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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><font size=5><b><a name="tx"></a>Cooperação internacional    e progresso da higiene no Brasil (<a href="#nt"><sup>*</sup></a>)</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">F. BORGES VIEIRA    <br>   Professor da Faculdade de Higiene e Saúde Pública de São Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Já se torna corriqueira a citação de Wendel Wilkie, de que há,    no presente, um mundo só. Se o homem isolado não se basta, necessitando do concurso    de seus semelhantes para o progresso individual, também as famílias, os municípios,    as províncias e as nações carecem do concurso recíproco, hoje facilitado pela    melhoria das comunicações. As barreiras entre os paises não são apenas de ordem    geográfica e urge que, por um melhor e sádio entendimento entre as nações, elas,    fraternalmente, se unam, renunciando às rivalidades e às guerras, em benefício    da felicidade do gênero humano. A estupidez humana, como, já há muitos anos,    mencionava Richet, em conhecido livro, infelizmente ainda persiste. Quanta facilidade    para os gastos astronômicos com armamentos! E ninguém extranha que sejam tidos    como mal necessário. E pense-se que uma pequena parcela de tais gastos poderia    resolver muitos problemas de saúde e educação!</font></p>     <p><font size="3">Tenhamos fé, todavia, no futuro e lembremo-nos, que, na atualidade,    como Paula Souza tem, por várias vêzes referido, a Higiene já é o denominador    comum, o ponto único em que, em mesas redondas, as nações abstraindo-se de suas    ideologias políticas, apertam as mãos, na marcha para o ideal comum. O Brasil    e São Paulo, não obstante terem, sozinhos, podido resolver vários dos seus problemas    de saúde, como nas memoraveis campanhas de Ribas e Osvaldo Cruz contra a febre    amarela, o domínio da lepra, etc., têm visto, em vários períodos de sua história    sanitária, os benefícios da cooperação internacional, na solução de problemas,    para os quais atuação isolada seria problemática, tal a magnitude dos mesmos,    ou a insuficiência de recursos, de pessoal ou de ambiente, na ocasião, ou, frequentemente,    devido às malfadadas peias burocráticas.</font></p>     <p><font size="3">Em pleno período colonial, quando as nossas possibilidades eram    praticamente nulas, por falta de elemento humano adequado, a mãe-pátria pouco    ou praticamente nada fez. E, mesmo que o fizesse, agiria em casa sua; a política    malsã daquela época, e até mesmo no atual século XX, consistia no «colonialismo    clássico», tudo retirando das colônias em proveito das metrópoles. Parece que,    nesse sentido, uma nova era já se inicia, com a mudança dessa política para    a autodeterminação dos povos capazes, à qual não é extranho o movimento cooperativo    das nações. Todavia, nesse período colonial brasileiro, podemos ver, não propriamente    uma cooperação, porque apenas servimos de campo, mas uma atuação por nação extranha,    a Holanda, no início do século XVII. De fato, no período holandês, a administração    do Conde João Maurício de Nassau notabilizou-se no campo das ciências naturais    e médicas, pela atuação de Marcgrave, estudando nossa flora e fauna, e a de    seu colaborador, o médico Piso, arquiátra da Colônia, que descreveu muitas das    moléstias reinantes e dissertou sôbre o clima do país. Seu primeiro livro, sôbre    as coisas do Brasil, trata, à semelhança do de Hipócrates, das águas, ares e    localidades.</font></p>     <p><font size="3">A cooperação de Portugal sòmente se fêz sentir, forçada pelas    circunstâncias, com a vinda da família real em 1808, quando, por brasileiros,    à frente o Dr. Correia Picanço, mais tarde Barão de Goiana, e outros, funda-se    o ensino médico na Baía e logo depois no Rio, e assentam-se as bases da organização    sanitária.