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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Concurso para a cadeira de história natural no magistério secundário]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de S. Paulo Dept. de Zoologia Lab. Fisiologia Geral e Animal]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62nspe1/coment.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>Concurso para a cadeira de história natural    no magistério secundário</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">PAULO SAWAYA    <br>   Lab. Fisiologia Geral e Animal &#151; Dept. de Zoologia da Universidade de S. Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O recente concurso que acaba de efetuar-se representa um passo    bem auspicioso no melhoramento tão desejado do ensino médio. Apesar das falhas    e dos contratempos, o fato de o concurso ter-se realizado, indica só por si,    a vontade que os dirigentes do ensino têm de acertar a via para sairmos da confusão    reinante.</font></p>     <p><font size="3">Muito se tem discutido, entre nós e no estrangeiro, sôbre êsse    grau do ensino, e até hoje ainda não se encontrou solução satisfatória para    as inúmeras questões suscitadas. Ninguem duvida que atravessamos séria crise    do ensino médio, que não é unicamente nacional, e sim internacional.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Responsabilisam-se vários fatores pelas deficiências e pelo    nível ínfimo a que por vêzes baixou. Para alguns a causa está nos programas    enciclopédicos e desconexos; para outros, na centralização excessiva, e terceiros    ainda culpam a ineficiência da fiscalização. Aqui há os que propugnam pela abolição    do ensino livre, e acolá, ao contrário, os que se batem pela sua libertação    da odiosa burocracia governamental. Há, em tôdas as opiniões expostas, certo    fator que contribue, ao lado de muitos outros, para o estado de inferioridade    em que se encontra o ensino secundário entre nós.</font></p>     <p><font size="3">Os recentes exames de admissão às escolas superiores mostram,    à saciedade, falta de preparo dos candidatos, tão profunda como jamais se viu    entre nós.</font></p>     <p><font size="3">Uma das causas, entre as muitas, dessa situação, é o baixo nível    cultural do professorado do ensino secundário. Admitidos a ensinar sem outra    formalidade além do simples registro na Divisão de Ensino Superior, e chamados    para atender às necessidades crescentes dos ginásios e dos colégios, é natural    que o seu nível de cultura seja, salvo honrosas exceções, extremamente baixo.</font></p>     <p><font size="3">Estas razões levaram-nos a considerar com otimismo o atual concurso    de ingresso ao magistério secundário. Pode ter sido um meio falho de escolha    dos professores &#151; e lacunas houve, inúmeras &#151; mas ainda é a que se recomenda    para a melhoria do professorado.</font></p>     <p><font size="3">O poder seletivo do concurso é indubitável. Haja vista o que    ocorreru no da cadeira de História Natural e que vamos comentar ligeiramente.</font></p>     <p><font size="3">Inscreveram-se 29 candidatos, dos quaes 13 professores licenciados    pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo    e os restantes, não licenciados, apenas registrados na Divisão do Ensino Superior.</font></p>     <p><font size="3">O concurso regeu-se pelo Ato 49 de 12 de outubro de 1948, e    constou das seguintes provas: escrita, oral, prática e didática, acrescidas    da de títulos.</font></p>     <p><font size="3">A cadeira de HISTÓRIA NATURAL, no segundo ciclo do ensino secundário,    compreende principalmente: Botânica, Zoologia e Biologia Geral. Com programa    mais reduzido, incluem-se ainda duas disciplinas: Geologia e Paleontologia,    Mineralogia e Petrografia. Não cabe discutir a questão da possibilidade, nos    tempos atuais, da formação de naturalistas, nem a de haver, no curso secundário,    lugar, na cadeira de História Natural, para o ensino destas duas últimas disciplinas.    As noções de Mineralogia são dadas, em geral, nos cursos de Química; e as de    Paleontologia, nos de Zoologia e de Botânica.</font></p>     <p><font size="3">O fato é que a banca examinadora teve de ater-se ao extenso    e desharmônico programa de História Natural do curso colegial (2º ciclo).    Cada ponto das provas teria, pois, de conter pelo menos três partes. Os da prova    escrita foram publicados com cinco dias de antecedência; os da prática, com    48 horas; e os das demais eram sorteados de modo a contar o candidato com 24    horas para a preparação respectiva.