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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Entrevista: Shigueo Watanabe</b></font></p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b> Oscar Sala e o di&aacute;logo da ci&ecirc;ncia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Vict&oacute;ria Fl&oacute;rio</b></font> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Como definir a import&acirc;ncia de um pesquisador em meio &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio intelectual da f&iacute;sica no pa&iacute;s? Tantas foram as contribui&ccedil;&otilde;es de Oscar Sala que n&atilde;o se pode atribuir a ele um &uacute;nico papel. Ficou evidente, em particular, sua import&acirc;ncia como ex&iacute;mio coordenador de di&aacute;logos da ci&ecirc;ncia com outros setores: com a sociedade e em ambientes culturais e pol&iacute;ticos de tens&atilde;o; com a ind&uacute;stria e a tecnologia; com a forma&ccedil;&atilde;o intelectual de uma gera&ccedil;&atilde;o de cientistas. Aluno da Faculdade de Filosofia, Ci&ecirc;ncias e Letras (FCL) da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) na d&eacute;cada de 1940, Sala partilhou desse ambiente ideol&oacute;gico com f&iacute;sicos memor&aacute;veis como Marcelo Damy, C&eacute;sar Lattes e M&aacute;rio Schenberg, numa &eacute;poca em que os recursos para a pesquisa cient&iacute;fica eram escassos. A car&ecirc;ncia de programas de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o nas universidades brasileiras levou Sala a completar seus estudos nos Estados Unidos. Na Universidade de Winscosin, em 1948, projetou o Van de Graaff, primeiro gerador eletrost&aacute;tico do Brasil. Na d&eacute;cada de 1970 um acelerador eletrost&aacute;tico de part&iacute;culas trazido por ele, o Pelletron, possibilitou maior intera&ccedil;&atilde;o entre a universidade e a pesquisa com algumas ind&uacute;strias de tecnologia, criadas para atender &agrave;s necessidades desse tipo de equipamento. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Sala favoreceu outros di&aacute;logos, como o de sociedades cient&iacute;ficas - da SBPC, por exemplo - com o regime militar, com o qual assumiu uma postura imparcial em favor do desenvolvimento cient&iacute;fico. Levantou a bandeira da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp) nos anos em que atuou na diretoria cient&iacute;fica (1969-1975) e na presid&ecirc;ncia (1985-1995), flexibilizando o financiamento para pesquisas em todas as &aacute;reas do conhecimento. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Para lembrar Oscar Sala entrevistamos o professor Shigueo Watanabe, docente do Departamento de F&iacute;sica Nuclear do Instituto de F&iacute;sica da USP, com quem compartilhou, por quase setenta anos, o mesmo ambiente intelectual e acad&ecirc;mico. Para Shigueo, Sala foi uma das pessoas que possibilitou, em todos os aspectos - sejam eles pol&iacute;ticos ou de car&aacute;ter formativo -, a organiza&ccedil;&atilde;o e crescimento da ci&ecirc;ncia, primeiro no estado de S&atilde;o Paulo, depois no Brasil. Parceiros na dire&ccedil;&atilde;o do Departamento de F&iacute;sica Nuclear, Watanabe demonstra extrema admira&ccedil;&atilde;o por Sala, desde os tempos da faculdade. "Tenho grande admira&ccedil;&atilde;o por ele n&atilde;o s&oacute; pelo que ele  fez pela f&iacute;sica no Brasil - que &eacute; muito -, mas tamb&eacute;m como amigo; ele tinha um esp&iacute;rito muito bom". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62nspe2/a09fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>COMO ERA O AMBIENTE INTELECTUAL DA FACULDADE DE FILOSOFIA, CI&Ecirc;NCIAS E LETRAS (FFCL) DA USP NA &Eacute;POCA EM QUE O SENHOR E O PROFESSOR SALA CURSARAM F&Iacute;SICA?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Quando entrei na Faculdade de Filosofia &#91;na d&eacute;cada de 1940&#93;, todo processo j&aacute; estava andando. Com a cria&ccedil;&atilde;o da Faculdade de Filosofia, Ci&ecirc;ncias e Letras &#91;em 1934, junto com a USP&#93; come&ccedil;aram as primeiras pesquisas cient&iacute;ficas no estado de S&atilde;o Paulo e no Brasil. Isso aconteceu porque o governador, naquela &eacute;poca, era Armando Sales Oliveira (gest&atilde;o 1933-1936), que tinha vis&atilde;o. Aconselhado por v&aacute;rios professores resolveu trazer cientistas j&aacute; formados e renomados da Europa, para a FFCL. Na &aacute;rea de f&iacute;sica vieram Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Os primeiros f&iacute;sicos &#91;da faculdade&#93; foram Marcelo Damy de Sousa Santos, Paulo Pomp&eacute;ia, Abra&atilde;o de Moraes e M&aacute;rio Schenberg. Ele &#91;Schenberg&#93; foi um dos primeiros que, com a chegada do Wataghin, come&ccedil;ou a fazer trabalhos cient&iacute;ficos, principalmente na &aacute;rea experimental. A &aacute;rea te&oacute;rica s&oacute; come&ccedil;ou depois. O principal trabalho naquela &eacute;poca era o estudo de raios c&oacute;smicos que foi para Campinas (SP), para a Unicamp &#91;Universidade Estadual de Campinas&#93;, quando o Wataghin se mudou para l&aacute;. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>EM QUE ASPECTOS A GERA&Ccedil;&Atilde;O FORMADA POR F&Iacute;SICOS COMO OSCAR SALA &Eacute; DIFERENTE DA ATUAL?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Em primeiro lugar, mec&acirc;nica qu&acirc;ntica quase n&atilde;o existia aqui &#91;no Brasil&#93;. O professor Wataghin contava hist&oacute;rias do Yukawa, Dirac, Heisenberg (1) etc, mas nunca deu formalmente mec&acirc;nica qu&acirc;ntica. Eu s&oacute; aprendi qu&acirc;ntica quando fui fazer p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Princeton &#91;EUA&#93;. O curso acad&ecirc;mico tinha f&iacute;sica introdut&oacute;ria, f&iacute;sica geral, mec&acirc;nica cl&aacute;ssica, mec&acirc;nica anal&iacute;tica que era muito desenvolvida, mec&acirc;nica racional, f&iacute;sica te&oacute;rica (onde aprend&iacute;amos muito sobre circuitos) e introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; f&iacute;sica dos materiais. A parte mais moderna n&atilde;o aprend&iacute;amos. Naquela &eacute;poca, &#91;a mec&acirc;nica qu&acirc;ntica&#93; ainda estava em desenvolvimento. Nos outros pa&iacute;ses j&aacute; tinha f&iacute;sica nuclear etc, mas, aqui n&atilde;o. No Brasil ela s&oacute; come&ccedil;ou a ser introduzida depois de 1946. Ent&atilde;o a gente aprendia coisa b&aacute;sica. O resto t&iacute;nhamos que lutar, ler artigos, alguns livros que chegavam aqui e fazer o trabalho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> Naquela &eacute;poca entravam 5 ou 6 alunos - e metade reprovava. A minha turma era maior: havia 13 no come&ccedil;o; 5 ou 6 passaram para o segundo ano e 4 se formaram. Hoje entram cento e tantos de dia e cento e trinta de noite, se bem que se formam 25 de dia e 25 no curso noturno. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>POR QUE A F&Iacute;SICA NUCLEAR ATRA&Iacute;A PESQUISADORES?