No artigo, "Alimenta&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de e sociabilidade: a arte de conservar e confeitar os frutos (s&eacute;culos XV&#45;XVIII)" (<I>Hist&oacute;ria: Quest&otilde;es &amp; Debates</I>, no. 42, 2005), Leila Mezan Algranti, historiadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista em hist&oacute;ria do Brasil colonial, faz uma an&aacute;lise sobre o uso do a&ccedil;&uacute;car nas conservas de frutas a partir de dados encontrados em cadernos de receitas.</font></p>     <p><font size="3">Um dos cadernos de receitas analisados, considerado ficcional, <I>Notas de cocina de Leonardo da Vinci</I>, &eacute; um conjunto de observa&ccedil;&otilde;es com apelos a que se indicassem, nos tratados de cozinha, as propriedades medicinais dos pratos e de alimentos, insistindo muito na higiene dos recipientes onde eram acondicionados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/a21img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p> <font size="3"><b>ORIGENS </b></font><font size="3">Origin&aacute;rio da Nova Guin&eacute;, desde o s&eacute;culo XI at&eacute; o s&eacute;culo XVII, o a&ccedil;&uacute;car era um produto caro, desejado, a ponto de ser dado como dote nos matrim&ocirc;nios. As mo&ccedil;as da &eacute;poca guardavam entre as rendas dos seus enxovais uma caixinha mimosa com um p&oacute; branco, o a&ccedil;&uacute;car. </font>     <p><font size="3">Foi tamb&eacute;m na Iha da Madeira que os portugueses desenvolveram a cultura dos doces, as t&eacute;cnicas a&ccedil;ucareiras e o com&eacute;rcio das frutas cristalizadas. A partir da&iacute;, o a&ccedil;&uacute;car chega ao Brasil, em 1526, em Pernambuco, onde o clima e o solo massap&ecirc; s&atilde;o muito favor&aacute;veis ao cultivo da cana&#45;de&#45;a&ccedil;&uacute;car que floresce rapidamente e, apesar da invas&atilde;o holandesa de 1654, o a&ccedil;&uacute;car domina o cen&aacute;rio econ&ocirc;mico por quatro s&eacute;culos, conforme relato detalhado escrito por Leonardo Dantas Silva, jornalista do Instituto Ricardo Brennand do Recife, em semin&aacute;rio internacional sobre a hist&oacute;ria do a&ccedil;&uacute;car, <I>A&ccedil;&uacute;car e quotidiano, </I>em 2004.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O antrop&oacute;logo baiano, Raul Lody, do Instituto Gilberto Freyre, do Recife,  autor do livro<I> Brasil bom de boca</I>, de 2008, considera que," para compreender processos de chegada, fixa&ccedil;&atilde;o e a&ccedil;&otilde;es coloniais no Brasil, sem d&uacute;vida, o a&ccedil;&uacute;car &eacute; o caminho preferencial da ocupa&ccedil;&atilde;o e da forma&ccedil;&atilde;o social e cultural do brasileiro". </font></p>     <p><font size="3">Em sua pesquisa, em 2007, intitulada "Os tempos da mem&oacute;ria gustativa: bar Pal&aacute;cio, patrim&ocirc;nio da sociedade curitibana (1930&#45;2006)", Mariana Cor&ccedil;&atilde;o, historiadora da UFPR, considera que a publica&ccedil;&atilde;o do livro <I>A&ccedil;&uacute;car</I>, escrito por Gilberto Freyre e publicado em 1939, "inaugura uma nova perspectiva em que o microcosmo da cozinha passa a fazer parte da an&aacute;lise s&oacute;cio&#45;hist&oacute;rica da cultura brasileira". Freire compara os segredos femininos de cozinha aos segredos masculinos da ma&ccedil;onaria: "houve no Brasil uma ma&ccedil;onaria das mulheres ao lado da ma&ccedil;onaria dos homens, que consistiu em guardar segredo das receitas de doces e bolos de fam&iacute;lia". </font></p>     <p><font size="3"><b>DOCES DE OVOS</b> Segundo Leila Algranti, no artigo "Os doces na culin&aacute;ria luso&#45;brasileira: da cozinha dos conventos &agrave; cozinha da 'casa brasileira', s&eacute;culos XVII a XIX" (<I>Anais de Hist&oacute;ria de Al&eacute;m&#45;Mar</I>, Vol.VI, 2005), as do&ccedil;arias nas cidades surgem como resultado de uma migra&ccedil;&atilde;o cultural de Portugal. Nessas do&ccedil;arias, originadas nos conventos, os chamados doces de freiras, tais como as barriguinhas de freiras, os queijinhos do c&eacute;u ou os pastelinhos de nata, descritos em artigo da revista <I>Pagu</I>, "Doces de ovos, doces de freiras: a do&ccedil;aria dos conventos portugueses no livro de receitas da irm&atilde; Maria Leoc&aacute;dia do Monte do Carmo (1729)", levavam muitas gemas de ovos cujas claras eram utilizadas para engomar as vestes sacerdotais.