</font></p>     <p><font size="3">Dos 29 candidatos inscritos apenas 14 se apresentaram, sendo    8 licenciados. Se alguns tiveram motivos justificaveis para se eximir do concurso,    não há dúvida de que os pontos, especialmente os da prova escrita, exerceram    um certo papel seletivo inicial.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">As duas primeiras provas (escrita e oral) destinaram-se à demonstração    de cultura. Para elas, a banca examinadora preferiu assuntos de carater geral,    que abrangessem uma série de questões importantes da matéria. Se os candidatos    estivessem em dia com a moderna bibliografia, teriam oportunidade de preparar    satisfatoriamente os pontos de ambas as provas. Infelizmente, foi o que, por    via de regra, não se verificou. Candidatos licenciados e não licenciados não    foram, salvo algumas exceções, além dos tratados elementares.</font></p>     <p><font size="3">Muitos deles desconheciam completamente o que há de moderno    sôbre o assunto e até mesmo o que se publicou nos laboratórios da Faculdade    pela qual se licenciaram. Parece que os professores dos cursos secundários não    cultivam a ciência que ensinam. E não se diga que carecem de meios e de oportunidades,    pois os laboratórios da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras sempre lhes    foram franqueados e as suas opulentas bibliotecas são sempre frequentadas a    quantos se interessam pela História Natural.</font></p>     <p><font size="3">Muitas vêzes, os candidatos ficavam presos demais aos livros    e longe dos objetos. Assim, numa das provas orais (de erudição) em que se tratou    dos Mamíferos, da propagação da prole, dos anexos embrionários, esqueceram-se    de aproveitar exemplos bastante significativos, como o do cuidado de os ratos    fazerem ninhos para proteger os filhotes durante a fase poiquilotérmica, ou    o de mencionar, sumariamente embora, o fato de o nosso conhecidíssimo tatú ter    a particularidade de parir quatro embriões, sendo todos de um só sexo. Ora,    isso é índice de falta de conhecimento dos animais representativos da nossa    fauna. A poliembrionia característica do Tatú poderia ainda servir para suavisar    a preleção, se contassem a historieta bem conhecida que Rodolpho von Ihering    traz no seu excelente «Da vida dos nossos animais» (ed. Rotermund    &amp; Co. 1934, p. 15):</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>O tatú, mais a mulita,    <br>     E</i>' <i>lei da sua criação,    <br>     Sendo macho não pode ter irmã,    <br>     Quando fêmea não pode ter irmão.</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">As duas provas mais significativas foram, a nosso ver, a prática    e a didática e sôbre elas vale a pena ligeiro reparo. Na primeira visou-se saber    se os candidatos eram Capazes de preparar a aula prática para demonstrar aos    alunos o material didático que se ensinou na parte teórica. Um animal dissecado    corretamente, com bôa exposição dos órgãos, ensina muito mais que uma longa    descrição puramente livresca. Levou-se, por isso, em maior consideração a técnica    de preparação do material, o modo de o apresentar, a maneira de o descrever.    Não se tratava de saber se os candidatos possuíam profundos conhecimentos sôbre    os animais, as plantas, os minerais e sôbre os fosseis que lhes foram fornecidos,    mas de saber se se orientavam bem nos exercícios práticos, se tinham habilidade    para preparar peças modêlo, ou para estimular os estudantes a colher e conservar    o material para estudo. À vista disso, foi-lhes facultada a consulta de apontamentos    e de livros, tal como um professor pode, e deve, fazer no ginásio em que leciona.</font></p>     <p><font size="3">Esta última faculdade &#151; a de consultar livros à vontade &#151; deveria    contribuir para se ajuizar se os candidatos se achavam afeitos ao manuseio da    bibliografia adequada. Infelizmente &#151; talvez devido à excitação do exame &#151; os    candidatos solicitaram uma série de compêndios e de tratados, um têrço dos quais    não era sequer aberto. Tendo sido o material da prova escolhido cuidadosamente    dentre os mais típicos e os que mais se prestavam à prova, em vários tratados    se achava representado e ilustrado. A falta de hábito no trato com o material,    conduzia certos candidatos à impossibilidade sequer de comparar a figura esquemática    do livro com a preparação que estava a examinar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A prova didática foi uma das mais interessantes. Deu possibilidade    de a banca examinadora colher uma série de observações muito uteis. Licenciados    e não licenciados deveriam demonstrar se sabiam ou não dar aulas nos ginásios,    ou, melhor dito, se sabiam atrair o interêsse dos discípulos para a matéria    de sua vocação e transmitir-lhes os conhecimentos indispensaveis.