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</front><body><![CDATA[  <b>CINEMA</b>     <p><font size="4"><b>Fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica: um fen&ocirc;meno global</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">De 24 a 27 de junho ocorreu a confer&ecirc;ncia anual internacional da Science Fiction Research Association (SFRA) em Carefree, Arizona, EUA. O evento reuniu acad&ecirc;micos e pesquisadores de diversas partes do planeta dedicados ao estudo da fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica (FC) em suas m&uacute;ltiplas vertentes. Nos &uacute;ltimos tempos, com a diversifica&ccedil;&atilde;o das manifesta&ccedil;&otilde;es do g&ecirc;nero, os debates t&ecirc;m extrapolado o &acirc;mbito tradicional da literatura, cinema e TV para abarcar tamb&eacute;m os videogames, redes sociais e demais fen&ocirc;menos de comportamento.</font></p>     <p><font size="3">A SFRA (www.sfra.org), fundada em 1970, &eacute; a mais antiga organiza&ccedil;&atilde;o profissional para o estudo da literatura e cinema de fantasia e fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Com o tema "Far stars, tin stars: science fiction and the frontier", a confer&ecirc;ncia deste ano ratificou uma tend&ecirc;ncia que j&aacute; vinha se delineando h&aacute; alguns anos no &acirc;mbito da associa&ccedil;&atilde;o:  a globaliza&ccedil;&atilde;o e o transculturalismo nos estudos da fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Um n&uacute;mero crescente de contribui&ccedil;&otilde;es oriundas de outros pa&iacute;ses, fora dos Estados Unidos, tamb&eacute;m confirma uma tend&ecirc;ncia &agrave; internacionaliza&ccedil;&atilde;o dos estudos de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. O pr&oacute;ximo encontro, com o tema "Dreams not only American", ser&aacute; em julho de 2011 na Universidade Maria Curie&#45;Sklodowska, em Lublin, Pol&ocirc;nia.</font></p>     <p><font size="3">A velocidade com que a fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica internacional tem chamado a aten&ccedil;&atilde;o de estudiosos acaba desafiando alguns velhos paradigmas a respeito da natureza e nacionalidade do g&ecirc;nero. Para a brasilianista Mary Elizabeth Ginway, professora da Universidade da Fl&oacute;rida (EUA) e especialista em literatura brasileira fant&aacute;stica ou de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, a FC &eacute; um fen&ocirc;meno global. Autora de <I>Fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no pa&iacute;s do futuro</I> (Devir, 2005), e do rec&eacute;m&#45;lan&ccedil;ado <I>Vis&atilde;o alien&iacute;gena: ensaios sobre fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica brasileira</I> (Devir, 2010), a pesquisadora Ginway concedeu a seguinte entrevista &agrave; <I>Ci&ecirc;ncia e Cultura</I>:</font></p>     <p><font size="3"><b>A fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica &eacute; um g&ecirc;nero sobretudo norte&#45;americano ou global?</b></font></p>     <p><font size="3">A Europa tamb&eacute;m representa parte da tradi&ccedil;&atilde;o de FC (do romance planet&aacute;rio), com Verne e Flammarion no s&eacute;culo XIX. Mais tarde, no s&eacute;culo XX, a FC foi popularizada e divulgada pelos ingleses e norte&#45;americanos.  Na Am&eacute;rica Latina do s&eacute;culo XIX, as elites latino&#45;americanas aproveitavam o discurso hegem&ocirc;nico da ci&ecirc;ncia como a linguagem autorit&aacute;ria de conhecimento, autoconhecimento e legitimiza&ccedil;&atilde;o. O que Augusto Em&iacute;lio Zaluar, no Brasil, entre outros na Am&eacute;rica Latina, usava para justificar ou promover a ideia de progresso e civiliza&ccedil;&atilde;o, uma extens&atilde;o do projeto colonial. John Rieder publicou um livro, <I>Colonialism and the emergence of science fiction</I> (2008) pela Wesleyan UP, discutindo textos do s&eacute;culo XIX desconhecidos do g&ecirc;nero, mostrando como as origens da FC est&atilde;o profundamente ligadas ao discurso colonial. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o sei se discurso colonial &eacute; algo global, mas, com a escalada da divulga&ccedil;&atilde;o de textos europeus e norte&#45;americanos, creio sim que o g&ecirc;nero sempre tenha sido global, embora n&atilde;o reconhecido ou classificado como tal. Dentro desse esquema, talvez esteja impl&iacute;cita a hegemonia do modelo norte&#45;americano e, desta forma, uma suposta posi&ccedil;&atilde;o privilegiada. No entanto, o livro de Rachel Haywood Ferreira, <I>The emergence of Latin American science fiction</I> (Wesleyan, 2010) confirma que a FC n&atilde;o era um g&ecirc;nero totalmente "importado" e, para escritores do s&eacute;culo XIX, muitas vezes a tecnologia representava a chance de superar a condi&ccedil;&atilde;o de neocolonialismo.  S&oacute; agora textos desse per&iacute;odo est&atilde;o sendo reconhecidos como FC. Roberto de Sousa Causo &eacute; outro pesquisador que tamb&eacute;m rastreia as origens do g&ecirc;nero no Brasil. Em <I>Fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, fantasia e horror no Brasil, 1875&#45;1850</I> (UFMG, 2003), Causo documenta a produ&ccedil;&atilde;o brasileira de FC do s&eacute;culo XIX at&eacute; meados do s&eacute;culo XX. Pesquisas como a de Causo marcaram os primeiros passos em estudos de resgate de uma escritura marginal, de recupera&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica &#151; as feministas fizeram o mesmo para consolidar seu campo de estudo.