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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/not_brasil.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">SA&Uacute;DE</font></P>     <P><img src="/img/revistas/cic/v63n1/linha.jpg"></P>     <P><font size="4"><b>Controv&eacute;rsias na medicina: como fica o paciente?</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Assuntos relacionados &agrave; sa&uacute;de s&atilde;o de grande interesse p&uacute;blico e por isso recebem um espa&ccedil;o consider&aacute;vel na m&iacute;dia. Doen&ccedil;as que afetam um grande n&uacute;mero de pessoas e que ainda n&atilde;o possuem a cura, como no caso do c&acirc;ncer, ou doen&ccedil;as que se tornam um problema para a sociedade e o indiv&iacute;duo, como obesidade, geralmente recebem uma aten&ccedil;&atilde;o maior. Tamb&eacute;m na comunidade m&eacute;dica existe um constante debate sobre tais temas, e nem sempre um consenso &eacute; alcan&ccedil;ado. "A medicina &eacute; a ci&ecirc;ncia das verdades tempor&aacute;rias", diz o m&eacute;dico Thomas Szego, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bari&aacute;trica e Metab&oacute;lica (SBCBM). Controv&eacute;rsias surgem a partir das diferentes opini&otilde;es m&eacute;dicas diante de uma mesma doen&ccedil;a e das diferentes possibilidades de tratamento dispon&iacute;veis. E essas discuss&otilde;es muitas vezes atingem o paciente, gerando d&uacute;vidas e inseguran&ccedil;a. </font></P>     <P><font size="3">"Existem diversas maneiras de abordar uma doen&ccedil;a e n&atilde;o d&aacute; para dizer se uma est&aacute; certa e outra est&aacute; errada. Na verdade, para cada situa&ccedil;&atilde;o, pode haver mais de uma maneira de agir", diz Jos&eacute; Get&uacute;lio Martins Segalla, m&eacute;dico e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Oncologia Cir&uacute;rgica, referindo&#45;se ao c&acirc;ncer, uma das doen&ccedil;as mais estudadas e debatidas atualmente, tanto no ambiente m&eacute;dico profissional, quanto no dia&#45;a&#45;dia das pessoas leigas. Al&eacute;m da alta incid&ecirc;ncia na popula&ccedil;&atilde;o e da gravidade da maioria dos tipos de c&acirc;ncer existentes, as sucessivas descobertas na &aacute;rea da oncologia, ora complementares ora contradit&oacute;rias, mant&ecirc;m o assunto em destaque nas editorias de sa&uacute;de dos mais diversos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <P><font size="3">A cada novo resultado divulgado, uma nova abordagem &eacute; colocada em pr&aacute;tica. Um exemplo s&atilde;o as controv&eacute;rsias em torno do c&acirc;ncer de pr&oacute;stata. Enquanto alguns m&eacute;dicos indicam que a alimenta&ccedil;&atilde;o pode influenciar no risco do desenvolvimento deste tipo de c&acirc;ncer, outros dizem que os resultados de estudos nesse sentido n&atilde;o s&atilde;o conclusivos. Da mesma forma, orienta&ccedil;&otilde;es para pr&aacute;ticas preventivas tamb&eacute;m variam, podendo ser indicada a realiza&ccedil;&atilde;o anual do exame de toque para homens acima de 50 anos, enquanto outros m&eacute;dicos sugerem que a idade para o in&iacute;cio da realiza&ccedil;&atilde;o do exame seja 45 anos, aliado &agrave; dosagem de PSA (uma prote&iacute;na chamada Ant&iacute;geno Prost&aacute;tico Espec&iacute;fico, cujo aumento da taxa no sangue pode indicar a presen&ccedil;a de c&acirc;ncer de pr&oacute;stata). </font></P>     <P><font size="3"><b>DIFERENTES ABORDAGENS </b>A medicina, como qualquer outra &aacute;rea da ci&ecirc;ncia, est&aacute; sujeita a mudan&ccedil;as de paradigmas, que refletem tanto na metodologia das