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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62n4/prosa.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3"><b>Luciana Gama</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="4"><b>Os Macuna&iacute;tas: Ex&eacute;quias. Ex(c)ertos. Trechos)</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">"Do muito que li, em &oacute;cio, e viajei, em f&eacute;rias, partes da forma&ccedil;&atilde;o da minha nobre educa&ccedil;&atilde;o Icamiaba, tornaram minha chegada nessas terras de Jerusal&eacute;m, letrinha mi&uacute;da, de maneira que aqui cheguei j&aacute; na considera&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o merece pouca estima&ccedil;&atilde;o, o que, desprezando os mimos e regalos da sua p&aacute;tria, busca as alheias para nela se qualificar com mais largas experi&ecirc;ncias: por cuja raz&atilde;o &eacute; sair o da p&aacute;tria o que faz aos homens mais capazes e id&ocirc;neos para mui grandes empresas e suficientes para tudo: como o tem feito a tantos var&otilde;es ilustres. Por&eacute;m &eacute; certo que quem peregrina acompanhado de seus v&iacute;cios mais valer&aacute; n&atilde;o ter sa&iacute;do; pois tornar&aacute; mais perdido, que aproveitado: porque as enfermidades da alma n&atilde;o se curam com a mudan&ccedil;a de lugar, de modos que aqui cheguei, doente de doen&ccedil;a Brasil, pa&iacute;s sem sa&uacute;de, o d&iacute;stico do pai espiritual do meu povo n&atilde;o &eacute; nada perto do meu: escrevem bonito e fazem feio, os males do Brasil s&atilde;o!"</font></p>     <p><font size="3">"Eu pensei em ser breve nestas bem tra&ccedil;adas mas voc&ecirc; repare na grandeza da mat&eacute;ria o que n&atilde;o me permite qualquer outra alternativa imposta pelo g&ecirc;nero. N&atilde;o &eacute; nada desprez&iacute;vel o aprendizado que tenho angarinhado com o povo do livro. Sim, eles s&atilde;o o povo do livro. Voc&ecirc;, ent&atilde;o, imagine os estatelos e estupefatos a que sou submetida a cada pernada pela rua ou sentada no &ocirc;nibus, eu, uma leg&iacute;tima Icamiaba, conviva dos melhores sal&otilde;es da nobreza paulistana, descendente exemplar do povo do Texto, os Macuna&iacute;tas."</font></p>     <p><font size="3">"Me acuda, prima, para brincar todas as noites. De manh&atilde;, quando Vei a sol chega estou exausta, quem tem for&ccedil;a para levantar e ir trabalhar para ganhar vint&eacute;m para pagar a universidade? Bem que eu quis impor &agrave; minha ardida chama uma abstin&ecirc;ncia, penosa, para poupar despesas &agrave; prima; por&eacute;m que &acirc;nimo forte n&atilde;o cede ante os encantos e galanteios da homarada nordestina &#91;sic&#93; palestina daqui? Sei que vais me recordar, em argumenta&ccedil;&atilde;o carinhosa, que podia entregar de vez a muiraquit&atilde; pro meus cuidados e por ele pra correr, como boa Icamiaba que sou, mas voc&ecirc; n&atilde;o imagina que os homens &aacute;rabes daqui parecem Icamiabas de t&atilde;o homens que s&atilde;o e contam nossas luas de sangue porque querem os filhos machos para eles e j&aacute; que eu n&atilde;o reproduzo o homem vem brincar toda noite, a muiraquit&atilde; t&aacute; na mesinha ao lado da cama, empoeirada que s&oacute; vendo a belezinha, ele d&aacute; safan&atilde;o no meio da noite e eu vou parar longe, a muiraquit&atilde; e o criado mudo v&atilde;o juntos, uma del&iacute;cia, eu acordo feito f&uacute;ria e cres&ccedil;o para cima dele. Brincamos assim. Pode enviar apenas um pouco mais de dinheiro porque com pouco a vossa abstemia acad&ecirc;mica se contenta; se n&atilde;o puderdes enviar duzentos reais, mandai cem a mais, ou mesmo cinquenta! "</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"A cidade velha, cercada com seus muros do fim do s&eacute;culo XVI mas onde as pessoas jeremiam seus lamentos como se fosse o que restou da queda do segundo templo em 70 D.C, &eacute; um parque tem&aacute;tico ao gosto do fregu&ecirc;s, seja ele cat&oacute;lico, mu&ccedil;ulmano, judeu, budista, ateu ou arque&oacute;logo. A