<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252010000600007</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Gestão Oscar Sala relações institucionais entre o governo federal e a SBPC]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Magalhães]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luiz Edmundo de]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,USP  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<volume>62</volume>
<numero>spe2</numero>
<fpage>20</fpage>
<lpage>27</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252010000600007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252010000600007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252010000600007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><font size="4" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Gest&atilde;o Oscar Sala   rela&ccedil;&otilde;es institucionais entre o governo federal e a SBPC</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Luiz Edmundo de Magalh&atilde;es </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Foram duas as principais raz&otilde;es que me levaram a escrever estas mem&oacute;rias sobre as rela&ccedil;&otilde;es institucionais entre a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC), sob a presid&ecirc;ncia do professor Oscar Sala, e o governo federal, incluindo o pr&oacute;prio presidente da Rep&uacute;blica, Ernesto Geisel. Uma delas foi dar o meu testemunho sobre a conduta absolutamente impoluta do professor Sala, n&atilde;o s&oacute; &agrave; frente da SBPC, como em tudo na sua vida. A outra raz&atilde;o se deve &agrave; minha convic&ccedil;&atilde;o de que o governo, naquela &eacute;poca, estava empenhado na abertura pol&iacute;tica. S&oacute; n&atilde;o a fez, de imediato, devido &agrave;s in&uacute;meras dificuldades que teve que enfrentar com os grupos radicais dentro do seu pr&oacute;prio governo. Na qualidade de secret&aacute;riogeral da SPBC durante dois mandatos (1973 a 1977), fui testemunha de que o governo desejava a abertura e, como parte da sua a&ccedil;&atilde;o, havia decidido conquistar a simpatia e o apoio da comunidade cient&iacute;fica, usando, para isso, a SBPC. O principal mentor dessa estrat&eacute;gia foi, sem d&uacute;vida, o ent&atilde;o ministro do Planejamento, Jo&atilde;o Paulo dos Reis Velloso; entretanto, n&atilde;o se pode excluir a prov&aacute;vel participa&ccedil;&atilde;o do ministro chefe da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62nspe2/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Como, at&eacute; a presente data, n&atilde;o tenho conhecimento de nenhuma interpreta&ccedil;&atilde;o que d&ecirc; esse cr&eacute;dito ao governo, entendo que &eacute; uma quest&atilde;o de justi&ccedil;a exp&ocirc;-la e divulg&aacute;-la, para que possa ser avaliada e considerada. Sei muito bem que, at&eacute; o momento, prevalece uma vis&atilde;o bastante cr&iacute;tica do governo da chamada Revolu&ccedil;&atilde;o de 1964. Acho isso justo, mas &eacute; necess&aacute;rio tamb&eacute;m que as verdades sejam ditas. Espero, no desenvolvimento deste depoimento, expor raz&otilde;es suficientes para justificar as minhas constata&ccedil;&otilde;es sobre fatos ocorridos h&aacute; mais de 30 anos. Certamente s&oacute; muito poucas pessoas se lembrar&atilde;o, hoje, do que ent&atilde;o acontecia, raz&atilde;o pela qual tentarei, muito rapidamente, relembrar qual a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica daquele momento.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Partiu de Minas Gerais, na noite de 31 de mar&ccedil;o de 1964, o golpe militar que implantou uma ditadura que duraria mais de 20 anos. Para se manter no poder, os dirigentes fizeram uso da for&ccedil;a e da tortura, dividindo a opini&atilde;o p&uacute;blica entre uma parte, que apoiava o golpe, e outra, formada principalmente por jovens, universit&aacute;rios e intelectuais, que a combatia com ideias e at&eacute; mesmo com armas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A repress&atilde;o foi grande; imprensa censurada e rebeldes perseguidos com viol&ecirc;ncia. A SBPC, mesmo sendo oposi&ccedil;&atilde;o, gozava de certa liberdade, sempre vigiada de perto. No entanto, conseguia, uma vez por ano, na sua tradicional Reuni&atilde;o Anual, expressar seu pensamento, com cr&iacute;ticas ao governo militar. Era, assim, considerada o &uacute;nico f&oacute;rum livre. Da&iacute; ter granjeado uma grande fama e ter bastante sucesso nas suas atividades, em especial, nessas reuni&otilde;es anuais, quando oradores defendiam direitos fundamentais da sociedade, e uma plateia ansiosa ouvia e aplaudia essas exposi&ccedil;&otilde;es. Durante a gest&atilde;o do professor Warwick Estev&atilde;o Kerr &agrave; frente da presid&ecirc;ncia da SBPC, fui convidado a colaborar com o editor da revista <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i>, o doutor Adolpho Martins Penha, do Instituto Biol&oacute;gico, ent&atilde;o com sua sa&uacute;de abalada. Pouco tempo depois, acabei substituindo-o e participei da organiza&ccedil;&atilde;o das reuni&otilde;es anuais. Desligado do cargo de editor, em 1972, fui para os Estados Unidos, como professor visitante na Universidade do Texas. Na minha volta, candidatei-me ao cargo de secret&aacute;rio-geral, para o qual fui eleito e e tomei posse em julho de 1973. A diretoria era composta pelo presidente Oscar Sala, primeiro vice-presidente Carlos Alberto Dias, segundo vice-presidente Carlos Chagas Filho, secret&aacute;rias Carolina Bori e Eliana Azevedo e tesoureiro Renato Basile. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>VISITA AO PRESIDENTE GEISEL</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Creio que n&atilde;o pode haver evid&ecirc;ncia maior do interesse do governo federal em manter um relacionamento harm&ocirc;nico e cooperativo com a SBPC, do que o convite feito a toda a diretoria para uma entrevista com o presidente, no Pal&aacute;cio do Planalto, logo no in&iacute;cio de seu governo. &Eacute; f&aacute;cil imaginar que a tomada de decis&atilde;o, por parte do governo federal, de levar toda a diretoria da SBPC &agrave; presen&ccedil;a do presidente da Rep&uacute;blica n&atilde;o foi um ato assumido de improviso ou impensadamente, o que teria sido uma irresponsabilidade inadmiss&iacute;vel. Foi uma decis&atilde;o que deve ter sido bem estudada e bem avaliada, com prop&oacute;sitos definidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> &Eacute; bom lembrar que as rela&ccedil;&otilde;es entre a SBPC e o governo federal, desde o in&iacute;cio do golpe militar de 1964, eram de completo antagonismo. N&atilde;o se podia tolerar um governo ditatorial e torturador. O que teria, ent&atilde;o, mudado no governo Geisel? Para muitos, nada! Mas a verdade &eacute; que havia no ar certo clima um pouco mais otimista, acenando com uma abertura pol&iacute;tica e certa redu&ccedil;&atilde;o das torturas aos presos pol&iacute;ticos. Era uma promessa... ou, talvez, um desejo de muitos! Sem d&uacute;vida, de um modo geral, o governo Geisel j&aacute; era visto e sentido com outros olhos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">N&atilde;o posso precisar exatamente quem fez o convite para que f&ocirc;ssemos ter essa entrevista com o presidente, mas sei que o fato causou bastante preocupa&ccedil;&atilde;o entre n&oacute;s. A decis&atilde;o em aceitar o convite coube, exclusivamente, ao presidente Oscar Sala e, acredito, foi acatada por todos os membros da diretoria. Sala era um homem calado, de poucas palavras. Era recatado, mas muito en&eacute;rgico. Tinha convic&ccedil;&otilde;es firmes dentro de r&iacute;gidos princ&iacute;pios morais e &eacute;ticos. N&atilde;o conheci ningu&eacute;m como o Sala, de princ&iacute;pios t&atilde;o arraigados, t&atilde;o independente e de decis&otilde;es inabal&aacute;veis. Sempre me pareceu um bom negociador, quando tinha uma quest&atilde;o relevante a resolver. Ocupava, naquela &eacute;poca, o cargo de diretor cient&iacute;fico da Fapesp, onde impunha muito respeito, nunca transigia. Na SBPC, como presidente, tamb&eacute;m mantinha a mesma postura e o mesmo rigor. N&atilde;o abria m&atilde;o de suas convic&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o concedia, n&atilde;o bajulava nunca. Se recebia qualquer benef&iacute;cio em nome da institui&ccedil;&atilde;o, isso nunca poderia ser visto como uma barganha, mas, sim, algo concedido por m&eacute;rito, por justi&ccedil;a. A diretoria confiava integralmente nele. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Finalmente chegou o dia da visita. Est&aacute;vamos todos muito preocupados. O que o governo iria querer pedir ou propor? Est&aacute;vamos conscientes da responsabilidade desse encontro. Ele tinha, ou poderia ter, um significado emblem&aacute;tico de uma ades&atilde;o. Longe de n&oacute;s tal ideia. Talvez, para n&oacute;s, pudesse ser uma forma clara de dizer: "n&oacute;s existimos e estamos aqui presentes com as nossas reivindica&ccedil;&otilde;es, nossa inconformidade; se viemos em paz, esperamos considera&ccedil;&atilde;o e - por que n&atilde;o? - colabora&ccedil;&atilde;o dentro do mais saud&aacute;vel esp&iacute;rito de respeito m&uacute;tuo." </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Minha mais forte lembran&ccedil;a dessa visita foi a pergunta direta e objetiva do presidente ao professor Sala: </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">- Afinal, qual a diferen&ccedil;a entre a SBPC e a Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Sala respondeu dando todas as explica&ccedil;&otilde;es &oacute;bvias e corriqueiras, que todos n&oacute;s conhec&iacute;amos. Pensando nisso hoje, posso supor que o presidente queria se certificar de que a op&ccedil;&atilde;o que ele tinha feito de interagir com a SBPC, e n&atilde;o com a ABC, tinha sido a melhor e a mais correta. Creio que, com a exposi&ccedil;&atilde;o de Sala, ele ficou convencido do caminho certo, pois a SBPC passou a participar de v&aacute;rios eventos no decorrer do seu governo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Despedimo-nos e sa&iacute;mos. Acredito que tiv&eacute;ssemos passado no teste, n&atilde;o quero dizer brilhantemente, mas heroicamente, sem feridos, sem que nada houvesse a lamentar! </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Voltamos, como fomos, sem entender muito bem o que a nossa visita tinha significado, tanto para n&oacute;s, como para eles. Hoje, estou convencido de que, para eles, teria sido muito satisfat&oacute;ria, pois marcou o in&iacute;cio de um contato permanente, bastante proveitoso, que era o que eles procuravam e desejavam. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Jo&atilde;o Paulo dos Reis Velloso era o ministro do Planejamento do presidente Geisel, jovem, charmoso e elegante, com muito prest&iacute;gio, ele era um dos chamados "Ministros da Casa". Com gabinete no Pal&aacute;cio do Planalto, ele se reunia todas as manh&atilde;s com o presidente, o que lhe dava, seguramente, muito poder e responsabilidades. Foi durante a sua gest&atilde;o que a ci&ecirc;ncia brasileira recebeu mais aten&ccedil;&atilde;o e passou a fazer parte do conjunto de elementos usados no planejamento do desenvolvimento do pa&iacute;s. Foi criado o Plano B&aacute;sico de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (PBDCT), no qual estavam expostas as prioridades do desenvolvimento cient&iacute;fico, que serviriam de base, inclusive, para orientar os pedidos de aux&iacute;lio financeiro para a pesquisa. Se a &aacute;rea ou tema da pesquisa para os quais estavam sendo solicitadas verbas n&atilde;o estivessem contemplados no PBDCT, era certo que n&atilde;o sairia dinheiro. Al&eacute;m disso, o CNPq passou a fazer bianualmente um documento por &aacute;rea de conhecimento, chamado Avalia&ccedil;&atilde;o e Perspectiva, que era um balan&ccedil;o de tudo que fora feito no per&iacute;odo e a coloca&ccedil;&atilde;o do que se esperava que viesse a ser feito em seguida, um elo entre o passado e o futuro, com dados qualitativos e quantitativos. Nunca a ci&ecirc;ncia brasileira fora t&atilde;o bem monitorada, alvo de tamanha aten&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Bem no in&iacute;cio da nossa gest&atilde;o, o professor Sala foi convocado para uma reuni&atilde;o em Bras&iacute;lia, no pr&oacute;prio Minist&eacute;rio do Planejamento. Acompanhei-o. O ministro tinha planos! Pediu que organiz&aacute;ssemos um tipo de simp&oacute;sio com as lideran&ccedil;as cient&iacute;ficas das mais diversas &aacute;reas do saber, para expor, digamos, o estado da arte da cada uma delas, numa data pr&eacute;-determinada, tudo subvencionado pelo minist&eacute;rio. Creio que foi dessa feita que, ao sairmos de Bras&iacute;lia, fomos direto ao Minist&eacute;rio da Fazenda, no Rio de Janeiro, para receber um adiantamento, em dinheiro vivo, de parte da verba destinada pelo ministro, para fazer face &agrave;s despesas e subvencionar a SBPC. &Eacute; bom lembrar que a SBPC foi sempre subvencionada por &oacute;rg&atilde;os do governo, tanto federal, como estadual e, at&eacute; mesmo, municipal. Os ventos estavam mudando. A SBPC havia transferido sua sede de uma sala no Instituto de Qu&iacute;mica da USP, na Cidade Universit&aacute;ria, para um pequeno e modesto sobrado geminado, em Pinheiros, na rua Cunha Gago e passava por momentos de grandes dificuldades financeiras, com sua capacidade de realiza&ccedil;&otilde;es extremamente limitada. Agora come&ccedil;ava a receber aten&ccedil;&atilde;o e dinheiro, em fun&ccedil;&atilde;o do seu pr&oacute;prio trabalho e m&eacute;rito, o que era justo e sem nenhum favor. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Tendo aceitado a proposta do ministro, para organizar a reuni&atilde;o em Bras&iacute;lia, o professor Sala se p&ocirc;s a trabalhar. Para ele, seria f&aacute;cil selecionar um dos melhores grupos de pesquisadores. Como diretor cient&iacute;fico da Fapesp, conhecia perfeitamente bem a comunidade cient&iacute;fica e era capaz de discriminar as grandes lideran&ccedil;as. Quando tudo estava preparado, e chegava a data da realiza&ccedil;&atilde;o do evento, surgiu um imprevisto intranspon&iacute;vel: por morte de algum pol&iacute;tico importante, o governo decretou luto oficial, n&atilde;o sendo poss&iacute;vel, assim, a realiza&ccedil;&atilde;o de qualquer evento festivo no per&iacute;odo. O simp&oacute;sio simplesmente foi suspenso, sem tentativa de transfer&ecirc;ncia de data. Mas, afinal, o que o ministro Velloso pretendia? Simplesmente anunciar o seu plano de transferir o CNPq do Rio de Janeiro para Bras&iacute;lia, para uma sede nova, alterando seus estatutos e seu nome, de Conselho Nacional de Pesquisa para Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico, sem, no entanto, alterar a sigla CNPq. Dava, assim, uma maior amplitude ao &oacute;rg&atilde;o, um maior campo de atua&ccedil;&atilde;o. Ele era, realmente, um ministro com grande interesse na ci&ecirc;ncia, que entendia o seu papel e a sua import&acirc;ncia no desenvolvimento estrat&eacute;gico do pa&iacute;s. Infelizmente, nunca mais tivemos, no governo, um pol&iacute;tico com essa compreens&atilde;o e afinidade com a ci&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Passado algum tempo, aconteceu mais um encontro do professor Sala com o ministro Reis Velloso, agora em S&atilde;o Paulo, no escrit&oacute;rio, que mantinha na Avenida Paulista. Sala foi sozinho e me contou o teor da entrevista. O ministro tinha vindo pedir a toler&acirc;ncia dele para a indica&ccedil;&atilde;o que ele pretendia fazer do jovem engenheiro Jos&eacute; Dion de Mello Teles para o cargo de presidente do CNPq.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> O Dion era um velho conhecido nosso, uma boa pessoa, amiga e colaboradora. Formado pelo ITA em engenharia eletr&ocirc;nica, foi convidado, junto com mais dois colegas de turma, a gerenciar o novo computador da Polit&eacute;cnica, sob a responsabilidade de um pequeno comit&ecirc; de professores da USP. Dion era meu amigo. Trabalhamos juntos nesse computador, adaptando um programa para uso em gen&eacute;tica, que eu havia trazido da Dinamarca. Foi o uso pioneiro da computa&ccedil;&atilde;o eletr&ocirc;nica em gen&eacute;tica no Brasil. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">No decorrer do tempo, Dion foi apresentado a Delfim Netto, professor da Faculdade de Economia e Administra&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o secret&aacute;rio de Estado de S&atilde;o Paulo dos Neg&oacute;cios da Fazenda. Dion era um jovem af&aacute;vel, simp&aacute;tico, inteligente e com boa compet&ecirc;ncia. Foi levado por Delfim a trabalhar no banco do estado, o Banespa, e depois para Bras&iacute;lia, quando Delfim se tornou ministro da Fazenda. Em Bras&iacute;lia, Dion progrediu muito. Logo implantou o primeiro sistema de computa&ccedil;&atilde;o no Senado, tornando-se muito bem visto entre os senadores. Era, tamb&eacute;m, amigo do Reis Velloso, seu conterr&acirc;neo, que o nomeou presidente do Servi&ccedil;o de Processamento de Dados. Apesar de todo esse sucesso, sem d&uacute;vida, com m&eacute;rito, Dion n&atilde;o dispunha das credenciais acad&ecirc;micas que o recomendassem a assumir a presid&ecirc;ncia do CNPq. Que vis&atilde;o teria ele da ci&ecirc;ncia brasileira na presid&ecirc;ncia do &oacute;rg&atilde;o? Intelig&ecirc;ncia certamente n&atilde;o lhe faltava, nem jogo pol&iacute;tico, mas era bastante jovem, n&atilde;o tinha maturidade, conhecimento da &aacute;rea, capacidade para gerir o CNPq com sucesso. O professor Sala n&atilde;o podia fazer nada, nem mesmo coment&aacute;rios. Aquele era um pedido que exigia paci&ecirc;ncia e toler&acirc;ncia; n&atilde;o era para ser discutido e, sim, para ser atendido. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>A SBPC E A REUNI&Atilde;O ANUAL DE RECIFE</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Nessa &eacute;poca, por ocasi&atilde;o da Reuni&atilde;o Anual, a SBPC congregava todas as sociedades cient&iacute;ficas das diversas &aacute;reas do conhecimento das ci&ecirc;ncias, das artes e humanidades no pa&iacute;s e, como j&aacute; foi dito, era considerada uma oportunidade de, al&eacute;m da pr&aacute;tica da boa e saud&aacute;vel discuss&atilde;o das ci&ecirc;ncias, abrigar espa&ccedil;o para discuss&atilde;o pol&iacute;tica e para reivindica&ccedil;&otilde;es. Esse era o grande charme da Reuni&atilde;o, o que a tornava um momento ansiosamente esperado, principalmente pela pr&oacute;pria imprensa, dos melhores jornais que lhe davam uma ampla cobertura, no n&iacute;vel nacional. Geralmente era enviado um jornalista para acompanhar de perto o evento, noticiando tudo o que acontecia e entrevistando convidados ilustres. Tudo isso n&atilde;o significa que a SBPC n&atilde;o fosse patrulhada pelo governo e que ocorressem, at&eacute; mesmo, algumas pris&otilde;es dentro dos seus limites territoriais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A Reuni&atilde;o Anual, &eacute; bom que se diga, nunca perdeu o seu car&aacute;ter eminentemente cient&iacute;fico. Certamente o seu padr&atilde;o de qualidade foi cuidadosamente preservado e melhorado, principalmente pela escolha de convidados especiais do Brasil e do exterior, de grande renome.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Se aqueles foram tempos dif&iacute;ceis, foram tamb&eacute;m emocionantemente her&oacute;icos, em que nossas realiza&ccedil;&otilde;es eram feitas com determina&ccedil;&atilde;o e amor, todos cientes das dificuldades e conscientes das nossas responsabilidades. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62nspe2/a07fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>CELSO FURTADO EM RECIFE </i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A Reuni&atilde;o Anual da SBPC de 1974, a primeira que a nossa diretoria estava organizando, ocorreu entre 10 e 17 de julho, na capital pernambucana. Acolheu-nos a Universidade Federal de Pernambuco, cujo reitor era o professor Marcion&iacute;lio de Barros Lins, um bioqu&iacute;mico de certa proje&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Entretanto, acabou se mostrando um homem de direita, alinhado com a ditadura militar. Nunca deixou de nos criticar. &Eacute;ramos um inc&ocirc;modo para a sua posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e, certamente, para as suas pretens&otilde;es. Esmeramo-nos no preparo da Reuni&atilde;o, para que tudo sa&iacute;sse muito bem. Foi uma reuni&atilde;o grande. Entre os convidados ilustres, estavam o professor Walter Leser, na &eacute;poca secret&aacute;rio de Sa&uacute;de do Estado de S&atilde;o Paulo, e o economista Celso Furtado, ex-ministro de Planejamento do governo Juscelino. Ele vivia exilado na Fran&ccedil;a e, gra&ccedil;as ao nosso convite, era a primeira vez que voltava ao Brasil. Foi um dos que criaram a Superintend&ecirc;ncia de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), com sede no Recife. Al&eacute;m deles, hav&iacute;amos convidado para fazer a nossa confer&ecirc;ncia de encerramento um de nossos mais recentes associados, o ministro Jo&atilde;o Paulo dos Reis Velloso, que para demonstrar que as rela&ccedil;&otilde;es entre governo e SBPC eram mesmo para valer, num gesto emblem&aacute;tico, tinha se filiado &agrave; Sociedade, passando a pagar sua mensalidade e aceitando participar das nossas atividades. N&atilde;o foi pouca coisa; sem d&uacute;vida, o ministro era muito sedutor! No entanto, quem estava incomodado com a presen&ccedil;a do ex-ministro Celso Furtado na reuni&atilde;o era o reitor Marcion&iacute;lio. Ele achava que a SBPC n&atilde;o deveria t&ecirc;-lo convidado e que poderia acabar sendo preso novamente pelos militares. Era um boato, uma suspeita no ar. Uma noite, Celso Furtado saiu do hotel e voltou tarde da noite. Isso j&aacute; foi motivo de preocupa&ccedil;&atilde;o, o bastante para se pensar em sua eventual pris&atilde;o. S&oacute; no dia seguinte ficamos sabendo, n&atilde;o me lembro mais como, que, naquela data, a FEB comemorava uma vit&oacute;ria que ela havia tido na It&aacute;lia e que o alto comando militar do Recife decidira convidar Furtado, ex-combatente e comandado de alguns generais, para participar das comemora&ccedil;&otilde;es. Era, assim, o oposto do que esperava o reitor.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Celso Furtado deveria fazer uma confer&ecirc;ncia, programada para ser realizada no maior audit&oacute;rio da universidade, num pr&eacute;dio isolado do edif&iacute;cio principal. Na v&eacute;spera, a diretoria da Sudene havia solicitado uma audi&ecirc;ncia ao professor Sala, pedindo que a palestra fosse feita em sua sede, e n&atilde;o na universidade. Essa hip&oacute;tese j&aacute; havia sido discutida por nossa diretoria e havia o consenso de que pud&eacute;ssemos parecer provocativos, se ced&ecirc;ssemos ao desejo de todos os membros da Sudene de receb&ecirc;-lo, homenage&aacute;-lo, mostrar a gratid&atilde;o pelo que ele havia feito. O professor Sala n&atilde;o cedeu.