ci&ecirc;ncias biom&eacute;dicas, quanto nas interven&ccedil;&otilde;es e tecnologias adotadas. E o processo de transi&ccedil;&atilde;o entre um paradigma e outro pode ser lento, de forma que diferentes abordagens para um mesmo problema possam ser aceitas e indicadas por segmentos da comunidade m&eacute;dica. "Geralmente h&aacute; uma diretriz recomendada, que pode ser utilizada por v&aacute;rias especialidades m&eacute;dicas, mas os casos mais complexos devem ser tratados pelo especialista", afirma Cristiane Martins Moulin, m&eacute;dica endocrinologista colaboradora do Grupo de Obesidade e S&iacute;ndrome Metab&oacute;lica do Hospital das Cl&iacute;nicas da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Apesar de existirem protocolos de procedimentos m&eacute;dicos, o paciente que procura um tratamento para determinada enfermidade pode encontrar diferentes tratamentos, dependendo do especialidade ou opini&atilde;o pessoal do profissional. </font></P>     <P><font size="3">No caso da obesidade, especialidade de Cristiane, o tratamento geralmente inclui aconselhamento, restri&ccedil;&atilde;o cal&oacute;rica, terapia comportamental e atividade f&iacute;sica. "O especialista em obesidade &eacute; o endocrinologista, mas h&aacute; a necessidade de uma equipe multidisciplinar, cada um com seu papel", diz. A escolha do tratamento, segundo a especialista, &eacute; baseada no &iacute;ndice de massa corp&oacute;rea (IMC) do paciente, somado &agrave; presen&ccedil;a de condi&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas relacionadas &agrave; obesidade, tais como diabetes e hipertens&atilde;o arterial, por exemplo. Dessa forma, e dependendo da resposta do paciente &agrave; abordagem inicial, opta&#45;se pelo tratamento medicamentoso ou por interven&ccedil;&atilde;o cir&uacute;rgica. </font></P>     <P><font size="3">"A cirurgia bari&aacute;trica &eacute; atualmente a &uacute;nica terapia efetiva para obesidade grave (tamb&eacute;m chamada de obesidade m&oacute;rbida) tendo benef&iacute;cio comprovado na melhora das comorbidades e da qualidade de vida", afirma Cristiane Moulin. Diversos fatores s&atilde;o considerados pelos especialistas para que se decida por um procedimento cir&uacute;rgico, independentemente da t&eacute;cnica a ser utilizada. No entanto, a gravidade de cada fator depende da an&aacute;lise de especialistas em diferentes &aacute;reas, que podem ter opini&otilde;es conflitantes, e a decis&atilde;o fica a cargo de outro profissional ainda, o cirurgi&atilde;o. "Cada m&eacute;dico deve reconhecer sua limita&ccedil;&atilde;o em conseguir tratar a doen&ccedil;a &#91;obesidade&#93; e suas repercuss&otilde;es; mas, isto depende da experi&ecirc;ncia de cada um", enfatiza Cristiane. E, exatamente devido &agrave;s diferen&ccedil;as entre os m&eacute;dicos, &agrave; segmenta&ccedil;&atilde;o da medicina e ao car&aacute;ter subjetivo da decis&atilde;o de cada especialista, que cirurgias bari&aacute;tricas s&atilde;o realizadas tanto em casos de obesidade m&oacute;rbida quanto por motivos est&eacute;ticos. </font></P>     <P><font size="3"><b>SUPERESPECIALIZA&Ccedil;&Atilde;O</b> "Todo o ensino da medicina foi baseado no modelo cartesiano. A gente retalhou o paciente inteirinho para criar grandes especialistas", diz Dalva Matsumoto, coordenadora do Programa de Humaniza&ccedil;&atilde;o do Hospital do Servidor P&uacute;blico Municipal de S&atilde;o Paulo (HSPM&#45;SP). As &aacute;reas terap&ecirc;uticas e de diagn&oacute;stico de doen&ccedil;as como conhecemos hoje sofreram mudan&ccedil;as ao longo dos s&eacute;culos, conforme as formas de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento m&eacute;dico foram se modificando. Segundo Fl&aacute;vio Coelho Edler, historiador da &aacute;rea m&eacute;dica e pesquisador da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz, "no s&eacute;culo XVIII, o diagn&oacute;stico era constru&iacute;do de uma forma muito &iacute;ntima entre o m&eacute;dico e o paciente. &#91;...