cidade se abre para realizar qualquer fantasia de cren&ccedil;a que uma pessoa tenha, da igreja do Santo Sepulcro, o castelo mal assombrado mais antigo do mundo at&eacute; a maravilhosa, sem d&uacute;vida, esplanada da mesquita Esh&#45;Sharif, que deixa o castelo da Cinderela no sapatinho embora ambos possam ser vistos a partir de qualquer canto dos seus reinos: Disney ou Jerusal&eacute;m. Ningu&eacute;m, ningu&eacute;m aqui ladrilhou ou semeou, embora a cidade, como todas, viva de apropria&ccedil;&otilde;es e desapropria&ccedil;&otilde;es, mas nenhuma igual a que o padre Sergio Buarque de Holanda fez com a frase do historiador Ant&ocirc;nio Vieira. Jerusal&eacute;m nada tem de colonial (...)."</font></p>     <p><font size="3">"Acontece, atente nisto, que o povo do livro acredita que somos o povo do Texto porque despregamos de uma folha perdida por uma ent&atilde;o perdida tribo das dez tribos perdidas, desertores dos desertores, povo meio que do B das antigas, pensei gargalhando bot&otilde;es, fala s&eacute;rio, mas a hip&oacute;tese seria a seguinte: n&oacute;s nos perdemos, em algum momento, nos quarenta anos de caminhada das doze tribos pelo deserto que aportaram em Cana&atilde;. T&ocirc; boa, santa: um Macuna&iacute;ta jamais se perderia, pensei, quanto mais cinco ou seis ou vinte e cinco juntos, pelo simples motivo de que jamais pensaram em encontrar qualquer coisa que fosse, quer dizer, a menos que seja para desencontrar. Se for verdade o que eles dizem, fique certo como eu estou certa, de que logo na primeira semana dos quarenta dias, assim que atravessaram o mar vermelho, os Macuna&iacute;tas farejaram que aquilo tudo era uma chatice sem tamanho e desertaram bacana. No entanto, argumentam que as semelhan&ccedil;as entre nosso tio av&ocirc; feiticeiro, Maanape e Ara&atilde;o, mano de M&oacute;ises, n&atilde;o s&atilde;o nada desprez&iacute;veis. </font></p>     <p><font size="3">O povo do livro tamb&eacute;m assevera que algumas semelhan&ccedil;as textuais asseguram um passado em comum entre eles e n&oacute;s, o povo do Texto, como por exemplo &#150; eles se apoiam em Vasconcellos, por certo a palavra <I>Tupan&#45;Ab&aacute;</I> &eacute; uma curruptela que precedeu de<I> Tupinamb&aacute;</I> e significa "Povo de Deus". Uma outra, conceptual e agud&eacute;rrima, &eacute; a de que a palavra <I>arara</I> deriva de <I>ararat</I>, o monte b&iacute;blico onde No&eacute; aposentou as galochas, revelando assim uma mem&oacute;ria assombrada e assombrosa de tempos imemoriais em cujo caminho a letra <I>t</I> criou asas".</font></p>     <p><font size="3">"Para chegar ao Muro das Lamenta&ccedil;&otilde;es tem que descer uma escadaria de arrepiar o Bonfim e &eacute; suja, prima, t&atilde;o suja que merecia uma lavagem de &aacute;gua de cheiro. Morro de vontade de fazer a lavagem das escadas do Kotel, &ocirc; saudades! O povo do livro tamb&eacute;m tem uma tradi&ccedil;&atilde;o culin&aacute;ria de comer sandu&iacute;ches com bolinhos fritos de gr&atilde;o&#45;de&#45;bico na rua, imagina s&oacute;, pensei ent&atilde;o que poderia montar uma barraquinha perto da escadaria do Muro das Lamenta&ccedil;&otilde;es e me tornar a baiana do falafel."</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>Luciana Gama</B> (Shlomit Or), 44, &eacute; escritora, fot&oacute;grafa, cronista e doutoranda na Hebrew University Jerusal&eacute;m no Departamento de Spanish and Latino Studies.Brasileira e israelense, possui artigos publicados na</I> Revista USP, Iararana <I>e do Centro de Estudos Judaicos de Minas Gerais.Faz fotoliteratura, cujo foco, a narra&ccedil;&atilde;o das ruas, est&atilde;o divulgadasem diversas m&iacute;dias/jornais como </I>Reuters<I> e </I>Haaretz<I>. &Eacute; autora de </I>Os macuna&iacute;tas: um povo sem solu&ccedil;&atilde;o<I>, romance in&eacute;dito, de onde o trecho acima foi retirado. </I>Blogs: www.acusticojerusalem.blogspot.com; www.photojerusalem.blogspot.com; http://macunaitas.tumblr.com</font></p>      ]]></body>
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