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Durante sete ou oito anos, &#91;a USP fez pesquisa&#93; em f&iacute;sica de raios c&oacute;smicos, que era a coqueluche da &eacute;poca. N&atilde;o t&iacute;nhamos acelerador &#91;de part&iacute;culas&#93;, e part&iacute;culas de grandes energias chegavam aceleradas do c&eacute;u, ent&atilde;o aproveitou-se isso para fazer pesquisa. Quando o professor Wataghin chegou &#91;ao Brasil&#93; deve ter dito: "Olha, em f&iacute;sica precisamos disso, daquilo etc". Uns quatro ou cinco anos depois vieram os primeiros estudantes. O &#91;C&eacute;sar&#93; Lattes, inclusive, tinha o laborat&oacute;rio dele no por&atilde;o. Eu ia l&aacute; e, como era estudante, ficava vendo. Ele era extraordinariamente inteligente; ent&atilde;o, no segundo ou terceiro ano &#91;de faculdade&#93;, j&aacute; fazia experi&ecirc;ncia com raios c&oacute;smicos. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A gente s&oacute; sabia sobre raios c&oacute;smicos. O professor Wataghin, que veio da Europa e j&aacute; sabia f&iacute;sica nuclear, disse que o futuro do Brasil poderia ser nessa &aacute;rea. A f&iacute;sica de materiais veio bem depois. Todo mundo pensava em raios c&oacute;smicos ou em f&iacute;sica nuclear. Mesmo no exterior poucos lugares tinham aceleradores, porque eles s&atilde;o muito caros. Quem incentivou o professor Sala a entrar na parte de aceleradores foi o Wataghin. Com esse est&iacute;mulo, resolveram comprar o Van de Graaff e montaram aqui na USP. Nessa &eacute;poca, o Marcelo Damy - que tamb&eacute;m era um diplomata de primeira linha - conseguiu a doa&ccedil;&atilde;o de um acelerador chamado B&eacute;tatron, da Universidade de Illinois (EUA). No meu tempo, o professor Wataghin j&aacute; fazia f&iacute;sica nuclear com o B&eacute;tatron, que n&atilde;o existe mais, ficou obsoleto com o tempo. Nosso acelerador grande era apenas um est&aacute;gio de um grande acelerador do exterior. Por exemplo, o Pelletron, que hoje &eacute; um brinquedo, quando comparado a um acelerador no exterior, era o maior acelerador do Brasil. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>E QUANTO &Agrave; EXPEDI&Ccedil;&Atilde;O COMPTON, QUE VEIO AO BRASIL PARA MEDIR RAIOS C&Oacute;SMICOS (2)?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">O professor Wataghin come&ccedil;ou a formar um grupo e decidiu fazer trabalho em Campos do Jord&atilde;o (SP). Um dia, ele resolveu fazer estudo de raios c&oacute;smicos soltando bal&otilde;es que podem chegar a 5 mil metros de altitude, l&aacute; em Bauru (SP). Tinha um estudante muito interessado em f&iacute;sica, chamado Oscar Sala, que ficou assistindo &agrave;quilo. Ele ficou muito interessado e acabou entrando nessa &aacute;rea. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>O QUE SIGNIFICOU A CONSTRU&Ccedil;&Atilde;O DO ACELERADOR VAN DE GRAAFF NA USP, EM 1948, PARA OS PESQUISADORES E PARA A IND&Uacute;STRIA?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Em 1940, na FFCL j&aacute; se falava em Van de Graaff, e estava sendo montando em 1948. O B&eacute;tatron j&aacute; estava funcionando. Somente coisas muito simples eram produzidas aqui; o grosso era importado. Tinha que montar, soldar, colocar um circuito el&eacute;trico. Levou acho que 3 ou 4 anos para que  o Van de Graaff realmente come&ccedil;asse a funcionar. Quem tinha tend&ecirc;ncia a ser experimental veio para c&aacute;. Por exemplo, Ernest Hamburguer e v&aacute;rios outros ajudaram na montagem. Eu era f&iacute;sico te&oacute;rico e praticamente n&atilde;o fiz parte disso. &#91;O Van de Graaff&#93; n&atilde;o