</font></p>     <p><font size="3">A minha pesquisa est&aacute; ligada ao s&eacute;culo XX, uma considera&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica e cultural do g&ecirc;nero: como a FC retrata atitudes perante a moderniza&ccedil;&atilde;o vistas na interse&ccedil;&atilde;o de seus &iacute;cones e subg&ecirc;neros e os mitos culturais brasileiros.  &Eacute; claro que, com a globaliza&ccedil;&atilde;o e a popularidade da fantasia e de outros subg&ecirc;neros como o <I>steampunk</I>, vampiros, New Weird no Brasil etc, existe uma ideia de superar os limites nacionais, de que o mundo da FC &eacute; transnacional, como naquela velha quest&atilde;o envolvendo cosmopolitanismo <I>versus</I> nacionalismo. Fico contente com o novo interesse pelo g&ecirc;nero, e com brasileiros escrevendo em ingl&ecirc;s para superar as barreiras de l&iacute;ngua, como Jacques Barcia e Fabio Fernandes. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Vejo o fen&ocirc;meno da globaliza&ccedil;&atilde;o como um enriquecimento da FC por vis&otilde;es de outras culturas, outras &oacute;ticas, que vai ao encontro de uma maior aceita&ccedil;&atilde;o do g&ecirc;nero no mundo todo. Acho que, aos poucos, tais vozes da periferia est&atilde;o sendo mais ouvidas e     reconhecidas. </font></p>     <p><font size="3"><b>Por que escolheu se dedicar &agrave; pesquisa de FC em contexto aparentemente t&atilde;o escasso e in&oacute;spito como o brasileiro?</b></font></p>     <p><font size="3">Sou professora especializada em literatura brasileira. Cabe a mim s&oacute; a literatura escrita em portugu&ecirc;s ou a tradu&ccedil;&atilde;o da mesma. N&atilde;o tenho condi&ccedil;&otilde;es de pesquisar a fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica norte&#45;americana, s&oacute; a estudo como compara&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Quando escrevia minha tese de doutorado trabalhava principalmente os g&ecirc;neros da distopia, do conto fant&aacute;stico e da literatura urbana como rea&ccedil;&otilde;es &agrave; pol&iacute;tica da ditadura e moderniza&ccedil;&atilde;o no Brasil. Na academia norte&#45;americana s&oacute; se publica tese como livro na base de uma revis&atilde;o profunda e, insatisfeita com a minha tese, comecei a pesquisar a FC ap&oacute;s minha descoberta do livro de Br&aacute;ulio Tavares, <I>O que &eacute; a fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica</I> (Brasiliense, 1986), no qual ele menciona os autores da gera&ccedil;&atilde;o GRD (de Gumercindo da Rocha D&oacute;rea, famoso editor de FC no Brasil), e outros mais contempor&acirc;neos (da d&eacute;cada de 1980 quando escreveu o livro). Meu livro de 2004, traduzido para o portugu&ecirc;s como <I>Fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no pa&iacute;s do futuro</I> (2005), abrange a produ&ccedil;&atilde;o de FC antes, durante e depois da ditadura militar. Embora outros pensem que seja uma &aacute;rea de reduzido interesse, com a for&ccedil;a dos estudos culturais na academia norte&#45;americana e o trabalho de colegas na &aacute;rea de portugu&ecirc;s do meu departamento que se especializaram em cultura popular brasileira &#150; como Charles Perrone (m&uacute;sica popular) e Randal Johnson (cinema) &#150;, minha pesquisa n&atilde;o era t&atilde;o estranha. Acho um campo bastante f&eacute;rtil, com escritores interessantes e acolhedores.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/a22img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>Como &eacute; pesquisar FC no Brasil do ponto de vista da academia norte&#45;americana?</b></font></p>     <p><font size="3">No meu livro <I>Vis&atilde;o alien&iacute;gena</I>, brinco com a minha condi&ccedil;&atilde;o de estrangeira e do tema do estranhamento, isto &eacute;, uma interpreta&ccedil;&atilde;o da FC do Brasil desde os anos 1960 at&eacute; os 2000. Como sou a principal pessoa especializada em FC brasileira nos EUA, sinto&#45;me isolada, por&eacute;m costumo reunir&#45;me a colegas especializados em FC hispano&#45;americana, o que me oferece um contexto maior. Para realizar minha pesquisa, o mais importante ainda &eacute; ir ao Brasil, falar com as pessoas, escritores, ver os livros publicados, seguir palpites. </font></p>     <p><font size="3">Voltando &agrave; quest&atilde;o inicial sobre globaliza&ccedil;&atilde;o: talvez existam mundos paralelos ou hist&oacute;rias da FC, e n&atilde;o uma &uacute;nica tradi&ccedil;&atilde;o. A minha experi&ecirc;ncia mostra que o g&ecirc;nero est&aacute; ganhando mais considera&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Alfredo Suppia</i>    <br>   <i>participou do Encontro 2010 da     <BR>   Science Fiction Research Association     <BR> em Carefree, AZ, EUA</i></font></p>      ]]></body>
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