</font></p>     <p><font size="3">Durante o Império, vemos, no fim do 1º Reinado (1829), a cooperação    particular de um médico francês e um italiano, Sigaud e Simoni, clínicos no    Rio de Janeiro, que, com colegas brasileiros fundaram a Sociedade de Medicina,    em 1835 transformada em Academia Nacional de Medicina. E' da época da monarquia    a célebre francesa, Mme. Durocher, parteira famosa no Rio, onde desenvolveu    apreciada influência. Já se vinha notando a influência da cultura francesa sobre    os meios letrados nacionais, que deixavam para trás a portuguesa. Já os médicos    procuravam sua ilustração nos livros franceses e a França era o país para onde    se dirigiam em busca de conhecimentos. Mais tarde, já neste século, depois de    uma certa influência alemã, sobretudo em determinados setores, o centro de influência    médico-sanitária para o Brasil deslocou-se nitidamente para os Estados Unidos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">No 2º Reinado, destacam-se, na Baía, grandes tropicalistas    estrangeiros ou de origem estrangeira, como Patterson (escocês) e Wucherer (de    formação e filiação alemãs).</font></p>     <p><font size="3">Durante a República, no comêço dêste século, temos o exemplo    da colaboração francesa, na vinda da Comissão de Investigação sôbre a Febre    Amarela, do Instituto Pasteur, de Paris, comissão essa de que fizeram parte    Marchoux, Simond, Salimbeni, cujos trabalhos, no Hospital São Sebastião do Rio,    confirmaram as pesquisas de Havana e as de S. Paulo, realizadas estas, sob a    direção de Emílio Ribas e Adolfo Lutz.</font></p>     <p><font size="3">Esses exemplos, todavia, não foram propriamente de cooperação    internacional, que só tiveram lugar em 1917, com a extensão ao Brasil dos serviços    da Fundação Rockefeller. Esta benemérita Fundação, de âmbito internacional,    constituida por norte-americanos, colaborou intensa e eficazmente com o Govêrno    da República e dos Estados, tendo mesmo iniciado suas atividades no Brasil,    pelo nosso Estado. A princípio, cuidou do problema da ancilostomose e da fundação    de postos de higiene, que, partindo do tratamento da uncinariose, estendeu posteriormente    sua ação aos problemas de higiene em geral. A execução dêsse serviço foi um    dos grandes incentivos de onde brotaram os nossos atuais Centros de Saúde, e    os postos fundados pela Rockefeller, pouco a pouco, foram se fundindo com os    serviços oficiais.</font></p>     <p><font size="3">A Fundação dedicou-se, também, logo de início, ao ensino da    Higiene e ao ensino Médico, tendo em vista a formação de pessoal e o desenvolvimento    das pesquisas, e, como frutos dessa colaboração, temos em S. Paulo, o grande    desenvolvimento tomado pela Faculdade de Medicina e a construção de seu Hospital    das Clínicas e a criação, em 1918, do Instituto de Higiene, hoje Faculdade de    Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A instituição do regime    de tempo integral, nas Escolas médicas e sanitárias e nas organizações de saúde,    a limitação do número de alunos, afim de se poder dar ensino eficiente, o equipamento    adequado dos laboratórios, o desenvolvimento de pesquisas, são frutos dessa    cooperação.</font></p>     <p><font size="3">Resolvida essa fase, entrou a Fundação a colaborar intensamente    na questão da profilaxia da febre amarela, a princípio apenas no Norte do país,    para, depois, assumir a responsabilidade para todo o Brasil, em serviço que    se extendeu, também, a outras repúblicas sul-americanas. Efetivamente, após    o surto epidêmico que surpreendeu o Rio de Janeiro em 1928, cidade que, saneada    por Osvaldo Cruz, desde 1908, julgava-se ao abrigo de nova invasão e despreocupara-se    de seus serviços anti-estegômicos, deliberou o Govêrno Brasileiro realizar o    contrôle em base nacional e não mais considerar os surtos que se davam, como    problemas locais. Assim, logo no início de 1929, assumiu parte da responsabilidade    financeira do serviço de profilaxia da Febre Amarela do Norte do país, serviço    êsse que, desde 1923, vinha sendo executado pela Fundação Rockefeller. Em 1    de dezembro de 1930 a zona de cooperação passou a incluir todo o país, com exceção    da Capital Federal, cujos serviços continuaram com o Govêrno Brasileiro exclusivamente.    