atraiu muitos pesquisadores. O Brasil todo tinha 30 f&iacute;sicos entre S&atilde;o Paulo, Rio, um pouco em Minas e Rio Grande do Sul. No Norte e Nordeste n&atilde;o tinha nada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> J&aacute; nessa &eacute;poca a ind&uacute;stria tinha bastante participa&ccedil;&atilde;o, porque muitas pe&ccedil;as foram feitas e compradas aqui, mas, na &eacute;poca do Van de Graaff, o grosso foi comprado de fora, porque a ind&uacute;stria aqui era extremamente rudimentar. Depois, com o Pelletron, o que eles precisavam tinha que buscar na ind&uacute;stria. O que a ind&uacute;stria n&atilde;o tinha, criava-se coragem e fazia-se; assim a ind&uacute;stria se desenvolvia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Depois de algum tempo, Sala percebeu que o Van de Graaff j&aacute; era um aparelho obsoleto. Ele tinha contato com a universidade de Winscosin e l&aacute; eles j&aacute; estavam trabalhando com o Pelletron. Assim, ele entrou na &aacute;rea do Pelletron e, quando esse come&ccedil;ou a ficar ultrapassado, come&ccedil;ou o Linac &#91;Acelerador Linear&#93;, que n&atilde;o chegou a ser completado. Ele sempre teve vis&atilde;o. Era uma pessoa que enxergava longe e fazia coisas novas aqui no Brasil. Se tinha alguma coisa em f&iacute;sica nuclear que est&aacute;vamos fazendo, era por causa do Oscar Sala. Ele tinha essa capacidade que pouca gente tem. Ele e Damy conseguiam trazer dinheiro, aux&iacute;lio de fora para montar esses aparelhos. Quando Sala ficou doente esse trabalho praticamente paralisou. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>A FAPESP, CRIADA EM 1960, TEVE O PROFESSOR SALA NA DIRETORIA CIENT&Iacute;FICA (1969-1975) E NA PRESID&Ecirc;NCIA (1985-1995). QUAIS AS MAIORES REALIZA&Ccedil;&Otilde;ES DE SALA NA FAPESP?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">O professor Sala, Jos&eacute; Reis, o professor Pavan e o S&eacute;rgio Mascarenhas se movimentaram bastante para criar entidades como a Fapesp e a SBPC. A cria&ccedil;&atilde;o da Fapesp foi fundamental para o desenvolvimento da ci&ecirc;ncia e tecnologia em S&atilde;o Paulo e no Brasil, porque, com o tempo, o que se desenvolveu aqui foi se espalhando para outros estados. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>O PROFESSOR SALA ASSUMIU ALGUMA POSTURA POL&Iacute;TICA, SOBRETUDO DURANTE O GOVERNO MILITAR?</i></b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Sala n&atilde;o era a favor dos militares, mas n&atilde;o os antagonizou diretamente. Sempre contornou e foi levando a ci&ecirc;ncia pra frente. Ele teve esse m&eacute;rito. &Eacute; bonito, pitoresco, ver uma pessoa brigar com militares, mas se todo mundo brigar acaba a consci&ecirc;ncia no pa&iacute;s. Algu&eacute;m tinha que segurar as pontas. Havia gente como Oscar Sala, Pavan e S&eacute;rgio Mascarenhas que foram contornando as coisas e mantiveram o andamento da ci&ecirc;ncia no pa&iacute;s. Mesmo porque quem foi para fora &#91;do pa&iacute;s, em ex&iacute;lio&#93; ficou por um bom tempo. E quando voltaram encontraram a ci&ecirc;ncia avan&ccedil;ada - por causa dessas pessoas que conseguiram segurar a barra e mantiveram a ci&ecirc;ncia em andamento. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>A GERA&Ccedil;&Atilde;O DE F&Iacute;SICOS DA QUAL VOC&Ecirc;S FAZEM PARTE ERA MAIS POLITIZADA QUE A ATUAL? O MODO DE FAZER CI&Ecirc;NCIA MUDOU?