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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/not_brasil.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>DESASTRES NATURAIS</b></font></P>     <P><img src="/img/revistas/cic/v63n1/linha.jpg"></P>     <P><font size="4"><b>Um planeta que parece cada vez mais inquieto</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Em agosto de 2010 o vulc&atilde;o Sinabung, na ilha indonesiana de Sumatra, entrou em erup&ccedil;&atilde;o e retirou pelo menos 18 mil moradores da regi&atilde;o. Um m&ecirc;s depois, no Paquist&atilde;o, chuvas torrenciais causaram o pior desastre natural da hist&oacute;ria do pa&iacute;s, matando mais de 1.500 pessoas e deixando mais de seis milh&otilde;es de desabrigados, causando bilh&otilde;es de d&oacute;lares de danos &agrave; infraestrutura e &agrave; agricultura.</font></P>     <P><font size="3">Eventos como vulc&otilde;es e inunda&ccedil;&otilde;es s&atilde;o fen&ocirc;menos da natureza e s&atilde;o considerados desastres naturais quando atingem um sistema social, causando danos e preju&iacute;zos que excedam a capacidade dos afetados de conviver com o impacto. Um desastre natural, al&eacute;m de causar a perda de vidas humanas, traz preju&iacute;zos materiais, econ&ocirc;micos e ambientais e provoca graves interrup&ccedil;&otilde;es do funcionamento de uma comunidade ou de uma sociedade. </font></P>     <P><font size="3">S&atilde;o fen&ocirc;menos que podem ocorrer em qualquer regi&atilde;o do nosso planeta variando de intensidade e gravidade, dependendo de elementos pr&oacute;prios da din&acirc;mica da natureza e das interven&ccedil;&otilde;es humanas. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a04img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>PERIGOS IGUAIS, RISCOS DIFERENTES </b>Matthew Kahn, no artigo <i>The death roll from natural disasters: the role of income, geography, and institutions</i> (Universidade Tufts e Universidade Stanford, 2003), analisou grandes desastres naturais ocorridos em 73 pa&iacute;ses (pobres, m&eacute;dios e ricos), entre 1980 e 2002, e concluiu que os mesmos se distribu&iacute;ram equitativamente, mas afetaram as popula&ccedil;&otilde;es de forma diferente. Por exemplo, no per&iacute;odo estudado, a &Iacute;ndia teve 14 grandes terremotos, nos quais morreram 32.117 pessoas, enquanto que nos Estados Unidos ocorreram 18 grandes terremotos, que causaram 143 mortes.</font></P>     <P><font size="3"> Alguns fen&ocirc;menos, como movimentos de placas tect&ocirc;nicas que causam os terremotos, possuem grande aleatoriedade, mas ocorrem principalmente em &aacute;reas situadas em bordas de placas; outros, como secas e inunda&ccedil;&otilde;es, podem ser previstos com alguma anteced&ecirc;ncia, a partir de modelos clim&aacute;ticos cada vez mais sofisticados. </font></P>     <P><font size="3">Se uma regi&atilde;o est&aacute; sujeita a terremotos, ciclones ou chuvas muito intensas, por exemplo, sua popula&ccedil;&atilde;o estar&aacute; mais exposta a perigos, por&eacute;m, o risco n&atilde;o ser&aacute; o mesmo para todos. </font></P>     <P><font size="3">O relat&oacute;rio "Reduzindo o risco de desastres: um desafio para o desenvolvimento", do Programa das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), define que o risco &eacute; a probabilidade de perda esperada para uma &aacute;rea habitada em um determinado tempo, devido &agrave; presen&ccedil;a iminente de um perigo. Elaborado por especialistas de todo o mundo, o documento aponta que, no per&iacute;odo de 1980 a 2000, quase 75% da popula&ccedil;&atilde;o mundial vivia em regi&otilde;es onde ocorreu pelo menos uma vez um fen&ocirc;meno como terremoto, ciclone tropical, inunda&ccedil;&atilde;o ou seca. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a04img02.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Esses eventos causaram a morte de mais de 1,5 milh&atilde;o de pessoas. A vulnerabilidade de uma popula&ccedil;&atilde;o ante um desastre natural reflete condi&ccedil;&otilde;es sociais, econ&ocirc;micas e geogr&aacute;ficas, que afetam a capacidade dessa popula&ccedil;&atilde;o para responder ao risco. Como o conceito de desastre natural est&aacute; vinculado aos preju&iacute;zos por ele causado, o impacto depende da capacidade da comunidade de suportar ou superar os danos. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Assim, quanto mais pobre a popula&ccedil;&atilde;o, mais ela sofre com os desastres naturais. Isso explicaria porque n&atilde;o existe uma rela&ccedil;&atilde;o direta entre n&uacute;mero de desastres naturais e n&uacute;mero de pessoas mortas ou afetadas pelos eventos. </font></P>     <P><font size="3"><b>PERCEP&Ccedil;&Atilde;O DO PERIGO </b>Concentra&ccedil;&atilde;o de renda, baixa escolaridade, acesso prec&aacute;rio a informa&ccedil;&otilde;es sobre os riscos, falta de organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dos segmentos desfavorecidos da sociedade, aus&ecirc;ncia de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas eficientes que permitam a defini&ccedil;&atilde;o e implanta&ccedil;&atilde;o de ordenamentos no uso de terras urbanas e rurais s&atilde;o alguns dos muitos fatores que contribuem para uma exposi&ccedil;&atilde;o maior de popula&ccedil;&otilde;es pobres a poss&iacute;veis desastres naturais. Mas isso n&atilde;o significa que n&atilde;o exista percep&ccedil;&atilde;o do perigo, nem tampouco que apenas fatores sociais e econ&ocirc;micos condicionam a perman&ecirc;ncia de popula&ccedil;&otilde;es em &aacute;reas de risco.</font></P>     <P><font size="3"> Rafaela Vieira, arquiteta e professora da Universidade do Vale do Itaja&iacute; (Univale) e da Funda&ccedil;&atilde;o Universidade Regional de Blumenau (Furb), entrevistou moradores de uma &aacute;rea com grande incid&ecirc;ncia de deslizamento, localizada pr&oacute;xima ao centro de Blumenau (SC), cidade onde predomina um relevo acidentado e que tem apresentado um forte crescimento populacional, com a ocupa&ccedil;&atilde;o das encostas geralmente associada &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas de exclus&atilde;o social. Ela verificou que todos sabiam do perigo de viver em &aacute;reas &iacute;ngremes e que um deslizamento de encostas pode causar destrui&ccedil;&atilde;o e mortes, "mas a maioria n&atilde;o reconhecia o pr&oacute;prio risco a que estava exposto". </font></P>     <P><font size="3">Na pesquisa, que integrou seu doutorado em geografia defendido na Universidade de Santa Catarina (UFSC), a arquiteta trabalhou com conceitos propostos por Ian Burton, Robert W. Kates e Gilbert F. White, organizados no livro <i>The environment as hazard</i> (1993), no qual afirmam, a partir de estudos em 18 pa&iacute;ses, que a percep&ccedil;&atilde;o do perigo se d&aacute; de diferentes formas e influi na maneira como as pessoas enfrentam os problemas, como habitam o lugar e como se relacionam entre si (indiv&iacute;duos e coletividade) e com o ambiente (indiv&iacute;duos e coletividade com o ambiente). Esses autores consideram que existem quatro est&aacute;gios na percep&ccedil;&atilde;o &#151; absor&ccedil;&atilde;o, aceita&ccedil;&atilde;o, redu&ccedil;&atilde;o das perdas e mudan&ccedil;as de uso e de localiza&ccedil;&atilde;o &#151; separados por tr&ecirc;s limiares &#151; conhecimento, a&ccedil;&atilde;o e toler&acirc;ncia. Em sua pesquisa, Rafaela constatou que os moradores da &aacute;rea estudada afirmavam que o deslizamento n&atilde;o aconteceria onde moram, apesar da grande maioria ser residente em &aacute;reas de suscetibilidade a deslizamentos: "de fato, quando mais pr&oacute;ximos se encontravam do risco, maior era a nega&ccedil;&atilde;o desse risco". Segundo a professora, "quanto menor a renda, mais rapidamente as pessoas que vivem em uma &aacute;rea de risco atingem o limiar do conhecimento; mas para chegar &agrave; a&ccedil;&atilde;o, outros fatores interferem fortemente como os la&ccedil;os afetivos ao lugar". Rafaela confirmou o que Burton e seus colaboradores j&aacute; haviam apontado: "h&aacute; uma incapacidade humana para imaginar um desastre natural em um meio ambiente familiar".</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="right"><font size="3"><i>Leonor Assad</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a04img03.jpg"></P>      ]]></body>
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