Em 1 de janeiro de 1932, o Serviço da Febre Amarela do Departamento Nacional    de Saúde, que operava no Distrito Federal, incluia-se, também, no esquema de    cooperação, sendo que atualmente, aliás de acôrdo com as normas da Rockefeller,    voltou a ser executado só pelo Govêrno Federal, entrando aquela Fundação apenas    com a parte de pesquisas e preparo de vacinas.</font></p>     <p><font size="3">Dessa cooperação da Rockefeller, que coincidiu com a revelação    da forma silvestre da doença, nasceram os rumos modernos de profilaxia antiamarílica,    extinguindo-se a febre amarela clássica, dos meios urbanos e tendendo, atualmente,    não mais a apenas controlar o desenvolvimento do vetor, mas à 'completa erradicação    do <i>Aedes aegypti, </i>fato que, duvidado por muitos pudesse ser obtido, é    hoje admitido, pelas demonstrações da campanha. O <i>A. aegypti </i>vai pouco    a pouco sendo banido e exterminado, em quasi todos os Estados, o que constitui    garantia quanto à não extensão da forma silvestre aos meios urbanos.</font></p>     <p><font size="3">O extermínio em muitas regiões de um vetor como o <i>Aedes aegypti,    </i>foi seguida pela retumbante vitória contra o <i>Anopheles gambiae, </i>terrível    vetor africano, do impaludismo que, cêrca de 1930, fôra introduzido no nordeste,    através do porto de Natal. A invasão do Brasil pelo <i>A. gambiae </i>trouxe    sérias preocupações a todos os conhecedores de sua infausta atuação e, não fôsse    êle controlado e depois exterminado, ninguém poderia afirmar se isso não traria,    com a sua difusão por todo o Continente, a destruição da civilização americana.    Atingidos que fôssem os Vales do São Francisco e do Parnaíba, sua marcha seria    avassaladora, sendo regiões adequadas ao seu desenvolvimento, desde o norte    argentino, até a América Central, inclusive as Antilhas e mesmo a parte sul    dos Estados Unidos.</font></p>     <p><font size="3">As verificações realizadas, demonstraram que não se tratava    de doença nova, como se chegou a supôr, mas da importação do terrível vetor    africano, cuja capacidade de infecção é incomparavelmente superior à dos anofelinos    brasileiros. Como o <i>A. aegypti, o A. gambiae </i>é um mosquito doméstico,    eminentemente antropófilo e se infecta pelo plasmódio, em alta percentagem.    Depõe seus ovos em pequenas coleções de águas ensolaradas e razas, próximas    das habitações e, na fase adulta, vive no interior das casas.</font></p>     <p><font size="3">A história da invasão, do contrôle e da final erradicação do    <i>Anopheles gambiae </i>no Brasil, descrita por Soper e Wilson, constitue uma    das mais realísticas notícias das tragédias humanas e mostra o valor do trabalho    cooperativo.</font></p>     <p><font size="3">O nordeste do Brasil não era livre de malária que, todavia,    não assumia aí carater de especial gravidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Não obstante os vários avisos feitos pelos entendidos, pouco    se pôde realizar com os minguados e descontínuos recursos oficiais e, em 1938,    sua extensão já abrangia dois Estados do nordeste, Rio Grande do Norte e Ceará,    causando grandes epidemias e mortandade, entre elas no Vale do Jaguaribe. O    primeiro aviso partiu do eminente entomologista R. C. Shannon, em março de 1930,    que identificou sua presença em Natal. Verificou que se tratava do <i>Anopheles    </i>(<i>Myzomyia</i>)<i> gambiae, </i>Giles 1902, terrível e eficientíssimo    vetor da África. A área infestada em Natal era pequena e a importação se afigurava    recente. Localizavam-se os focos a cêrca de um quilômetro de um pôrto de ancoragem    de navios rapidíssimos franceses, que faziam o serviço de correio, vindos de    Dakar a Natal, em menos de 100 horas.