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">S&atilde;o politizados de uma maneira diferente. Naquela &eacute;poca era uma circunst&acirc;ncia que n&atilde;o se podia evitar. Militares, de repente, tomam conta do pa&iacute;s e se d&aacute; um confronto direto. Aqueles que tinham a tend&ecirc;ncia marxista muito forte tiveram que sair. A ci&ecirc;ncia daquela &eacute;poca era muito mais dif&iacute;cil, porque a gente dependia muito do que vinha de fora. Essa &eacute; a raz&atilde;o pela qual acabei deixando a f&iacute;sica nuclear. Os f&iacute;sicos te&oacute;ricos tinham que esperar os resultados de fora, mas, quando eles vinham para c&aacute;, eram sobra. A melhor parte, mais interessante, j&aacute; tinha sido feita no exterior. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b><i>QUAL A CARACTER&Iacute;STICA MAIS MARCANTE DO PROFESSOR SALA?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Ele era um formador: de laborat&oacute;rios, de pessoas, estava l&aacute; na cria&ccedil;&atilde;o da SBPC, da Fapesp etc. Qualquer novidade na f&iacute;sica nuclear ele trazia para c&aacute; e os estudantes faziam as coisas. Por isso, sa&iacute;ram daqui muitos trabalhos importantes. Essa caracter&iacute;stica de lideran&ccedil;a era do Oscar Sala e tamb&eacute;m do Marcelo Damy. Este instituto teve sorte porque teve Sala e Damy e, na parte te&oacute;rica, M&aacute;rio Schenberg.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> S&atilde;o raras as pessoas como eles, que idealizavam as coisas na &eacute;poca certa, tinham coragem, falavam com o governo, traziam dinheiro e faziam a ci&ecirc;ncia andar. Quando ele via algum estudante bem interessado dava apoio. Eu, particularmente, devo muito a ele pela minha posi&ccedil;&atilde;o aqui no instituto. Ele foi 16 anos chefe de departamento e eu 8 anos. Naquela &eacute;poca s&oacute; eu e ele &eacute;ramos titulares. Durante vinte e tantos anos tocamos a f&iacute;sica nuclear dessa maneira. Tenho grande admira&ccedil;&atilde;o por ele n&atilde;o s&oacute; pelo que ele fez pela f&iacute;sica no Brasil, que &eacute; muito, mas tamb&eacute;m como amigo, ele tinha um esp&iacute;rito muito bom. Ele deixou um legado extremamente grande no desenvolvimento da f&iacute;sica nuclear no Brasil. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v62nspe2/a09fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>NOTAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">1. O japon&ecirc;s Hideki Yukawa (1907-1981), o alem&atilde;o Werner Heisenberg (1901-1976) e o ingl&ecirc;s Paul Dirac (1902-1984) estavam entre os f&iacute;sicos respons&aacute;veis pela estrutura&ccedil;&atilde;o da f&iacute;sica qu&acirc;ntica. Heisenberg trabalhou junto com Niels Bohr (1885-1962) nos fundamentos te&oacute;ricos da mec&acirc;nica qu&acirc;ntica; ele &eacute; mais conhecido pelo seu famoso princ&iacute;pio da incerteza. Dirac, por sua vez, deu in&iacute;cio ao desenvolvimento da eletrodin&acirc;mica qu&acirc;ntica. J&aacute; Yukawa previu a exist&ecirc;ncia dos m&eacute;sons, dando as primeiras contribui&ccedil;&otilde;es &agrave; f&iacute;sica de part&iacute;culas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">2. Trata-se da expedi&ccedil;&atilde;o ao Brasil organizada, nos anos 1940, por Arthur Compton (1892-1962) e outros f&iacute;sicos europeus, para medir raios c&oacute;smicos no hemisf&eacute;rio sul, utilizando bal&otilde;es atmosf&eacute;ricos de grande altitude. Ela teve participa&ccedil;&atilde;o dos f&iacute;sicos da FFCL, em particular de Gleb Wataghin. </font></p>      ]]></body>
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