&#93; A concep&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica da doen&ccedil;a, ou seja, a doen&ccedil;a como um ser, como tendo uma exist&ecirc;ncia independente do indiv&iacute;duo, &eacute; muito recente e se d&aacute; a partir do s&eacute;culo XIX", comenta. Dessa forma, hoje se fala da gripe, do c&acirc;ncer e de outras doen&ccedil;as, com se estas existissem de forma isolada do paciente. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v63n1/a05img01.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Al&eacute;m disso, o paciente de hoje apresenta uma postura mais ativa, devido ao f&aacute;cil acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e ao grande volume de materiais sobre sa&uacute;de dispon&iacute;veis em diversos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o, "Apesar de o paciente ter alguma informa&ccedil;&atilde;o, existe uma expectativa do encontro &#91;com o m&eacute;dico&#93;", argumenta. E nem sempre essa expectativa se cumpre, por diversos motivos, desde a falta de preparo de alguns m&eacute;dicos, ou pouco tempo dispon&iacute;vel para uma consulta mais abrangente. Outro motivo de conflito entre m&eacute;dico e paciente, derivado da soma da ultra&#45;especializa&ccedil;&atilde;o nas ci&ecirc;ncias m&eacute;dicas com a bagagem de informa&ccedil;&otilde;es (mesmo que superficiais) que o paciente traz para a consulta, s&atilde;o as diferentes interven&ccedil;&otilde;es apontadas, para um mesmo diagn&oacute;stico, por especialistas em &aacute;reas distintas. </font></P>     <P><font size="3">Um cardiologista que se depara, por exemplo, com um entupimento de veias, pode optar por implantar uma ponte de safena ou colocar um stent, dependendo do caso, com igual efici&ecirc;ncia para o paciente. Um angiologista apresentar&aacute; argumentos para defender o stent, uma vez que ele os conhece muito bem, por ser a sua especialidade. J&aacute; o cirurgi&atilde;o, que opera h&aacute; anos e conhece a efici&ecirc;ncia da ponte de safena nos seus pacientes, optaria por esta interven&ccedil;&atilde;o, baseado em argumentos t&atilde;o convincentes quanto os do outro especialista. </font></P>     <P><font size="3"><b>NOVOS SUJEITOS</b> "O ser humano foi reduzido ao aspecto biol&oacute;gico, passamos a ser um todo organizado de c&eacute;lulas", reflete Dario Pasche, coordenador da Pol&iacute;tica Nacional de Humaniza&ccedil;&atilde;o (PNH), do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de. Em sua opini&atilde;o, as rela&ccedil;&otilde;es entrem&eacute;dicosepacientes,bemcomo entre profissionais da sa&uacute;de de uma forma geral, &eacute; fundamental para um cuidado eficaz, motivo pelo qual a preocupa&ccedil;&atilde;o com a humaniza&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea da sa&uacute;de tem ganho destaque. Para Pasche, &eacute; fundamental resgatar as dimens&otilde;es subjetivas e sociais das rela&ccedil;&otilde;es entre profissionais da sa&uacute;de eentreesteseospacientes,queforam sendo esquecidas, e recompor a integridade do sujeito. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P align="right"><font size="3"><i>Ana Paula Morales</i></font></P>      ]]></body>
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