</font></p>     <p><font size="3">Provavelmente, os primeiros terríveis portadores, na forma adulta,    vieram nesses navios, podendo-se excluir a importação por via aérea de acôrdo    com as condições da época. Cêrca de cinco semanas depois, um surto explosivo    se instala na Capital rio-grandense do norte, continuando-se por maio a dentro,    com grande mortalidade. Nessa época, já o <i>A. gambiae </i>tinha avançado,    segundo Davis, mais um quilômetro além da área antes registrada. Verificações    realizadas então, notaram ser a percentagem de glândulas salivares infectadas    com esporozoitos entre os aludidos mosquitos, até de cêrca de 30%, taxa altíssima    e de acôrdo com o que já se sabia sôbre o mosquito, insuperavelmente maior do    que a verificada com os nossos comuns transmissores. O surto continuou em junho,    sendo então tomadas algumas medidas profiláticas (Verde Paris). Amainou-se com    a chegada da estação sêca.</font></p>     <p><font size="3">Em dezembro de 1930, Shannon, outra vez, verifica a extensão    da área atingida, então já ocupando uma área de cêrca de 6 quilômetros quadrados.    Em janeiro de 1931, novo surto epidêmico se observou em Natal, mais sério que    o primeiro, com 10.000 casos notificados no bairro operário de Alecrim, cuja    população era de 12.000 habitantes. Tão séria se tornou a situação, que as autoridades    apelaram para o Govêrno Federal. O único serviço federal de Saúde que então    operava no Estado era o de' Febre Amarela, mantido em cooperação com a Fundação    Rockefeller. Êste atacou os fócos com Verde Paris a partir de março e manteve    o serviço até 13 de outubro, quando Souza Pinto, assumindo a Diretoria de Saúde    do Estado, passou a responsabilizar-se pelo serviço. Em abril de 1932 os trabalhos    foram dados por concluídos, considerando-se o <i>A. gambiae </i>como desaparecido    da cidade de Natal.</font></p>     <p><font size="3">E não se falou mais em surtos sérios de Malária, embora o vetor,    extinto em Natal, continuasse sua marcha para o norte, ganhando os vales dos    rios. Notícias de surtos epidêmicos em várias localidades da zona fizeram-se    ouvir.</font></p>     <p><font size="3">A topografia dos arredores de Natal, desfavoravel à multiplicação    do vetor, tornou sua marcha, a princípio, vagarosa, mas, quando atingiu os vales    dos Rios Assú e Apodí, encontrou condições favoraveis, e, no fim de alguns anos,    chegou ao Vale do Jaguaribe, no Ceará.</font></p>     <p><font size="3">Logo que o S. F. A. começou a combater o <i>A. gambiae </i>em    Natal, verificou que sua zona de criação estava se extendendo. Avisos feitos    por Shannon, Davis, Souza Pinto e Soper, sôbre os perigos do vetor e necessidade    de combatê-lo, não foram convenientemente ouvidos. Uma medida que havia sido    sugerida logo no início, quando ainda sua área de criação em Natal era pequena,    junto ao mar, era a de ser a mesma inundada com águas da maré, pela abertura    dos diques. Já em março e setembro de 1930 foram feitas tais recomendações,    mas, devido à nefasta burocracia, deixaram de ser realizadas em momento oportuno,    as autoridades locais não podendo agir sem ordens do Rio.</font></p>     <p><font size="3">Eis que, em 1938, após uma era silenciosa desde 1932, a catástrofe    se anuncia. Surtos epidêmicos gravíssimos são relatados no Ceará, em regiões,    até então, não propriamente malarigenas. A aparição dêsses surtos, desusados    em sua gravidade, já a partir de 1930 e culminando em 1938 e 1939, com elevadíssima    incidência, alta mortalidade, incidindo em regiões pobres, de população subnutrida,    desorganizou tôda a economia e atividade das zonas atingidas, espalhando o terror.    Centenas de milhares de pessoas adoeceram, dezenas de milhares morreram, a desolação    foi trazida a muitos lares e terras e, não fosse contido e eliminado o transmissor    terrível, atingisse êle os vales dos grandes rios, possivelmente não mais seria    vencido e a desolação se espalharia pela América.