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62nspe2/a07fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Na manh&atilde; seguinte, Sala e eu ficamos de prontid&atilde;o para acompanhar o conferencista at&eacute; o audit&oacute;rio. Foi meu primeiro e &uacute;nico contato com ele, que me deixou uma forte impress&atilde;o: um homem absolutamente consciente de suas responsabilidades, extremamente simples, calado, modesto mesmo, mas com evidente personalidade forte. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Chegamos ao audit&oacute;rio. Absolutamente lotado. Na frente, o professor Sala anunciou a presen&ccedil;a do conferencista e o tema da palestra. Quando finalmente ele adentrou o audit&oacute;rio, todos ficaram de p&eacute;, aplaudindo por mais de dez minutos. Uma apoteose! Celso Furtado era um &iacute;dolo! &Eacute; claro que n&atilde;o me lembro mais de todo o teor do discurso, mas ainda me recordo bem de que ele, com as m&atilde;os espalmadas, voltadas para o p&uacute;blico, pedia desculpas aos seus compatriotas, principalmente aos jovens, por achar que, quando ministro, havia cometido alguns equ&iacute;vocos na avalia&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica econ&ocirc;mica que acarretaram atrasos para o pa&iacute;s. Foi ovacionado in&uacute;meras vezes durante a sua fala e, no final, ningu&eacute;m queria sair. Foi emocionante. Ele teve, ao longo desse evento, uma atitude bastante fleum&aacute;tica, de eleg&acirc;ncia e sabedoria. Todos estavam orgulhosos do ministro Celso Furtado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Est&aacute;vamos chegando ao final da Reuni&atilde;o, e tudo havia ocorrido sem grandes problemas. Pod&iacute;amos consider&aacute;-la um grande sucesso: p&uacute;blico numeroso, todo programa cumprido rigorosamente e, para encerrar, s&oacute; faltava a confer&ecirc;ncia do ministro Reis Velloso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Eu tinha ficado encarregado de esper&aacute;-lo no aeroporto. Fui pedir a condu&ccedil;&atilde;o ao Marcion&iacute;-lio."Mas o ministro n&atilde;o vem, isso &eacute; um bando de comunistas", foi o que ele me respondeu. Parece que o reitor havia tomado a iniciativa de ligar para Bras&iacute;lia, aconselhando-o a n&atilde;o fazer a confer&ecirc;ncia. Foi dif&iacute;cil, mas, finalmente, me deram uma condu&ccedil;&atilde;o oficial, e l&aacute; fui eu para o aeroporto, na hora marcada. Pouco tempo depois, se aproximou o avi&atilde;o da FAB, e o ministro desceu, cumprindo o protocolo. Fui receb&ecirc;-lo; encarou-me com um sorriso de quem diz:"Viu? Estou aqui!". N&atilde;o fez coment&aacute;rios. Levei-o at&eacute; o professor Sala. A Reuni&atilde;o foi encerrada com chave de ouro. Miss&atilde;o cumprida, voltamos para S&atilde;o Paulo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>MINHA NOMEA&Ccedil;&Atilde;O PARA REITOR DA UFSCAR E O MINISTRO DA EDUCA&Ccedil;&Atilde;O </i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Certo dia, o professor Crodowaldo Pavan me procurou, no Departamento de Biologia, para me fazer um convite. Queria saber se eu aceitaria concorrer ao cargo de reitor da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos. Ele estava mantendo contato com o professor S&eacute;rgio Mascarenhas, da USP de S&atilde;o Carlos, que era membro do Conselho de Curadores da Federal. Aceitei o desafio; o professor S&eacute;rgio lan&ccedil;ou meu nome e me apresentou aos membros do Conselho. Fui um dos candidatos escolhidos para integrar a lista tr&iacute;plice a ser apresentada ao ent&atilde;o ministro da Educa&ccedil;&atilde;o, Ney Braga. Nesse &iacute;nterim, meu nome foi submetido ao SNI para investiga&ccedil;&atilde;o, por 90 dias. Fui aprovado e nomeado por ato da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica. Avaliando, hoje, esses fatos, suspeito que minha nomea&ccedil;&atilde;o tenha sido facilitada por ser eu o secret&aacute;rio-geral da SBPC. O que antes seria um entrave, agora se tornara um agente facilitador. &Eacute; apenas uma hip&oacute;tese, mas com grande probabilidade de ser correta. Demorei um pouco a me entrosar no Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, mas, gradativamente, fui me entendendo com o pessoal e conseguindo apoio aos meus projetos. No in&iacute;cio, n&atilde;o tinha nenhum contato com o ministro Ney Braga, homem de confian&ccedil;a do presidente Geisel. Aos poucos, por&eacute;m, surgiram oportunidades que nos aproximaram. Ele era um homem cordial, gentil, amistoso, muito tranquilo e seguro de si. Era mesmo uma &oacute;tima pessoa </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>REUNI&Otilde;ES ANUAIS DE 1975 E 1976 </i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A Reuni&atilde;o Anual de 1975 foi em Belo Horizonte. As rela&ccedil;&otilde;es entre a diretoria da SBPC e o governo federal eram tranquilas, de forma que foi poss&iacute;vel programar e organizar uma reuni&atilde;o sem grandes sobressaltos. O reitor da Universidade Federal de Minas Gerais era o m&eacute;dico Eduardo Os&oacute;rio Cisalpino, uma pessoa simp&aacute;tica e calma, nos atendeu muito bem e essa foi uma reuni&atilde;o de bastante sucesso e com poucos contratempos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Por&eacute;m, como mal terminava uma reuni&atilde;o, j&aacute; era tempo de come&ccedil;ar a pensar na seguinte, come&ccedil;amos a nos preparar para a pr&oacute;xima, e, dessa vez, havia uma certa apreens&atilde;o. A proposta era realizar a reuni&atilde;o de 1976 em Bras&iacute;lia, bem nas barbas do governo. Era um desafio. Que tipo de resposta poder&iacute;amos esperar? Isso era uma inc&oacute;gnita. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A primeira provid&ecirc;ncia foi acertar, com a reitoria da universidade, licen&ccedil;a para usar o local, obtida sem qualquer problema. A ideia de fazer essa reuni&atilde;o em Bras&iacute;lia despertava o maior interesse entre os s&oacute;cios da SBPC e os universit&aacute;rios de um modo geral, o que sugeria que seria uma reuni&atilde;o grande. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Dentro da reuni&atilde;o, com todas as sess&otilde;es de atividades cient&iacute;ficas, a que mais atra&iacute;a o p&uacute;blico naquela &eacute;poca era mesmo a Assembleia Geral, onde se discutiam os principais problemas pol&iacute;ticos. Nela, os s&oacute;cios apresentavam as famosas mo&ccedil;&otilde;es, que, em sua maioria, continham cr&iacute;ticas ou quest&otilde;es, geralmente de cunho pol&iacute;tico, dirigidas ao governo, genericamente, ou a um &oacute;rg&atilde;o espec&iacute;fico. Normalmente, eram muitas as mo&ccedil;&otilde;es e quase sempre bastante &aacute;cidas, pesadas. Por isso, cada uma delas era submetida a uma pr&eacute;-avalia&ccedil;&atilde;o, feita pela diretoria, para ser ou n&atilde;o lida e votada na Assembleia. Ningu&eacute;m queria criar uma situa&ccedil;&atilde;o que viesse a comprometer seriamente a Sociedade. Mesmo assim, com esse crivo, em geral, o teor dessas mo&ccedil;&otilde;es era bastante forte, provocativo e desafiador. Era sempre um risco consciente. Precis&aacute;vamos andar nos limites do aceit&aacute;vel e do toler&aacute;vel. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>DIGNIDADE EM P&Eacute;!</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">As assembleias eram feitas na quinta-feira, na parte da tarde, &agrave;s 14 ou &agrave;s 15 horas. Em reuni&otilde;es normais, era uma atividade bastante burocr&aacute;tica, que atra&iacute;a poucos participantes, mas, dessa vez, pressentimos que seria muito grande e, pelo n&uacute;mero de mensagens, muito longa tamb&eacute;m. O professor Sala e a diretoria, preocupados com o que estava por acontecer, resolveram tomar duas medidas: a primeira foi a de que, n&atilde;o havendo espa&ccedil;o suficiente nas depend&ecirc;ncias da universidade, o evento fosse transferido para o recinto da piscina do Est&aacute;dio Garrastazu M&eacute;dici, para as 8 horas da noite. Na entrada do recinto era feita uma triagem de s&oacute;cios e n&atilde;o s&oacute;cios, que tomavam assentos em arquibancadas diferentes. A segunda foi que apenas os s&oacute;cios teriam direito ao voto e, para isso, Sala mandou dar crach&aacute;s para que eles fossem identificados e tivessem assentos reservados. Foi uma reuni&atilde;o inesquec&iacute;vel. Posso dizer que foi muito descontra&iacute;da. Havia no ar um sentimento de vit&oacute;ria, de realiza&ccedil;&atilde;o. Hav&iacute;amos chegado at&eacute; ali, agora ir&iacute;amos dizer o que pens&aacute;vamos e sent&iacute;amos. Todas as mo&ccedil;&otilde;es selecionadas foram lidas, discutidas e votadas. Uma a uma. Quem fez a leitura de cada uma delas fui eu, como secret&aacute;rio-geral. Ao final de cada leitura, era longamente ovacionado; quanto mais provocativos os termos da mo&ccedil;&atilde;o, maiores os aplausos. Confesso que, pela primeira vez, senti o que deve ser, para um pol&iacute;tico, ser aplaudido assim em um discurso. A emo&ccedil;&atilde;o que longos aplausos podem provocar no orador &eacute; indescrit&iacute;vel. Um &oacute;pio! </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Encerramos a reuni&atilde;o por volta da madrugada e fomos a p&eacute; para o hotel, felizes. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>PASSAMOS NO TESTE</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">As nossas rela&ccedil;&otilde;es com o governo n&atilde;o afetavam, de forma alguma, a nossa independ&ecirc;ncia e a nossa liberdade. Mant&iacute;nhamos a nossa dignidade de p&eacute;. N&atilde;o quer&iacute;amos ser irresponsavelmente provocativos, mas nunca deixamos de dizer, educada e at&eacute; respeitosamente, o que era preciso dizer e expor nossos pontos de vista em defesa das liberdades democr&aacute;ticas. Creio que o governo tamb&eacute;m se sentiu bastante aliviado. &Eacute; bem poss&iacute;vel que tudo correspondesse ao que eles esperavam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Ningu&eacute;m ignorava as enormes dificuldades que o presidente Geisel enfrentava, dentro do seu pr&oacute;prio governo, com um grupo de militares mais radicais, que desafiavam as suas ordens e continuavam a permitir torturas e persegui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. Esse comportamento era, provavelmente, um resqu&iacute;cio dos ressentimentos da escolha do general Geisel para a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica. Essa resist&ecirc;ncia se manifestava em algumas partes do pa&iacute;s, tanto em S&atilde;o Paulo, quanto em estados do Nordeste. Acho que retardou bastante a abertura pol&iacute;tica que o presidente desejava. Infelizmente, os civis que eram contra o Golpe de 64 n&atilde;o davam um cr&eacute;dito de confian&ccedil;a ao presidente e parece que n&atilde;o reconheciam seu esfor&ccedil;o em conseguir subjugar os redutos reacion&aacute;rios. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Para mostrar bem que o presidente sofria uma oposi&ccedil;&atilde;o ostensiva dentro do pr&oacute;prio governo, quero lembrar que assisti, pessoalmente, a um epis&oacute;dio que julgo bastante ilustrativo. Deve ter sido no in&iacute;cio do ano de 1976. O presidente Geisel fora convidado para a inaugura&ccedil;&atilde;o de um laborat&oacute;rio de pesquisa da Escola Paulista de Medicina. O comandante da 2ª Regi&atilde;o Militar era o general Ednardo D'&Aacute;vila Mello. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Nessa inaugura&ccedil;&atilde;o, fui convidado a fazer parte da comitiva do presidente. Para isso, me encontrei com o ministro Ney Braga e outros membros do seu gabinete, e seguimos para o local do evento. Chegamos antes do presidente. O local era o pr&eacute;dio da Escola Paulista, na rua Botucatu. Entramos num p&aacute;tio onde, aos fundos, ficava uma lanchonete fechada, mas com um balc&atilde;o do lado de fora. Dirigi-me para essa parte. Ao meu lado, se encontrava nada mais nada menos do que o general Ednardo, com sua t&uacute;nica parcialmente desabotoada, o seu quepe na cabe&ccedil;a bem jogado para tr&aacute;s e os dois cotovelos apoiados no balc&atilde;o da lanchonete, bem recostado. Era s&oacute; o presidente passar no port&atilde;o de entrada para dar de cara com esse espet&aacute;culo. Fui testemunha ocular desse epis&oacute;dio, e realmente me espanta tal atitude partindo de um general. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Al&eacute;m disso, ouvi contar que, na v&eacute;spera dessa inaugura&ccedil;&atilde;o, o presidente fora homenageado pelo governador, com um jantar no Pal&aacute;cio dos Bandeirantes. Presente ao evento, o general Ednardo teria se retirado, dizendo que n&atilde;o se sentaria &agrave; mesa com comunistas. N&atilde;o sei a quem ele se referia, mas fiquei sabendo do epis&oacute;dio. O fato &eacute; que as rela&ccedil;&otilde;es entre o presidente e o comandante da 2ª Regi&atilde;o Militar estavam muito tensas em face das duas mortes recentes ocorridas no DOI-CODI, a do jornalista Wladimir Herzog, em outubro de 1975 - quando o empres&aacute;rio Jos&eacute; Mindlin era o secret&aacute;rio de Cultura de S&atilde;o Paulo - e a do metal&uacute;rgico Manuel Fiel Filho, ocorrida em janeiro de 1976. Tudo isso repercutia muito mal, manchava a imagem do governo e, seguramente, dificultava o seu desejo de apresentar uma conduta desvinculada da tortura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Sentimos que, de repente, o enfrentamento ao governo Geisel parecia aumentar e ampliar territorialmente. Assim, n&atilde;o tivemos nenhuma surpresa quando soubemos que o comando da 3º Regi&atilde;o Militar havia vetado a realiza&ccedil;&atilde;o de nossa Reuni&atilde;o Anual, programada para o Cear&aacute;. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">O ministro Ney Braga me chamou para conversar. Foi um apelo dram&aacute;tico. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">- "Por favor, transfira a data da reuni&atilde;o de julho para setembro, que n&oacute;s garantiremos a sua realiza&ccedil;&atilde;o no Cear&aacute;". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A proibi&ccedil;&atilde;o tinha incomodado demais o governo e chegado mesmo a preocupar o presidente. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">- "N&atilde;o posso mudar a data, ministro. Nossos associados n&atilde;o aceitariam essa mudan&ccedil;a".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Est&aacute;vamos todos muito revoltados e inconformados com essa intromiss&atilde;o nos neg&oacute;cios da SBPC. Muitos dos s&oacute;cios, principalmente os membros universit&aacute;rios das &aacute;reas de ci&ecirc;ncias humanas, passaram a se organizar para impedir que a SBPC recebesse verbas do governo e, consequentemente, iniciaram um movimento para arrecadar fundos para suportar a realiza&ccedil;&atilde;o da Reuni&atilde;o. &Eacute; claro que essa era uma batalha muito ingrata e com poucas chances de sucesso. Mas esse movimento, de certa forma, se contrapunha &agrave; posi&ccedil;&atilde;o da diretoria da SPBC que adotava uma atitude mais cautelosa e conciliadora, principalmente pelos relacionamentos anteriores e pelo empenho do governo em resolver o impasse, mas sem condi&ccedil;&otilde;es para tanto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Enquanto isso, a diretoria estava decidindo onde fazer a Reuni&atilde;o. Parece que a cidade que melhor poderia alojar esse evento, de improviso, era mesmo S&atilde;o Paulo. Pensamos imediatamente na USP. Fomos procurar o reitor Orlando Marques de Paiva, que, infelizmente, se negou a sediar a Reuni&atilde;o, alegando que os seus agentes de seguran&ccedil;a, subordinados indiretamente ao SNI, n&atilde;o aconselhavam realizar ali um evento de tal natureza. A nossa segunda op&ccedil;&atilde;o foi a PUC de S&atilde;o Paulo. Nossa solicita&ccedil;&atilde;o foi atendida de pronto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">S&oacute; que, antes de a reuni&atilde;o acontecer, recebi um telefonema do ministro Ney Braga, dizendo que o presidente queria falar comigo. Para isso, ele iria pedir ao professor Luiz Ferreira Martins, reitor da Unesp, para me convidar para a inaugura&ccedil;&atilde;o do campus de Rio Claro, que se daria em poucos dias. Nessa &eacute;poca, meu relacionamento com Luiz n&atilde;o era dos melhores, mas fui convidado e compareci a Rio Claro. Cheguei no final da cerim&ocirc;nia, realizada em um espa&ccedil;o muito amplo. De um lado, os convidados, o p&uacute;blico presente limitado &agrave; &aacute;rea em que se encontrava. De outro, um espa&ccedil;o vazio terminando em uma cal&ccedil;ada, para onde o presidente se encaminhava em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; sua condu&ccedil;&atilde;o, estando, &agrave; sua espera, alguns generais da sua comitiva. O ministro Ney Braga foi ao meu encontro e me conduziu at&eacute; o presidente, j&aacute; pronto para tomar o seu carro. Ficamos frente a frente. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">- "Fala para o Sala n&atilde;o permitir que a Maria, esposa do general Zerbini, se pronuncie na reuni&atilde;o".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> O general, considerado comunista e desligado das For&ccedil;as Armadas por resolu&ccedil;&atilde;o do governo, era irm&atilde;o do famoso cirurgi&atilde;o de cora&ccedil;&atilde;o Euriclydes de Jesus Zerbini. Eu n&atilde;o tinha o que responder, acho que seria in&uacute;til argumentar. Mas ele insistiu: "ela n&atilde;o &eacute; uma cientista, n&atilde;o &eacute; uma pesquisadora". Respondi que falaria sobre isso com Sala. Desejou-me boa sorte e se despediu. Esse epis&oacute;dio, t&atilde;o espec&iacute;fico e pontual, me faz pensar que o problema da senhora Maria deve ter sido objeto de discuss&atilde;o entre o presidente e alguns colegas de farda ou pessoas de certa familiaridade e com influ&ecirc;ncia no governo. Em minha opini&atilde;o, isso mostra o quanto eles estavam atentos ao que se passava na SBPC e a import&acirc;ncia que davam a tudo que l&aacute; era feito. Alguns dias mais tarde, houve uma reuni&atilde;o de todos os reitores, em Bras&iacute;lia. Estava programada uma ida ao Pal&aacute;cio, para cumprimentar o presidente. Formou-se uma fila. Quando estava chegando a minha vez, o presidente se apressou a falar comigo, me chamando pelo nome. Desejou muitas felicidades na Reuni&atilde;o. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62nspe2/a07fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Mesmo desagradando uma parte consider&aacute;vel dos s&oacute;cios, a Reuni&atilde;o Anual foi realizada na sede da PUC de S&atilde;o Paulo, com bastante sucesso e sem incidentes com a repress&atilde;o. O &uacute;nico fato grave que ocorreu foi certa campanha de alguns s&oacute;cios, pretendendo a destitui&ccedil;&atilde;o do professor Sala da presid&ecirc;ncia. Na sess&atilde;o inaugural foi lido um telegrama, vindo de Paris, mandado pelo professor Maur&iacute;cio da Rocha e Silva, que chegaria a S&atilde;o Paulo um dia mais tarde. O teor era bastante agressivo, deseducado at&eacute;, desrespeitoso para com o professor Sala, que muito trabalhou honestamente pela f&iacute;sica e pelas ci&ecirc;ncias em geral, tanto na Fapesp como na SBPC. Temos, para com ele, uma enorme d&iacute;vida de gratid&atilde;o e de reconhecimento por sua dedica&ccedil;&atilde;o ao trabalho e por seu padr&atilde;o de honestidade e moral. Pois bem, nesse telegrama era pedida a sua imediata destitui&ccedil;&atilde;o do cargo de presidente. &Eacute; claro que n&atilde;o &eacute; assim que se destitui um presidente, sem seguir o protocolo dos estatutos. Sala continuou na presid&ecirc;ncia, tendo sido reconduzido no mandato seguinte, o que significou completo reconhecimento do seu trabalho. Foi um momento de tens&atilde;o, desagrad&aacute;vel e totalmente sem sentido, superado com o apoio de seus companheiros de diretoria. Terminada a reuni&atilde;o, houve, ainda, no dia seguinte, um ataque comandado pelo secret&aacute;rio de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica do estado de S&atilde;o Paulo, o coronel Erasmo Dias, com a costumeira falta de civilidade contra os estudantes. Simplesmente lastim&aacute;vel. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>ENCERRAMENTO</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">N&atilde;o sendo eu um historiador, procurei simplesmente rememorar o que presenciei e julguei importante para retratar um momento da conduta do governo, em especial com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; abertura pol&iacute;tica, n&atilde;o reconhecida na &eacute;poca. Assim, espero que este meu relato possa lan&ccedil;ar alguma luz sobre os acontecimentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">&Eacute; certo que a SPBC passou por momentos bem dif&iacute;ceis. Muito embora contasse com o apoio do governo, teve que enfrentar press&otilde;es da ala reacion&aacute;ria desse governo que amea&ccedil;ava sempre impedir suas realiza&ccedil;&otilde;es e promover pris&otilde;es de associados. Existia um clima de inseguran&ccedil;a. &Eacute; importante destacar que, in&uacute;meras vezes, o professor Sala procurou intervir junto ao governo, pedindo a soltura de presos pol&iacute;ticos. Estou convencido de que se n&oacute;s conseguimos sair ilesos dessa situa&ccedil;&atilde;o, muito devemos &agrave; conduta equilibrada do professor Sala e ao respeito em rela&ccedil;&atilde;o ao seu nome como cidad&atilde;o e como cientista, em qualquer escal&atilde;o do governo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><i><b>Luiz Edmundo de Magalh&atilde;es</b> &eacute; professor titular de gen&eacute;tica e evolu&ccedil;&atilde;o e ex-diretor do Instituto de Bioci&ecirc;ncias da USP. Foi reitor e doutor </i>honoris <i>causa da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos (UFSCar), professor visitante do Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados da USP e da Unifesp (Escola Paulista de Medicina). </i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">*Desejo expressar meus mais profundos agradecimentos ao meu irm&atilde;o, o professor Luiz Eduardo Cerqueira Magalh&atilde;es, que se prontificou a ler e a criticar o texto; aos historiadores Carlos Guilherme Mota e Jorge Caldeira, tamb&eacute;m pela leitura cr&iacute;tica e sugest&otilde;es; &agrave;s professoras Nicia Wendel de Magalh&atilde;es, minha esposa, pela minuciosa leitura e corre&ccedil;&atilde;o do texto e Marina Wendel de Magalh&atilde;es, minha filha, pela digita&ccedil;&atilde;o e revis&atilde;o gramatical. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body>
</article>