</font></p>     <p><font size="3">Houve provas bem vivas e atraentes, com o que, certos candidatos    demonstraram qualidades didáticas apreciaveis. Cuidaram de bem preparar o material    demonstrativo; explicavam com clareza as partes mais importantes do tema. Mostravam    e ensinavam, segundo o célebre aforisma: «Na História Natural quem não    mostra não ensina». Alguns, no desenvolvimento das suas preleções apresentavam    desenhos elucidativos. Eram sóbrios no uso de têrmos técnicos, evitando-os na    medida do possível, e quando os empregavam, escreviam-nos com clareza no quadro    negro. Nem sempre, porém, foi assim. Candidatos houve, e de modo particular    entre os licenciados, que tomavam atitudes doutorais, e suas aulas não ficaram    muito aquem das que se proferem na Universidade. Foram aulas doutas, repletas    de informações, mas acima do nível cultural dos alunos do Colégio.</font></p>     <p><font size="3">Enumerar e entrar em pormenores àcêrca das teorias, antigas    e novas, que tentam explicar a ascenção da seiva nos vegetais, discutí-las em    têrmos da físico-química, no ginásio, &eacute; induzir os estudantes a decorá-las    sem as compreender. Explicar a reprodução dos fungos, sem dar exemplo prático    ao alcance dos alunos, é Falha sensível. Dizer, por exemplo, que o <i>Saccharomyces    cerevisiae </i>se reproduz por brotos, e não aproveitar a oportunidade para    contar sumariamente como se fabrica a cerveja, é desprezar boa oportunidade    para despertar o interêsse dos ouvintes. E êste interêsse talvez fosse mais    vivo, se, ao abordar a reprodução dos mofos. lembrassem de referir-se, embora    ligeiramente, à penicilina, hoje tão popular e tão em voga. Isto amenizaria    a aridez do intrincado dos zoósporos, dos aplanósporos, dos conidi&oacute;sporos.    Não é facil transmitir estas noções aos adolescentes. Um tubo de ensaio com    uma cultura de cogumelos ou um tufo de bolor são mais elucidativos que o enfileirar    uma série de nomes complicados, mal pronunciados, e que os estudantes mal podem    escrever. Dêstes princípios básicos de pedagogia, alguns candidatos se esqueceram    completamente.</font></p>     <p><font size="3">A uma das turmas coube discorrer sôbre os Crustáceos. A parte    geral do ponto apresenta aspectos verdadeiramente atraentes, A ecologia de um    grupo de animais que ocorre no mar, na água doce e na terra, por certo, deve    ser preferida para despertar o interesse dos principiantes. Infelizmente, porém,    alguns candidatos se aventuraram pelo emaranhado da sistemática dos grupos superiores    dessa classe de Artrópodos, crivada de nomes complicados, cuja significação    alguns se esqueceram de mencionar. A estudantes que se iniciam na zoologia,    parece mais propícia conhecer o fenômeno de o camarão esbranquiçado passar a    vermelho vivo ao ser posto na panela e dêsse fenômeno ter uma explicação clara    e precisa, que o ser forçado a decorar a nomenclatura dos apêndices, com requintes    de minúcias.</font></p>     <p><font size="3">Aulas deficientes e aulas doutorais são os dois maiores escolhos    do ensino da História Natural nos cursos secundários. Devem ser eliminados,    principalmente porque podem conduizir os estudantes a dois caminhos falsos:    o de perniciosa <i>nova ciência</i> (que muitos professores têm quando empregam    têrmos que êles mesmos não compreendem) e o do horror à natureza &#151; característica,    infelizmente, tão espalhada entre os jovens do nosso país.</font></p>     <p><font size="3">Não deixou de ser interessante verificar que as aulas mais agradaveis    foram dadas pelos candidatos que passaram pelas escolas normais. O treino pedagógico    que tiveram no ensino primário foi-lhes de grande utilidade, agora, no concurso    ao magistério secundário. Êste falo não deveria ser descuidado por aqueles que    se empenham em incrementar e melhorar a formação do nosso professorado secundário.</font></p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62nspe1/linha.gif"></p>      ]]></body>
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