</font></p>     <p><font size="3">A situação se apresentava gravíssima para os que conheciam a    importância do <i>A. gambiae </i>como transmissor, mosquito doméstico, de alto    poder de infectibilidade. Segundo Barber, entre outras vozes também acordes,    a ameaça à América era enorme, pois a catástrofe seria incomparavelmente maior    do que a da peste, da guerra e outros males temporários. Uma vez estabelecido    o <i>A. gambiae </i>em nosso território, seus males, continua Barber, sua ameaça    à civilização, seriam imensamente maiores do que a própria penetração do <i>A.    aegypti </i>na Ásia, porque êste é de mais facil combate.</font></p>     <p><font size="3">As autoridades sanitárias locais estavam completamente desaparelhadas    para fazer face à luta, afora alguma assistência em alimentos e medicamentos.    Assim, em maio de 1938 os governos dos dois Estados apelaram para o Governo    Federal, e Souza Pinto, designado para investigar a situação, opinou pela organização    de um serviço federal para enfrentar a situação. Criou-se assim, o Serviço Antimalárico    Federal, dirigido por Manoel Ferreira, que agiu apenas durante os dois últimos    meses do ano, pois logo depois, verificando as dificuldades que iria enfrentar    o novo Serviço, recomendou, com grande desprendimento, que a Divisão Internacional    de Saúde, da Fundação Rockefeller, que já possuía pessoal treinado em seu S.F.A.,    passasse, em serviço de colaboração financeira com o Govêrno, a dirigir a campanha,    da qual continuou êle a participar como um dos Diretores assistentes.</font></p>     <p><font size="3">Durante as discussões havidas, ficou assentado que se deveria    procurar erradicar o <i>A. gambiae, </i>embora surgissem dúvidas quanto ao sucesso    da emprêsa. A campanha seria dirigida contra êsse vetor e não contra a malária    em si, que aí, desde anteriormente já existia, transmitida pelos vetores comuns    nossos. Não havia, no passado, precedente de erradicação de uma espécie vetora    de dada região, excetuando-se o caso da extinção da <i>stegomyia </i>em vários    Estados brasileiros pelo S.F.A. e do caso restrito da môsca do Mediterrâneo,    na Flórida. Verificou-se logo que não seria facil fazer-se estimativa do custo    total, nem do tempo requerido para a campanha. Constituiu-se, pois, o Serviço    de Malária do Nordeste, sendo os períodos mais críticos da campanha, de junho    de 1939 a abril de 1941.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">De acôrdo com os hábitos do vetor e os conhecimentos da época,    anterior ao D.D.T., a campanha se realizou, baseada principalmente na extinção    das formas larvárias, pelo Verde Paris, e na destruição dos adultos nas casas,    pelo expurgo, com piretro.</font></p>     <p><font size="3">O êxito favoravel, a princípio bastante duvidoso, foi pleno.    As medidas de contrôle, iniciadas em 1939, deram a erradicação em menos de dois    anos, trabalhando-se cêrca de mais ano e meio, para garantia final, na espectativa    da existência de possíveis focos remanescentes, o que, felizmente, não se verificou.    As medidas atuais prendem-se aos cuidados para evitar que nova invasão se dê,    pela vigilância nós meios de viagens rápidas entre os dois continentes e cuidados    para evitar a formação de focos potenciais nas cercanias dos portos marítimos    ou aeroportos em ligação com a África.</font></p>     <p><font size="3">O trabalho foi árduo, feito sob sol tropical,    pois as larvas se desenvolvem preferentemente fora das sombras, tendo-se nele    gasto tempo muito menor do que o possivelmente esperado e um custo de cêrca    de .... 40.000.000 de cruzeiros. Não obstante êste custo, o qual, segundo as    conclusões da campanha, poderia ter sido menor, caso fosse dado conhecer de    antemão o problema a que se, aventuraram sem orçamento presumível, pois era    uma luta que pela primeira vez se fazia para a extinção de um terrível vetor    em zona bastante extensa, o dinheiro foi bem empregado.