</font></p>     <p><font size="3">Entretanto, com o crescimento da produ&ccedil;&atilde;o e da demanda, o a&ccedil;&uacute;car deixa de ser produto caro e refinado para ser um g&ecirc;nero de primeira necessidade e, em 1900, o com&eacute;rcio de a&ccedil;&uacute;car atingiu a cifra de 8,35 milh&otilde;es de toneladas. </font></p>     <p><font size="3">Publicado na revista <I>Debates</I> de 2001, o artigo "A&ccedil;&uacute;car e as transforma&ccedil;&otilde;es nos regimes alimentares", de Pedro Ramos, agr&ocirc;nomo do NEA e Antonio Oswaldo Storel J&uacute;nior, economista do Nepa, ambos da Unicamp, mostra com detalhes a evolu&ccedil;&atilde;o no uso do a&ccedil;&uacute;car e sua rela&ccedil;&atilde;o com a sociedade. "O sucesso do a&ccedil;&uacute;car como alimento, como fonte cal&oacute;rica barata de amplo consumo e aceita&ccedil;&atilde;o popular, foi, assim, fruto de uma lenta evolu&ccedil;&atilde;o no decorrer da qual foram se ampliando as formas de seu uso, desde rem&eacute;dio que facilitava a absor&ccedil;&atilde;o de outras subst&acirc;ncias medicinais, produto de luxo e ostenta&ccedil;&atilde;o, s&iacute;mbolo da nobreza, conservante de frutas e outros alimentos, especiaria culin&aacute;ria essencial e, finalmente, alimento b&aacute;sico na dieta da classe trabalhadora".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/a21img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>QUEST&Atilde;O DE MODA</b> Carlos Roberto Antunes dos Santos, coordenador do grupo de pesquisas em hist&oacute;ria e cultura da alimenta&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal do Paran&aacute; (UFPR), relata que, nos anos 1950, no p&oacute;s&#45;Guerra, "comer bem era sin&ocirc;nimo de comer bastante".  Na euforia que se seguiu a 1948, n&atilde;o havia ataque ao a&ccedil;&uacute;car. Inclusive, o padr&atilde;o de beleza, em 1954, era bastante diferente do atual. Nos EUA, as preocupa&ccedil;&otilde;es com a comodidade e com a praticidade geram o modelo alimentar chamado <I>fast food </I>nos anos 1960, que tem como &iacute;cones o hamb&uacute;rguer e a coca&#45;cola.</font></p>     <p><font size="3">S&oacute; nos anos 1970 &eacute; que surge naquele pa&iacute;s o conceito de m&aacute; alimenta&ccedil;&atilde;o, e a obesidade passa a ser considerada uma doen&ccedil;a.  Com a onda dos <I>diet</I> e dos <I>light</I>, com um volume muito grande de marketing e de dinheiro, o consumo dos ado&ccedil;antes cresce, desestimulando o consumo do a&ccedil;&uacute;car. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Na d&eacute;cada seguinte aparece a "ditadura do n&atilde;o comer a&ccedil;&uacute;car". Os modismos mais recentes incluem a onda do bom a&ccedil;&uacute;car, os de frutas e do a&ccedil;&uacute;car org&acirc;nico (em oposi&ccedil;&atilde;o ao a&ccedil;&uacute;car refinado).</font></p>     <p><font size="3">Mas para o historiador Antunes dos Santos,  com a ditadura do n&atilde;o comer, iniciada a partir dos anos 1970, at&eacute; os nossos dias "com padr&otilde;es de beleza do tipo Gisele B&uuml;ndchen, e revistas nas bancas prometendo milagres tais com: perca 10kg em 4 semanas, sem qualquer embasamento cient&iacute;fico", foi que o a&ccedil;&uacute;car passou de her&oacute;i da gastronomia a vil&atilde;o da sa&uacute;de.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Celira Caparica</i></font></p>      ]]></body>
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