</font></p>     <p><font size="3">Fosse o desastre retardado de alguns poucos anos, certamente    que o D.D.T. residual teria larga aplicação, pois o <i>A. gambiae </i>é vetor    eminentemente doméstico, a infecção sendo intradomiciliária. Entretanto, se    a prática da dedetização domiciliária, caso usada isoladamente, sem destruição    dos focos, certamente minimizaria ou mesmo impediria a hecatombe, evitando as    infecções e portanto as epidemias, o vetor poderia perdurar, como constante    ameaça, alimentando-se de sangue de animais, na dificuldade de obter sangue    humano, para o qual tem essencial preferência, nas casas dedetizadas. Durando    o efeito do D.D.T. alguns meses, seria necessária atenção constante, para o    domínio da situação. E' de lembrar o exemplo do Rio de Janeiro em 1928, em que    o abandono ou negligência das medidas anti-estegômicas proporcionou a volta    da febre amarela, constituindo lição para o nosso não raro desleixo administrativo.</font></p>     <p><font size="3">Quem sabe, não foi um benefício vir a campanha antes da divulgação    do D.D.T. pois, assim, proporcionou a eliminação da espécie que, de outra maneira,    poderia, quiçá, ser relegada para um segundo plano.</font></p>     <p><font size="3">Quero ainda citar outro exemplo de cooperação internacional    nas campanhas sanitárias brasileiras, com a conclusão de contratos entre o Govêrno    Brasileiro e o Governo Norte-Americano, que deram como resultado a criação do    Serviço Especial de Saúde Pública, que se estende aos vales do Amazonas e do    Rio Doce, e, segundo solicitações últimas, vai também fazer trabalhos na Baía,    Paraíba e Goiáz. O Serviço Especial de Saúde de Araraquara, em nosso Estado,    é outro exemplo de cooperação, entre o Govêrno do Estado e a Fundação Rockefeller,    devendo, no futuro, ficar todo com o Govêrno do Estado.</font></p>     <p><font size="3">E' verdade que alguns dêsses serviços seriam de ordem rotineira,    como os últimos enunciados, e poderiam perfeitamente ter sido realizados pelos    nossos governos, que, para a sua execução, têm geralmente contribuído com a    maior parcela financeira e quasi com todo o pessoal. Infelizmente, a ingerência    política nos nossos serviços oficiais e a difícil elasticidade no manuseio das    verbas (que, na forma dos contratos, têm sido depositadas à disposição dos dirigentes    das campanhas, não se prendendo às contingências burocráticas), tem dado mostras    de nossa, por vêzes, pouco eficiente capacidade administrativa. Mas aí está    o Serviço Nacional de Febre Amarela, que, sendo hoje feito exclusivamente pelo    Govêrno Federal, conserva-se eficiente, por ter podido manter as normas administrativas    do tempo da cooperação, obtendo as mesmas condições o Serviço Nacional de Tuberculose.</font></p>     <p><font size="3">Chegamos agora, para terminar, às organizações internacionais,    do tipo do Office International d'Higiène Publique, da Liga das Nações e da    UNRRA, no passado, da Oficina Sanitária Panamericana, e da atual ONU.</font></p>     <p><font size="3">O Prof. G. de Paula Souza, chefe do Serviço de Contrôle Epidêmico    da UNRRA, organização internacional de emergência criada durante a última guerra,    teve ocasião de, como um dos delegados brasileiros à Conferência de São Francisco,    colaborar na elaboração da Carta das Nações Unidas. Higienista consumado, extranhou    êle que, na carta preparada em Dumbarton Oaks, não figurasse entre as cogitações    da mesma, a palavra «Saúde». Apoiada pela República da China, e por iniciativa    dele, a delegação aí conseguiu que, à semelhança da extinta Liga das Nações,    de cuja Organização de Higiene Paula Souza já fizera parte, a nova entidade    Internacional cuidasse igualmente de prover cooperação internacional em questões    sanitárias, em substituição às anacrônicas conferências internacionais de saúde,    que agiam em âmbitos mais restritos e descontinuadamente, e englobando a Oficina    Sanitária Pan-americana como sua secção continental para o Novo Mundo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><a name="nt"></a>(<a href="#tx">*</a>) Palestra realizada sob    os auspícios da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, na Biblioteca    Municipal, sessão de 27 de janeiro de 1949.</font></p>      ]]></body>
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